{"id":16990,"date":"2014-08-22T05:00:21","date_gmt":"2014-08-22T08:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=16990"},"modified":"2014-08-22T05:00:21","modified_gmt":"2014-08-22T08:00:21","slug":"shakespeare-450-anos-de-reinvencao-do-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/shakespeare-450-anos-de-reinvencao-do-humano\/","title":{"rendered":"Shakespeare, 450 anos de reinven\u00e7\u00e3o do humano"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Por Enio Squeff<\/span><br \/>\nGoethe tinha uma opini\u00e3o muito al\u00e9m de lisonjeira sobre o &#8220;Dom Quixote&#8221;, de Cervantes; do alto de sua ineg\u00e1vel autoridade estimava que se, por ventura, ou quem sabe, por desgra\u00e7a, toda a literatura ocidental desaparecesse, mas s\u00f3 restasse a obra do espanhol, ent\u00e3o, toda a literatura do Ocidente, &#8220;estaria salva&#8221;.<br \/>\nTalvez exclu\u00edsse desta considera\u00e7\u00e3o William Shakespeare, cujos 450 anos de nascimento s\u00e3o comemorados em 2014. Goethe viveu o bastante e produziu o suficiente para os tempos de romantismo, de que ele tamb\u00e9m foi participante &#8211; mas muito dificilmente os mais jovens artistas de seu tempo, como Hector Berlioz (m\u00fasico) e Eug\u00e8ne Delacroix (pintor), para citar apenas dois franceses, do s\u00e9culo XIX, negariam ao ingl\u00eas uma parte essencial, n\u00e3o apenas na literatura, mas no pensamento do Ocidente.<br \/>\nInstada certa vez a comparar o dramaturgo portugu\u00eas quinhentista, Gil Vicente, com Shakespeare, a professora e cr\u00edtica brasileira B\u00e1rbara Heliodora &#8211; maior autoridade talvez na obra do dramaturgo e poeta brit\u00e2nico &#8211; negou-se a entrar nesse tipo de cotejo: &#8220;Shakespeare &#8211; disse &#8211; n\u00e3o \u00e9 um autor a mais, \u00e9 uma categoria&#8221;.<br \/>\nDe fato, o romantismo &#8211; mais que outra escola ou estilo &#8211; parece ter revelado um Shakespeare que, no fim das contas, pode ser adaptado por todos os tempos e por todas as artes. Essa a categoria a que talvez se referisse B\u00e1rbara Heliodora, Nas incurs\u00f5es que fez \u00e0 obra de Shakespeare, o compositor Giuseppe Verdi &#8211; nas palavras de Otto Maria Carpeaux &#8211; ombreou-se ao bardo ingl\u00eas pelo menos numa \u00f3pera, &#8220;Otelo&#8221;. Especialmente na cena em que Desd\u00eamona pressente a morte, ou seja, o seu assass\u00ednio injusto pelo personagem t\u00edtulo, que \u00e9 movido por um ci\u00fame doentio e culpado, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o entrar no clima trist\u00edssimo e definitivamente tr\u00e1gico do drama. Sem Shakespeare, Verdi n\u00e3o comporia a sua, talvez, melhor \u00f3pera (o &#8220;talvez&#8221; fica por conta do &#8220;Falstaff&#8221;, tamb\u00e9m baseado em Shakespeare, que Verdi iria criar no fim da vida). Mas a afirma\u00e7\u00e3o vale para todos os artistas que nele se inspiraram.<br \/>\nPode-se interpretar o &#8220;Macbeth&#8221; do grande cineasta Roman Polanski como a resposta cat\u00e1rtica \u00e0 morte tr\u00e1gica de sua esposa gr\u00e1vida, a atriz Sharon Stone, perpetrada por um assassino psicopata nos EUA na d\u00e9cada de 70 do s\u00e9culo passado. Catarse, no caso de Polanski, pode ser uma resposta. Mas todos os artistas que se inspiraram em Shakespeare, de um modo ou de outro, assumiram-no, n\u00e3o apenas em seus dramas pessoais, mas na universalidade de sua vis\u00e3o de mundo.<br \/>\nQuem parece ter atentado de perto para esta caracter\u00edstica foram, paradoxalmente, os franceses. Hector Berlioz(1803-1869) que escreveria uma &#8220;sinfonia dram\u00e1tica&#8221;- na verdade um poema sinf\u00f4nico, baseado no &#8220;Romeu e Julieta&#8221; &#8211; foi, quem sabe, o mais entusiasta deles. Aqui tamb\u00e9m se pode formular a hip\u00f3tese de que pelo fato de ter encontrado numa atriz irlandesa, Harriet Smithson, que fez de &#8220;Of\u00e9lia&#8221;numa encena\u00e7\u00e3o do &#8220;Hamlet&#8221;, em Paris, um entusiasmo que se transformou num rumoroso caso de amor, pode ter favorecido sua admira\u00e7\u00e3o sem limites por Shakespeare. Mas antes disso, Berlioz, que foi tamb\u00e9m um grande escritor, j\u00e1 desencava alguns franceses &#8211; especialmente Voltaire &#8211; por ter ignorado o grande dramaturgo em sua viagem \u00e0 Inglaterra. \u00c9 da mesma linha o entusiasmo de Delacroix (1798-1893), um dos mais importantes pintores que antecederam o impressionismo franc\u00eas. N\u00e3o bastasse sua admira\u00e7\u00e3o expl\u00edcita pelo grande dramaturgo ingl\u00eas, n\u00e3o foram poucas as vezes em que se valeu de Shakespeare para suas pinturas e gravuras.<br \/>\nH\u00e1 toda uma linha de artistas shakespearianos que realmente confirmam a id\u00e9ia de que Shakespeare \u00e9 uma &#8220;categoria&#8221;. Contemporaneamente, h\u00e1 quem se lembre de Inokenki Smotuknovski &#8211; n\u00e3o pelo complicado de seu nome &#8211; mas por sua atua\u00e7\u00e3o memor\u00e1vel numa vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica do&#8221;Hamlet&#8221;russo, filmado por Gregori Kozutsev na d\u00e9cada de 60. Outro russo, mas compositor, Dmitri Shotakovitch, foi amea\u00e7ado com graves repres\u00e1lias por St\u00e1lin, quando adaptou Shakespeare a uma \u00f3pera denominada &#8220;Lady Macbeth no Distrito de Msensk&#8221;: a pe\u00e7a, como \u00e9 presum\u00edvel, resgatava a figura sinistra da pe\u00e7a de Shakespeare, mas ambientada num contexto ruinoso em plena URSS. Que Shakespeare se reportasse a uma assassina, tudo bem. Em plena Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, por\u00e9m, tudo mal. Pelo menos para os zelosos censores do per\u00edodo.<br \/>\nO fato, contudo, demonstra o alcance de Shakespeare &#8211; cuja dramaturgia n\u00e3o se limitou \u00e0 cultura ocidental, muito menos \u00e0 Europa. Machado de Assis rendeu-se v\u00e1rias vezes \u00e0 literatura shakespeariana. N\u00e3o h\u00e1 como desalinhar o grande romancista brasileiro do drama de Otelo para encontrar a g\u00eanese de seu &#8220;Dom Casmurro&#8221;, s\u00f3 para remeter a uma obviedade.<br \/>\nNa linha das categorias, ali\u00e1s, h\u00e1 que alinhar Shakespeare com todos outros escritores da literatura ocidental do per\u00edodo em que o dramaturgo viveu. Arnold Hauser (1892-1978), que escreveu uma alentada obra sobre a literatura e a pintura do per\u00edodo posterior ao Renascimento, p\u00f4s Shakespeare como a express\u00e3o t\u00edpica do maneirismo &#8211; uma escola que ele localizava entre o classicismo renascentista e o barroco; e do qual ele extra\u00eda o fundamento para sua tese &#8211; de que o maneirismo &#8211; vale dizer, Shakespeare e Cervantes, mas tamb\u00e9m El Greco e Caravaggio, para s\u00f3 lembrar alguns &#8211; seriam os precursores da arte contempor\u00e2nea. Por nosso ceticismo, viver\u00edamos um novo maneirismo. Talvez seja isso.<br \/>\nComo nas pe\u00e7as de Shakespeare, os intelectuais, artistas, pol\u00edticos e homens do povo, que sa\u00edram do grande cisma protestante e das guerras religiosas da Europa do s\u00e9culo XVII, parecem ter sido exemplarmente &#8220;contados&#8221; nos palcos do grande dramaturgo ingl\u00eas. Mas tamb\u00e9m por ele antecedidos. Compreende-se enfim, o alcance sem tempo nem lugar definidos de Shakespeare. Quando Kurosawa, o genial cineasta japon\u00eas, valeu-se do &#8220;King Lear&#8221; para um de seus filmes &#8211; ningu\u00e9m estranhou. Shakespeare vale para a China ou o Jap\u00e3o atuais, como valeu um dia para a Inglaterra Elizabetana. Os maneiristas &#8211; mas especialmente Shakespeare &#8211; descreveram o homem ocidental num contexto existencial al\u00e9m do espa\u00e7o e do tempo na sua descren\u00e7a desesperada. Inclusive nas seguidas releituras feitas ao longo dos s\u00e9culos dos dramas de Shakespeare.<br \/>\nCerta vez, Fl\u00e1vio Rangel, num di\u00e1logo que tivemos sobre as rela\u00e7\u00f5es entre a m\u00fasica e o teatro, me lembrou que a interpreta\u00e7\u00e3o recorrente, tanto no teatro quanto na m\u00fasica, era um desafio permanente a todos os diretores de teatro em todos os tempos. Citou como exemplo m\u00e1ximo o &#8220;Hamlet&#8221;. Como interpret\u00e1-lo no palco? A partir da id\u00e9ia de um louco alucinado, um l\u00facido tresloucado pela exist\u00eancia, ou simplesmente um bobo a percorrer os corredores de seu castelo como pintou &#8220;Lady Macbeth&#8221;, o pintor Eugene Delacroix em uma de suas telas?<br \/>\nFl\u00e1vio Rangel dizia n\u00e3o haverem &#8220;Hamlets&#8221;definitivos. Mesmo porque n\u00e3o h\u00e1 um Shakespeare definitivo.<br \/>\nRecentemente alguns especialistas insistiram sobre um aspecto da biografia n\u00e3o muito conhecida do grande escritor: sua vida secreta. Era cat\u00f3lico e persistiu como tal at\u00e9 o fim da vida, assistindo missas nas florestas, encenando, assim, dissimuladamente, qual um ator, uma vida dupla num pa\u00eds em que o anglicanismo fundado por Henrique VIII e continuado por sua filha, Elizabeth I, n\u00e3o punha nenhuma d\u00favida em degolar cat\u00f3licos expl\u00edcitos, conhecidos ent\u00e3o como &#8220;papistas&#8221;.<br \/>\nO quanto isso foi importante para a sua obra \u00e9 dif\u00edcil conjeturar. Mas dias atr\u00e1s tive a id\u00e9ia do que s\u00e3o os dramas shakespearianos em todos os tempos e quadrantes da vida. Foi quando soube que o ex-presidente M\u00e9dici deixou, em manuscrito, a inten\u00e7\u00e3o que ele e outros generais tinham de fazer o ato institucional n\u00famero 5 &#8211; que eliminou a liberdade de imprensa e escancarou a ditadura sanguin\u00e1rio de 64, muito antes das manifesta\u00e7\u00f5es que alguns historiadores pensavam ser a causa do fechamento do Congresso. O general presidente e seus iguais, os oficiais da ditadura, j\u00e1 intentavam um golpe contra a democracia &#8211; pura hipocrisia. Sem querer, remeti-me aos personagens p\u00e9rfidos de Shakespeare &#8211; Iago, lady Macbeth, Ricardo III e outros. Ou seja, o grande dramaturgo n\u00e3o reinventou sen\u00e3o a verdade de nossa condi\u00e7\u00e3o humana.<br \/>\nO que talvez nos consolasse, em parte, pelo menos na justi\u00e7a restaurada, foi a ideia que me veio, ent\u00e3o, \u00e0 cabe\u00e7a, na cena final de uma das vers\u00f5es filmadas de Otelo, quando tudo fica esclarecido, e a autoridade que substitui o doge de Veneza, d\u00e1 a seus comandados a ordem de punirem Iago, por suas cal\u00fanias e crimes. Diz ele: &#8220;Prendam-no e o torturem para que se arrependa de ter nascido&#8221;. S\u00f3 nisso os nossos tempos talvez discordem dos do grande dramaturgo. Os torturadores e criminosos da ditadura n\u00e3o precisavam ser torturados e mortos &#8211; mas bem que poderiam ser presos. Esta medida era algo que o grande Shakespeare n\u00e3o previa em suas trag\u00e9dias: a pris\u00e3o e n\u00e3o a morte para os assassinos.<br \/>\nIsso para s\u00f3 falar das trag\u00e9dias &#8211; pois h\u00e1 as com\u00e9dias. Para este g\u00eanero, por\u00e9m, no Brasil de hoje, talvez pud\u00e9ssemos encontrar algumas semelhan\u00e7as resolutamente shakespearianas.<br \/>\nShakespeare vive.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Enio Squeff Goethe tinha uma opini\u00e3o muito al\u00e9m de lisonjeira sobre o &#8220;Dom Quixote&#8221;, de Cervantes; do alto de sua ineg\u00e1vel autoridade estimava que se, por ventura, ou quem sabe, por desgra\u00e7a, toda a literatura ocidental desaparecesse, mas s\u00f3 restasse a obra do espanhol, ent\u00e3o, toda a literatura do Ocidente, &#8220;estaria salva&#8221;. 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