{"id":17427,"date":"2014-09-02T09:45:04","date_gmt":"2014-09-02T12:45:04","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=17427"},"modified":"2014-09-02T09:45:04","modified_gmt":"2014-09-02T12:45:04","slug":"agrifam-a-face-oculta-do-agronegocio-gaucho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/agrifam-a-face-oculta-do-agronegocio-gaucho\/","title":{"rendered":"Agrifam, a face oculta do agroneg\u00f3cio ga\u00facho"},"content":{"rendered":"<p>Nunca a diversidade da agropecu\u00e1ria ga\u00facha esteve t\u00e3o bem representada como na 37\u00aa Expointer, que vai at\u00e9 o dia 7 de setembro no Parque Assis Brasil, em Esteio. Ali est\u00e3o os animais, as m\u00e1quinas, os t\u00e9cnicos em agronomia, veterin\u00e1ria e cooperativismo, os grandes fazendeiros e os agricultores familiares, todos amparados por \u00f3rg\u00e3os de governo (MDA, Seapa, SDR, IRGA), apoiados por entidades privadas (Farsul, Federacite) e prestigiados pelo sistema banc\u00e1rio, que se reveza na oferta do cr\u00e9dito rural oficial. \u201cFa\u00e7a chuva ou fa\u00e7a sol, a cada dia a Expointer mobiliza 30 mil pessoas\u201d, afirma o veterin\u00e1rio Hon\u00f3rio Franco, chefe do servi\u00e7o de feiras e exposi\u00e7\u00f5es da Secretaria de Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento.<br \/>\nNessa \u201ccidade\u201d remontada a cada ano dentro do Parque de Esteio, os espa\u00e7os mais amplos e vistosos pertencem \u00e0 ind\u00fastria de m\u00e1quinas e implementos agr\u00edcolas, em cujos estandes se encontram pelot\u00f5es de recepcionistas e vendedores uniformizados, todos aptos a manipular aparelhos de v\u00eddeo, ch\u00e1 e caf\u00e9.<br \/>\nNas cocheiras e baias, move-se um ex\u00e9rcito de pe\u00f5es cuidando da alimenta\u00e7\u00e3o e do asseio dos 5 mil animais inscritos para disputar algum trof\u00e9u. Andam todos por ruas e becos numa rotina que reproduz boa parte da vida nas fazendas de onde vieram para esta temporada de tens\u00e3o e festa nas vizinhan\u00e7as da capital do Estado.<br \/>\nPara alimentar tanta gente, o parque oferece uma enorme variedade de comida: desde fil\u00e9s recheados nos restaurantes das associa\u00e7\u00f5es de ra\u00e7as animais at\u00e9 churrasquinhos e churros em treilers licenciados para matar ou morrer por clientes despilchados. H\u00e1 tamb\u00e9m diversos restaurantes que oferecem buf\u00ea ou pratos feitos. Este ano, embora n\u00e3o estejam expostos para concorrer, os su\u00ednos e os peixes est\u00e3o presentes em recintos gastron\u00f4micos especializados. At\u00e9 nisso a Expointer \u00e9 internacional.<br \/>\n<span class=\"intertit\">AGROIND\u00daSTRIA FAMILIAR<\/span><br \/>\nJ\u00e1 nos espa\u00e7os mais ex\u00edguos se acotovelam os representantes da agroind\u00fastria familiar, com seus estandes de 3 x 2 metros cheios de doces, p\u00e3es, cucas, embutidos, queijos, sucos, cacha\u00e7as, mel e produtos artesanais, desde cuias at\u00e9 roupas.<br \/>\n\u00c9 nesse espa\u00e7o que se pode receber folhetos sobre o trabalho de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos como a Emater-RS, comprar por R$ 5 o bon\u00e9 do MST ou conversar com os representantes da Via Campesina, entidades que trabalham pelo resgate da base social em que j\u00e1 atuam \u00f3rg\u00e3os sindicais oficiais como a Fetag e a Fetraf, esta comprometida com a agricultura familiar, aquela com os trabalhadores rurais. Ambas oferecem hospedagem e alimenta\u00e7\u00e3o para os expositores da agroind\u00fastria familiar durante os dias da feira.<br \/>\nAdmitida na Expointer a partir de 1999, a agricultura familiar (que j\u00e1 merece uma sigla como agrifam) est\u00e1 em Esteio com pouco mais de 200 estandes e caminha para dispor de estandes maiores, se na pr\u00f3xima exposi\u00e7\u00e3o lhe for oferecido um segundo pavilh\u00e3o de igual tamanho, ao lado do atual.<br \/>\nO pavilh\u00e3o 2 da agrifam, or\u00e7ado em R$ 2,5 milh\u00f5es, ficou no alicerce por conta uma diverg\u00eancia burocr\u00e1tica entre a dire\u00e7\u00e3o do Parque Assis Brasil e a empreiteira contratada no primeiro semestre. Pelo cronograma inicial, deveria ser entregue no in\u00edcio de outubro deste ano. At\u00e9 2015 deve ficar pronto.<br \/>\nAl\u00e9m de crescer por conta pr\u00f3pria, a agrifam conta com o crescente apoio do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio (MDA), da Seapa e da Secretaria do Desenvolvimento Agr\u00e1rio, do Cooperativismo e da Pesca, esta criada em 2011 pelo governador Tarso Genro, que n\u00e3o perde ocasi\u00e3o para citar a inclus\u00e3o social e a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola dos assentamentos rurais do RS \u2013 em 2011, al\u00e9m de 13 mil fam\u00edlias assentadas, havia 14 mil \u00edndios e 3 900 quilombolas.<br \/>\n<span class=\"intertit\">METAMORFOSE<\/span><br \/>\nDas 400 mil propriedades rurais estimadas pelo Censo Agropecu\u00e1rio de 2006 para o Rio Grande do Sul, apenas 8 mil informaram que transformavam e comercializavam sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria. Fora 560 agroind\u00fastrias legalizadas, a grande maioria dessas empresas caseiras estava na informalidade, podendo ser alvo de interdi\u00e7\u00e3o por motivos ambientais ou sanit\u00e1rios. Foi nesse meio que come\u00e7ou a atuar em 2011 a SDR, entregue ao comando do deputado federal Ivar Pavan, origin\u00e1rio de uma pequena propriedade rural de Aratiba, no norte do RS.<br \/>\nNuma palestra a estudantes e professores da Faculdade de Economia da UFRGS, na noite de 24 de agosto de 2011 (v\u00e9spera da 34\u00aaExpointer), o secret\u00e1rio Pavan fez um relato assustador sobre a realidade do agro sulino. Come\u00e7ou lembrando que 54% dos rapazes e 74% das mo\u00e7as do Sul n\u00e3o queriam ficar na ro\u00e7a, o que vem criando um problema socioecon\u00f4mico: quem vai tocar os s\u00edtios e fazendas do futuro se a sucess\u00e3o familiar for desfalcada pela evas\u00e3o dos jovens rurais? Na \u00faltima d\u00e9cada antes do \u00faltimo censo, 287 mil pessoas deixaram o campo, onde vivem apenas 1,6 milh\u00e3o de habitantes.<br \/>\nNo momento daquela palestra, tr\u00eas anos atr\u00e1s, havia 135 mil fam\u00edlias rurais ga\u00fachas cadastradas no Bolsa Fam\u00edlia, sintoma da precariedade da vida nas ro\u00e7as. Uma crise, enfim. Era preciso come\u00e7ar trabalhando para elevar a qualidade de vida das fam\u00edlias rurais, recuperar sua autoestima e inseri-las no mercado de consumo e nas cadeias de produ\u00e7\u00e3o por meio da qualifica\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<br \/>\nUm dos est\u00edmulos mais fortes se concentrou na produ\u00e7\u00e3o de leite. Por experi\u00eancia pr\u00f3pria o secret\u00e1rio da SDR sabia que a pecu\u00e1ria leiteira (n\u00e3o s\u00f3 do RS, mas do Brasil) estava aqu\u00e9m das exig\u00eancias sanit\u00e1rias estabelecidas em 2002 pela Instru\u00e7\u00e3o Normativa n\u00ba 62, do Minist\u00e9rio da Agricultura. Era preciso priorizar a melhoria das condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias dos s\u00edtios produtores, muitos deles sem instala\u00e7\u00f5es el\u00e9tricas adequadas para conservar o produto antes da chegada dos caminh\u00f5es de leite.<br \/>\nO que n\u00e3o se esperava \u00e9 que, \u00e0 revelia dos agricultores, algumas cargas estivessem sendo adulteradas por transportadores mancomunados com algumas ind\u00fastrias l\u00e1cteas, como comprovaria em 2013 o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal.<br \/>\n<span class=\"intertit\">PRONAF, 20 ANOS<\/span><br \/>\nN\u00e3o nasceu com os governos do PT a convic\u00e7\u00e3o de que a agricultura familiar precisa do apoio oficial, sem o qual n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de sobreviver ao confronto com o Mercado. Criado em 1994, o Programa Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf) vem ajudando milhares de fam\u00edlias a modernizar seus processos e estruturas de produ\u00e7\u00e3o. Os financiamentos via Pronaf, que come\u00e7aram em 1994 com juros de 12% ao ano, hoje operam com \u00edndice m\u00e9dio de 2%.<br \/>\nA ind\u00fastria de tratores lan\u00e7ou v\u00e1rios modelos voltados para as atividades das pequenas propriedades. Enquanto a agricultura empresarial mobiliza R$ 160 bilh\u00f5es por ano, o Pronaf gira R$ 16 bi. Melhorou muito, mas s\u00f3 cr\u00e9dito n\u00e3o basta. Para os dirigentes de entidades como a Fetraf, a quest\u00e3o central para a anima\u00e7\u00e3o da agrifam \u00e9 a assist\u00eancia t\u00e9cnica com foco na sustentabilidade ambiental, social e econ\u00f4mica.<br \/>\nPara compreender esse conceito, \u00e9 interessante procurar na 37 \u00aa Expointer a \u00e1rea reservada \u00e1 Emater-RS, numa das extremidades da banda oeste do parque de Esteio.<br \/>\n\u00c9 um reduto r\u00fastico e acolhedor, com cabanas de madeira e caminhos forrados de cavaco de eucalipto (no ano passado, esse local foi inundado pela cheia de um afluente do rio dos Sinos), onde os t\u00e9cnicos da antiga associa\u00e7\u00e3o, depois empresa de assist\u00eancia t\u00e9cnica e extens\u00e3o rural, d\u00e3o mostras da exist\u00eancia de um movimento de resist\u00eancia ecol\u00f3gica contra o furor do agroneg\u00f3cio. Ali tem at\u00e9 um api\u00e1rio de abelhas nativas.<br \/>\nNuma das cabanas, eles exibem (e vendem) amostras de sementes crioulas de feij\u00e3o, milho e outras esp\u00e9cies vegetais. S\u00e3o frutos de um esfor\u00e7o de conserva\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica realizado por agricultores jovens e velhos identificados como \u201cguardi\u00e3es de sementes\u201d. Eles preservam material gen\u00e9tico rejeitado pela ind\u00fastria de sementes h\u00edbridas, modificadas e patenteadas.<br \/>\nPac\u00edfica, meio acanhada, \u00e9 uma resist\u00eancia que se nutre da convic\u00e7\u00e3o de que \u00e9 preciso preservar a biodiversidade diante dos excessos do agroneg\u00f3cio no uso de processos mec\u00e2nicos e qu\u00edmicos. Enquanto a agricultura empresarial aposta nos agrot\u00f3xicos e nos transg\u00eanicos, a agrifam \u00e9 naturalmente mais cautelosa e amiga da natureza, da\u00ed sua maior habilidade e disposi\u00e7\u00e3o para produzir alimentos org\u00e2nicos, isentos de subst\u00e2ncias potencialmente nocivas \u00e0 sa\u00fade humana e animal.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/expointer-agricultura-familia.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-17549 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/expointer-agricultura-familia.jpg\" alt=\"expointer-agricultura-familia\" width=\"600\" height=\"309\" \/><\/a><br \/>\nNo estande da Emater, \u00e9 poss\u00edvel perceber tamb\u00e9m a diferen\u00e7a entre as agriculturas empresarial e familiar. Enquanto esta (em \u00e1reas pequenas e m\u00e9dias de at\u00e9 200\/300 hectares) se caracteriza pela busca da subsist\u00eancia a partir de diversas pr\u00e1ticas agr\u00edcolas, inclusive trabalhando como prestadora de servi\u00e7os avulsos \u00e0 vizinhan\u00e7a \u2013 e morando no campo &#8211;, a outra (em \u00e1reas mais extensas que configuram os latif\u00fandios e as monoculturas) tem como objetivo principal tirar renda da agricultura mediante o emprego das t\u00e9cnicas mais avan\u00e7adas oferecidas pelo mercado, desde o cr\u00e9dito rural at\u00e9 os v\u00ednculos mais ou menos estreitos com fornecedores de insumos e compradores da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.<br \/>\nNo Rio Grande do Sul, a produ\u00e7\u00e3o rural inclu\u00edda \u201cdentro da porteira\u201d representa 10% do Produto Interno Bruto. A soma disso com a \u201cporteira afora\u201d, que abrange o transporte, a armazenagem, o beneficiamento e o com\u00e9rcio, inclusive a exporta\u00e7\u00e3o, dos produtos agr\u00edcolas, pesa de 30% a 40% do PIB. A\u00ed est\u00e1 a for\u00e7a do agroneg\u00f3cio, que a maioria das pessoas identifica com a agricultura empresarial, mais voltada para a exporta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNa realidade, por\u00e9m, um agrifam pode ser moderno e n\u00e3o \u00e9 incomum que um agricultor aparentemente empresarial esteja mergulhado no atraso t\u00e9cnico e praticando viola\u00e7\u00f5es ao meio ambiente. Na realidade, desde os anos 1970, cerca de metade da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola brasileira sai da agrifam, que tamb\u00e9m gera excedentes export\u00e1veis, embora em quantidades pequenas. Por isso ela vem merecendo aten\u00e7\u00e3o especial dos governos federal e estadual.<br \/>\n<span class=\"intertit\">COOPERATIVISMO<\/span><br \/>\nComo a metade das propriedades rurais n\u00e3o recebia assist\u00eancia t\u00e9cnica regular, em 2011 a SDR contratou duas centenas de t\u00e9cnicos da Emater que passaram a trabalhar ancorados em comunidades rurais (antes, a Emater esteve em vias de extin\u00e7\u00e3o). Sete equipes de sete especialistas (administrador, advogado, agr\u00f4nomo, contador, veterin\u00e1rio, soci\u00f3logo e mais um t\u00e9cnico) viajam pelo Estado para ajudar na organiza\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia de 200 cooperativas que possuem 46 mil s\u00f3cios ligados \u00e0 agrifam.<br \/>\nAlgumas cooperativas nasceram h\u00e1 pouco, outras eram antigas com problemas operacionais, mas o trabalho de assist\u00eancia t\u00e9cnica e promo\u00e7\u00e3o social da SDR resgatou o esp\u00edrito das pioneiras Ascar, cuja hist\u00f3ria foi mantida a pau e corda pelas Emater. O sistema cooperativo tem mostrado condi\u00e7\u00f5es de ser uma ponte organizacional entre as bases rurais, os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e as diversas inst\u00e2ncias do mercado. No Rio Grande do Sul, o cooperativismo soma 2,5 milh\u00f5es de associados.<br \/>\n<span class=\"intertit\">FLORICULTURA<\/span><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 apenas no pavilh\u00e3o da agroind\u00fastria familiar da Expointer que se pode tomar conhecimento da capacidade de inclus\u00e3o social da agrifam. Fa\u00e7a-se uma visita ao pavilh\u00e3o da floricultura e se ver\u00e1 que por tr\u00e1s de tantos vasos e floreiras est\u00e1 uma atividade capaz de empregar oito pessoas por hectare, um \u00edndice s\u00f3 alcan\u00e7ado por raras atividades agropecu\u00e1rias \u2013 a olericultura, por exemplo.<br \/>\nCom uma produ\u00e7\u00e3o de R$ 2 bilh\u00f5es por ano, a floricultura emprega cerca de 250 mil pessoas no Brasil. O maior produtor \u00e9 o Estado de S\u00e3o Paulo. Segundo a Associa\u00e7\u00e3o de Floricultores do Estado, o Rio Grande do Sul \u00e9 o segundo maior mercado de consumo per capita de flores, superado apenas pelo Distrito Federal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca a diversidade da agropecu\u00e1ria ga\u00facha esteve t\u00e3o bem representada como na 37\u00aa Expointer, que vai at\u00e9 o dia 7 de setembro no Parque Assis Brasil, em Esteio. 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