{"id":17583,"date":"2014-09-10T18:33:35","date_gmt":"2014-09-10T21:33:35","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=17583"},"modified":"2014-09-10T18:33:35","modified_gmt":"2014-09-10T21:33:35","slug":"prof-nabinger-no-pampa-gado-e-mais-seguro-do-que-soja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/prof-nabinger-no-pampa-gado-e-mais-seguro-do-que-soja\/","title":{"rendered":"Prof. Nabinger: no Pampa, gado \u00e9 mais seguro do que soja"},"content":{"rendered":"<p>At\u00e9 alguns anos atr\u00e1s, pareceria estranho promover uma palestra sobre os campos nativos do Pampa no audit\u00f3rio da Livraria Cultura do Bourbon Shopping, um espa\u00e7o t\u00edpico da vida urbana de Porto Alegre. Mas a Funda\u00e7\u00e3o Gaia bancou a noitada na ter\u00e7a-feira, 9, ao convidar o agr\u00f4nomo Carlos Nabinger, da UFRGS, para falar sobre as possibilidades de se praticar uma pecu\u00e1ria sustent\u00e1vel no Pampa, o bioma que a cada ano cede 300 mil hectares \u00e0s lavouras de gr\u00e3os e \u00e0s pastagens artificiais.<br \/>\nO evento em hor\u00e1rio nobre juntou mais de meia centena de cabe\u00e7as. Entre estudantes e agr\u00f4nomos maduros, l\u00e1 estava Marcelo Fett Pinto, representante no Rio Grande do Sul da Alianza del Pastizal, institui\u00e7\u00e3o criada no Pampa argentino e uruguaio para defender a produ\u00e7\u00e3o de carne bovina em pastos naturais.<br \/>\nProfessor do Departamento de Plantas Forrageiras da Faculdade de Agronomia, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Nabinger esclareceu que n\u00e3o \u00e9 contra nenhuma lavoura, mas lamenta que a pecu\u00e1ria ga\u00facha, salvo algumas exce\u00e7\u00f5es consagradas na Expointer e em exposi\u00e7\u00f5es e leil\u00f5es pelo interior, continua restrita a m\u00e9todos primitivos que a impedem de produzir mais do que 60 a 70 quilos de carne por hectare\/ano, quando se sabe que h\u00e1 tecnologia suficiente para multiplicar esses \u00edndices por dois, tr\u00eas e at\u00e9 10 ou 12 vezes.<br \/>\nEntretanto, ele admitiu francamente que n\u00e3o faz sentido \u201cos sabich\u00f5es da academia\u201d promoverem palestras ou dias de campo para ditar f\u00f3rmulas t\u00e9cnicas aos homens do campo. \u201cOs produtores agem como agem por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es ambientais, culturais, econ\u00f4micas e familiares\u201d, disse o professor, lembrando que a \u00fanica forma de sair desse impasse \u00e9 \u201cpromover a educa\u00e7\u00e3o ambiental desde a escola prim\u00e1ria\u201d. Uma tarefa para d\u00e9cadas.<br \/>\nTrabalhando na pesquisa do melhoramento da pecu\u00e1ria, Nabinger recomenda que, antes de se atirar na aplica\u00e7\u00e3o de insumos modernos oferecidos pelos fabricantes de m\u00e1quinas e produtos qu\u00edmicos, os produtores devem dar prioridade \u00e0 \u201cgest\u00e3o dos processos\u201d para o aproveitamento dos pastos nativos, que v\u00eam sendo castigados pelo excesso de pastoreio. \u00a0Um diagn\u00f3stico feito em 2006 mostrou que os campos naturais do Pampa estavam sobrecarregados por uma carga de 1,1 unidade animal por hectare. \u201c\u00c9 uma carga muito alta!\u201d, segundo Nabinger.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Arrendamento<\/span><br \/>\nCom tamanho \u00edndice de ocupa\u00e7\u00e3o, os campos n\u00e3o se recuperam do pastejo, a vegeta\u00e7\u00e3o \u00a0n\u00e3o chega a florescer ou dar sementes, as ra\u00edzes n\u00e3o se desenvolvem, o excesso de pastoreio provoca a prolifera\u00e7\u00e3o de plantas impr\u00f3prias para o consumo animal (alecrim, chirca, caraguat\u00e1 etc) e o solo fica desprotegido contra chuvas fortes, sofrendo com a eros\u00e3o. No af\u00e3 de produzir mais carne, o produtor enche o campo de gado magro que demora a engordar. No final das contas, com a descapitaliza\u00e7\u00e3o e a desvaloriza\u00e7\u00e3o do seu patrim\u00f4nio, o propriet\u00e1rio opta pelo arrendamento para o plantio de soja. Ou acaba vendendo a terra. Um enredo cada vez mais comum no Pampa.<br \/>\nA alternativa sustent\u00e1vel, permanecendo na pecu\u00e1ria, \u00e9 reduzir a carga animal para melhorar a condi\u00e7\u00e3o da pastagem, que crescer\u00e1 mais, tornando-se mais saud\u00e1vel e nutritiva, apenas pela fotoss\u00edntese. \u201cSem por a m\u00e3o no bolso\u201d, ou seja, sem investir um tost\u00e3o, essa simples medida denominada diferimento \u2013\u201cum processso tecnol\u00f3gico\u201d, afirma Nabinger \u2013 resulta numa produ\u00e7\u00e3o anual de 236 kg de carne por hectare. Foi o que se alcan\u00e7ou em experimentos na Depress\u00e3o Central (vale do Jacu\u00ed).<br \/>\nAplicando outros m\u00e9todos como a fertiliza\u00e7\u00e3o, a sobressemeadura de pastagens de inverno e de ver\u00e3o, a limpeza do campo (com ro\u00e7adeira) e irriga\u00e7\u00e3o, pode-se chegar at\u00e9 1000 kg de carne por hectare\/ano. Em termos econ\u00f4micos, isso significa que \u201cgado de corte d\u00e1 dinheiro como soja\u201d, mas com menor custo e menos risco.<br \/>\nAl\u00e9m disso, a manuten\u00e7\u00e3o do campo nativo \u00e9 um bom neg\u00f3cio para o pa\u00eds, que pode exportar carnes apreciadas em pa\u00edses que destru\u00edram suas coberturas vegetais primitivas. Se \u00e9 tudo t\u00e3o simples, como parece, por que n\u00e3o se caminha naturalmente para a pecu\u00e1ria sustent\u00e1vel e rent\u00e1vel?<br \/>\n\u201c\u00c9 preciso organizar a bagun\u00e7a\u201d, concluiu Nabinger, lembrando que a educa\u00e7\u00e3o ambiental \u00e9 uma via de m\u00e3o dupla: n\u00e3o basta que o agricultor aprenda o que se ensina nas escolas urbanas sobre ecologia, tamb\u00e9m os habitantes das cidades precisam se reconectar com a vida no campo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 alguns anos atr\u00e1s, pareceria estranho promover uma palestra sobre os campos nativos do Pampa no audit\u00f3rio da Livraria Cultura do Bourbon Shopping, um espa\u00e7o t\u00edpico da vida urbana de Porto Alegre. 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