{"id":17590,"date":"2014-09-12T02:34:06","date_gmt":"2014-09-12T05:34:06","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=17590"},"modified":"2014-09-12T02:34:06","modified_gmt":"2014-09-12T05:34:06","slug":"a-tesoura-que-assombra-a-rbs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-tesoura-que-assombra-a-rbs\/","title":{"rendered":"EXCLUSIVO: A tesoura que assombra a RBS"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Luiz Cl\u00e1udio Cunha* | Especial para o Jornal J\u00c1 |<span class=\"assinaespecial\"><br \/>\n<\/span><\/span><br \/>\n<span class=\"capitular\">E<\/span><br \/>\nst\u00e1 identificado, com nome, sobrenome e endere\u00e7o, o esp\u00edrito que h\u00e1 meses assombra com cortes e demiss\u00f5es a RBS, o maior grupo de m\u00eddia do sul do pa\u00eds, a 27\u00aa empresa no ranking das 100 maiores do Rio Grande do Sul.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 nenhum dos jovens executivos barbudos da fam\u00edlia Sirotsky que fundou e comanda a Rede Brasil-Sul de Comunica\u00e7\u00e3o desde 1957. O art\u00edfice que modela a nova RBS \u00e9 Cl\u00e1udio Galeazzi \u2014 um senhor de 74 anos e sorriso rasgado, cara limpa e cabelos quase brancos, 1m84 e 92 kg de um corpo massudo modelado pelo exerc\u00edcio disciplinado do halterofilismo \u2014, reconhecido nos principais c\u00edrculos econ\u00f4micos do Rio e S\u00e3o Paulo, respeitado entre os grandes empres\u00e1rios brasileiros e disputado por empresas em crise que o veneram como o temido Galeazzi M\u00e3os de Tesoura.<br \/>\nCom mais de 150 projetos de salva\u00e7\u00e3o empresarial no portfolio da consultoria Galeazzi &amp; Associados que fundou em S\u00e3o Paulo, em 1995, Cl\u00e1udio teve passagens triunfais (para os patr\u00f5es) e traum\u00e1ticas (para os empregados) no comando tempor\u00e1rio de gigantes como os grupos P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, Vulcabr\u00e1s\/Azaleia, Lojas Americanas, Artex, Cicrisa, Vila Romana, entre outros. Na coronha de seu rev\u00f3lver de serial killer de empregos, na conta sinistra da revista \u00c9poca Neg\u00f3cios, est\u00e3o registradas at\u00e9 janeiro de 2008 mais de 20 mil demiss\u00f5es \u2014 o triplo dos 6,5 mil funcion\u00e1rios hoje sobressaltados da RBS.<br \/>\nCl\u00e1udio Eug\u00eanio Stiller Galeazzi n\u00e3o ganhou fama pela fic\u00e7\u00e3o de Holywood, mas pelos cortantes resultados de efici\u00eancia gerencial, redu\u00e7\u00e3o de custos e otimiza\u00e7\u00e3o de lucros que o tornaram uma lenda da vida real das empresas estressadas por balan\u00e7os avermelhados e deslizamentos de receita. Era inevit\u00e1vel que Galeazzi e a RBS acabassem, um dia, se encontrando.<br \/>\nEssa converg\u00eancia come\u00e7ou a se desenhar em 2011, quando acendeu a luz vermelha no comando da fam\u00edlia Sirotsky. Estudos internos e sigilosos realizados por um executivo do grupo em Santa Catarina, Marcos Barbosa, indicaram que o jornal Zero Hora, nau-capit\u00e2nea da frota da RBS, sofreria um grave abalo estrutural nas receitas a partir de 2018, a\u00e7oitado pelas ondas cruzadas da queda de anunciantes, fuga de leitores e custos crescentes do papel, tudo isso potencializado no mar tormentoso da internet.<br \/>\n<span class=\"intertit\">A carta-bomba <\/span><br \/>\nEssa trag\u00e9dia anunciada acabou se antecipando em seis anos. Em 2012, o caixa do jornal sofreu uma abrupta queda de publicidade, com uma margem de redu\u00e7\u00e3o de at\u00e9 50%. O comando da RBS se assustou porque \u00e9 a divis\u00e3o de oito jornais impressos que d\u00e1 o caixa para sustentar o resto da empresa. O solavanco, desconhecido at\u00e9 para o p\u00fablico interno da empresa, habituada \u00e0s not\u00edcias sucessivas de auto-louva\u00e7\u00e3o sobre sua pujan\u00e7a e modernidade, veio no momento cr\u00edtico de troca de descend\u00eancia no poder.<br \/>\nEm 2012 aconteceu a transi\u00e7\u00e3o da segunda para a terceira gera\u00e7\u00e3o dos Sirotsky. Nelson, filho do patriarca Maur\u00edcio Sirotsky Sobrinho (1925-1986), passou o comando executivo da RBS para o sobrinho de 40 anos, Eduardo Sirotsky Melzer, o Duda, filho de sua irm\u00e3 Suzana, a primog\u00eanita de Maur\u00edcio. Na cadeira de presidente-executivo, o inexperiente Duda enfrentaria emo\u00e7\u00f5es nunca antes vividas pelo av\u00f4 e pelo tio, seus antecessores no cargo.<br \/>\n<figure id=\"attachment_17634\" aria-describedby=\"caption-attachment-17634\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-17634 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp2.jpg\" alt=\"Maur\u00edcio e Nelson... ...Duda e Maur\u00edcio... ... Nelson e Duda: tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de Sirotsky \/\u00a0Foto\/Adriana Franciosi - RBS Arquivo Pessoal Foto\/Franco Rodrigues-RBS\" width=\"600\" height=\"223\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17634\" class=\"wp-caption-text\">Maur\u00edcio e Nelson&#8230; &#8230;Duda e Maur\u00edcio&#8230; &#8230; Nelson e Duda: tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de Sirotsky \/\u00a0Foto\/Adriana Franciosi &#8211; RBS Arquivo Pessoal Foto\/Franco Rodrigues-RBS<\/figcaption><\/figure><br \/>\nAs receitas continuaram piorando no in\u00edcio de 2013 e o susto virou preocupa\u00e7\u00e3o. Em julho daquele ano, consolidada a ideia de contratar uma consultoria externa para reorientar a RBS, come\u00e7ou a ser sussurrado ali um nome sonoro e desconhecido at\u00e9 pelos altos executivos da casa: um certo Cl\u00e1udio Galeazzi. Os primeiros encontros reservados dele com Nelson e Duda Sirotsky aconteceram na sede da consultoria, que ocupa o s\u00e9timo andar de um pr\u00e9dio na avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini, endere\u00e7o nobre de alguns dos executivos e empresas mais destacados em S\u00e3o Paulo.<br \/>\nAli, o trio selou a parceria, remunerada por uma taxa de sucesso sobre os resultados obtidos. Discreto, o consultor n\u00e3o foi visto uma \u00fanica vez na sede da RBS em Porto Alegre, mas ficou clara sua entrada na vida do grupo. Sem aparecer, sem circular pelo QG dos Sirotsky no sul, Galeazzi despachou para l\u00e1 um grupo pequeno de assessores para fazer o raio-X e agir sobre os problemas que rondam a empresa. Pelo que se sabe do contrato, a equipe de Galeazzi vai assombrar os corredores da RBS at\u00e9 meados de 2015.<br \/>\nA l\u00e2mina fria de Galeazzi M\u00e3os de Tesoura mostrou publicamente o seu fio agudo numa segunda-feira, 4 de agosto passado, pela voz do pr\u00f3prio Duda Sirotsky, em uma das mais desastradas opera\u00e7\u00f5es de Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas na hist\u00f3ria empresarial brasileira. Ele falou aos funcion\u00e1rios numa v\u00eddeoconfer\u00eancia e, no mesmo dia, reafirmou o que disse numa carta de duas p\u00e1ginas que pode ser definida como uma aut\u00eantica &#8216;carta-bomba&#8217; \u2014 pela sangria na plateia, pelo estrondo na opini\u00e3o p\u00fablica e pelas feias cicatrizes na face da RBS como uma empresa moderna, pujante, vencedora, imune a crises e ao amadorismo no of\u00edcio da comunica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNas 102 linhas confusas de sua &#8216;carta-bomba&#8217;, Duda fala cruamente em demiss\u00f5es, nega uma crise financeira, anuncia a quebra de paradigmas e conclama seus assustados &#8216;caros colegas&#8217; \u2014 como diz no in\u00edcio de sua bomb\u00e1stica missiva \u2014 a imitar a RBS e a apostar no borbulhante mundo dos et\u00edlicos. Escreve Duda:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left\"><em>Ampliamos a opera\u00e7\u00e3o da Wine, que j\u00e1 \u00e9 a maior empresa de vinhos online do mundo, tanto que estamos agora preparando sua entrada no mercado internacional. E muitos de voc\u00eas que j\u00e1 s\u00e3o s\u00f3cios da Wine agora poder\u00e3o tamb\u00e9m ser da Have a Nice Beer, o maior clube online de cervejas da Am\u00e9rica Latina, que est\u00e1 vindo para o Grupo.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Tudo isso em um texto que, apesar de sua catatonia, trai as novas prioridades do maior grupo de comunica\u00e7\u00e3o do sul do Pa\u00eds. A palavra &#8216;jornalismo&#8217; tem uma \u00fanica cita\u00e7\u00e3o, assim como &#8216;leitor&#8217;, enquanto fala tr\u00eas vezes em &#8216;digital&#8217;, duas em wine e outras tr\u00eas em \u2018vinho\u2019, \u2018cerveja\u2019 e beer. O trecho mais espantoso \u00e9 o s\u00e9timo par\u00e1grafo, onde Duda, com a inclem\u00eancia dos profetas, anuncia o apocalipse:<\/p>\n<blockquote><p><em>Teremos uma semana intensa pela frente, pois na quarta-feira faremos cerca de 130 demiss\u00f5es, de um universo de 6 mil pessoas, com o objetivo de buscar produtividade e maior efici\u00eancia. S\u00e3o cortes que precisam acontecer, principalmente na opera\u00e7\u00e3o dos jornais. N\u00e3o estou de forma alguma insens\u00edvel ao impacto que demiss\u00f5es geram na vida das pessoas e da pr\u00f3pria empresa, por\u00e9m acredito que tanto os profissionais quanto as empresas precisam repensar o modo como atuam.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><span class=\"intertit\">O Marinho do Sul<\/span><br \/>\nTraduzindo. Duda antecipou na segunda-feira, 4, as demiss\u00f5es que s\u00f3 nomearia na quarta-feira, 6, ignorando o velho brocardo do s\u00e1bio florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527): &#8220;Quando fizer o bem, fa\u00e7a-o aos poucos. Quando for praticar o mal, fa\u00e7a-o de uma vez s\u00f3&#8221;. O estabanado an\u00fancio do principal executivo da RBS imp\u00f4s durante 48 horas um clima de afli\u00e7\u00e3o sobre uma comunidade de 6,5 mil funcion\u00e1rios, angustiados pela desinforma\u00e7\u00e3o sobre os nomes dos 130 iminentes demitidos.<br \/>\nO grau de ang\u00fastia poderia ser imaginado em Bras\u00edlia se a presidente Dilma Rousseff reunisse seus 39 ministros na segunda-feira para anunciar que, dois dias depois, 10 ou 15 deles seriam demitidos, sem anunciar ainda seus nomes. O espectro de crueldade que dominaria a Esplanada dos Minist\u00e9rios, com certeza, pode ser comparado ao que vislumbraram os &#8216;caros colegas&#8217; de Duda, que a revista Forbes coroou como &#8220;o Marinho do Sul&#8221;.<br \/>\nA liga\u00e7\u00e3o do cl\u00e3 Sirotsky com o cl\u00e3 Marinho est\u00e1 no DNA do grupo e explica seu sucesso. A TV Ga\u00facha \u2014 a primeira das 18 emissoras da RBS que hoje comp\u00f5em a maior afiliada da Rede Globo no Brasil \u2014 foi inaugurada em Porto Alegre num dia quente de dezembro de 1962, quando o av\u00f4 de Duda, Maur\u00edcio Sirotsky, recebeu em festa o presidente Jo\u00e3o Goulart e o governador Leonel Brizola. No in\u00edcio, a parceria da Ga\u00facha era com a pequena TV Excelsior, at\u00e9 que Maur\u00edcio deu em 1967 o pulo do gato, fazendo ent\u00e3o o realinhamento empresarial mais saud\u00e1vel de sua vitoriosa carreira.<br \/>\nMaur\u00edcio sintonizou sua emissora com os novos tempos da ditadura instaurada tr\u00eas anos antes e se alinhou aos generais que derrubaram o mesmo Jango que suava em bicas no est\u00fadio da sua TV Ga\u00facha naquele t\u00f3rrido ver\u00e3o porto-alegrense. A nova e refrescante parceria de Maur\u00edcio passou a ser com Roberto Marinho, que um ano ap\u00f3s o golpe de 1964 fundou a TV Globo, embri\u00e3o do imp\u00e9rio global que nasceu e prosperou \u00e0 sombra frondosa dos generais. Marinho arrastou para o alto a RBS, sua nova parceira sulista.<br \/>\n<figure id=\"attachment_17636\" aria-describedby=\"caption-attachment-17636\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp3.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-17636 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp3.jpg\" alt=\"Antes e depois de 1964: Sirotsky com o \u00faltimo presidente ... ... e Marinho com o \u00faltimo general Maur\u00edcio, Jango e Brizola... ... Maur\u00edcio e Roberto... ... Marinho e Figueiredo. \/\u00a0Fotos\/Ag\u00eancia RBS \u00a0Foto\/ O Globo\" width=\"600\" height=\"162\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17636\" class=\"wp-caption-text\">Antes e depois de 1964: Sirotsky com o \u00faltimo presidente &#8230; &#8230; e Marinho com o \u00faltimo general.\u00a0Maur\u00edcio, Jango e Brizola&#8230; &#8230; Maur\u00edcio e Roberto&#8230; &#8230; Marinho e Figueiredo. \/\u00a0Fotos\/Ag\u00eancia RBS \u00a0Foto\/ O Globo<\/figcaption><\/figure><br \/>\nO jornalista Mino Carta costuma dizer que o Brasil \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds do mundo em que jornalistas chamam seus patr\u00f5es de &#8216;companheiros&#8217;. No caso do Duda da Rede Globo, ainda havia uma certa rever\u00eancia, j\u00e1 que o &#8216;nosso companheiro&#8217; Roberto Marinho era tratado por todos com a mesura de &#8216;Doutor Roberto&#8217;. No caso do &#8216;Marinho da RBS&#8217;, foram rompidos todos os paradigmas de protocolo. Ao contr\u00e1rio do av\u00f4 e do tio, que n\u00e3o passavam do tratamento coloquial de Maur\u00edcio e Nelson, o novo presidente-executivo da RBS chegou ao extremo do apelido familiar.<br \/>\nAssim, a &#8216;carta-bomba&#8217; em tom apocal\u00edptico e triunfal, que mistura demiss\u00f5es, vinho e cerveja, e prega &#8220;desapego para deixar de fazer coisas que n\u00e3o agregam&#8221; \u00e9 assinada n\u00e3o pelo s\u00f3brio &#8216;colega&#8217; Eduardo Sirotsky Melzer, mas pelo \u00edntimo Duda, com todo o seu jeito fofo de ser. Depois de dizer tudo aquilo, Duda encerra: &#8220;Vamos em frente!&#8221; O &#8216;Doutor Roberto&#8217; \u2014 que andou de bra\u00e7os dados com o regime, desde o primeiro at\u00e9 o \u00faltimo general-presidente da ditadura, incluindo Jo\u00e3o Baptista Figueiredo \u2014 jamais permitiu que os \u2018companheiros\u2019 do imp\u00e9rio global chegassem a este exagero de fofura.<br \/>\nA desastrosa &#8216;carta-bomba&#8217; de Duda, na primeira segunda-feira de agosto, foi antecedida algumas horas antes por outras derrapadas na v\u00eddeoconfer\u00eancia de quase uma hora. O presidente-executivo chegou a responder perguntas an\u00f4nimas, com os resultados previs\u00edveis. Uma delas indagava porque a comida nos restaurantes da casa era \u201cruim e fria\u201d, arrancando gargalhadas em meio \u00e0 tens\u00e3o. O nervosismo de Duda era tal que chegou a reclamar de boatos, queixando-se dos rumores sobre a RBS na chamada \u2018r\u00e1dio corredor\u2019, que ganha uma enorme audi\u00eancia nos momentos mais nervosos da crise. \u201cBoataria n\u00e3o monetiza nada\u201d, chiou Duda diante dos caros colegas que o assistiam e que n\u00e3o entendiam como converter um rumor em moeda.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O rumor pelo terror<\/span><br \/>\nA quest\u00e3o central \u00e9 que n\u00e3o se tratava de boatos, mas de fatos. Na sexta-feira 6, quatro dias ap\u00f3s o destrambelhado an\u00fancio de Duda, o jornal J\u00c1 ouviu jornalistas da RBS e descobriu que o drama das demiss\u00f5es em massa, algo inaudito na casa, poderia ser ainda maior. As primeiras conclus\u00f5es da equipe de Galeazzi M\u00e3os de Tesoura recomendavam j\u00e1 uma tesourada de 250 empregos, mas o corte ficou adiado por conta das elei\u00e7\u00f5es de outubro, que demandam m\u00e3o de obra. Assim, a afli\u00e7\u00e3o de 48 horas em agosto para identificar os 130 funcion\u00e1rios executados agora vai se estender at\u00e9 outubro ou novembro por conta dos futuros 120 demitidos, que ningu\u00e9m ainda sabe quem s\u00e3o, replicando o clima de terror que paira sobre os 6,5 mil funcion\u00e1rios da RBS.<br \/>\nO cruel &#8216;desapego para deixar de fazer coisas que n\u00e3o agregam&#8217;, como definiu Duda em sua &#8216;carta-bomba&#8217;, bateu no lombo de 40 jornalistas, que somavam mais de 30% desta primeira fornada de trabalhadores &#8216;desapegados&#8217; \u00e0 for\u00e7a de seus empregos. A revela\u00e7\u00e3o do J\u00c1 for\u00e7ou uma reuni\u00e3o inesperada de dois executivos da RBS com a reda\u00e7\u00e3o de Zero Hora ainda na sexta-feira. Eduardo Smith, vice-presidente de Jornais, R\u00e1dios e Digital, e Marta Gleich, diretora de Jornais, negaram novas demiss\u00f5es em novembro. E justificaram o an\u00fancio antecipado em 48 horas das demiss\u00f5es como uma decis\u00e3o do pr\u00f3prio Duda em nome da &#8216;transpar\u00eancia&#8217; para combater os boatos da &#8216;r\u00e1dio corredor&#8217;.<br \/>\nResumindo: para anular o rumor, o &#8216;caro colega&#8217; Duda optou pelo terror.<br \/>\nAl\u00e9m das pessoas, a RBS mostra desapego tamb\u00e9m pela estrutura. Na tesourada geral decidiu-se pelo fechamento das sucursais de Zero Hora no interior do Estado, onde o jornal tinha presen\u00e7a nas principais cidades, como Caxias do Sul, Pelotas, Santa Maria, Novo Hamburgo, Santa Rosa. Em outras, como Santana do Livramento, Bag\u00e9, Rio Grande, Santo \u00c2ngelo, Passo Fundo, Uruguaiana e Santa Cruz, a cobertura cabia a rep\u00f3rteres free-lancer. S\u00f3 no interior, a RBS mantinha 691 empregos, conforme um relat\u00f3rio da empresa de 2012. Toda essa presen\u00e7a, que fazia uma liga\u00e7\u00e3o direta de ZH com diferentes p\u00fablicos em regi\u00f5es variadas, virou p\u00f3.<br \/>\nO maior jornal do Rio Grande pretende agora cobrir os dramas e demandas de 11 milh\u00f5es de ga\u00fachos espalhados por 496 munic\u00edpios de 35 microregi\u00f5es a partir de um \u00fanico centro: a reda\u00e7\u00e3o refrigerada da sede de ZH, na avenida Ipiranga, em Porto Alegre. Passa a ser um jornal estadual que se apequena e se exila no conforto da capital do Estado. \u00c9, como diz Duda no seu palavreado de executivo moderno, outro paradigma rompido, outra barreira quebrada para &#8220;colocar a RBS cada vez mais no grupo das empresas vencedoras, daquelas empresas que constroem oportunidades de mercado para se posicionar e conquistar a lideran\u00e7a&#8221;. N\u00e3o \u00e9 fofo?<br \/>\nA tesourada de agosto, m\u00eas de desgosto, centrou fogo no time de executivos, funcion\u00e1rios que, al\u00e9m dos altos sal\u00e1rios, acumulavam b\u00f4nus de rendimento ou gratifica\u00e7\u00f5es que chegavam a 5 ou 10 sal\u00e1rios extras no ano. Como a ideia \u00e9 fazer caixa, desapegaram os jornalistas caixa-alta. Por esse crit\u00e9rio, foram demitidos os comandantes de dois jornais importantes em Porto Alegre e Florian\u00f3polis \u2014 o editor-chefe Alexandre Bach (Di\u00e1rio Ga\u00facho) e o diretor de reda\u00e7\u00e3o Ricardo Stefanelli (Di\u00e1rio Catarinense).<br \/>\nEm Bras\u00edlia, sua sucursal mais importante, pela qual Duda ainda mant\u00e9m certo apego, foram tesourados os dois executivos mais caros: o vice-presidente Alexandre Kruel Jobim, filho do ex-ministro Nelson Jobim, e Kl\u00e9cio Santos, editor-chefe da RBS na capital federal. Para ocupar o lugar da dupla, Duda removeu para Bras\u00edlia o jornalista Marcelo Rech, economizando para a empresa o seu alto posto de diretor de Jornalismo da RBS em Porto Alegre, que dever\u00e1 ficar vago.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Tesoura e tesourinha<\/span><br \/>\nOs cortes s\u00f3 n\u00e3o foram maiores na base dos jornais, as reda\u00e7\u00f5es, porque os sal\u00e1rios j\u00e1 s\u00e3o comprimidos. Cerca de 3.400 funcion\u00e1rios, mais da metade do efetivo de 6,5 mil da RBS, ganham menos de tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos (hoje, R$ 2.172), conforme o balan\u00e7o de 2012. \u00c9 a faixa salarial de boa parte dos dois jornais da capital, ZH e Di\u00e1rio Ga\u00facho \u2014 este viu sua reda\u00e7\u00e3o reduzida agora de 20 para 12 jornalistas. Apenas 375 funcion\u00e1rios ganham na faixa de 10 a 20 SM( entre R$ 7,2 mil e R$ 14,5 mil). A elite executiva da RBS, onde a tesoura de Galeazzi tem mais desapego, \u00e9 formada por 128 funcion\u00e1rios que ganham mais de R$ 15 mil.<br \/>\nA afli\u00e7\u00e3o dos jornalistas nas reda\u00e7\u00f5es da RBS aumenta quando cruzam, nos corredores, com uma jovem morena, de rosto redondo, cabelos pretos e sorriso doce, que nem todos conhecem pelo nome. \u00c9 Telma Goulart, 42 anos, a tesourinha que Galeazzi levou de S\u00e3o Paulo para Porto Alegre como consultora encarregada de identificar e retalhar nos jornais da RBS os empregos pelos quais Duda t\u00eam menos apego. Graduada em Matem\u00e1tica pela USP e MBA em Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica, Telma foi uma eficaz gerente de an\u00e1lise de mercado do Grupo Folha\/UOL por quase 19 anos. O fio agudo onde pisa Telma pode ser sentido pelo pensamento cortante de Galeazzi: &#8220;O erro \u00e9 a contrata\u00e7\u00e3o mal feita, que incha a empresa&#8221;.<br \/>\nO consultor \u00e9 frio como a l\u00e2mina que usa para cortar custos, despesas e empregos na obsess\u00e3o para salvar empresas pelo saneamento de suas contas: &#8220;Cortar \u00e9 apenas uma parte da gest\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 para cortar custos infinitamente. Mas, devem ser cortados sempre, como as unhas e os cabelos&#8221;. No conjunto, o curr\u00edculo cabelereiro-empresarial de Galeazzi rima com sucesso, apesar da inevit\u00e1vel e descabelada sangria que provoca nos sal\u00f5es que contratatam seu gume e talento, ambos temidos e festejados.<br \/>\n<figure id=\"attachment_17637\" aria-describedby=\"caption-attachment-17637\" style=\"width: 353px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp4.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-17637 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp4.jpg\" alt=\"Sorrisos de Galeazzi e Telma: tesoura e tesourinha \/\u00a0Foto\/Isto\u00c9Dinheiro Foto\/Linkedin\" width=\"353\" height=\"182\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17637\" class=\"wp-caption-text\">Sorrisos de Galeazzi e Telma: tesoura e tesourinha \/\u00a0Foto\/Isto\u00c9Dinheiro Foto\/Linkedin<\/figcaption><\/figure><br \/>\nEm 2012, Pedro Grendene contratou Galeazzi para acertar o passo e cal\u00e7ar melhor o grupo Vulcabr\u00e1s\/Azaleia, que faturou no ano R$ 1,1 bilh\u00e3o, mas devia outro R$ 1 bilh\u00e3o. O consultor chegou afiado em julho e, at\u00e9 dezembro, 12 f\u00e1bricas tinham sido fechadas na Bahia, produzindo 13 mil demiss\u00f5es.<br \/>\nA tesourada inclu\u00eda os 800 trabalhadores da f\u00e1brica de Parob\u00e9, a cidade ga\u00facha onde nasceu a Azaleia. Galeazzi nunca se assume com um serial killer de empregos, mas como um executivo devotado ao mantra sagrado da reestrutura\u00e7\u00e3o. Ele ensina: &#8220;O reestruturador precisa ser t\u00e1tico e ter um horizonte de at\u00e9 dois anos para empreender as mudan\u00e7as necess\u00e1rias\u201d. \u00c9 o tempo que Galeazzi ter\u00e1, at\u00e9 2015, para &#8216;reestruturar&#8217; a RBS.<br \/>\nEm meados dos anos 2000, o grupo de supermercados P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, maior rede varejista do pa\u00eds, estava perdendo a corrida para o concorrente que viera dos Estados Unidos, a rede Walmart. Ab\u00edlio Diniz, dono do grupo, achou que essa era uma miss\u00e3o para Galeazzi M\u00e3os de Tesoura. O consultor ganhou o crach\u00e1 de presidente, em dezembro de 2007, e virou a empresa de 150 mil funcion\u00e1rios pelo avesso. Mudou a disposi\u00e7\u00e3o dos produtos nas g\u00f4ndolas das 1.800 lojas no Pa\u00eds, trocou o mix de itens vendidos e suspendeu a agressiva pol\u00edtica de descontos da empresa. Em poucos meses, demitiu 20 diretores e 300 empregados.<br \/>\nEntre janeiro e setembro de 2009, o amargo preju\u00edzo do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar se converteu num doce lucro de 162% em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo do ano anterior. A tesoura \u00e9 de Galeazzi, mas quem d\u00e1 a tesourada \u00e9 sempre o pessoal dom\u00e9stico, lembrou ele em 2012 \u00e0 rep\u00f3rter Vivian Soares, do Valor Econ\u00f4mico. &#8220;Os executivos da casa conhecem a empresa, sabem o que fazer e s\u00e3o parte ativa na reestrutura\u00e7\u00e3o. Muitas vezes s\u00f3 faltava o pontap\u00e9 inicial&#8221;, disse, lembrando do aviso que deu aos executivos do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar quando assumiu a presid\u00eancia: &#8220;Quem vai trabalhar aqui s\u00e3o voc\u00eas, e v\u00e3o trabalhar como nunca. E o pior \u00e9 que quem vai levar o cr\u00e9dito sou eu&#8221;.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Caindo na tabela<\/span><br \/>\nNo caso da RBS, isso quer dizer que Galeazzi como de h\u00e1bito traz a tesoura e leva o &#8216;cr\u00e9dito&#8217;, mas a tesourada, insinua ele, ser\u00e1 sempre de Duda e dos executivos sobreviventes da RBS. Apesar de Duda tentar exalar perfume em sua &#8216;carta-bomba&#8217;, negando a crise, os n\u00fameros contam outra realidade. Em 2008, o caixa da RBS ganhou um sopro com a venda de 12,64% do capital \u00e0 G\u00e1vea, o banco de investimento de Arm\u00ednio Fraga, presidente do Banco Central no Governo FHC e anunciado como futuro ministro da Fazenda de um (muito) hipot\u00e9tico Governo A\u00e9cio Neves. A ponte entre o banqueiro e a fam\u00edlia Sirotsky foi constru\u00edda pelo ent\u00e3o vice-presidente executivo da RBS, Pedro Parente, ministro do Planejamento e colega de Arm\u00ednio no Governo FHC.<br \/>\nNa vers\u00e3o oficial da RBS, os recursos da capitaliza\u00e7\u00e3o seriam utilizados n\u00e3o em jornais, mas em aquisi\u00e7\u00f5es na \u00e1rea de internet e em conte\u00fados para telefonia m\u00f3vel, expandindo as a\u00e7\u00f5es da RBS al\u00e9m das fronteiras do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Em 2007, a RBS renegociou o contrato com a Globo, liberando suas a\u00e7\u00f5es em novas m\u00eddias do Paran\u00e1 para cima, desde que n\u00e3o fosse competir com o imp\u00e9rio global em m\u00eddias tradicionais \u2014 como jornais, r\u00e1dios, TV e revistas.<br \/>\nEm 2010, por tabela, a RBS caiu na rede de um banco americano. O JP Morgan, que gere ativos de US$ 12 bilh\u00f5es, comprou por US$ 800 milh\u00f5es uma fatia de 55% do capital e o controle da G\u00e1vea, que administra outros US$ 7 bilh\u00f5es, incluindo no pacote o passe de Arm\u00ednio Fraga por cinco anos. \u00c9 a conta exata para se liberar em 2015 e assumir a pasta da Fazenda na hip\u00f3tese cada vez mais remota da vit\u00f3ria de A\u00e9cio na corrida presidencial. No bolo est\u00e1 o peda\u00e7o de capital da RBS comprado pela G\u00e1vea e s\u00f3cia, agora, da Highbridge, segunda maior gestora de fundos do mundo. O Morgan \u00e9 ainda o principal acionista da WPP, maior ag\u00eancia de publicidade do mundo, um gigante de 162 mil funcion\u00e1rios espalhados por 3 mil escrit\u00f3rios em 110 pa\u00edses do mundo. \u00c9 bom a RBS abrir o olho!<br \/>\nA empresa, por sua alta visibilidade, est\u00e1 impregnada na mem\u00f3ria dos ga\u00fachos. Na tradicional pesquisa &#8216;Top of Mind&#8217;, realizada todo ano pela revista Amanh\u00e3, a RBS reafirma em 2014 sua presen\u00e7a como a terceira marca mais lembrada do Rio Grande, logo atr\u00e1s do gigante sider\u00fargico Gerdau e da ind\u00fastria de facas Tramontina. No diagn\u00f3stico financeiro, contudo, a RBS est\u00e1 mais debilitada. No levantamento das 500 maiores empresas da regi\u00e3o sul, abrangendo Paran\u00e1, Santa Catarina e Rio Grande, divulgado na edi\u00e7\u00e3o de agosto\/setembro da revista, o grupo de Duda resvalou da posi\u00e7\u00e3o 68 para 74, no comparativo de balan\u00e7os entre 2012 e 2013. O campe\u00e3o entre os 500 maiores continua sendo o Grupo Gerdau.<br \/>\nO segundo maior da lista \u00e9 um gigante pouco citado de Conc\u00f3rdia, a cidade catarinense onde funciona a sede da BRF Brasil Foods, filhote gerado em 2012 pela fus\u00e3o da Sadia com a Perdig\u00e3o, marcas tradicionais de salsicha, frango, carne de porco e embutidos. Com 50 f\u00e1bricas no Brasil, nove na Argentina e duas na Europa (Inglaterra e Holanda) e um ex\u00e9rcito de 110 mil funcion\u00e1rios, a pujante BRF morde quase 10% das exporta\u00e7\u00f5es mundiais de aves e prote\u00edna animal. Em 2012 a BRF come\u00e7ou a construir uma f\u00e1brica no reino encantado de Abu Dhabi, nos Emirados \u00c1rabes, e fechou uma joint venture com a Dah Chong Hong Limited (DCH), que vende no varejo e no trepidante neg\u00f3cio de food services da China. E o que tem a ver toda essa salsicha com a RBS?<br \/>\nSimples. Ele mesmo, Galeazzi M\u00e3os de Tesoura. Preocupada em ampliar os limites de seu v\u00f4o de galinha, a BRF entregou a presid\u00eancia do grupo a Cl\u00e1udio Galeazzi em agosto de 2013, um m\u00eas ap\u00f3s o consultor fechar sua parceria com a RBS. Ele chegou exibindo o velho estilo, anunciando implac\u00e1veis tesouradas em granjas, florestas e pr\u00e9dios n\u00e3o administrativos, cortes anunciados como meros &#8216;desinvestimentos&#8217; na amena novil\u00edngua dos modernos &#8216;reestruturadores&#8217; como M\u00e3os de Tesoura.<br \/>\n&#8220;Desinvestimento vai ser considerado, sim&#8221;, anunciou Galeazzi na posse como presidente, sem negar o v\u00f4o transatl\u00e2ntico de longo curso que imagina para seus frangos congelados: &#8220;A BRF ser\u00e1 a Ambev dos alimentos&#8221;, diz, sonhando com a cervejaria que se tornou a maior empresa da Am\u00e9rica Latina, com valor de mercado de US$ 120 bilh\u00f5es \u2014 maior do que o da Petrobr\u00e1s \u2014, e que tem como principal acionista Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil, com uma fortuna estimada em R$ 49, 8 bilh\u00f5es, segundo a revista Forbes.<br \/>\nEm agosto passado, a BRF anunciou a compra por US$ 160 milhoes de 75% da Alyasra Food Company, que distribui seus alimentos congelados no Kuwait. Galeazzi, fiel ao seu &#8216;horizonte t\u00e1tico&#8217; de dois anos para chegar, tesourar e concluir o servi\u00e7o, assumiu a BRF em agosto de 2013 e j\u00e1 anunciou que sai da presid\u00eancia em dezembro pr\u00f3ximo. Ter\u00e1 mais tempo, ent\u00e3o, para voltar os olhos e afiar o gume na RBS, para desconsolo de muitos. No ranking das 100 maiores empresas do Rio Grande do Sul, segundo a revista Amanh\u00e3, a involu\u00e7\u00e3o da RBS tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o. De 2012 a 2013, o imp\u00e9rio dos Sirotsky caiu da posi\u00e7\u00e3o 24 para 27, numa lista liderada pela Gerdau, como sempre, e pelo Banrisul. A receita bruta do l\u00edder de a\u00e7o (R$ 45,7 bilh\u00f5es) \u00e9 quase 45 vezes maior do que o do grupo de m\u00eddia (R$ 1,3 bi).<br \/>\nNa sua avalia\u00e7\u00e3o sobre o balan\u00e7o da RBS, a Amanh\u00e3 registra que, em 2013, &#8220;a empresa teve um aumento de apenas 1,3% na receita bruta. J\u00e1 o lucro foi de R$ 75 milh\u00f5es, o que equivale a 5,9% da receita l\u00edquida \u2014 um \u00edndice modesto&#8221;. A analista Lu\u00edsa Vilhena, da ag\u00eancia de risco Standard &amp; Poor&#8217;s, explicou para a revista a raiz das dificuldades da RBS. &#8220;O grupo tem um perfil de lideran\u00e7a na regi\u00e3o. Por outro lado, acaba exposto a uma volatilidade maior do que se estivesse no pa\u00eds inteiro&#8221;.<br \/>\nO engessamento imposto pelo draconiano contrato com o Grupo Globo limita a expans\u00e3o nacional da RBS, confinada \u00e0 fronteira de Santa Catarina com o Paran\u00e1. Isso explica os novos neg\u00f3cios que come\u00e7am a mudar o perfil de uma empresa que h\u00e1 meio s\u00e9culo nasceu pelo jornalismo e hoje tateia por nichos inovadores e rent\u00e1veis de mercado, que t\u00eam de tudo \u2014 menos jornalismo.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Turbilh\u00e3o digital<\/span><br \/>\nA crise mundial dos jornais explica e justifica esta ousada &#8216;quebra de paradigmas&#8217; da RBS, que ainda parece um tanto envergonhada pela op\u00e7\u00e3o atual de um grupo que come\u00e7ou oferecendo not\u00edcias em TV, r\u00e1dio e jornais e hoje vende vinho e cerveja. Na d\u00e9cada de 1990, quando circulava aos domingos com 1 milh\u00e3o de exemplares, a Folha de S.Paulo se gabava de ser &#8220;o 3\u00ba maior jornal do Ocidente&#8221;.<br \/>\nHoje, o jornal da fam\u00edlia Frias \u00e9 o segundo do pa\u00eds, reduzido a um ter\u00e7o das gl\u00f3rias do passado, com tiragem m\u00e9dia de 294 mil exemplares. Vem atr\u00e1s do campe\u00e3o, o SuperNot\u00edcia, um jornal de 25 centavos consumido pelas classes C e D de Belo Horizonte, atra\u00eddas pelas ofertas de panelas e faqueiros e pelas manchetes de futebol e atrocidades policiais, al\u00e9m das fotos com belas mulheres seminuas na primeira p\u00e1gina. O campe\u00e3o dos jornais brasileiros, apesar de todo esse chamariz, vende s\u00f3 302 mil exemplares, segundo o IVC.<br \/>\nNeste ranking desconcertante, a Zero Hora \u00e9 hoje apenas o sexto maior jornal do pa\u00eds, com tiragem de 183 mil exemplares di\u00e1rios, em m\u00e9dia. O oitavo \u00e9 o jornal popular do grupo, o Di\u00e1rio Ga\u00facho, com 159 mil, seguido por outro ga\u00facho, o concorrente Correio do Povo, com 140 mil. Em um pa\u00eds de 200 milh\u00f5es de habitantes, a m\u00e9dia di\u00e1ria de jornais pagos chegou a 8,4 milh\u00f5es de exemplares\/dia \u2014 uma queda de 3,7% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior, a maior desde o in\u00edcio da d\u00e9cada, quando as vendas despencaram 9,1% em 2002.<br \/>\nPouco a pouco, o IVC constata uma invers\u00e3o preocupante no perfil de venda dos jornais di\u00e1rios. Em 2002, 58,7% da circula\u00e7\u00e3o vinha das assinaturas, como reflexo do n\u00edvel de confian\u00e7a e fidelidade do leitor, e 41,3% ficavam por conta da venda avulsa e sempre vol\u00favel nas bancas. No ano passado, as bancas responderam por 48,7% das vendas, enquanto as assinaturas despencaram para 51,3%, traindo o desinteresse maior do p\u00fablico pela m\u00eddia de papel.<br \/>\nO neg\u00f3cio dos jornais impressos, como j\u00e1 perceberam os Sirotsky, est\u00e1 sendo avassalado pela m\u00eddia digital, exatamente o meio onde a RBS aposta cada vez mais, raramente por elevadas raz\u00f5es jornal\u00edsticas. Em janeiro de 2005, pela medi\u00e7\u00e3o do Ibope Nielsen, a leitura on line de jornais registrava 4 milh\u00f5es de visitas \u00fanicas por m\u00eas. Em janeiro de 2013, a audi\u00eancia era quase seis vezes maior, 24 milh\u00f5es de visitas mensais de gente que provavelmente trocou o papel pela tela brilhante e limpa de seus dispositivos eletr\u00f4nicos. A ind\u00fastria jornal\u00edstica precisa conviver com a migra\u00e7\u00e3o crescente dos jornais tradicionais para a m\u00eddia eletr\u00f4nica. A primeira d\u00e9cada do S\u00e9culo 21, conforme um alerta da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Jornais (ANJ), citando um levantamento do Ibope M\u00eddia, indica que o leitor estava, para afli\u00e7\u00e3o de Duda Sirotsky, num crescente processo de desapego aos jornais.<br \/>\nEm 2002, o brasileiro dedicava 41 minutos de seu dia \u00e0 leitura de jornais. Dez anos depois esse n\u00famero havia ca\u00eddo para 35 minutos, 85% do tempo original. Em compensa\u00e7\u00e3o, quem gastava 139 minutos (duas horas e 19 minutos) di\u00e1rios com a navega\u00e7\u00e3o na internet, em 2002, elevou esse tempo em mais de 23% em 2012, passando 170 minutos (quase tr\u00eas horas) diante de um teclado e uma tela.<br \/>\n<span class=\"intertit\">A joia da coroa<\/span><br \/>\nA RBS sentiu esta mudan\u00e7a na carne, e procura mudar com ela. Basta comparar a \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o do grupo, hoje, para perceber a transforma\u00e7\u00e3o. O n\u00facleo de jornais, capitaneado por Zero Hora, tem oito unidades, metade deles em Santa Catarina. O n\u00facleo de TV, com 18 emissoras, atinge 789 munic\u00edpios ga\u00fachos e catarinenses e um p\u00fablico consumidor de 16,7 milh\u00f5es de telespectadores. Mas, pelo tac\u00e3o implac\u00e1vel da Globo, s\u00f3 pode dispor de 15% da grade local de programa\u00e7\u00e3o, mesmo sendo a maior rede regional do imp\u00e9rio Marinho. O grupo de r\u00e1dio, que inclui a Ga\u00facha, embri\u00e3o da RBS desde 1957, tem oito emissoras.<br \/>\nNo conjunto de m\u00eddia tradicional, que abrange jornais, r\u00e1dio e TV, s\u00e3o 34 unidades na RBS. Mas, a joia da coroa, que concentra hoje as esperan\u00e7as maiores de Duda e da fam\u00edlia Sirotsky, \u00e9 o grupo de inova\u00e7\u00e3o alojado no e.Bricks Digital, com 10 unidades, e no setor vagamente definido como \u2018Outros Neg\u00f3cios\u201d, com nove empreendimentos. De jornalismo, esta joia n\u00e3o tem nada. S\u00e3o 19 apostas no faturamento, nas vendas, nos resultados e no com\u00e9rcio escancarado por oportunidades inventadas pelo universo cibern\u00e9tico e aceleradas pela tecnologia. S\u00e3o simplesmente apostas para ganhar dinheiro, n\u00e3o credibilidade.<br \/>\nVendem coisas, n\u00e3o ideias. Entregam mercadorias, n\u00e3o reflex\u00e3o. Estabelecem as vol\u00faveis rela\u00e7\u00f5es de uma empresa com seus consumidores, n\u00e3o os la\u00e7os de fidelidade de uma empresa jornal\u00edstica com seus leitores. Esta \u00e9 a velha RBS da comunica\u00e7\u00e3o, aquela \u00e9 a nov\u00edssima RBS, uma outra RBS, ainda indefinida. Esta parti\u00e7\u00e3o empresarial \u00e9 que define com mais clareza a quebra de paradigmas que Duda anunciou aos &#8216;caros colegas&#8217; no in\u00edcio de agosto, na primeira tesourada.<br \/>\nNa saud\u00e1vel busca pela excel\u00eancia e alto desempenho, a RBS investe pesado na forma\u00e7\u00e3o de seus quadros, daqueles que eventualmente sobrevivam ao Galeazzi M\u00e3os de Tesoura. Mais da metade de seus funcion\u00e1rios passou pela universidade: 33% s\u00e3o formados, outros 21% tem o curso superior incompleto.<br \/>\nBoa parte deles est\u00e1 na e.Bricks, pilotada por um jovem impetuoso de 41 anos, F\u00e1bio Bruggioni, ex-vice-presidente da Telef\u00f4nica na \u00e1rea de internet e banda larga. No barco digital da RBS, Bruggioni vai inflar as velas para aproveitar os bons ventos de um mar de faturamento estimado em R$ 66 bilh\u00f5es at\u00e9 2015. \u00a0\u201cTrata-se de um mercado recente e com alt\u00edssimo potencial de crescimento\u201d, diz Bruggioni.<br \/>\n<figure id=\"attachment_17647\" aria-describedby=\"caption-attachment-17647\" style=\"width: 554px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp51.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-17647 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp51.jpg\" alt=\"F\u00e1bio Bruggioni e a joia da coroa da RBS: vinho, cerveja, oba-oba e nada de jornalismo\" width=\"554\" height=\"239\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17647\" class=\"wp-caption-text\">F\u00e1bio Bruggioni e a joia da coroa da RBS: vinho, cerveja, oba-oba e nada de jornalismo<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<span class=\"intertit\">O amigo dicion\u00e1rio <\/span><br \/>\nA e.Bricks de Bruggioni, empresa da \u00e1rea digital com sede em S\u00e3o Paulo, \u00e9 que define e resume o novo esp\u00edrito de uma RBS transformada pelo futuro dos &#8216;novos neg\u00f3cios&#8217;. S\u00f3 na compra de participa\u00e7\u00e3o em oito empresas de internet, a e.Bricks j\u00e1 investiu R$ 300 milh\u00f5es. No mundo febril dos novos nichos inventados por executivos cada vez mais criativos, \u00e9 \u00fatil ter um dicion\u00e1rio ao lado, para quem n\u00e3o \u00e9 \u00edntimo do ingl\u00eas. A defini\u00e7\u00e3o bil\u00edngue da e.Bricks, segundo o Relat\u00f3rio de Sustentabilidade 2012 da RBS, \u00e9 esta: \u201cRealiza investimentos em empresas <em>growth stage<\/em> e possui um fundo dedicado a <em>startups<\/em> iniciantes, <em>early stage<\/em>\u201d. N\u00e3o entendeu? \u00c9 melhor recorrer ao dicion\u00e1rio&#8230;<br \/>\nA empresa aposta suas <em>bitcoins<\/em> (a criptomoeda que s\u00f3 existe no mundo virtual) em companhias brasileiras, inovadoras, com foco em tr\u00eas setores: <em>e-commerce<\/em> segmentado, <em>mobile<\/em> (que alguns brasileiros conhecem como celular&#8230;) e m\u00eddia digital e tecnologia. O portfolio da e.Bricks \u00e9 fe\u00e9rico. A Pontomobi faz <em>marketing<\/em> para audi\u00eancias <em>on line<\/em> atrav\u00e9s de dispositivos m\u00f3veis. Entre eles, a Lembreto, a PlayMe (aplicativos de r\u00e1dio em formato streaming e compat\u00edvel com <em>smartphones<\/em> e <em>tablets<\/em>) e o TabStudio (para publica\u00e7\u00f5es digitais em aplicativos para <em>iPad<\/em> ou <em>Android<\/em>). A Hands \u00e9 a rede de publicidade da Pontomobi e, segundo eles, &#8216;a maior <em>Premium Mobile Ad Network<\/em> da Am\u00e9rica Latina&#8217;. A Vitrinepix, ao que parece, imprime imagens, fotos e desenhos em camisetas e canecas. A Let\u2019s \u00e9, dizem, \u201ca primeira<em> fast fashion on line<\/em> do Brasil\u201d, um site de moda que faz desfiles na sua tela. E promete: \u201cSe voc\u00ea j\u00e1 \u00e9 comprador on line vai adorar comprar com a gente. Se n\u00e3o \u00e9, vai virar f\u00e3 de carteirinha.\u201d A nova RBS ca\u00e7a compradores e f\u00e3s de carteirinha&#8230;<br \/>\nA Wine, como Duda anunciou \u00e0 multid\u00e3o aflita da RBS no dia da tesoura, \u00e9 a maior webstore de vinhos on line do mundo, com um inebriante crescimento anual de 70%. Oferece mais de 2 mil r\u00f3tulos de vinhos premium e integra o ClubeW, com mais de 13 mil s\u00f3cios. Os \u2018caros colegas\u2019 da RBS t\u00eam, agora, o privil\u00e9gio de afogar as m\u00e1goas se associando tamb\u00e9m ao Have a Nice Beer, o maior clube on line de cervejas da Am\u00e9rica Latina, que todo m\u00eas seleciona dois dos r\u00f3tulos mais relevantes do mundo, entregando de quatro a oito garrafas na casa dos associados, em at\u00e9 72 horas, em 300 cidades do Brasil. N\u00e3o \u00e9 o m\u00e1ximo?<br \/>\nA Hi-M\u00eddia \u00e9 \u201ca maior rede de sites verticais\u201d do pa\u00eds, dedicada ao &#8216;e-mail marketing&#8217; para ag\u00eancias e anunciantes. A Hagah mira os 82 milh\u00f5es de internautas que fazem, em m\u00e9dia, 50 buscas por m\u00eas na rede, conectando 3,5 milh\u00f5es de pessoas, listando 1 milh\u00e3o de estabelecimentos no sul do pa\u00eds. O Oba-Oba mapeia casas noturnas, mot\u00e9is e boates, localiza festas de baladas e d\u00e1 dicas sobre locais de \u2018pega\u00e7\u00e3o\u2019. O Predicta atua na \u00e1rea de an\u00e1lise de publicidade e foi apontada pela Fast Company, em 2012, como \u201cuma das 10 empresas mais inovadoras do Brasil\u201d. O terceiro colocado da lista foi o Grupo EBX, do trepidante empres\u00e1rio Eike Batista, que no ano seguinte daria o maior calote de uma empresa na Am\u00e9rica Latina, deixando de honrar uma d\u00edvida de US$ 3,6 bilh\u00f5es da petroleira OGX, que encolheu sua fortuna pessoal em US$ 30 bilh\u00f5es num prazo galopante de 18 meses.<br \/>\nNo vasto mundo dos \u201cOutros Neg\u00f3cios\u201d da nova RBS, cabe de tudo. As nove unidades abrangem eventos, educa\u00e7\u00e3o, empregos, compra e venda de carros e im\u00f3veis, entrega de encomendas e servi\u00e7os gr\u00e1ficos, atividades rent\u00e1veis que prescindem de qualquer jornalista. \u00c9 um sortido, vasto balaio de tudo aquilo que, ao contr\u00e1rio do jornalismo, gera receita, faturamento e lucros, nos termos definidos pela \u2018carta-bomba\u2019 de Duda: \u201cEstamos investindo e redesenhando a nossa opera\u00e7\u00e3o, buscando velocidade e desprendimento que s\u00e3o vitais para a preserva\u00e7\u00e3o do nosso projeto empresarial\u201d.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Paradigmas, sem jornalistas<\/span><br \/>\nCom o \u2018desapego para deixar de fazer coisas que n\u00e3o agregam\u2019, como diz Duda, os \u2018outros neg\u00f3cios\u2019 da RBS v\u00e3o fazer coisas que agregam rendas insuspeitadas para uma empresa antes identificada s\u00f3 pela comunica\u00e7\u00e3o e pelo jornalismo. A nova RBS, nesse campo inovador, s\u00f3 tem apego por coisas que agregam. A HSM Brasil, por exemplo, vai realizar cursos de educa\u00e7\u00e3o executiva de alto padr\u00e3o. A Engage, especializada em eventos, promoveu cerca de 200 espet\u00e1culos e encontros de neg\u00f3cios, entretenimento e esportes em solo ga\u00facho e catarinense. O mais triunfal deles foi o show do beatle Paul McCartney para 50 mil pessoas no est\u00e1dio Beira-Rio, em Porto Alegre, em novembro de 2010. Apesar do sucesso, a crise abafou o clima de festa na Engage: os 40 funcion\u00e1rios ca\u00edram pela metade, os eventos sumiram e o des\u00e2nimo geral alimenta os boatos de que a empresa apagou os holofotes e fechou as portas.<br \/>\nA Vialog surgiu h\u00e1 15 anos, pelo natural desafio de entregar a Zero Hora em casa aos seus assinantes. Algu\u00e9m mais esperto na RBS descobriu que, junto com os jornais, os caminh\u00f5es da empresa podiam levar outras mercadorias, refor\u00e7ando o caixa. A Vialog virou uma outra coisa que agrega, hoje cobrindo todos os munic\u00edpios dos tr\u00eas Estados do sul do Pa\u00eds, com 42 centros de distribui\u00e7\u00e3o para a entrega simult\u00e2nea de de 600 mil mercadorias por dia. O jornal que um dia gerou a Vialog virou um detalhe na rotina burocr\u00e1tica da nova Videolog que, entre tantas outras coisas que agregam mais, tamb\u00e9m carrega a Zero Hora.<br \/>\nA RBS, que antes imprimia s\u00f3 os seus jornais, agora roda outros mais de muitos outros, agregando coisas pela UMA, a gr\u00e1fica que em 2007 introduziu a empresa no rico fil\u00e3o da ind\u00fastria da impress\u00e3o, suprindo seus clientes em seis parques gr\u00e1ficos espalhados por Porto Alegre, Caxias do Sul, Cruz Alta, Florian\u00f3polis, Joinville e Blumenaus, de onde saem folders, folhetos, revistas e tabl\u00f3ides.<br \/>\n<figure id=\"attachment_17648\" aria-describedby=\"caption-attachment-17648\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp6.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-17648 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp6.jpg\" alt=\"O rico fil\u00e3o de \u2018outros neg\u00f3cios\u2019 da RBS: um balaio de servi\u00e7os que dispensam jornalistas\" width=\"600\" height=\"154\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17648\" class=\"wp-caption-text\">O rico fil\u00e3o de \u2018outros neg\u00f3cios\u2019 da RBS: um balaio de servi\u00e7os que dispensam jornalistas<\/figcaption><\/figure><br \/>\nNo agitado universo da economia, excitado pelo uso intensivo de tecnologia cada vez mais desafiadora, \u00e9 natural que empresas inovadoras busquem outros mercados, novas oportunidades para diversificar e crescer. \u00c9 o que acontece com a RBS. O que preocupa, contudo, \u00e9 a ess\u00eancia dessa transforma\u00e7\u00e3o no maior grupo de comunica\u00e7\u00e3o do sul do pa\u00eds. N\u00e3o s\u00e3o apenas os n\u00fameros fartos da RBS que mostram que a divis\u00e3o centrada no jornalismo gera despesas e pouca receita e o n\u00facleo dos novos nichos de neg\u00f3cios n\u00e3o-jornal\u00edsticos produzem lucros com baixos custos. A quebra de paradigmas proposta por Duda para a nova RBS est\u00e1 expressa no perfil dos jovens executivos, como ele, respons\u00e1veis pelo futuro do grupo \u2013 e quase nenhum deles mostra, no curr\u00edculo, um envolvimento direto com o jornalismo.<br \/>\nDe praxe, s\u00e3o homens e mulheres de alta qualifica\u00e7\u00e3o, com forma\u00e7\u00e3o em centros de excel\u00eancia universit\u00e1ria no exterior e passagens de sucesso em algumas das grifes mais importantes do exigente mundo digital, onde a RBS n\u00e3o tem fronteiras nem limites. \u201cNa \u00e1rea digital n\u00e3o temos limita\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas para investir\u201d, lembrou em dezembro passado o tio de Duda, Nelson Sirotsky, hoje presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do grupo, falando na reuni\u00e3o-almo\u00e7o \u2018T\u00e1 na Mesa\u2019, promovida pela Federa\u00e7\u00e3o do Com\u00e9rcio do Rio Grande do Sul (FEDERASUL). Como retransmissora da Globo nos dois Estados do extremo sul, a ambi\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica da RBS acaba na fronteira com o Paran\u00e1. \u201cN\u00e3o podemos entrar e competir com outras afiliadas da Globo em outros estados\u201d, explica Sirotsky.<br \/>\nEsta frustra\u00e7\u00e3o ele n\u00e3o tem, por\u00e9m, no campo digital. A RBS morde o calcanhar at\u00e9 de gigantes do setor para mostrar sua vol\u00fapia de expans\u00e3o.<br \/>\nEm janeiro de 2013, a RBS repatriou um ga\u00facho que morava na Su\u00ed\u00e7a, Nelson Mattos, que l\u00e1 exercia o cargo de vice-presidente de Produtos e Engenharia para Europa e Mercados Emergentes da Google. \u00c9 apenas o endere\u00e7o digital mais visitado do mundo, operando um milh\u00e3o de servidores conectados pelo mundo, processando por dia 1 bilh\u00e3o de pesquisas e gerando 20 petabytes de dados di\u00e1rios \u2013 ou 20 quatrilh\u00f5es de bytes, unidade de informa\u00e7\u00e3o que corresponde a um n\u00famero bin\u00e1rio de oito algarismos. Mattos agora integra o Conselho de Administra\u00e7\u00e3o da RBS, com 11 membros eleitos, seis deles acionistas, cinco independentes &#8212; nenhum deles jornalista &#8211;, sob a presid\u00eancia de Nelson Sirotsky. Al\u00e9m de Mattos, os dois novos conselheiros indepedentes s\u00e3o Israel Vainboim, ex-chairman do Unibanco, e R\u00e9gis Drubule, presidente da Tok-Stok.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Lecca-lecca e chupa-chups<\/span><br \/>\nNa Diretoria Executiva da RBS, presidida por Duda, existem oito cadeiras e s\u00f3 duas cabem a diretores egressos do jornalismo: Anik Suzuki, da Comunica\u00e7\u00e3o Corporativa, e Marcelo Rech, executivo de Jornalismo. Dos outros seis diretores que gerem a RBS, popularmente conhecida pela Zero Hora e pela RBS TV, ningu\u00e9m tem origem ou passagens por reda\u00e7\u00f5es, o que \u00e9 uma grave disfun\u00e7\u00e3o. O diretor-geral de Televis\u00e3o, Antonio Tigre, \u00e9 analista de sistemas e especialista em finan\u00e7as. O vice-presidente de Finan\u00e7as, Cl\u00e1udio Toigo, \u00e9 formado em administra\u00e7\u00e3o de empresas pela UFRGS, com p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da PUC ga\u00facha em finan\u00e7as.<br \/>\nO vice-presidente de Pessoas e Tecnologia, Deli Matsuo, \u00e9 formado em engenharia el\u00e9trica e tecnologia de informa\u00e7\u00e3o e tem MBA em administra\u00e7\u00e3o de empresas. \u00c9 outro que a RBS foi buscar no Google, onde atuou como diretor de recursos humanos para a Am\u00e9rica Latina. O vice-presidente de Jornais, R\u00e1dios e Digital, Eduardo Smith, \u00e9 formado em ci\u00eancias da computa\u00e7\u00e3o pela UFRGS e p\u00f3s- graduado em administra\u00e7\u00e3o de empresas e finan\u00e7as pela PUC ga\u00facha. O executivo-chefe da e.Bricks, F\u00e1bio Bruggioni, \u00e9 administrador de empresas com especializa\u00e7\u00e3o em marketing. A diretora-executiva de Estrat\u00e9gia e Desenvolvimento de Neg\u00f3cios, Luciana Antonini Ribeiro, \u00e9 advogada formada pela UFRGS, com mestrado em direito comercial pela USP.<br \/>\nAs duas \u00fanicas exce\u00e7\u00f5es nesta diretoria superpovoada por executivos estranhos ao jornalismo ficam por conta da diretora de Marketing e Comunica\u00e7\u00e3o, Anik Suzuki, e ao diretor de Jornalismo da RBS, Marcelo Rech. Ela, como seria natural num grupo jornal\u00edstico, foi rep\u00f3rter e editora de jornais e revistas, formada em jornalismo pela PUC. Ele, formado em jornalismo pela UFRGS, foi rep\u00f3rter de Zero Hora com experi\u00eancia internacional e, a partir de 1997, atuou como diretor de reda\u00e7\u00e3o do jornal por 11 anos.<br \/>\nAmbos, Anik e Marcelo, t\u00eam mais intimidade e contato direto com o jornalismo do que o chefe de todos eles, o presidente da diretoria-executiva, Eduardo Sirotsky Melzer, o popular Duda. Ele cursava administra\u00e7\u00e3o de empresas na PUC, em Porto Alegre, quando viu, aos 20 anos, a ousada quebra de barreira aos importados executado pelo Governo Collor.<br \/>\nDuda aproveitou a onda e trouxe para a capital ga\u00facha a primeira loja no Brasil da Sweet Sweet Way, uma franquia que importava balas, bombons, trufas, doces e caramelos. Ou os coloridos lecca-lecca e chupa-chups, como se diz pirulito na elegante loja de Mil\u00e3o, It\u00e1lia. A experi\u00eancia com pirulitos teve um forte impacto sobre ele, como confessou ao site Coletiva.net, em novembro de 2006:<br \/>\n\u201cEra um neg\u00f3cio diferente. O sujeito entrava na loja, escolhia as balas e pesava. Comecei n\u00e3o s\u00f3 a ter as minhas lojas, mas a franquear para o Brasil tamb\u00e9m. Foi uma responsabilidade b\u00e1rbara, tinha quatro lojas pr\u00f3prias, 50 funcion\u00e1rios e um monte de franqueados. Assumi uma responsabilidade muito \u00e0 frente do meu tempo\u201d, disse, sem mod\u00e9stia.<br \/>\n<figure id=\"attachment_17639\" aria-describedby=\"caption-attachment-17639\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp7.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-17639 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp7.jpg\" alt=\"Duda Sirotsky e a \u2018miss\u00e3o muito \u00e0 frente de seu tempo\u2019: vender os pirulitos lecca-lecca e chupa-chups \/\u00a0Foto\/ Andr\u00e9a Graiz -RBS\" width=\"600\" height=\"194\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17639\" class=\"wp-caption-text\">Duda Sirotsky e a \u2018miss\u00e3o muito \u00e0 frente de seu tempo\u2019: vender os pirulitos lecca-lecca e chupa-chups \/\u00a0Foto\/ Andr\u00e9a Graiz -RBS<\/figcaption><\/figure><br \/>\n\u00c0 revista da PUC, Duda lembrou dessa doce influ\u00eancia sobre seu futuro como principal executivo da RBS: \u201cFoi b\u00e1rbaro. Eu era impactado por todos os aspectos de uma empresa: rela\u00e7\u00e3o com o cliente, funcion\u00e1rios, produto, fornecedor e governo. Numa escala pequena, mas muito completa. A mistura dessa experiencia com a forma\u00e7\u00e3o academica foi relevante\u201d.<br \/>\nNa entrevista concedida em novembro de 2012, cinco meses ap\u00f3s receber o bast\u00e3o de mando do tio Nelson, em nenhum momento Duda lembrou de relacionar, entre os seus particulares aspectos de impacto, as palavras-chave que seriam naturais no principal executivo da segunda maior rede de comunica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds: leitor, informa\u00e7\u00e3o, jornalismo, conte\u00fado, hist\u00f3ria, credibilidade&#8230; \u00c9 desconcertante ler que o Duda da RBS, ainda hoje, sucumbe \u00e0s del\u00edcias mercantis vividas pelo Duda da Sweet Sweet Way, entoando sua ideia fixa de \u2018cliente, produto, fornecedor\u2019, mais comuns no dialeto de mascates e vendedores do que na linguagem dos empres\u00e1rios da comunica\u00e7\u00e3o seriamente comprometidos com o valor social e \u00e9tico da informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Marco do pensamento<\/span><br \/>\nNem o pai, Carlos Melzer, do alto de sua experi\u00eancia de tr\u00eas d\u00e9cadas na RBS, deslumbrou-se com o sucesso da franquia. Quando Duda completou o curso na PUC, chamou o filho e lhe tirou o pirulito: \u201cParab\u00e9ns, mas n\u00e3o perca a perspectiva das coisas. N\u00e3o sei se tu te enxergas como empres\u00e1rio de balas para o resto da vida. Tu deves ter outras ambi\u00e7\u00f5es&#8230;\u201d, alertou Melzer.<br \/>\nA frase amarga do pai fez Duda largar os doces. Vendeu o neg\u00f3cio da franquia e mudou-se em 1998 para Boston, nos Estados Unidos, para o inevit\u00e1vel curso de MBA em Harvard. L\u00e1, diz ele, conviveu com alguns dos mais importantes gurus de gest\u00e3o e colegas de v\u00e1rios pa\u00edses e de todo tipo de empresa, onde aprendeu a formular esta frase lapidar, que corre o s\u00e9rio risco de se transformar num marco hist\u00f3rico do pensamento da comunica\u00e7\u00e3o mundial. \u201cA variedade de abordagens me deu uma visao aprofundada sobre as mudan\u00e7as que est\u00e3o sempre em curso\u201d, filosofou na revista da PUC.<br \/>\nConclu\u00eddo o MBA de Boston em 2002, aos 30 anos, Duda decidiu permanecer nos Estados Unidos. Ap\u00f3s o impacto do pirulito, chegara a hora de sentir as emo\u00e7\u00f5es da Big Apple. Mudou-se para Nova York e adorou, disse ao Coletiva.net: \u201cFoi complementar, em todos os aspectos, ao meu MBA. Nova York \u00e9 um centro nervoso do mundo. Por mais coisas que eu estivesse fazendo, sempre sentia que estava deixando de fazer outras. Foi uma aula de gest\u00e3o de prioridades\u201d, brincou Duda.<br \/>\nL\u00e1, ele treinou na \u00e1rea financeira de um banco de investimentos, o Delphi Corporation, e teve sua primeira, remota experi\u00eancia de comunica\u00e7\u00e3o como diretor-geral da Box Top Media, que ele define vagamente na revista da PUC como \u201cuma empresa de m\u00eddia n\u00e3o tradicional\u201d em Nova York. Na verdade, a Box Top Media, fundada em 2001, opera uma rede de publicidade que anuncia e promove produtos l\u00e1cteos de v\u00e1rios fabricantes e varejistas nos Estados Unidos. Orienta o marketing de leite em recipientes para venda em casas e lojas. Ou seja, a Box Top de Duda lembra mais o neg\u00f3cio do pirulito do que a \u00e1rea de m\u00eddia hoje comandada pelo Duda da RBS&#8230;<br \/>\nTradicional ou n\u00e3o, esse not\u00e1vel desempenho de Duda no exterior chamou a aten\u00e7\u00e3o do tio, Nelson Sirotsky, e do vice-presidente Pedro Parente, que decidiram dispor de seu talento e esp\u00edrito empreendedor no Brasil. Duda voltou em 2004 para S\u00e3o Paulo, como diretor-geral da RBS para o Mercado Nacional. Quatro anos depois era o vice-presidente de Mercado e Desenvolvimento de Neg\u00f3cios, chegando em 2010 ao posto de vice-presidente executivo.<br \/>\nEssa trajet\u00f3ria de sucesso tornou inevit\u00e1vel sua ascens\u00e3o em 2012, aos 40 anos, ao posto de presidente-executivo, sucedendo o tio e marcando a chegada da terceira gera\u00e7\u00e3o ao poder na RBS. Era uma linda e risonha hist\u00f3ria de sucesso, at\u00e9 o dia em que ela foi atravessada pela cortante apari\u00e7\u00e3o de Galeazzi M\u00e3os de Tesoura. Foi o duro rito de passagem vivido por Duda, obrigado a quebrar paradigmas e a reconhecer aos \u2018caros colegas\u2019 que a vida, de fato, n\u00e3o \u00e9 pirulito.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Perp\u00e9tua, de pai para filho<\/span><br \/>\nNingu\u00e9m supera a RBS no orgulho de ser declaradamente &#8220;uma empresa de controle familiar&#8221;, ao ponto de deixar isso expresso na defini\u00e7\u00e3o que faz de Governan\u00e7a Corporativa em seus balan\u00e7os p\u00fablicos: &#8220;A governan\u00e7a da RBS \u00e9 estruturada a partir da intera\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica entre os tr\u00eas c\u00edrculos: propriedade, empresa e fam\u00edlia&#8221;. Duda sustenta a tradi\u00e7\u00e3o: \u201cQuero levar a RBS para uma pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o e perpetu\u00e1-la. N\u00e3o estou pensando no faturamento de 2013, mas no de 2024, 2040, da\u00ed para frente\u201d, garantiu \u00e0 revista Forbes.<br \/>\n<figure id=\"attachment_17640\" aria-describedby=\"caption-attachment-17640\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp8.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-17640 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp8.jpg\" alt=\"As quatro gera\u00e7\u00f5es do cl\u00e3 Sirotsky... ...e Duda [no c\u00edrculo e na presid\u00eancia]: a RBS perpetuada \/\u00a0Fotos\/ RBS\" width=\"600\" height=\"231\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17640\" class=\"wp-caption-text\">As quatro gera\u00e7\u00f5es do cl\u00e3 Sirotsky&#8230; &#8230;e Duda [no c\u00edrculo e na presid\u00eancia]: a RBS perpetuada \/\u00a0Fotos\/ RBS<\/figcaption><\/figure>Perpetua\u00e7\u00e3o \u00e9 uma palavra que permeia discursos, palestras e documentos do cl\u00e3 Sirotsky, que exibem orgulhosamente nas p\u00e1ginas oficiais as fotos das quatro gera\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia. Duda est\u00e1 l\u00e1. O conselho de fam\u00edlia, composto por sete jovens do cl\u00e3, n\u00e3o \u00e9 um elemento decorativo na empresa. Ele se re\u00fane uma vez por m\u00eas, sob a orienta\u00e7\u00e3o do presidente-executivo Duda, e tem nobres prop\u00f3sitos:<br \/>\n&#8220;Conservar o legado da fam\u00edlia Sirotsky, manter a unidade e assegurar o apoio das novas gera\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia propriet\u00e1ria na busca da perpetua\u00e7\u00e3o do Grupo RBS&#8221;, como explica o Relat\u00f3rio de Sustentatibilidade 2012, na p\u00e1gina 16.Uma das reuni\u00f5es do conselho de fam\u00edlia, recorda Duda, foi realizada em Punta del Este, Uruguai, congregando em 2005 as quatro gera\u00e7\u00f5es para debater quest\u00f5es de grupo e realizar din\u00e2micas de integra\u00e7\u00e3o. \u201cEu vi o meu filho de um ano correndo de m\u00e3os dadas com o meu tio Jaime. Isso foi emblem\u00e1tico, um momento m\u00e1gico\u201d, contou emocionado ao Coletiva.net.<br \/>\nO curr\u00edculo alheio ao jornalismo da esmagadora maioria dos atuais dirigentes do grupo projeta uma d\u00favida preocupante sobre as prioridades e a ess\u00eancia da RBS como uma institui\u00e7\u00e3o dedicada preferencialmente \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o. No perfil da diretoria executiva, onde existem s\u00f3 dois jornalistas numa bancada de oito, fica latente o vi\u00e9s de t\u00e9cnicos de alta forma\u00e7\u00e3o intelectual mais preocupados com crescimento e vendas do que de profissionais dedicados \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e ao jornalismo.<br \/>\nEsta preocupa\u00e7\u00e3o pode se refor\u00e7ar com a escala\u00e7\u00e3o dos jovens Sirotsky do conselho de fam\u00edlia. Dois dos sete s\u00e3o da 2\u00aa gera\u00e7\u00e3o, a mesma de Nelson, e os outros cinco s\u00e3o da 3\u00aa, como Duda. O not\u00e1vel, no grupo de onde sair\u00e3o os comandantes da futura RBS, \u00e9 a perpetua\u00e7\u00e3o de um pensamento empresarial alheio ao jornalismo. Da gera\u00e7\u00e3o de Nelson, Marcelo \u00e9 empres\u00e1rio e Elaine, m\u00e9dica.<br \/>\nDa gera\u00e7\u00e3o de Duda, Marina e Juana s\u00e3o psic\u00f3logas, Roberto \u00e9 administrador e Pedro \u00e9 universit\u00e1rio. A \u00fanica e honrosa exce\u00e7\u00e3o identificada como jornalista \u00e9 Tanise, a solit\u00e1ria rep\u00f3rter da 3\u00aa gera\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<figure id=\"attachment_17667\" aria-describedby=\"caption-attachment-17667\" style=\"width: 545px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp16.png\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-17667 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp16.png\" alt=\"Duas gera\u00e7\u00f5es para perpetuar a RBS: sete Sirotsky, um s\u00f3 jornalista\" width=\"545\" height=\"268\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17667\" class=\"wp-caption-text\">Duas gera\u00e7\u00f5es para perpetuar a RBS: sete Sirotsky, um s\u00f3 jornalista<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<span class=\"intertit\">A cor da pele<\/span><br \/>\nUma leitura atenta do Relat\u00f3rio de Sustentatibilidade 2012 do grupo mostra um detalhe intrigante da RBS: uma inusitada preocupa\u00e7\u00e3o com ra\u00e7a, que evoca lembran\u00e7as constrangedoras para os ga\u00fachos \u2014 e sempre dolorosas para os Sirotsky e os judeus do mundo inteiro. No jogo do dia 28 de agosto do Gr\u00eamio contra o Santos, em Porto Alegre, torcedores gremistas fizeram com gestos e gritos ofensas racistas ao goleiro santista Aranha, chamado de &#8216;macaco&#8217;, entre outras agress\u00f5es.<br \/>\nO clube ga\u00facho foi exclu\u00eddo da Copa do Brasil e os torcedores identificados foram banidos dos est\u00e1dios por 720 dias. O jornal Zero Hora reagiu na edi\u00e7\u00e3o de 3 de setembro com um editorial veemente \u2014 &#8216;O Rio Grande n\u00e3o \u00e9 racista&#8217; \u2014, sustentando ser &#8216;simplista, desproporcional e injusto&#8217; responsabilizar o Estado inteiro ou o Gr\u00eamio pelas inj\u00farias de alguns torcedores.<br \/>\nO principal jornal da RBS escreveu:<\/p>\n<blockquote><p><em>O Gr\u00eamio tem uma imensa torcida e a maioria dos seus torcedores, assim como a maioria dos ga\u00fachos, abomina o racismo, defende a diversidade e a conviv\u00eancia harmoniosa entre todos os seres humanos. N\u00e3o poderia ser diferente num Estado multirracial, que se orgulha de abrigar imigrantes de variadas origens \u00e9tnicas.[&#8230;]<\/em><br \/>\n<em>Tamb\u00e9m a hist\u00f3ria contempor\u00e2nea do Estado evidencia o equ\u00edvoco da rotula\u00e7\u00e3o. O Rio Grande do Sul j\u00e1 teve como governador o negro Alceu Collares, eleito democraticamente com o voto da maioria absoluta dos ga\u00fachos. Tamb\u00e9m \u00e9 deste Estado a primeira Miss Brasil negra, a porto-alegrense Deise Nunes, eleita em 1986. O pr\u00f3prio Gr\u00eamio tem uma forte identifica\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o afrodescendente: a estrela solit\u00e1ria de sua bandeira homenageia o negro Everaldo, campe\u00e3o do mundo em 1970; o hino do clube foi composto pelo negro Lupic\u00ednio Rodrigues e o clube mant\u00e9m, desde o ano passado, uma campanha de conscientiza\u00e7\u00e3o denominada &#8216;Azul, Preto e Branco: o Gr\u00eamio \u00e9 contra o racismo&#8217;.<\/em><br \/>\n<em>O racismo \u00e9 inadmiss\u00edvel. Todas as pr\u00e1ticas racistas, expressas ou veladas, devem ser combatidas, condenadas e punidas na dimens\u00e3o exata dos danos que causam \u00e0s v\u00edtimas e \u00e0 sociedade.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Apesar desse texto inspirador, uma nota de racismo nada velado da pr\u00f3pria RBS foi revelado pelo blogueiro Jos\u00e9 Luiz Pr\u00e9vidi quatro dias ap\u00f3s os vexames racistas na Arena do Gr\u00eamio. Um colunista de economia do jornal da RBS em Joinville, Santa Catarina, noticiou com santa naturalidade em outubro de 2013 que o perfil ideal dos trabalhadores procurados para ocupar 7 mil vagas nas empresas da cidade era &#8220;homem, branco, de 25 a 35 anos de idade&#8221;.<br \/>\nN\u00e3o ocorreu ao jornalista Cl\u00e1udio Loetz, que assina a coluna &#8216;Livre Mercado&#8217;, e nem ao jornal A Not\u00edcia, comprado pela RBS em 2006, combater e condenar a restri\u00e7\u00e3o racista t\u00e3o bem chicoteada no editorial de Zero Hora.<br \/>\n<figure id=\"attachment_17655\" aria-describedby=\"caption-attachment-17655\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp10.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-17655 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp10.jpg\" alt=\"O colunista do jornal da RBS em Joinville e o 'perfil ideal' para trabalhar na cidade: &quot;homem, branco&quot;.\" width=\"600\" height=\"161\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17655\" class=\"wp-caption-text\">O colunista do jornal da RBS em Joinville e o &#8216;perfil ideal&#8217; para trabalhar na cidade: &#8220;homem, branco&#8221;.<\/figcaption><\/figure><br \/>\nPoderia ser uma derrapada pontual de um jornalista distra\u00eddo num dia infeliz. Mas, o caso \u00e9 mais grave. Para uma empresa inovadora e moderna como a RBS, \u00e9 espantoso descobrir que o tema da ra\u00e7a transborda as colunas de seus jornais perif\u00e9ricos e se torna, de fato, um detalhe cruel de uma institui\u00e7\u00e3o que se gaba de ter constru\u00eddo em 2012, quando Duda chegou ao poder, um novo &#8216;Modelo de Gest\u00e3o de Pessoas do Grupo RBS&#8217;.<br \/>\nNo Relat\u00f3rio de Sustentatibilidade 2012, o mais recente editado pela RBS, o cap\u00edtulo de &#8216;Indicadores de Recursos Humanos&#8217; revela uma face insuspeitada da empresa. Ela demonstra uma estranha obsess\u00e3o para classificar seus funcion\u00e1rios pelo pigmento de pele. Assim, na p\u00e1gina 33, no gr\u00e1fico que mostra o percentual de &#8216;Colaboradores por cor&#8217;, sabe-se que a empresa divide seu pessoal entre os Brancos e Negros ou pardos.<br \/>\nA diferen\u00e7a \u00e9 espantosa: 96% dos que trabalham na RBS s\u00e3o brancos, o que representa 6.240 funcion\u00e1rios num universo de 6.500. S\u00f3 4%, ou 260, s\u00e3o negros ou pardos. Quando se fecha a lupa pelo crit\u00e9rio da hieraquia, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais aberrante. No gr\u00e1fico da p\u00e1gina 34 sobre &#8216;Cargos de ger\u00eancia por cor&#8217;, o n\u00edvel de alvura da RBS \u00e9 avassalador: 99% dos gerentes de Duda s\u00e3o &#8216;brancos em cargos de ger\u00eancia&#8217;, contra 1% de &#8216;negros ou pardos em cargos de ger\u00eancia&#8217;. Em n\u00fameros absolutos, s\u00e3o 826 funcion\u00e1rios brancos contra apenas oito catalogados como negros ou pardos. A quem duvida, basta acessar o relat\u00f3rio no portal www.gruporbs.com.br.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<figure id=\"attachment_17643\" aria-describedby=\"caption-attachment-17643\" style=\"width: 249px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp11.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-17643 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp11.jpg\" alt=\"A RBS e a obsess\u00e3o pela cor da pele: brancos em massa na empresa, quase todos brancos nas ger\u00eancias.\u00a0\u00a0Fonte\/ Relat\u00f3rio de Sustentabilidade 2012 \u2013 Grupo RBS, pg 33 \" width=\"249\" height=\"308\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17643\" class=\"wp-caption-text\">A RBS e a obsess\u00e3o pela cor da pele: brancos em massa na empresa, quase todos brancos nas ger\u00eancias.\u00a0\u00a0Fonte\/ Relat\u00f3rio de Sustentabilidade 2012 \u2013 Grupo RBS, pg 33<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<figure id=\"attachment_17644\" aria-describedby=\"caption-attachment-17644\" style=\"width: 227px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp12.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-17644 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp12.jpg\" alt=\"Fonte\/ Relat\u00f3rio de Sustentabilidade 2012 \u2013 Grupo RBS, pg 34\" width=\"227\" height=\"276\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17644\" class=\"wp-caption-text\">Fonte\/ Relat\u00f3rio de Sustentabilidade 2012 \u2013 Grupo RBS, pg 34<\/figcaption><\/figure><br \/>\nMesmo com esses \u00edndices inquietantes, a RBS insiste em proclamar ao mundo a excel\u00eancia dos seus padr\u00f5es de sele\u00e7\u00e3o dos &#8216;caros colegas&#8217; de Duda, omitindo qualquer eventual restri\u00e7\u00e3o \u00e9tnica. Diz o relat\u00f3rio:<\/p>\n<blockquote><p><em>Durante 2012, a RBS desenvolveu um sistema de recrutamento e sele\u00e7\u00e3o de classe mundial que auxilia a empresa a identificar, contratar e reter os melhores talentos. Foi estabelecido tamb\u00e9m um N\u00facleo de Intelig\u00eancia, que passou a monitorar o mercado para identificar os polos que concentram e\/ou formam profissionais de alta capacidade.<\/em><br \/>\n<em> Mas as mudan\u00e7as mais significativas aconteceram em rela\u00e7\u00e3o ao processo de sele\u00e7\u00e3o dos candidatos.<\/em><br \/>\n<em>Os gestores das \u00e1reas participaram, ao longo de 2012, de um total de 692 horas de workshops que detalharam as novidades \u2014 uma vez que desempenham papel preponderante na contrata\u00e7\u00e3o de colaboradores para suas \u00e1reas. O processo seletivo passou a adotar um modelo de colegiado, em que cinco profissionais de diferentes \u00e1rea da RBS entrevistam cada candidato individualmente. Ao candidato atribuem-se notas referentes \u00e0s suas habilidades cognitivas, \u00e0 sua experi\u00eancia profissional e ao seu alinhamento aos valores corporativos do Grupo RBS.<\/em><br \/>\n<em>Em 2012, houve uma sele\u00e7\u00e3o para o programa de Trainees, que registrou 12,8 mil inscri\u00e7\u00f5es. No final do processo, sete talentos foram recrutados. Os jovens s\u00e3o preparados durante dois anos para, posteriormente, assumirem cargos de lideran\u00e7a na companha.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Infelizmente, os n\u00fameros do relat\u00f3rio indicam que negros ou pardos n\u00e3o sobreviveram \u00e0 &#8216;sele\u00e7\u00e3o de classe mundial&#8217; da RBS, nem passaram pelo crivo do N\u00facleo de Intelig\u00eancia. N\u00e3o se sabe, tamb\u00e9m, se entre os sete talentos recrutados pelo programa de Trainees existe algum negro \u2014 ou simplesmente pardo.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O branco 100%<\/span><br \/>\nEstas observa\u00e7\u00f5es poderiam parecer exageradas, mas o drama racial da RBS n\u00e3o acaba aqui. Na mesma p\u00e1gina 34 do relat\u00f3rio, transcreve-se uma informa\u00e7\u00e3o assombrosa, que se destaca por ser gratuita, deslocada e, essencialmente, ofensiva a 1,8 milh\u00e3o de ga\u00fachos. No quadro sobre &#8216;Indicadores de Remunera\u00e7\u00e3o&#8217;, est\u00e3o distribu\u00eddas as sete faixas salariais que comp\u00f5em o universo de funcion\u00e1rios da RBS. No p\u00e9 do quadro, existem duas notas complementares, uma pertinente, outra inacreditavelmente impertinente.<br \/>\nA nota 2 diz que o item de 416 funcion\u00e1rios que percebem menos de um sal\u00e1rio m\u00ednimo refere-se a trabalhadores com carga hor\u00e1ria reduzida. Uma informa\u00e7\u00e3o natural e \u00fatil. A nota 1, contudo, impressiona pela gratuidade, pela insensabilidade, simplesmente pela grossura. Diz a nota: &#8220;100% dos cargos de diretoria s\u00e3o ocupados por brancos&#8221;. Assim, no seco, sem nenhum nexo com o foco do quadro.<br \/>\nPor alguma raz\u00e3o, a RBS achou relevante explicitar que, na sua empresa, onde a supremacia branca \u00e9 esmagadora, as dez cadeiras da diretoria executiva s\u00e3o totalmente, absolutamente brancas. \u00c9 poss\u00edvel concluir, assim, que \u00e9 estat\u00edsticamente nula a hip\u00f3tese de um dia se ver algum negro, quem sabe um pardo, nas exclusivas poltronas de dire\u00e7\u00e3o da RBS hoje solidamente ocupadas em 100% por brancos.<br \/>\n<figure id=\"attachment_17668\" aria-describedby=\"caption-attachment-17668\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp15.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-17668 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp15.jpg\" alt=\"A brancura executiva na RBS: 100% de diretores absolutamente brancos, nada negros, nada pardos\" width=\"600\" height=\"286\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17668\" class=\"wp-caption-text\">A brancura executiva na RBS: 100% de diretores absolutamente brancos, nada negros, nada pardos<\/figcaption><\/figure><br \/>\nNum pa\u00eds como o Brasil, a ressalva da RBS, mais do que bo\u00e7al, tem um tom triunfal dif\u00edcil de entender pela estupidez que expressa. Pela primeira vez desde 1872, quando aconteceu a primeira pesquisa de popula\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, o Censo de 2010 do IBGE mostrou que os negros j\u00e1 representam a maioria do povo brasileiro. Os negros somavam 50,7% (96,7 milh\u00f5es de brasileiros) contra 47,7% (91 milh\u00f5es) de brancos. O restante dos 190 milh\u00f5es de 2010 eram representados por 1,1% (2 milh\u00f5es) de amarelos e 0,4% (817 mil) de ind\u00edgenas. A autoestima crescente dos negros explica porque, agora, eles mesmos proclamam, com orgulho, sua cor.<br \/>\nO Rio Grande do Sul, gra\u00e7as \u00e0 forte imigra\u00e7\u00e3o europeia, \u00e9 o segundo Estado brasileiro com maior propor\u00e7\u00e3o de brancos \u2014 83,2%, conforme o IBGE. Ainda assim n\u00e3o s\u00e3o 100%. Um dos senadores pelo Rio Grande do Sul, o negro Paulo Paim, saudou a lei estadual de 2012 que reserva vagas na esfera p\u00fablica aos 16,13% (1 milh\u00e3o 807 mil) de negros e pardos no Estado. Nesse n\u00famero, com certeza, incluem-se os oito gerentes negros ou pardos que conseguiram ascender na carreira dentro da alva RBS.<br \/>\nA apote\u00f3tica, embora discreta, observa\u00e7\u00e3o da RBS sobre a pureza racial de seus diretores ofende a hist\u00f3ria, a ci\u00eancia e a verdade.<br \/>\nNa hist\u00f3ria, esqueceram que o judeu Josef Sirotsky chegou ao Rio Grande no in\u00edcio do S\u00e9culo 20 fugindo da repress\u00e3o sofrida em sua terra, a Bessar\u00e1bia, um enclave ent\u00e3o espremido entre a Rom\u00eania e o Imp\u00e9rio Russo, \u00e0s margens do Mar Negro. O velho Josef integrava o grupo de 34 fam\u00edlias, cerca de 300 pessoas, que ocupou uma \u00e1rea de 5.700 hectares em Santa Maria, formando ali a Col\u00f4nia Philippson, o primeiro assentamento judaico do Brasil.<br \/>\nNa nova terra, Josef, como os outros imigrantes, recebeu um lote de 30 hectares, duas juntas de boi, duas vacas, uma carro\u00e7a, um cavalo, ferramentas e sementes. Ali, em 1920, Josef conheceu Rita, casou e teve com ela cinco filhos: Henrique, Isaac, Jayme, Samy e Maur\u00edcio, o Sirotsky que come\u00e7ou a saga da RBS. Para um povo que sofreu a suprema ofensa da faxina racial do nazismo, respons\u00e1vel pelo holocausto de 6 milh\u00f5es de pessoas na II Guerra Mundial, soa como um deboche a exalta\u00e7\u00e3o descarada por 100% de brancos no comando do imp\u00e9rio fundado pelo filho do velho Josef Sirotsky.<br \/>\nNa ci\u00eancia, ra\u00e7a hoje identifica apenas c\u00e3es, gatos e outros animais, n\u00e3o seres humanos. O avan\u00e7o na gen\u00e9tica e a evolu\u00e7\u00e3o da antropologia aposentou o crit\u00e9rio racial para definir os homens, sem qualquer rela\u00e7\u00e3o com padr\u00f5es biol\u00f3gicos. A cor da pele \u00e9 t\u00e3o importante ou irrelevante quanto o tipo de cabelo, a cor dos olhos, o tamanho do p\u00e9 ou o formato do nariz. A cor da pele humana varia entre o quase preto (pela alta concentra\u00e7\u00e3o do pigmento escuro, a melanina) e o quase sem cor (pelo tom rosado dos vasos sangu\u00edneos sob a pele).<br \/>\nAt\u00e9 o soci\u00f3logo Fernando Henrique Cardoso, que j\u00e1 confessou ter &#8220;um p\u00e9 na cozinha&#8221;, reconhece a heran\u00e7a maldita do escravismo. O darwinismo, para espanto dos &#8216;caros colegas&#8217; de Duda, mostrou que somos todos negros ou filhos de negros. H\u00e1 1,2 milh\u00e3o de anos, todas as pessoas tinham a pele escura, no ber\u00e7o ancestral da M\u00e3e \u00c1frica onde nasceu a humanidade. O sol intenso reduzia a chance de sobreviv\u00eancia das pessoas com pele mais clara. Ser negro era sobreviver. A pele escura impedia que o \u00e1cido f\u00f3lico fosse destru\u00eddo pelos raios solares.<br \/>\nQuando os seres humanos migraram da \u00c1frica para o Hemisf\u00e9rio Norte, onde o sol \u00e9 menos intenso, a pele se tornou mais clara pelo m\u00e1gico mecanismo da evolu\u00e7\u00e3o para facilitar a absor\u00e7\u00e3o da luz solar, essencial para a produ\u00e7\u00e3o de vitamina D.<br \/>\n<figure id=\"attachment_17645\" aria-describedby=\"caption-attachment-17645\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp14.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-17645 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/mat-esp14.jpg\" alt=\"A tola ressalva da RBS: os diretores-executivos n\u00e3o s\u00e3o 100% brancos... ... \u00e9 s\u00f3 olhar as fotos de Matsuo e Suzuki\" width=\"600\" height=\"109\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17645\" class=\"wp-caption-text\">A tola ressalva da RBS: os diretores-executivos n\u00e3o s\u00e3o 100% brancos&#8230; &#8230; \u00e9 s\u00f3 olhar as fotos de Matsuo e Suzuki<\/figcaption><\/figure><br \/>\nE na verdade, finalmente, a observa\u00e7\u00e3o da RBS sobre os 100% de brancos da diretoria refletem um claro equ\u00edvoco, constatado visualmente. Basta ler os nomes e sobrenomes dos 10 diretores, incluindo Duda, para comprovar a bobagem que escreveram. Pelo menos dois diretores n\u00e3o s\u00e3o brancos, muito menos negros ou pardos. Anik Suzuki, a diretora de Comunica\u00e7\u00e3o Corporativa, e Deli Matsuo, mostram na face e no sobrenome que s\u00e3o descendentes de japoneses \u2014 ou amarelos, pela classifica\u00e7\u00e3o do IBGE.<br \/>\nSeria mais correto, assim, dizer que \u2014 ao inv\u00e9s de 100 % de cargos ocupados por brancos \u2014 100% dos cargos de diretoria na RBS n\u00e3o s\u00e3o ocupados por negros ou pardos. A maioria &#8216;branca&#8217; est\u00e1 &#8216;contaminada&#8217; pela presen\u00e7a de dois descendentes orientais. Ent\u00e3o, seriam no m\u00e1ximo 80% de brancos, ou supostos brancos. Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o boboca que os &#8216;caros colegas&#8217; de Duda deveriam travar com o bom e velho Charles Darwin.<br \/>\nTodo esse desastroso conjunto de dados do relat\u00f3rio da RBS\u2014 que nunca discute o jornalismo e seus fundamentos \u2014 leva, enfim, a uma desanimadora conclus\u00e3o: Galeazzi M\u00e3os de Tesoura ainda tem muito servi\u00e7o pela frente.<br \/>\n<em>*Luiz Cl\u00e1udio Cunha, jornalista, foi rep\u00f3rter de Zero Hora em Porto Alegre, em 1970, e editor-chefe da sucursal da RBS em Bras\u00edlia, em 1993. &#8211;\u00a0cunha.luizclaudio@gmail.com<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>Texto original publicado por <a href=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\">www.jornalja.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Cl\u00e1udio Cunha* | Especial para o Jornal J\u00c1 | E st\u00e1 identificado, com nome, sobrenome e endere\u00e7o, o esp\u00edrito que h\u00e1 meses assombra com cortes e demiss\u00f5es a RBS, o maior grupo de m\u00eddia do sul do pa\u00eds, a 27\u00aa empresa no ranking das 100 maiores do Rio Grande do Sul. 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