{"id":18206,"date":"2014-09-26T14:06:31","date_gmt":"2014-09-26T17:06:31","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=18206"},"modified":"2014-09-26T14:06:31","modified_gmt":"2014-09-26T17:06:31","slug":"seringueiro-diz-que-florestas-publicas-foram-privatizadas-por-70-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/seringueiro-diz-que-florestas-publicas-foram-privatizadas-por-70-anos\/","title":{"rendered":"Seringueiro diz que florestas p\u00fablicas foram privatizadas por 70 anos"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\"><strong>Luiz Carlos Azenha (*)<\/strong><\/span><br \/>\nOsmarino Am\u00e2ncio n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o conhecido como Chico Mendes. Mas, se h\u00e1 algu\u00e9m que manteve seu contato com a floresta desde o assassinato do companheiro de lutas, em dezembro de 1988, em Xapuri, no Acre, foi ele. Ainda hoje Osmarino ocupa uma casa de madeira, coberta com palha, no interior de uma reserva extrativista criada como resultado da luta travada por toda uma gera\u00e7\u00e3o de acreanos. A casa n\u00e3o tem energia el\u00e9trica, nem \u00e1gua corrente. O celular n\u00e3o pega. \u00c9 num lugar de dif\u00edcil acesso, na regi\u00e3o de Brasileia.<br \/>\nOsmarino ganhou uma certa visibilidade recentemente. Est\u00e1vamos jantando em um restaurante, na cidade, quando a imagem dele apareceu na propaganda eleitoral do PSTU, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, em apoio a Z\u00e9 Maria, candidato do partido ao Planalto. O seringueiro do s\u00e9culo 21 viaja constantemente para participar de debates e palestras sobre a Amaz\u00f4nia, dentro e fora do Brasil.<br \/>\nOsmarino passou toda a sua vida na floresta. Conta que sobrevive com uma renda anual de 15 mil reais. A maior parte vem da coleta de castanhas e da produ\u00e7\u00e3o de borracha, que acontecem em \u00e9pocas distintas do ano.<br \/>\nEle vive sozinho. O vizinho mais pr\u00f3ximo est\u00e1 a uma hora e meia de caminhada. Para ca\u00e7ar e se defender, tem um espingarda comum e uma calibre 12.<br \/>\nQuando nos guiou pelo entorno de sua casa, Osmarino mostrou o ro\u00e7ado onde cultiva frutas, feij\u00e3o e milho. Reconhece todas as \u00e1rvores e os cantos dos p\u00e1ssaros. Quando anoitece, l\u00ea sob a luz de um candeeiro ou ouve r\u00e1dio. Enfrenta o mal de Chagas com receitas locais (uma amiga prometeu trat\u00e1-lo com um extrato que exige a captura de dois jabutis, um macho e uma f\u00eamea), mas recentemente esteve em S\u00e3o Paulo para fazer exames e tentar conter o que define como \u201cincha\u00e7o do cora\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nComo Chico Mendes e Marina Silva, Osmarino \u00e9 descendente de um soldado da borracha. Nos anos 40, para cumprir um acordo fechado com Washington durante a Segunda Guerra Mundial, o\u00a0Servi\u00e7o Especial de Mobiliza\u00e7\u00e3o de Trabalhadores para a Amaz\u00f4nia (Semta) despachou cerca de 50 mil homens, boa parte deles do Cear\u00e1, para extrair borracha dos seringais do Acre. Depois da guerra, os que sobreviveram continuaram por l\u00e1. Durante a ditadura militar, nos anos 70, preocupados com a possibilidade de perder a Amaz\u00f4nia, os militares decidiram oferecer vantagens econ\u00f4micas a colonizadores sa\u00eddos especialmente do Sul e Sudeste brasileiros, conhecidos at\u00e9 hoje genericamente no Acre como \u201cpaulistas\u201d.<br \/>\nOs \u201cpaulistas\u201d chegaram desmatando e trazendo gado. Deram de frente com os seringueiros, para eles \u201cinvis\u00edveis\u201d. Houve dezenas de mortes e milhares de casas queimadas, no que Osmarino define como uma guerra de baixa intensidade. Foi em rea\u00e7\u00e3o \u00e0 invas\u00e3o dos ruralistas que surgiram os sindicatos de Xapuri e Brasileia. Os sindicalistas de esquerda recebiam o apoio ativo de gente da cidade, especialmente de estudantes, como Marina Silva, ela mesma filha de seringueiros e \u00e0 \u00e9poca integrante do Partido Revolucion\u00e1rio Comunista e abrigada no PT. Juntos, desenvolveram a t\u00e1tica do \u201cempate\u201d: cercar e expulsar os colonos trazidos pelos fazendeiros para fazer o desmatamento.<br \/>\nQuase 40 anos depois, os companheiros de ent\u00e3o tomaram caminhos distintos. Wilson Sousa Pinheiro e Chico Mendes foram assassinados. Lula, que esteve no Acre para dar apoio a Chico Mendes, um dos fundadores do PT, mais tarde viria a ocupar o Planalto. Marina Silva, que corajosamente participou de \u201cempates\u201d, agora \u00e9 pretendente ao mesmo cargo. Osmarino, que continuou seringueiro, ficou onde sempre esteve e se tornou cr\u00edtico da pol\u00edtica de ambos para a Amaz\u00f4nia, especialmente pela promessa nunca realizada de uma reforma agr\u00e1ria sob controle dos trabalhadores.<br \/>\nOsmarino diz\u00a0que o Projeto de Lei 11.284, de gest\u00e3o das florestas, assinado quando Marina Silva ocupava o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente no governo Lula, se tornou uma heran\u00e7a maldita. A lei regulamentou o manejo, supostamente sustent\u00e1vel, de milh\u00f5es de hectares de terras p\u00fablicas.<br \/>\n(*<a title=\"Viomundo\" href=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/\">Viomundo<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Carlos Azenha (*) Osmarino Am\u00e2ncio n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o conhecido como Chico Mendes. Mas, se h\u00e1 algu\u00e9m que manteve seu contato com a floresta desde o assassinato do companheiro de lutas, em dezembro de 1988, em Xapuri, no Acre, foi ele. 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