{"id":19103,"date":"2014-10-27T21:47:15","date_gmt":"2014-10-28T00:47:15","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=19103"},"modified":"2014-10-27T21:47:15","modified_gmt":"2014-10-28T00:47:15","slug":"o-que-ha-por-tras-da-capa-de-veja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-que-ha-por-tras-da-capa-de-veja\/","title":{"rendered":"O que h\u00e1 por tr\u00e1s da capa de Veja"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Luis Nassif*<\/span><br \/>\nA aventura irrespons\u00e1vel de Veja \u2013 recorrendo a uma mat\u00e9ria provavelmente falsa para pedir o impeachment de um presidente da Rep\u00fablica &#8211; n\u00e3o se deve a receios de bolivarianos armados invadindo a Esplanada.<br \/>\nEla est\u00e1 sendo derrotada pelo mercado, pelo fato de que, pela primeira vez na hist\u00f3ria, a Internet trouxe o mercado para o setor fechado, derrubando as barreiras de entrada que permitiram a sobrevida de um jornalismo anacr\u00f4nico, subdesenvolvido, a parte do pa\u00eds que mais se assemelha a uma republiqueta latino-americana.<br \/>\n\u00c9 um caso \u00fanico, de uma publica\u00e7\u00e3o que se aliou a uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa &#8211; de Carlinhos Cachoeira &#8211; e continuou impune, fora do alcance do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e da Pol\u00edcia Federal.<br \/>\nA capa de Veja n\u00e3o surpreende. H\u00e1 muito a revista abandonou qualquer veleidade de jornalismo.<br \/>\nAcusa a presidente da Rep\u00fablica Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula de conhecerem os esquemas Petrobras com base no seguinte trecho, de uma suposta confiss\u00e3o do doleiro Alberto Yousseff:<br \/>\n&#8211; O Planalto sabia de tudo &#8211; disse Youssef.<br \/>\n&#8211; Mas quem no Planalto? &#8211; perguntou o delegado.<br \/>\n&#8211; Lula e Dilma &#8211; respondeu o doleiro.<br \/>\nEra blefe.<br \/>\nNa sequ\u00eancia, a reportagem diz:<br \/>\n\u201cO doleiro n\u00e3o apresentou &#8211; e nem lhe foram pedidas &#8211; provas do que disse. Por enquanto, nesta fase do processo, o que mais interessa aos delegados \u00e9 ter certeza de que o depoente atuou diretamente ou pelo menos presenciou ilegalidades\u201d.<br \/>\nNa primeira fase da dela\u00e7\u00e3o premiada tem-se o criminoso falando o que quer. Enquanto n\u00e3o apresentar provas, a declara\u00e7\u00e3o n\u00e3o ter\u00e1 o menor valor. E Veja tem a fama de colocar o que quer nas declara\u00e7\u00f5es de fontes.<br \/>\nLigado ao PSDB do Paran\u00e1, o advogado de Yousseff desmentiu as informa\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o se sabe ainda qual \u00e9 o seu jogo.<br \/>\n<span class=\"intermenos\">As apostas erradas da Abril<\/span><br \/>\nGolbery do Couto e Silva dizia que a mentira tem mais valor que a verdade. A verdade \u00e9 mon\u00f3tona, tem uma s\u00f3 leitura. J\u00e1 a mentira traz um enorme conjunto de informa\u00e7\u00f5es a serem pesquisadas, as inten\u00e7\u00f5es do mentiroso, a maneira como a mentira foi montada.<br \/>\nDa\u00ed a import\u00e2ncia da capa de Veja: permitir desvendar o que est\u00e1 por tr\u00e1s da mentira.<br \/>\nA primeira pe\u00e7a do jogo \u00e9 entender a posi\u00e7\u00e3o atual do Grupo Abril.<br \/>\nApostas de alt\u00edssimo risco s\u00f3 s\u00e3o bancadas em momentos de alt\u00edssimo desespero.<br \/>\nA tacada da Veja torna quase irresist\u00edvel a proposta de regula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e de repor as defesas do cidad\u00e3o que foram suprimidas pelo ex-Ministrio Ayres Britto, ao revogar a Lei de Imprensa.<br \/>\nQual a raz\u00e3o de tanto desespero nessa aposta furada?<br \/>\nA explica\u00e7\u00e3o come\u00e7a alguns anos atr\u00e1s.<br \/>\nNo mercado de m\u00eddia, o futuro acenava para o advento da Internet e da TV a cabo e para o fim das revistas e do papel. As apostas da Abril foram sempre na dire\u00e7\u00e3o errada.<br \/>\nEla montou um dos primeiros portais brasileiros, o BOL, que posteriormente fundiu-se com a UOL. Gra\u00e7as \u00e0 sua influ\u00eancia pol\u00edtica, conseguiu frequ\u00eancias de UHF e canais de TV a cabo.<br \/>\nA editora endividou-se e, para tapar buracos, Civita foi se desfazendo de todas as joias da coroa. Passou os 50% que detinha na UOL para a Folha \u2013 por um valor insignificante; vendeu a TV A para a Telefonica.<br \/>\nAssociou-se ao grupo sul-africano Naspers, em uma opera\u00e7\u00e3o confusa, visando burlar o limite de 30% para capital estrangeiro em grupos de m\u00eddia, previstos na lei.<br \/>\nN\u00e3o parou por a\u00ed.<br \/>\nAdquiriu duas editoras \u2013 a Atica e a Scipionne \u2013, que dependem fundamentalmente de compras p\u00fablicas, confiando no poder de persuas\u00e3o dos seus vendedores junto \u00e0 rede escolar. A decis\u00e3o do MEC (Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o) de colocar todos os livros em uma publica\u00e7\u00e3o \u00fanica, para escolha dos professores, eliminou sua vantagem comparativa.<br \/>\nA\u00ed decidiu investir em cursos apostilados para prefeituras, um territ\u00f3rio pantanoso. Finalmente, \u201cdescobriu\u201d o caminho das pedras, passando a direcionar todas suas energias para a \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPara tanto, criou uma nova empresa, a Abril Educa\u00e7\u00e3o, colocou debaixo dela as editoras e os cursos e contratou um executivo ambicioso, Manoel Amorim,\u00a0 que aumentou exponencialmente o endividamento do grupo, para adquirir cursos e escolas.<br \/>\nFoi uma sucess\u00e3o de compras extremamente onerosas, que deixaram o grupo em m\u00e1 situa\u00e7\u00e3o financeira. A solu\u00e7\u00e3o foi vender parte do capital para um grupo estrangeiro. Nem isso resolveu sua situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo ano passado, em conversa com especialistas do setor de m\u00eddia, Gianca Civita, o primog\u00eanito, j\u00e1 antecipava que a editora iria ser reduzida a meia d\u00fazia de revistas e \u00e0 Veja. Colocara \u00e0 venda suas concess\u00f5es de UHF e esperava que algum pastor eletr\u00f4nico se habilitasse.<br \/>\n<span class=\"intermenos\">O cartel da jabuticaba<\/span><br \/>\nA editora viu-se depauperada em duas frentes. Uma, a pr\u00f3pria decad\u00eancia do mercado de revistas; outra, a descapitaliza\u00e7\u00e3o ainda maior para financiar a aventura educacional da Abril.<br \/>\nAl\u00e9m disso, foi v\u00edtima do maior tiro no p\u00e9 da hist\u00f3ria da m\u00eddia brasileira: o \u201ccartel da jabuticaba\u201d.<br \/>\nUm cartel tradicional consiste em um pacto comercial entre competidores visando aumentar os pre\u00e7os e os ganhos de todos. O \u201ccartel da jabuticaba\u201d brasileiro foi uma pe\u00e7a genial (da Globo) em que todos se uniram contra a distribui\u00e7\u00e3o de parte \u00ednfima da publicidade p\u00fablica para a imprensa regional e para a Internet.<br \/>\nAlcan\u00e7aram seu intento, mas n\u00e3o levaram o butim. A Internet n\u00e3o cresceu mas o resultado foi uma enorme concentra\u00e7\u00e3o de verbas na TV aberta &#8212; e, dentro dela, na TV Globo.<br \/>\nPoucos meses atr\u00e1s, o pr\u00f3prio Jo\u00e3o Roberto Marinho \u2013 um dos herdeiros da Globo \u2013 manifestava a interlocutores sua preocupa\u00e7\u00e3o com a concentra\u00e7\u00e3o da m\u00eddia. A Globo jogou em seu favor, \u00f3bvio; mas n\u00e3o contava com o despreparo das demais empresas sequer para entender onde estavam seus interesses.<br \/>\nQuando o faturamento do papel minguou, todos pularam para a Internet. Mas a piscina estava vazia gra\u00e7as \u00e0s press\u00f5es que eles pr\u00f3prios fizeram sobre a Secom e as ag\u00eancias.<br \/>\nHoje em dia, o mercado de TV a cabo passou a disputar acirradamente as verbas publicit\u00e1rias. Se indagar de um executivo do setor se a disputa \u00e9 com as revistas e jornais, ele dar\u00e1 de ombros: a imprensa escrita n\u00e3o tem mais a menor relev\u00e2ncia; a disputa \u00e9 com a TV aberta.<br \/>\n<span class=\"intermenos\">A bala de F\u00e1bio Barbosa<\/span><br \/>\n\u00c9 esse quadro de crise nas duas frentes que explica a bala de prata de F\u00e1bio Barbosa.<br \/>\nNos \u00faltimos meses, F\u00e1bio Barbosa contratou o INDG, de Vicente Falconi, para um trabalho de redu\u00e7\u00e3o de custos da Abril, paralelamente \u00e0 pr\u00f3pria redu\u00e7\u00e3o da Abril..<br \/>\nFalconi constatou o que o Blog j\u00e1 levantara alguns anos atr\u00e1s: a estrutura de Veja era superdimensionada para o conte\u00fado semanal.<br \/>\nNa \u00e9poca, montei um quadro com todas as reportagens de uma edi\u00e7\u00e3o, estimei o tempo-hora de cada rep\u00f3rter e editor e, no final, mostrava que seria poss\u00edvel entregar o mesmo conte\u00fado com um ter\u00e7o da reda\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCom metodologia muito mais gerencial, Falconi chegou \u00e0s mesmas conclus\u00f5es, resultando da\u00ed a demiss\u00e3o de v\u00e1rias pessoas em cargos-chave \u2013 inclusive Ot\u00e1vio Cabral, rep\u00f3rter das miss\u00f5es sens\u00edveis da revista, que acabou indo trabalhar na campanha de A\u00e9cio.<br \/>\nApenas amenizou um pouco a queda. Com as duas frentes comprometidas, a Abril entrou em uma sinuca de bico.<br \/>\nCom a morte de Roberto Civita, come\u00e7ou a enfrentar dificuldades crescentes para renovar os financiamentos. Desde o in\u00edcio do ano, os herdeiros de Roberto Civita est\u00e3o buscando compradores para a outra metade da Abril Educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAntes disso, desde o ano passado, decidiram sair definitivamente da \u00e1rea editorial. Mas a legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite \u00e0 Naspers ampliar sua participa\u00e7\u00e3o na editora. E, se n\u00e3o teve nenhum corte de verba oficial para suas publica\u00e7\u00f5es, por outro lado a Abril jamais encontrou espa\u00e7o no governo Dilma para acertos e grandes neg\u00f3cios, como uma mudan\u00e7a na legisla\u00e7\u00e3o sobre capital estrangeiro na m\u00eddia..<br \/>\n\u00c9 nesse quadro dram\u00e1tico, que o presidente do grupo, F\u00e1bio Barbosa, tenta a \u00faltima tacada, apostando todas as fichas em A\u00e9cio.<br \/>\n<span class=\"intermenos\">A \u00faltima chance<\/span><br \/>\nA carreira anterior de Barbosa foi no mercado banc\u00e1rio. Foi sucessivamente presidente do ABN Amro, depois do ABN-Real, quando o banco holand\u00eas adquiriu o Real; depois do Santander, quando o banco espanhol adquiriu os dois.<br \/>\nNo ABN e no Santander foi respons\u00e1vel por uma das maiores opera\u00e7\u00f5es imobili\u00e1rias do mercado. No ABN participou do empr\u00e9stimo de R$ 380 milh\u00f5es para a WTorres adquirir o esqueleto da Eletropaulo, na marginal Pinheiros. Seis meses depois, a companhia n\u00e3o tinha mais recursos para quitar o financiamento. Entregou parte do capital aos credores.<br \/>\nEm 2008, ainda na condi\u00e7\u00e3o de presidente indicado para o Santander, F\u00e1bio anunciou a aquisi\u00e7\u00e3o da torre pelo banco por R$ 1 bilh\u00e3o. \u201cA aquisi\u00e7\u00e3o desse im\u00f3vel \u00e9 um marco e demonstra a determina\u00e7\u00e3o do Santander em investir para que tenhamos um Banco cada vez mais forte e competitivo\u201d, afirma ele. (http:\/\/migre.me\/ms7aW).<br \/>\nAtuou no in\u00edcio e no final da opera\u00e7\u00e3o, assessorado por seu homem de confian\u00e7a, Jos\u00e9 Berenguer Neto.<br \/>\nEm pouco tempo come\u00e7aram a pipocar os problemas da WTorre. Atrasou a entrega da sede do Santander, que ingressou em ju\u00edzo com pedido de indeniza\u00e7\u00e3o de R$ 135 milh\u00f5es. A d\u00edvida fez com que a WTorre desistisse de lan\u00e7ar a\u00e7\u00f5es na Bolsa de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nEm outubro de 2010 a obra continuava causando transtorno, sem ser entregue (http:\/\/migre.me\/ms7Pc)<br \/>\nEm agosto de 2011, Fabio saiu do Santander. O clima azedou quando a dire\u00e7\u00e3o se deu conta dos problemas criados. O presidente mundial Emilio Botin colocou um homem de confian\u00e7a como esp\u00e9cie de interventor, levando Fabio a se demitir. Junto com ele saiu Jos\u00e9 Berenguer Neto, que assumiu um cargo na G\u00e1vea Investimentos, para atuar na \u00e1rea imobili\u00e1ria.<br \/>\nNa \u00e9poca, executivos do banco ouvidos pela imprensa disseram que no ABN Fabio tinha plena liberdade; no Santander, n\u00e3o mais. Fabio deixou o banco sendo elogiado pelo sucessor.<br \/>\nO epis\u00f3dio n\u00e3o causou tanto estardalha\u00e7o quanto a tentativa de Barbosa, no comando da Veja, de tentar um golpe de Estado armado com um 3 de paus.<br \/>\n<span class=\"intermenos\">Revista enfrenta sete processos por cal\u00fania<\/span><br \/>\nO PT e os partidos que fizeram parte da Coliga\u00e7\u00e3o Com a For\u00e7a do Povo, que reelegeu Dilma Rousseff presidente no domingo (26), encaminham sete a\u00e7\u00f5es na Justi\u00e7a contra a revista Veja. A publica\u00e7\u00e3o cravou, sem provas e a dois dias do segundo turno, que tanto Dilma quanto Lula &#8220;sabiam de tudo&#8221; no caso da Petrobras, investigado na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato.<br \/>\nUm dos pedidos foi encaminhado ao Tribunal Superior Eleitoral. A Corte chegou a condenar Veja a publicar direito de resposta \u00e0 Dilma e considerou a &#8220;reportagem&#8221; um pe\u00e7a eleitoral em favor do advers\u00e1rio A\u00e9cio Neves (PSDB), determinando a suspens\u00e3o de sua publicidade.<br \/>\nFoi necess\u00e1rio que o TSE emitisse um novo despacho ap\u00f3s a condena\u00e7\u00e3o, amea\u00e7ando multa de R$ 500 mil por hora, para que o portal da revista cumprisse a decis\u00e3o judicial nos termos apresentados pelo ministro Admar Gonzaga.<br \/>\n&#8220;Ao TSE, ser\u00e1 encaminhado pedido de direito de resposta, inclusive na revista Veja Online, por se tratar de reportagem mentirosa, caluniosa e difamat\u00f3ria. Encaminha-se, ainda, uma representa\u00e7\u00e3o para impedir qualquer publicidade desta edi\u00e7\u00e3o da revista em r\u00e1dio, TV e outdoor por configurar propaganda eleitoral negativa&#8221;, informou o PT.<br \/>\nAo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, um pedido de instaura\u00e7\u00e3o de procedimento de investiga\u00e7\u00e3o para apurar os abusos cometidos pela revista com a inten\u00e7\u00e3o de prejudicar a candidatura de Dilma e influenciar o resultado das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2014 tamb\u00e9m foi encaminhado.<br \/>\n<em>*Fonte: Jornal GGN, com o t\u00edtulo &#8220;A \u00faltima tacada de F\u00e1bio Barbosa e da Editora Abril&#8221;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luis Nassif* A aventura irrespons\u00e1vel de Veja \u2013 recorrendo a uma mat\u00e9ria provavelmente falsa para pedir o impeachment de um presidente da Rep\u00fablica &#8211; n\u00e3o se deve a receios de bolivarianos armados invadindo a Esplanada. 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