{"id":1935,"date":"2008-12-16T19:17:03","date_gmt":"2008-12-16T22:17:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=1935"},"modified":"2008-12-16T19:17:03","modified_gmt":"2008-12-16T22:17:03","slug":"polemica-do-pontal-do-estaleiro-ignora-o-peso-da-industria-naval-na-economia-gaucha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/polemica-do-pontal-do-estaleiro-ignora-o-peso-da-industria-naval-na-economia-gaucha\/","title":{"rendered":"Pol\u00eamica do Pontal do Estaleiro ignora o peso da ind\u00fastria naval na economia ga\u00facha"},"content":{"rendered":"<p><strong>Geraldo Hasse<\/strong><br \/>\nA controv\u00e9rsia sobre a constru\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios no pontal do Mello ignora sistematicamente o que o Estaleiro S\u00f3 e outros estabelecimentos similares representam para a hist\u00f3ria da ind\u00fastria no Rio Grande do Sul \u2013 n\u00e3o apenas a ind\u00fastria naval, mas a metal\u00fargica.<br \/>\nSeja qual for o aproveitamento da \u00e1rea do extinto estaleiro, a mem\u00f3ria hist\u00f3rica de Porto Alegre daria um salto se um dos mais antigos estabelecimentos fabris da capital reservasse uma parte de sua \u00e1rea para abrigar um museu de ind\u00fastria naval ga\u00facha.<br \/>\nO Estaleiro S\u00f3 foi fundado em 1850, \u00e9poca em que Porto Alegre era pouco mais do que uma aldeia, como escreveu o jornalista Manoelito de Ornellas num folheto publicit\u00e1rio sobre o centen\u00e1rio dessa ind\u00fastria.<br \/>\nSeus fundadores foram Antonio Henriques da Fonseca, Jo\u00e3o Ribeiro Henriques e Jos\u00e9 Manuel da Silva S\u00f3. Tratava-se da primeira ferraria e fundi\u00e7\u00e3o de que se tem not\u00edcia na capital, estabelecida no cora\u00e7\u00e3o de Porto Alegre &#8212; esquina da rua Uruguai com a Pra\u00e7a Montevideo, mais conhecida ent\u00e3o como a Pra\u00e7a dos Ferreiros.<br \/>\nO centro da cidade era voltado para o Lago Gua\u00edba. Em cada boca de rua transversal havia um trapiche. Era por \u00e1gua que a cidade recebia tudo que precisava para viver.<br \/>\nO cat\u00e1logo de produtos da oficina era imenso. Ela produzia canos, pregos, lamparinas, bacias, lampe\u00f5es para far\u00f3is de navega\u00e7\u00e3o, bandejas, ferros de passar roupa, bombas para po\u00e7os, sinos para igrejas e tachos de cobre.<br \/>\nDurante a Guerra do Paraguai (1865-1870), forneceu bocais, estribos e cornetas para o Ex\u00e9rcito Brasileiro. Foi nesse per\u00edodo que a empresa descobriu uma nova voca\u00e7\u00e3o ap\u00f3s fazer reparos em navios da Marinha do Brasil.<br \/>\nTamb\u00e9m fez reparos em barcos particulares. Henriques era s\u00f3cio da Companhia de Navega\u00e7\u00e3o do Jacuhy, dona dos vapores Riopardense, Correio, Viam\u00e3o, 7 de Setembro, Guarani, Irapu\u00e1 e Tupi. Pela reforma do vapor Tupi, em dezembro de 1865, o estaleiro recebeu 215 780 r\u00e9is.<br \/>\nEm 1870, Henriques saiu da firma, que ficou sob controle de Jos\u00e9 Manuel da Silva S\u00f3, deputado provincial pelo Partido Liberal. Em 1900, depois de v\u00e1rias altera\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias, passou a se chamar S\u00f3 e Filhos e, posteriormente, S\u00f3 e Cia., mudando, tamb\u00e9m, diversas vezes de endere\u00e7o. Em 1901, na exposi\u00e7\u00e3o estadual, apresentou o primeiro motor a querosene fabricado no Brasil. Foi premiado com medalha de ouro.<br \/>\nNas \u00faltimas d\u00e9cadas de sua exist\u00eancia, estabeleceu-se finalmente como sociedade an\u00f4nima, adotando o nome de Estaleiro S\u00f3 S.A. Depois de j\u00e1 constitu\u00eddo como um estaleiro, produziu mais de 170 embarca\u00e7\u00f5es, cerca de 30 modelos de navios, entre eles ferry boats, navios-tanque, baleeiras, rebocadores, iates e pesqueiros.<br \/>\nSeu apogeu ocorreu durante a d\u00e9cada de 1970. Nessa \u00e9poca, que coincide com a maior atividade da ind\u00fastria naval brasileira \u2013 concentrada ent\u00e3o em Niter\u00f3i e no Rio de Janeiro &#8211;, o S\u00f3 chegou a ter cerca de 3 mil funcion\u00e1rios.<br \/>\nNos anos 80, o setor naval no Brasil sofreu um forte decl\u00ednio, principalmente devido \u00e0 falta de financiamentos para a constru\u00e7\u00e3o de navios. O Estaleiro S\u00f3 iniciou, ent\u00e3o, um processo de diversifica\u00e7\u00e3o de suas atividades, abrindo uma divis\u00e3o de metal-mec\u00e2nica, destinada \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o e pr\u00e9-montagem de caldeiraria pesada, semi-pesada e leve. Essa iniciativa, que chegou a dar uma sobrevida \u00e0 empresa, n\u00e3o foi suficiente para impedir sua extin\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAl\u00e9m do S\u00f3, houve outros fabricantes de barcos em Porto Alegre. Os mais conhecidos e duradouros foram os estaleiros Alcaraz, Jo\u00e3o Becker, Mabilde e Marteletti. Como o S\u00f3, mas sem alcan\u00e7ar o porte do pioneiro, eles viviam da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os para navegadores avulsos, do atendimento de encomendas de empresas de navega\u00e7\u00e3o e principalmente de contratos com o governo estadual, sobretudo antes que as rodovias come\u00e7assem a tomar conta do transporte de cargas.<br \/>\nSempre houve licita\u00e7\u00f5es de barcos novos e de reformas em embarca\u00e7\u00f5es de servi\u00e7o, como as dragas usadas na manuten\u00e7\u00e3o de canais, lagoas e rios. Em 1940, o mercado de servi\u00e7os para os estaleiros ga\u00fachos era constitu\u00eddo por cerca de 3 mil embarca\u00e7\u00f5es \u2013 dragas, vapores, gasolinas, veleiros, lanchas, botes e escunas \u2013 catalogadas pela Secretaria de Via\u00e7\u00e3o e Obras P\u00fablicas.<br \/>\nAs rela\u00e7\u00f5es entre os estaleiros e o governo estadual nem sempre foram serenas.  Em 1927, o presidente do estado Get\u00falio Vargas criou estaleiros p\u00fablicos em Porto Alegre , Pelotas e Rio Grande. Esses estabelecimentos n\u00e3o deram conta dos servi\u00e7os, tanto que os estaleiros particulares continuaram em atividade, atendendo demandas privadas e encomendas p\u00fablicas. \u00c0s v\u00e9speras da revolu\u00e7\u00e3o de 1930, o Estaleiro Mabilde fabricou dois tanques de guerra em suas oficinas na Ilha da Pintada. Esses ve\u00edculos foram usados para intimidar os advers\u00e1rios na Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro.<br \/>\nFundado no in\u00edcio do s\u00e9culo XX pelo belga Pierre Fran\u00e7ois Alfonse Mabilde (1856-1918), o Estaleiro Mabilde tamb\u00e9m come\u00e7ou com uma oficina pr\u00f3xima de um trapiche no centro de Porto Alegre. Assim que sentiu a firmeza do mercado, instalou-se na Ilha da Pintada onde prosperou at\u00e9 ser arrasado pela enchente de 1941.<br \/>\nA luta pela recupera\u00e7\u00e3o foi infrut\u00edfera: em 1943, o Mabilde foi comprado pelo Cons\u00f3rcio Administrativo de Empresas de Minera\u00e7\u00e3o (Cadem), que precisava cuidar da sua frota de transporte de carv\u00e3o das minas da regi\u00e3o de S\u00e3o Ger\u00f4nimo para grandes consumidores de Porto Alegre, inclusive navios.<br \/>\nEm 1947, quando possu\u00eda 467 funcion\u00e1rios, o estaleiro da Ilha Pintada foi encampado pelo governo do Estado, que reduziu o pessoal para 10% do encontrado. Suas instala\u00e7\u00f5es foram alugadas para estaleiros particulares. O locat\u00e1rio mais duradouro foi o Estaleiro S\u00f3, que por mais de 20 anos fez da Ilha Pintada a sua base de reparos navais.<br \/>\nDa d\u00e9cada de 90 at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, o Estaleiro Sorenave operou na Pintada at\u00e9 se transferir para Triunfo. A partir de 2004, a antiga \u00e1rea do Mabilde foi arrendada pelo Estaleiro Ecnavi, pertencente \u00e0 Navega\u00e7\u00e3o Amandio Rocha, que opera uma frota de 15 rebocadores no Lago Gua\u00edba e arredores. O Ecnavi d\u00e1 prioridade \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o dos barcos do grupo, mas faz reparos em embarca\u00e7\u00f5es de terceiros e pode fabricar ve\u00edculos novos.<br \/>\nUm ano antes da cria\u00e7\u00e3o do Departamento Estadual de Portos, Rios e Canais (DEPRC), em 1951, o governo ga\u00facho comprou o terreno onde instalaria um estaleiro de reparos em Triunfo. Nos seus melhores momentos, essa oficina junto ao rio Jacu\u00ed teve mais de uma centena de oper\u00e1rios aptos a fazer reformas navais e fabricar toda esp\u00e9cie de b\u00f3ias e sinais n\u00e1uticos.<br \/>\nCrescentemente desfalcado, seu pessoal reduziu-se ao m\u00ednimo necess\u00e1rio para fazer reparos leves nas embarca\u00e7\u00f5es de servi\u00e7o da Superintend\u00eancia de Portos e Hidrovias (SPH), sucessora do DEPRC. Por isso, o estaleiro oficial de Triunfo \u00e9 considerado hoje um bom retrato da situa\u00e7\u00e3o da navega\u00e7\u00e3o no Rio Grande do Sul.<br \/>\n(O texto acima faz parte do livro Navegando pelo Rio Grande, que conta a hist\u00f3ria das hidrovias ga\u00fachas. Para adquiri-lo, ligue para J\u00e1 Editores no 51 3330.7272).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse A controv\u00e9rsia sobre a constru\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios no pontal do Mello ignora sistematicamente o que o Estaleiro S\u00f3 e outros estabelecimentos similares representam para a hist\u00f3ria da ind\u00fastria no Rio Grande do Sul \u2013 n\u00e3o apenas a ind\u00fastria naval, mas a metal\u00fargica. 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