{"id":19519,"date":"2014-11-17T11:40:23","date_gmt":"2014-11-17T13:40:23","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=19519"},"modified":"2014-11-17T11:40:23","modified_gmt":"2014-11-17T13:40:23","slug":"livro-resgata-a-historia-da-ap-que-nasceu-catolica-e-morreu-guerrilheira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/livro-resgata-a-historia-da-ap-que-nasceu-catolica-e-morreu-guerrilheira\/","title":{"rendered":"Livro resgata a hist\u00f3ria da AP, que nasceu cat\u00f3lica e morreu guerrilheira"},"content":{"rendered":"<p>O jornalista Otto Filgueiras lan\u00e7ou no segundo semestre de 2014 o primeiro volume do livro <em>Revolucion\u00e1rios sem rosto: uma hist\u00f3ria da A\u00e7\u00e3o Popular<\/em>, da Editora Caio Prado, do Rio. Com 400 p\u00e1ginas, o primeiro volume abrange o per\u00edodo 1930-68. O volume 2, com outras tantas p\u00e1ginas, vai at\u00e9 1986,mas ainda n\u00e3o tem data de lan\u00e7amento.<br \/>\nBaseado principalmente na hist\u00f3ria documental, mas tamb\u00e9m em depoimentos orais de 200 antigos dirigentes, militantes, simpatizantes, advogados de presos pol\u00edticos e ativistas de outras organiza\u00e7\u00f5es, o livro narra a trajet\u00f3ria te\u00f3rica, pol\u00edtica, ideol\u00f3gica e pr\u00e1tica da A\u00e7\u00e3o Popular e de seus personagens.<br \/>\nA AP foi uma das principais siglas pol\u00edticas engajadas na resist\u00eancia \u00e0 ditadura militar de 1964-85, ao lado da ALN, do PCdoB e da VPR. Entre seus militantes originais, destacaram-se o soci\u00f3logo mineiro Herbert de Souza (Betinho, j\u00e1 falecido) e o l\u00edder estudantil Jos\u00e9 Serra, que lidera uma fac\u00e7\u00e3o do PSDB paulista.<br \/>\nRelativamente popular no seu tempo, a AP \u00e9 pouco conhecida pelas novas gera\u00e7\u00f5es. De origem crist\u00e3, principalmente com influ\u00eancia de pensadores cat\u00f3licos humanistas como Emmanuel Mounier, Teilhard de Chardin, Jacques Maritain, o padre Louis-Joseph Lebret e o padre brasileiro Henrique Lima Vaz, mas tamb\u00e9m influenciada por pensadores te\u00f3ricos progressistas da igreja presbiteriana como o pastor estadunidense Richard Shaull, a AP come\u00e7ou a ser articulada pela esquerda cat\u00f3lica a partir de 1961, em Minas Gerais, onde surgiu o jornal A\u00e7\u00e3o Popular, editado por Vinicius Caldeira Brant.<br \/>\nInicialmente, a A\u00e7\u00e3o Popular era considerada apenas um movimento, mas logo em 1962 seus articuladores realizaram duas reuni\u00f5es nacionais, primeiro em Belo Horizonte e depois em S\u00e3o Paulo, quando esbo\u00e7aram seu estatuto ideol\u00f3gico. Seu congresso de funda\u00e7\u00e3o s\u00f3 aconteceu no carnaval de 1963, em Salvador, na Escola de Veterin\u00e1ria da Universidade Federal da Bahia (UFBA), quando foi aprovado seu documento-base. A partir de ent\u00e3o, a AP passou a ter um referencial te\u00f3rico e se constituiu nacionalmente como organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, embora sem registro legal jur\u00eddico.<br \/>\nAo longo de sua trajet\u00f3ria, a A\u00e7\u00e3o Popular aglutinou mais de 25 mil militantes, simpatizantes e pelo menos um milhar deles foi deslocado para trabalhar em f\u00e1bricas e no campo a partir de 1968, na chamada \u201cfase mao\u00edsta\u201d, que atendia \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o do PC chin\u00eas liderado por Mao Tse Tung.<br \/>\nUma das principais bases pol\u00edticas da resist\u00eancia ao regime militar, a AP defendeu a luta armada para derrubar a ditadura, mas era contra as a\u00e7\u00f5es foquistas. Mesmo se esfor\u00e7ando para manter seus v\u00ednculos sociais, inclusive com milit\u00e2ncia pol\u00edtica dentro de partidos (PTB e PSB), terminou isolada e esfacelada pela repress\u00e3o da ditadura militar.<br \/>\nO livro esmiu\u00e7a os embates internos que levaram a A\u00e7\u00e3o Popular a migrar do cristianismo esquerdista ao marxismo-leninismo e, tamb\u00e9m, a hist\u00f3ria de seus principais militantes e dirigentes, entre eles Jair Ferreira de S\u00e1, um dos fundadores da organiza\u00e7\u00e3o, que esteve\u00a0 no comando desde o come\u00e7o e foi seu principal dirigente nos anos mais duros do regime militar.<br \/>\nJair j\u00e1 estava clandestino em 1968, quando coordenou os protestos populares durante as comemora\u00e7\u00f5es oficiais do dia 1 de maio em S\u00e3o Paulo, epis\u00f3dio que levou o governador Abreu Sodr\u00e9 a submeter-se aos militares. Al\u00e9m de pesquisar o arquivo de Jair Ferreira de S\u00e1, depositado no Arquivo P\u00fablico do Rio de Janeiro, Otto recebeu da fam\u00edlia o seu arquivo pessoal.<br \/>\nEntre as mais de 200 entrevistas realizadas, destacam-se os depoimentos de personagens hist\u00f3ricos, como o Padre Henrique Lima Vaz (j\u00e1 falecido), na \u00e9poca fil\u00f3sofo e principal te\u00f3rico da esquerda cat\u00f3lica, cujas ideias foram decisivas na funda\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o e na reda\u00e7\u00e3o do documento-base aprovado em 1963, \u00e9poca que esteve em alta o humanismo do Conc\u00edlio Vaticano II, liderado pelo Papa Jo\u00e3o XXIII (1881-1963), um dos inspiradores da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Lan\u00e7ada em 1968 na Confer\u00eancia Episcopal Latino-Americana de Medell\u00edn, na Col\u00f4mbia, a TL exigia da Igreja Cat\u00f3lica a \u201cop\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres\u201d, ou seja, a volta do cristianismo original.<br \/>\n<span class=\"intermenos\">Otto Filgueiras tamb\u00e9m registra o depoimento de outras figuras:<\/span><br \/>\n+ o oper\u00e1rio \u00canio Seabra, que liderou as greves de Contagem (MG), em 1968;<br \/>\n+ o oper\u00e1rio Jos\u00e9 Barbosa (j\u00e1 falecido), um dos l\u00edderes da\u00a0manifesta\u00e7\u00e3o contra a ditadura no 1 de\u00a0maio de 1968, na Pra\u00e7a da S\u00e9, em S\u00e3o Paulo;<br \/>\n+ o mineiro Jos\u00e9 Gomes Dazinho (j\u00e1 falecido), l\u00edder oper\u00e1rio nas minas de ouro e prata, em Nova Lima (MG), e deputado at\u00e9\u00a01964, quando foi preso e torturado;<br \/>\n+ o l\u00edder campon\u00eas Manoel Concei\u00e7\u00e3o Santos, dirigente da organiza\u00e7\u00e3o;<br \/>\n+ Jean Marc, ex-presidente da UNE;<br \/>\n+ Doralina Rodrigues Carvalho, Jos\u00e9 Fidelis Sarno, Jos\u00e9 Luiz Moreira Guedes, Maria Nazar\u00e9 Pedrosa,\u00a0 ex-dirigentes da UNE;<br \/>\n+ Maria Auxiliadora Arantes, Anete Rabelo, Aldo Arantes, Haroldo Lima e Renato Rabelo, dirigentes do PCdoB;<br \/>\n+ O pessoal que participava do Movimento de Educa\u00e7\u00e3o de Base (MEB) no governo Jo\u00e3o Goulart, entre eles Nilson Batista e Z\u00e9lia Rezende;<br \/>\n+ Fel\u00edcia Andrade de Moraes, militante da AP e companheira de Rui Fraz\u00e3o, dirigente\u00a0 da AP morto pela ditadura.<br \/>\n+ Tib\u00e9rio Canuto e Emiliano Jos\u00e9, ex-dirigentes da Uni\u00e3o Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES).<br \/>\nCom esses e outros, o pesquisador reuniu dados sobre a presen\u00e7a da AP nos movimentos estudantil, campon\u00eas e oper\u00e1rio, particularmente de Contagem (MG), Osasco, S\u00e3o Paulo e no ABC paulista nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970.<br \/>\nCom base na documenta\u00e7\u00e3o encontrada nos arquivos foi poss\u00edvel esclarecer tamb\u00e9m a pris\u00e3o e morte dos militantes e dirigentes da AP Jorge Leal Gon\u00e7alves, Raimundo Eduardo da Silva, Luiz Hirata, Paulo Stuart Wright, Umberto C\u00e2mara, Honestino Guimar\u00e3es, Jos\u00e9 Carlos da Mata Machado, Gildo Macedo, Eduardo Collier, Fernando Santa Cruz e Paulo Stuart Wright.<br \/>\nEles foram presos em agosto, setembro\u00a0 e outubro de 1973 durante uma opera\u00e7\u00e3o executada pelo Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito (CIE), que capturou mais de 40 pessoas da organiza\u00e7\u00e3o. Morto no DOI-CODI de S\u00e3o Paulo, o dirigente Paulo Stuart Wright, de origem norte-americana e religi\u00e3o presbiteriana, foi enterrado no Cemit\u00e9rio de Perus com o nome de Pedro Tim, mas seu corpo nunca foi encontrado.<br \/>\nO relato de Otto Filgueiras configura uma das mais perturbadoras viagens \u00e0s pris\u00f5es do governo militar, pois revela grandezas e mis\u00e9rias do comportamento dos dois lados da hist\u00f3ria. O rep\u00f3rter achou nos arquivos policiais um documento do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a que orienta como interrogar e torturar os militantes da AP.<br \/>\nSegundo o documento, o pessoal da AP era bem preparado ideologicamente, resistia para \u201cfalar\u201d mesmo sob tortura e, quando dava depoimento, \u201cinventava est\u00f3ria\u201d. Por outro lado, alguns cap\u00edtulos se referem \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o de pessoas ligadas \u00e0 AP com os \u00f3rg\u00e3os da repress\u00e3o. Foi a partir dessas dela\u00e7\u00f5es que o CIE promoveu o cruel desmantelamento da AP em 1973.<br \/>\nO pano de fundo da hist\u00f3ria escrita por Otto Filgueiras \u00e9 a luta pelo socialismo em face do processo capitalista no Brasil, que vem crescendo enquanto a maioria dos regimes comunistas perdeu-se na voragem da Hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalista Otto Filgueiras lan\u00e7ou no segundo semestre de 2014 o primeiro volume do livro Revolucion\u00e1rios sem rosto: uma hist\u00f3ria da A\u00e7\u00e3o Popular, da Editora Caio Prado, do Rio. Com 400 p\u00e1ginas, o primeiro volume abrange o per\u00edodo 1930-68. O volume 2, com outras tantas p\u00e1ginas, vai at\u00e9 1986,mas ainda n\u00e3o tem data de lan\u00e7amento. 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