{"id":19755,"date":"2014-12-03T20:47:52","date_gmt":"2014-12-03T22:47:52","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=19755"},"modified":"2014-12-03T20:47:52","modified_gmt":"2014-12-03T22:47:52","slug":"como-a-policia-federal-chegou-a-petrobras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/como-a-policia-federal-chegou-a-petrobras\/","title":{"rendered":"Como a Policia Federal chegou \u00e0 Petrobr\u00e1s"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"intermenos\">\u00a0<\/span>Na sede regional da Pol\u00edcia Federal em Curitiba, onde trabalham os agentes que deram in\u00edcio \u00e0\u00a0Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, o ambiente \u00e9 de prudente satisfa\u00e7\u00e3o. \u201cJamais imaginamos um caso t\u00e3o grande\u2026 Nem em sonho\u201d, admite Marcio Adriano Anselmo, o delegado que iniciou a maior investiga\u00e7\u00e3o por corrup\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria brasileira.<br \/>\nAnselmo tampouco imaginaria que uma modesta investiga\u00e7\u00e3o contra tr\u00eas especialistas em lavagem de dinheiro, em Bras\u00edlia e S\u00e3o Paulo, acabaria por conduzi-lo a Londrina (sua cidade natal, a 400 quil\u00f4metros de Curitiba), feudo do contrabandista\u00a0Alberto Youssef, um velho conhecido da PF, cujas confiss\u00f5es acabariam detonando um esc\u00e2ndalo de resson\u00e2ncia mundial.<br \/>\nH\u00e1 16 meses, em julho de 2013, Anselmo havia voltado seu foco para Carlos Habib Chater,\u00a0um doleiro\u00a0que havia anos operava em Bras\u00edlia. Chater havia sido recentemente vinculado a um pol\u00eamico ex-deputado de Londrina, Jos\u00e9 Janene (PP-PR), morto em 2010. Mantinha uma rede de lavagem de dinheiro criada por seu pai (preso, como ele, h\u00e1 dois meses), e a PF sabia que fazia contatos em S\u00e3o Paulo com outro doleiro, Ra\u00fal Henrique Srour, que havia sido condenado em 2005 na chamada Opera\u00e7\u00e3o Banestado, mas j\u00e1 terminara de cumprir pena.<br \/>\nA partir de agosto, quando a Justi\u00e7a autorizou escutas telef\u00f4nicas, descobriu-se tamb\u00e9m que Chater trocava continuamente mensagens telef\u00f4nicas sobre suas atividades com um desconhecido. \u201cEra uma opera\u00e7\u00e3o de pequena para m\u00e9dia\u201d, diz Anselmo. \u201cN\u00e3o t\u00ednhamos nem ideia do que ir\u00edamos encontrar.\u201d<br \/>\nA equipe de Anselmo era formada por mais dois agentes. A investiga\u00e7\u00e3o prosseguiu de forma discreta durante v\u00e1rias semanas. Depois de analisar milhares de opera\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias, os tr\u00eas policiais vislumbraram um esquema com empresas fantasmas e transfer\u00eancias injustificadas. Avan\u00e7aram lentamente, at\u00e9 que no come\u00e7o de outubro o caso teve seu primeiro ponto de inflex\u00e3o: a pessoa que tantas mensagens trocava com Charter via smartphone era Alberto Youssef, o mesmo especialista em lavagem de dinheiro que, num acordo de colabora\u00e7\u00e3o em 2004, havia se livrado de uma pena muito mais longa na Opera\u00e7\u00e3o Banestado \u2013 por coincid\u00eancia, o primeiro caso financeiro importante julgado pelo\u00a0jovem juiz Sergio Moro, da 13\u00aa. Vara Criminal Federal de Curitiba.<br \/>\n\u201cN\u00e3o pod\u00edamos acreditar que fosse Youssef\u201d, conta Anselmo. \u201cFoi um momento inesquec\u00edvel.\u201d Al\u00e9m de levar o caso para Curitiba, a descoberta significava que o doleiro e contrabandista havia violado seu acordo de dela\u00e7\u00e3o premiada; estava novamente na ativa. Continuaria em opera\u00e7\u00e3o o esquema supostamente desbaratado anos antes? A palavra\u00a0Petrobras, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o aparecia nem remotamente no caso.<br \/>\nMas o reaparecimento de Youssef aproximava os policiais de outro foco importante da investiga\u00e7\u00e3o: a escorregadia figura de Nelma Kodama, \u201ca Dama do Mercado\u201d, influente doleira paulista que, al\u00e9m do mais, era amante de Youssef. Kodama havia se safado do caso Banestado porque \u201cfoi a \u00fanica pessoa a quem Youssef n\u00e3o delatou\u201d, segundo os policiais, \u201cseja por amor ou para que continuasse o neg\u00f3cio\u201d. \u201cEla sempre havia movimentado grandes quantias de dinheiro, somas muito elevadas vinculadas a grandes comerciantes do setor de importa\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o. Mas at\u00e9 aquele momento havia conseguido se livrar. [\u2026] Era uma pessoa muito complicada, considerava-se inalcan\u00e7\u00e1vel, mostrava muita confian\u00e7a em si mesma.\u201d<br \/>\n\u201cContinu\u00e1vamos sendo uma equipe muito pequena, mas mesmo assim continuamos puxando o fio\u201d, recorda outro agente. Mas faltavam as provas\u2026 \u201cEra poss\u00edvel que se tornasse um caso maior do que o esperado, mas nem isso.\u201d A palavra \u2018Petrobras\u2019 s\u00f3 apareceu pela primeira vez nos autos da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato em janeiro deste ano.<br \/>\nFoi, como tantas vezes, por um descuido: especificamente um presente. Os agentes comprovaram que Youssef acabava de comprar um carro de luxo (300.000 reais) em nome de Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da empresa petroleira de capital misto. \u201cAchamos isso muito estranho\u201d, afirma um agente. \u201cO sal\u00e1rio de um diretor da Petrobras pode superar os 100.000 reais (40.000 d\u00f3lares) mensais.\u201d Com um meio-sorriso, Anselmo relembra que \u201cfoi a\u00ed que a temperatura come\u00e7ou a subir de verdade\u201d.<br \/>\nOs policiais se lembraram de que o falecido ex-deputado Janene, s\u00f3cio de Chater, havia sido o respons\u00e1vel por colocar Paulo Roberto Costa \u00e0 frente da Diretoria de Abastecimento da empresa, em 2004. E ampliaram o campo de atua\u00e7\u00e3o: \u201cCome\u00e7amos a investigar outras pessoas e, pela primeira vez, compreendemos que podia se tratar de um caso hist\u00f3rico\u201d.<br \/>\nO carro dado por Youssef a Costa era justificado como sendo o pagamento por supostos \u201cservi\u00e7os de consultoria\u201d. Havia milhares de notas fiscais por \u201cservi\u00e7os de consultoria\u201d. Poucas semanas depois, veio \u00e0 tona uma gigantesca m\u00e1quina de lavagem de dinheiro.<br \/>\nOs suspeitos transferiam somas elevadas ao estrangeiro, usando uma rede com mais de cem empresas de fachada e centenas de contas banc\u00e1rias que remetiam milh\u00f5es de d\u00f3lares para a China e Hong Kong. As companhias, pura cosm\u00e9tica financeira, simulavam importa\u00e7\u00f5es e exporta\u00e7\u00f5es com o \u00fanico prop\u00f3sito de receber e mandar dinheiro, sem com\u00e9rcio algum de produtos ou servi\u00e7os reais.<br \/>\nAs autoridades judiciais calculam que a quantia desviada chega a 10 bilh\u00f5es de reais. O dinheiro provinha principalmente do tr\u00e1fico de drogas, do contrabando de diamantes e do desvio de recursos p\u00fablicos (nesse caso, como seria posteriormente revelado, em\u00a0obras encomendadas pela Petrobras a grandes empreiteiras, com or\u00e7amentos de bilh\u00f5es de reais, dos quais eram sistematicamente desviados pelo menos 3% em subornos). Posteriormente, e independentemente da origem do dinheiro lavado, os valores eram reintroduzidos no sistema mediante neg\u00f3cios de postos de gasolina, lavanderias e hot\u00e9is.<br \/>\nO chamado\u00a0Petrol\u00e3o\u00a0veio a p\u00fablico em 17 de mar\u00e7o,\u00a0quando a Pol\u00edcia Federal deteve 24 pessoas\u00a0(entre eles os doleiros mencionados nesta reportagem) por evas\u00e3o de divisas em seis Estados. A imprensa brasileira ainda n\u00e3o citava o nome da Petrobras no notici\u00e1rio. Ele s\u00f3 apareceria tr\u00eas dias depois, quando Paulo Roberto Costa foi detido, ap\u00f3s a comprova\u00e7\u00e3o de que estava destruindo documentos relativos \u00e0 sua longa rela\u00e7\u00e3o com Youssef.<br \/>\nAmbos chegaram a um acordo de colabora\u00e7\u00e3o com a Justi\u00e7a e se tornaram delatores em troca de uma redu\u00e7\u00e3o da pena. \u201cA\u00ed \u00e9 que o caso explodiu\u201d, admite Anselmo. Os tr\u00eas policiais passaram a ser quinze (cinco delegados e dez agentes). A investiga\u00e7\u00e3o ganhou propor\u00e7\u00f5es gigantescas, com suspeitas crescentes sobre a implica\u00e7\u00e3o de altos executivos de empresas e pol\u00edticos que eram citados nos depoimentos dos\u00a0arrependidos.<br \/>\nYoussef, Costa e um diretor da empresa de engenharia Toyo-Setal, Julio Camargo, revelaram a exist\u00eancia de um\u00a0clube\u00a0de 13 empreiteiras que dividiam entre si os contratos com a Petrobras. As revela\u00e7\u00f5es indicavam que parte do dinheiro pago em subornos durante 10 ou 15 anos se destinava aos cofres de v\u00e1rios partidos pol\u00edticos.<br \/>\nUm duro golpe no\u00a0establishment\u00a0empresarial, pol\u00edtico (e possivelmente banc\u00e1rio) do Brasil: as construtoras investigadas\u00a0s\u00e3o respons\u00e1veis por oito das dez maiores obras do pa\u00eds. O presidente do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o, Augusto Nardes, afirmou com preocupa\u00e7\u00e3o que o caso tem potencial para parar o Brasil, caso as nove maiores empresas sob suspeita sejam finalmente declaradas inid\u00f4neas para assinar contratos com o setor p\u00fablico.<br \/>\nH\u00e1 pouco mais de duas semanas ocorreu o segundo momento que o delegado Anselmo e sua equipe (e tamb\u00e9m muitos brasileiros) jamais ir\u00e3o esquecer:\u00a0a deten\u00e7\u00e3o, na sexta-feira, dia 14, de 21 diretores de nove grandes empresas\u00a0que juntas somavam contratos no valor de 59 bilh\u00f5es de reais com a maior empresa da Am\u00e9rica Latina. Batizaram a opera\u00e7\u00e3o de Ju\u00edzo Final. O s\u00e1bado, dia 15, como lembraram com orgulho na sede da PF em Curitiba, era o Dia da Rep\u00fablica. E no domingo, dia 16, o anivers\u00e1rio da Pol\u00edcia Federal. Nesse mesmo dia, 16 meses depois de o delegado Anselmo voltar seu foco para a casa de c\u00e2mbio que Carlos Chater mantinha num posto de gasolina em Bras\u00edlia, a presidenta Dilma Rousseff declarou, na Austr\u00e1lia, que a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato\u00a0\u201cpoderia mudar o Brasil para sempre\u201d. (Pedro Cifuentes, do El Pa\u00eds)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Na sede regional da Pol\u00edcia Federal em Curitiba, onde trabalham os agentes que deram in\u00edcio \u00e0\u00a0Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, o ambiente \u00e9 de prudente satisfa\u00e7\u00e3o. \u201cJamais imaginamos um caso t\u00e3o grande\u2026 Nem em sonho\u201d, admite Marcio Adriano Anselmo, o delegado que iniciou a maior investiga\u00e7\u00e3o por corrup\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria brasileira. 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