{"id":20424,"date":"2015-01-20T20:18:45","date_gmt":"2015-01-20T22:18:45","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=20424"},"modified":"2015-01-20T20:18:45","modified_gmt":"2015-01-20T22:18:45","slug":"nao-posso-me-queixar-da-vida-que-levei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/nao-posso-me-queixar-da-vida-que-levei\/","title":{"rendered":"&quot;N\u00e3o posso me queixar da vida que levei&quot;"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O rep\u00f3rter Renan Antunes de Oliveira entrevistou Marco Archer em 2005, numa pris\u00e3o na Indon\u00e9sia. O texto original foi publicado no jornal J\u00c1 na \u00e9poca. Abaixo um relato atualizado no dia de sua morte em janeiro de 2015:<\/strong><\/em><br \/>\nO carioca Marco Archer Cardoso Moreira viveu 17 anos em Ipanema, 25 traficando drogas pelo mundo e 11 em cadeias da Indon\u00e9sia, at\u00e9 morrer fuzilado, aos 53, neste s\u00e1bado (17), por senten\u00e7a da Justi\u00e7a deste pa\u00eds mu\u00e7ulmano.<br \/>\nDurante quatro dias de entrevista em Tangerang, em 2005, ele se abriu para mim: \u201cSou traficante, traficante e traficante, s\u00f3 traficante\u201d.<br \/>\nDemonstrou at\u00e9 uma ponta de orgulho: \u201cNunca tive um emprego diferente na vida\u201d. Contou que tomou \u201ctodo tipo de droga que existe\u201d.<br \/>\nNaquela hora estava desafiante, parecia acreditar que conseguiria reverter a senten\u00e7a de morte.<br \/>\nMarco sabia as regras do pa\u00eds quando foi preso no aeroporto da capital Jakarta, em 2003, com 13,4 quilos de coca\u00edna escondidos dentro dos tubos de sua asa delta.<br \/>\nEle morou na ilha indon\u00e9sia de Bali por 15 anos, falava bem a l\u00edngua bahasa e sentiu que a parada seria dura.<br \/>\nTanto sabia que fugiu do flagrante. Mas acabou recapturado 15 dias depois, quando tentava escapar para o Timor do Leste.<br \/>\nFoi processado, condenado, se disse arrependido. Pediu clem\u00eancia atrav\u00e9s de Lula, Dilma, Anistia Internacional e at\u00e9 do papa Francisco, sem sucesso. O fuzilamento como puni\u00e7\u00e3o para crimes \u00e9 apoiado por quase 70% do povo de l\u00e1.<br \/>\nNa m\u00eddia brasileira, Marco foi alternadamente apresentado como \u201cum garoto carioca\u201d (apesar dos 42 anos no momento da pris\u00e3o), ou \u201cinstrutor de asa delta\u201d, neste caso um hobby transformado na profiss\u00e3o que ele nunca exerceu.<br \/>\nPara Rodrigo Muxfeldt Gularte, 42, o outro brasileiro condenado por tr\u00e1fico, que espera fuzilamento para fevereiro, companheiro de cela dele em Tangerang, \u201cMarco teve uma vida que merece ser filmada\u201d.<br \/>\nRodrigo at\u00e9 ofereceu um roteiro sobre o amigo \u00e0 cineasta curitibana Laurinha Dalcanale, exaltando: \u201cEle fez coisas extraordin\u00e1rias, incr\u00edveis.\u201d<br \/>\nO rep\u00f3rter pediu um exemplo: \u201cViajou pelo mundo todo, teve um monte de mulheres, foi nos lugares mais finos, comeu nos melhores restaurantes, tudo s\u00f3 no glamour, nunca usou uma arma, o cara \u00e9 demais.\u201d<br \/>\nPara amigos em liberdade que trabalharam para solt\u00e1-lo, o que aconteceu teria sido \u201capenas um erro\u201d do qual ele estaria arrependido.<br \/>\nNa vers\u00e3o mais nobre, seria a tentativa desesperada de obter dinheiro para pagar uma conta de hospital pendurada em Cingapura \u2013 Marco estaria preocupado em n\u00e3o deixar o nome sujo naquele pa\u00eds.<br \/>\nA conta derivou de uma longa temporada no hospital depois de um acidente de asa delta. Ter sobrevivido deu a ele, segundo os amigos, um incr\u00edvel sentimento de invulnerabilidade.<br \/>\nEle jamais se livrou das sequelas. Cheio de pinos nas pernas, andava com dificuldade, o que n\u00e3o o impediu de fugir espetacularmente no aeroporto quando os policiais descobriram coca\u00edna em sua asa delta.<br \/>\nArriscou tudo ali. Um alerta de bomba refor\u00e7ara a vigil\u00e2ncia no aeroporto. Ele chegou a pensar em largar no aeroporto a coca\u00edna que transportava e ir embora, mas decidiu correr o risco.<br \/>\nCom sua ficha corrida, a campanha pela sua liberdade nunca decolou das redes sociais.<br \/>\nA m\u00e3e dele, dona Carolina, conseguiu o apoio inicial de Fernando Gabeira, na C\u00e2mara Federal, com voto contra de Jair Bolsonaro.<br \/>\nO Itamaraty e a presid\u00eancia se mexeram cada vez que alguma c\u00e2mera de TV foi ligada, mesmo sabendo da inutilidade do esfor\u00e7o.<br \/>\nMesmo aparentemente confiante, ele deixava transparecer que tudo seria in\u00fatil, porque falava sempre no passado, em tom resignado: \u201cN\u00e3o posso me queixar da vida que levei\u201d.<br \/>\nMarco me contou que come\u00e7ou no tr\u00e1fico ainda na adolesc\u00eancia, diretamente com os cart\u00e9is colombianos, levando coca de Medell\u00edn para o Rio de Janeiro.<br \/>\nAdulto, era um dos capos de Bali, onde conquistou fama de um sujeito carism\u00e1tico e bem humorado.<br \/>\nA paradis\u00edaca Bali \u00e9 um dos principais mercados de coca\u00edna do mundo gra\u00e7as a turistas ocidentais ricos que v\u00e3o l\u00e1 em busca de uma vida hedonista: praias deslumbrantes, droga f\u00e1cil, farta \u2014 e cara.<br \/>\nO quilo da coca nos pa\u00edses produtores, como Peru e Bol\u00edvia, custa 1 000 d\u00f3lares. No Brasil, cerca de 5 000.<br \/>\nEm Bali, a mesma coca \u00e9 negociada a pre\u00e7os que variam entre 20 000 e 90 000 d\u00f3lares, dependendo da oferta. Numa temporada de escassez, por conta da pris\u00e3o de v\u00e1rios traficantes, o quilo chegou a 300 000 d\u00f3lares.<br \/>\nPor ser um dos destinos prediletos de surfistas e praticantes de asa delta, e pela possibilidade de lucros fabulosos, Bali atrai traficantes como Marco.<br \/>\nEles se passam por pessoas em busca de grandes ondas, e costumam carregar o contrabando no interior das pranchas de surf e das asas deltas.<br \/>\nArcher foi pego assim. Tinha \u00e0 m\u00e3o, sempre que desembarcava nos aeroportos, um \u00e1lbum de fotos que o mostrava voando, o que de fato fazia.<br \/>\nO homem preso por narcotr\u00e1fico passou a maior parte da entrevista comigo chapado. O consumo de drogas em Tangerang era uma banalidade.<br \/>\nPirado, Marco fazia planos mirabolantes \u2013 como encomendar de um amigo carioca uma nova asa, para quando sa\u00edsse da cadeia.<br \/>\nNos momentos de consci\u00eancia, mostrava que estava focado na grande batalha: \u201cVou fazer de tudo para sair vivo desta\u201d.<br \/>\nMarco era um traficante tarimbado: \u201cNunca fiz nada na vida, exceto viver do tr\u00e1fico.\u201d Gabava-se de n\u00e3o ter servido ao Ex\u00e9rcito, nem pagar imposto de renda. Nunca teve tal\u00e3o de cheques e ironizava da \u00fanica vez numa urna: \u201cMinha m\u00e3e me pediu para votar no Fernando Collor\u201d.<br \/>\nA coca\u00edna que ele levava na asa tinha sido comprada em Iquitos, no Peru, por 8 mil d\u00f3lares o quilo, bancada por um traficante norte-americano, com quem dividiria os lucros se a opera\u00e7\u00e3o tivesse dado certo: a cota\u00e7\u00e3o da \u00e9poca da mercadoria em Bali era de 3,5 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<br \/>\nMarco me contou, \u00e0s gargalhadas, sua \u201c\u00e9pica jornada\u201d com a asa cheia de drogas pelos rios da Amaz\u00f4nia, misturado com inocentes turistas americanos. \u201cNenhum suspeitou\u201d. Enfim chegou a Manaus, de onde embarcou para Jakarta: \u201cSair do Brasil foi moleza, nossa fiscaliza\u00e7\u00e3o era uma piada\u201d.<br \/>\nNa chegada, com certeza ele viu no aeroporto indon\u00e9sio um enorme cartaz avisando: \u201cHukuman berta bagi pembana narkotik\u2019\u2019, a pol\u00edtica nacional de punir severamente o narcotr\u00e1fico.<br \/>\n\u201cOra, em todo lugar do mundo existem leis para serem quebradas\u201d, me disse, mostrando sua peculiar maneira de ver as coisas: \u201cSe eu fosse respeitar leis nunca teria vivido o que vivi\u201d.<br \/>\nEle desafiou o rep\u00f3rter: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o faria a mesma coisa pelos 3,5 milh\u00f5es de d\u00f3lares\u201d?<br \/>\nPara ele, o dinheiro valia o risco: \u201cA venda em Bali iria me deixar bem de vida para sempre\u201d \u2013 na ocasi\u00e3o, ele n\u00e3o falou em contas hospitalares penduradas.<br \/>\nMarco parecia exagerar no n\u00famero de vezes que cruzou fronteiras pelo mundo como mula de drogas: \u201cFiz mais de mil gols\u201d. Com o dinheiro f\u00e1cil manteve apartamentos em Bali, Hawai e Holanda, sempre abertos aos amigos: \u201cNunca me perguntaram de onde vinha o dinheiro pras nossas baladas\u201d.<br \/>\nMarco guardava na cadeia uma pasta preta com fotos de lindas mulheres, carr\u00f5es e dos apartamentos luxuosos, que seriam aqueles onde ele supostamente teria vivido no auge da carreira de traficante.<br \/>\nNum de seus giros pelo mundo ele fez um cursinho de chef na Su\u00ed\u00e7a, o que foi de utilidade em Tangerang. \u00c0s vezes, cozinhava para o comandante da cadeia, em troca de regalias.<br \/>\nEu o vi servindo salm\u00e3o, arroz \u00e0 piemontesa e leite achocolatado com castanhas para sobremesa. O fornecedor dos alimentos era D\u00eanis, um ex-preso tornado amig\u00e3o, que trazia os suprimentos fresquinhos do supermercado Hypermart.<br \/>\nMarco queria contar como era esta vida \u201cfant\u00e1stica\u201d e se preparou para botar um di\u00e1rio na internet. Queria contratar um videomaker para acompanhar seus dias.<br \/>\nNegociava exclusividade na cobertura jornal\u00edstica, queria escrever um livro com sua experi\u00eancia \u2013 o que mais tarde aconteceu, pela pena de um jornalista de S\u00e3o Paulo. Um amigo prepara um document\u00e1rio em v\u00eddeo para eterniz\u00e1-lo.<br \/>\nFoi um dos personagens de destaque de um bestseller da jornalista australiana Kathryn Bonella sobre a vida glamurosa dos traficantes em Bali \u2014 orgias, modelos \u00e1vidas por festas e drogas depois de sess\u00f5es de fotos, mans\u00f5es cinematogr\u00e1ficas.<br \/>\nDiplomatas se mexeram nos bastidores para tentar comprar uma sa\u00edda honrosa para Marco. Usaram desde a ajuda brasileira \u00e0s v\u00edtimas do tsunami at\u00e9 oferta de incremento no com\u00e9rcio, sem sucesso. Os indon\u00e9sios fecharam o balc\u00e3o de neg\u00f3cios.<br \/>\nO assessor internacional de Dilma, Marco Aur\u00e9lio Garcia, disse que o fuzilamento deixa \u201cuma sombra\u201d nas rela\u00e7\u00f5es bilaterais, mas na lateral deles o pessoal n\u00e3o t\u00e1 nem a\u00ed.<br \/>\nA m\u00e3e dele, dona Carolina, funcion\u00e1ria p\u00fablica estadual no Rio, se empenhou enquanto deu para livrar o \u2018garot\u00e3o\u2019 da enrascada, at\u00e9 morrer de c\u00e2ncer, em 2010.<br \/>\nAs visitas dela em Tangerang eram uma festa para o staff da pris\u00e3o, pra quem dava dinheiro e presentes, na tentativa de aliviar a barra para o filh\u00e3o.<br \/>\nCom este empurr\u00e3o da mam\u00e3e Marco reinou em Tangerang, nos primeiros anos \u2013 at\u00e9 ser transferido para outras cadeias, \u00e0 espera da execu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEu o vi sendo atendido por presos pobres que lhe serviam de gar\u00e7ons, pedicures, faxineiros. Sua cela tinha TV, v\u00eddeo, som, ventilador, bonsais e, melhor ainda, portas abertas para um jardim onde ele mantinha peixes num laguinho. Quando ia l\u00e1, dona Carola dormia na cama do filho.<br \/>\nMarco bebia cerveja geladinha fornecida por chef\u00f5es locais que estavam noutro pavilh\u00e3o. Namorava uma bonita presa conhecida por Drag\u00e3o de Komodo. Como ela vinha da ala feminina, os dois usavam a sala do comandante para se encontrar.<\/p>\n<div>A malandragem carioca ajudou enquanto ele teve dinheiro. Ele fazia sua parte esbanjando bom humor. Por todos os relatos de diplomatas, familiares e jornalistas que o viram na cadeia de tempos em tempos, Marco, apelidado Curumim em Ipanema, sempre se mostrou para cima. E mantinha a forma malhando muito.<\/div>\n<p>Para ele, a balada era permanente. Nos \u00faltimos anos teve v\u00e1rias mordomias, como celular e at\u00e9 acesso \u00e0 internet, onde postou algumas cenas.<br \/>\nUm clip dele circulou nos \u00faltimos dias \u2013 sempre sereno, dizendo-se arrependido, pedindo a segunda chance: \u201cAcho que n\u00e3o mere\u00e7o ser fuzilado\u201d.<br \/>\nMarco chegou ao \u00faltimo dia de vida com boa apar\u00eancia, pelo menos conforme as imagens exibidas no Jornal Hoje, da Globo. Mas tinha perdido quase todos os dentes em sua temporada na pris\u00e3o, como relatou a jornalista e escritora australiana. No Facebook, ela disse guardar boas recorda\u00e7\u00f5es de Archer, e criticou a \u201cbarb\u00e1rie\u201d do fuzilamento.<br \/>\nNuma grava\u00e7\u00e3o por telefone, ele ainda dava conselhos aos mais jovens, avisando que drogas s\u00f3 podem levar \u00e0 morte ou \u00e0 pris\u00e3o.<br \/>\nSua voz estava firme, parecia esperar um milagre, mesmo faltando apenas 120 minutos pra enfrentar o pelot\u00e3o de fuzilamento \u2013 a se confirmar, deixou esta vida com o bom humor intacto, resignado.<br \/>\nSabe-se que ele pediu uma garrafa de u\u00edsque Chivas Regal na \u00faltima refei\u00e7\u00e3o e que uma tia teria lhe levado um pote de doce-de-leite.<br \/>\nO arrependimento manifestado nas \u00faltimas horas pode ser o reflexo de 11 anos encarcerado. Afinal, as pessoas mudam. Ou pode ter sido encena\u00e7\u00e3o. S\u00f3 ele poderia responder.<br \/>\nPara mim, o homem s\u00f3 disse que estava arrependido de uma \u00fanica coisa: de ter embalado mal a droga, permitindo a descoberta pela pol\u00edcia no aeroporto.<br \/>\n\u201cTava tudo pronto pra ser a viagem da minha vida\u201d, come\u00e7ou, ao relatar seu infort\u00fanio.<br \/>\nFoi assim: no desembarque em Jakarta, meteu o equipamento no raio x. A asa dele tinha cinco tubos, tr\u00eas de alum\u00ednio e dois de carbono. Este \u00e9 mais rijo e imperme\u00e1vel aos raios: \u201cMeu mundo caiu por causa de um guardinha desgra\u00e7ado\u201d, reclamou.<br \/>\n\u201cO cara perguntou \u2018por que a foto do tubo sa\u00eda preta\u2019? Eu respondi que era da natureza do carbono. A\u00ed ele puxou um canivete, bateu no alum\u00ednio, fez tim tim, bateu no carbono, fez tom tom\u201d.<br \/>\nO som revelou que o tubo estava carregado, encerrando a bem-sucedida carreira de 25 anos no narcotr\u00e1fico.<br \/>\nMarco ainda conseguiu dar um drible nos guardas. Enquanto eles buscavam as ferramentas, ele se esgueirou para fora do aeroporto, pegou um prosaico t\u00e1xi e sumiu. Depois de 15 dias pulando de ilha em ilha no arquip\u00e9lago indon\u00e9sio passou sua \u00faltima noite num barraco de pescador, em Lombok, a poucas bra\u00e7adas de mar da liberdade.<br \/>\nAcordou cercado por v\u00e1rios policiais, de armas apontadas. Suplicou em bahasa que tivessem miseric\u00f3rdia dele.<br \/>\nNo s\u00e1bado, enfrentou pela \u00faltima vez a mesma pol\u00edcia, mas desta vez o pessoal estava cumprindo ordens de atirar para matar.<br \/>\nFoi o fim do Curumim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O rep\u00f3rter Renan Antunes de Oliveira entrevistou Marco Archer em 2005, numa pris\u00e3o na Indon\u00e9sia. O texto original foi publicado no jornal J\u00c1 na \u00e9poca. 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