{"id":21035,"date":"2015-03-19T17:09:32","date_gmt":"2015-03-19T20:09:32","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=21035"},"modified":"2015-03-19T17:09:32","modified_gmt":"2015-03-19T20:09:32","slug":"excelencia-eu-amava-minha-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/excelencia-eu-amava-minha-familia\/","title":{"rendered":"&quot;Excel\u00eancia, eu amava minha fam\u00edlia&quot;"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Renan Antunes de Oliveira |<br \/>\n<\/span><br \/>\n<span class=\"capitular\">C<\/span><br \/>\nomo estava muito quente naquele dezembro, Liquinha passou todo dia dormindo com o ar condicionado ligado no quarto do sobrinho Pedro, na confort\u00e1vel casa da fam\u00edlia na rua Tijucas. Pelas 7 da noite ele\u00a0acordou faminto. Pediu bolinhos de carne pra dona Carmen. Ouviu um breve serm\u00e3o do pai, seu Nilo, por ter faltado ao trabalho. A irm\u00e3 Leopoldina gritou alguma coisa l\u00e1 do quarto dando o maior apoio ao velho.<br \/>\nLiquinha os ignorou e foi buscar um v\u00eddeo na locadora \u2013 despediu-se da balconista dizendo que tinha \u201cuma coisa muito importante pra fazer em casa\u201d. No caminho, tomou tr\u00eas latinhas de Skol e comprou coca\u00edna.<br \/>\nJ\u00e1 no quarto,\u00a0a m\u00e3e lhe serviu os bolinhos. Ele botou o prato embaixo da cama: estava sem fome, de tanto cheirar coca.<br \/>\nPouco depois das 10, Liquinha saiu da cama apenas de bermuda para aquela &#8220;coisa t\u00e3o importante&#8221;: assassinar todos\u00a0da casa com golpes de marreta e martelo.<br \/>\nEm menos de 15 minutos ele matou m\u00e3e,\u00a0irm\u00e3, sobrinho e pai, nesta ordem &#8211; o crime que foi a \u00fanica coisa not\u00e1vel em seus 38 anos de vida.<br \/>\nEm seguida, Liquinha tomou banho, comeu os bolinhos, correu para a rua, chamou os vizinhos e encenou uma farsa: \u201cSocorro, mataram meu paizinho\u201d.<br \/>\n<figure id=\"attachment_21049\" aria-describedby=\"caption-attachment-21049\" style=\"width: 448px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/IMG_0924.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-21049 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/IMG_0924.jpg\" alt=\"A fam\u00edlia assassinada, estampada em uma camiseta | Renan Antunes de Oliveira \/J\u00c1\" width=\"448\" height=\"600\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-21049\" class=\"wp-caption-text\">A fam\u00edlia assassinada, estampada em uma camiseta | RAO \/J\u00c1<\/figcaption><\/figure><br \/>\nEsta trag\u00e9dia acontecida em 7 de dezembro de 2012 na cidade praiana de Penha foi revivida no Tribunal do J\u00fari de Florian\u00f3polis na segunda semana de mar\u00e7o de 2015.<br \/>\nO amplo audit\u00f3rio da corte estava ocupado por 20 familiares que vieram de Penha (a 115 km de Floripa) e por um bando de alegres estudantes de Direito interessados nas tecnicalidades do processo.<br \/>\nO j\u00fari ocorreu na capital porque\u00a0o sentimento da popula\u00e7\u00e3o da pequena vila de pescadores desde a primeira hora era de\u00a0linchar Liquinha.<br \/>\nA estrela da acusa\u00e7\u00e3o foi outra irm\u00e3 do r\u00e9u, Zilda, 15 anos mais velha. Foi ela quem\u00a0contou aos jurados que \u201cele me disse que queria ser conhecido como o maior matador de Santa Catarina\u201d &#8211; lugar que j\u00e1 perdeu, em fevereiro, para o funcion\u00e1rio p\u00fablico Alcir Pederssetti, que matou cinco da fam\u00edlia e a si mesmo, em Cordilheira Alta.<br \/>\nA irm\u00e3 garantiu que Liquinha \u00e9 &#8220;um psicopata, sem sentimentos, toda vida foi assim e talvez s\u00f3 eu tenha percebido&#8221;.<br \/>\nUm psiquiatra atestou para os jurados que Liquinha\u00a0estava consciente quando cometeu os crimes e que sabia das consequ\u00eancias, levantando a bola para uma condena\u00e7\u00e3o certeira.<br \/>\nEm juridiqu\u00eas: ele estava &#8216;imput\u00e1vel&#8217;, isto \u00e9, capaz de ser julgado e condenado, se os jurados assim o entendessem.<br \/>\n<span class=\"intertit\">o r\u00e9u<\/span><br \/>\nLuiz Carlos Flores, o Liquinha, hoje com 40, deu problemas desde a\u00a0adolesc\u00eancia.<br \/>\nNa cidade pequena, os vizinhos sabiam que ele era um drogado. Passou pela maconha, bebida e estava firme na coca\u00edna.<br \/>\nFoi pescador, motorista, pedreiro. Nunca estudou nem trabalhou direito. Era s\u00f3 biscateiro. Fazia alguma coisinha pra arrumar dinheiro pro v\u00edcio e deu.<br \/>\nEntre os 11 filhos do casal ele ainda morava com os pais porque era o xod\u00f3 da mam\u00e3e &#8211;\u00a0a quem mataria a\u00a0marretadas com tal ferocidade que conseguiu quebrar o cabo da ferramenta.<br \/>\n\u201cEla sempre o defendia de tudo e todos\u201d, contou Carminha, irm\u00e3 mais velha que ajudou a m\u00e3e a cuidar dele na inf\u00e2ncia.<br \/>\nDe tudo ela o defendeu na escola, na rua, dos drogados \u2013 quando algu\u00e9m vinha cobrar a conta do consumo da noite, dona Carmen pagava.<br \/>\nSeu Nilo\u00a0s\u00f3 resmungava &#8211; ele era um aut\u00eantico manezinho, pescador aposentado, de uma tradicional fam\u00edlia a\u00e7oriana que remonta aos colonizadores do peda\u00e7o.<br \/>\n<span class=\"intertit\">a\u00a0m\u00e1goa<\/span><br \/>\nZilda agia nos bastidores do tribunal como porta-voz da ala da fam\u00edlia que pedia a mais longa condena\u00e7\u00e3o poss\u00edvel ao irm\u00e3o.<br \/>\nEla pediu isto ao promotor, que por sua vez queria conden\u00e1-lo a 100 anos de cadeia \u2013 para ele cumprir no m\u00ednimo 20 em regime fechado.<br \/>\nA irm\u00e3 disse que &#8220;desde pequeno ele ficava furioso quando era contrariado&#8221;.<br \/>\nEla contou que a diferen\u00e7a de idade entre eles a fez ver o menino &#8220;com isen\u00e7\u00e3o&#8221;. Jurou que o respeitava nos encontros da fam\u00edlia, mas temia &#8220;suas rea\u00e7\u00f5es violentas&#8221;.<br \/>\nUma das namoradas dele teria se queixado que uma vez Liquinha tentou estrangular o filho menor dela (de outra rela\u00e7\u00e3o).<br \/>\nZilda afirmou que a m\u00e3e\u00a0tentou aliviar sua barra dizendo que fora briga de casal. Mais tarde, a mesma mulher procurou Zilda para contar que Liquinha havia tentado estrangular a mesma crian\u00e7a num segundo incidente, mas que ela chegou a tempo de impedi-lo. A mulher ent\u00e3o anunciou o rompimento via Zilda e sumiu do mapa.<br \/>\nTios, primos e irm\u00e3os desfilaram pela corte. Todos horrorizados pelo crime.<br \/>\nUm sobrinho conta que a fam\u00edlia sofreu um racha irrepar\u00e1vel quando um dos irm\u00e3os mais velhos, Roberto, de 53, passou a visitar Liquinha na cadeia, no que seria o mais parecido com uma absolvi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nRoberto: &#8220;N\u00e3o h\u00e1 como perdo\u00e1-lo, isto \u00e9 coisa para Deus. Mas eu n\u00e3o posso abandonar um irm\u00e3o, se um dia ele for solto eu vou at\u00e9 acolh\u00ea-lo em minha casa&#8221;.<br \/>\nA maioria da parentada no tribunal era toda a favor dos 100 anos de cadeia para &#8220;o maldito que n\u00e3o \u00e9 mais meu tio&#8221;, como disse um sobrinho no banco das testemunhas.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O julgamento<\/span><br \/>\nLiquinha subiu no banco dos r\u00e9us exatos 824 dias depois do crime, para explicar o inexplic\u00e1vel. Mas ele n\u00e3o tinha a explica\u00e7\u00e3o: \u201cParece que foi um sonho\u201d, \u201cuma for\u00e7a me dominou\u201d, \u201cn\u00e3o queria fazer mal a ningu\u00e9m\u201d.<br \/>\nFechou seu depoimento com a frase muito ouvida em tribunais: \u201cN\u00e3o lembro de nada\u201d.<br \/>\nPara avivar a mem\u00f3ria dele e ajudar na decis\u00e3o dos jurados o promotor exibiu num tel\u00e3o um v\u00eddeo gravado pela pol\u00edcia de Penha dois dias depois do crime. Nele, Liquinha faz uma confiss\u00e3o completa e d\u00e1 o ci\u00fames da irm\u00e3 como motivo do crime: na cabe\u00e7a dele, os pais gostavam mais dela.<br \/>\nO promotor apresentou fotos das v\u00edtimas para os sete jurados \u2013 tr\u00eas homens com menos de 30, uma mulher de 30, duas com mais de 40 e um careca cinquent\u00e3o. A de 30 chorou ao v\u00ea-las.<br \/>\nNa plateia, uma irm\u00e3 do r\u00e9u solu\u00e7ava t\u00e3o alto que um oficial da corte a levou para o corredor.<br \/>\nLiquinha acompanhou a exibi\u00e7\u00e3o de fotos da per\u00edcia e a leitura da s\u00famula dos crimes pelo juiz quase sempre de cabe\u00e7a baixa, esfregando um dedo da m\u00e3o esquerda numa unha da direita, olhar fixo nos mocassins pretos. \u00c0s vezes, alternava o olhar para as\u00a0lumin\u00e1rias da corte.<br \/>\nA sess\u00e3o durou das 9 \u00e0s 19, ele deu umas choradinhas l\u00e1 pelas 10, uma no depoimento perto das 12\u00a0e novamente ao final dele\u00a0&#8211; mas era coisa pouca, sem muita l\u00e1grima, se recompunha em segundos.<br \/>\nO promotor chamou Liquinha de monstro, animal, fera, destruidor de uma fam\u00edlia &#8211; s\u00f3 abrandando o \u00edmpeto de sua performance duas vezes, uma para saudar a presen\u00e7a da esposa no audit\u00f3rio, outra para cumprimentar\u00a0um amigo promotor de uma comarca distante que veio prestigiar sua performance acusat\u00f3ria.<br \/>\n<span class=\"intertit\">o crime<\/span><br \/>\nO crime de Liquinha ficou conhecido como &#8220;chacina de Penha&#8221; e se tornou instantaneamente num dos mais not\u00e1veis da cr\u00f4nica policial catarinense.<br \/>\nAconteceu numa noite muito quente, naquelas em que as fam\u00edlias manezinhas ficam acordadas at\u00e9 mais tarde.<br \/>\nAs testemunhas afirmaram que dona Carmen, 69, \u00a0pareceu intuir que alguma coisa ruim aconteceria.<br \/>\nPor volta das 9h30 da noite, ela ligou para a Zilda e disse que temia alguma viol\u00eancia de Liquinha, \u00e0quela altura no quarto de Pedrinho (10), a minutos de cometer seu desatino.<br \/>\nNos autos consta que a irm\u00e3 Leopoldina (41) estava trancada noutro c\u00f4modo,\u00a0com Pedrinho, protegendo-se com\u00a0uma\u00a0faca sob o travesseiro pro caso do irm\u00e3o atac\u00e1-la: \u201cEu a avisara para nunca abrir a porta e manter o menino sempre junto dela\u201d, disse Zilda \u2013 imaginem o terror de se viver naquele ambiente.<br \/>\nPouco depois das 10, na casa silenciosa, Liquinha disse alguma coisa para a m\u00e3e que a convenceu a segui-lo at\u00e9 um ponto do p\u00e1tio\u00a0distante 100 metros da resid\u00eancia. Ele carregava a marreta.<br \/>\nN\u00e3o foi poss\u00edvel apurar o que ele disse, nem quando ela percebeu que morreria: o certo \u00e9 que ele deu dois golpes na boca da m\u00e3e, quebrando os dois maxilares, fazendo saltar longe a dentadura posti\u00e7a dela.<br \/>\nOs golpes foram t\u00e3o fortes que os peritos acham que ela morreu na hora do primeiro. Em seguida, o filho ajeitou o cad\u00e1ver, quase com carinho, numa posi\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel numa vala \u2013 para depois urinar sobre ele.<br \/>\nAos jurados ele explicou que matou a m\u00e3e para que ela n\u00e3o sofresse com a morte da irm\u00e3 Leopoldina, que ele pretendia matar por puro ci\u00fames: \u201cMinha m\u00e3e gostava muito dela e n\u00e3o suportaria o sofrimento\u201d. Nem juiz nem promotor perguntaram o porqu\u00ea do xixi \u2013 talvez pela insanidade do gesto.<br \/>\nSuado e ensanguentado, j\u00e1 sem a marreta quebrada, Liquinha voltou para casa e\u00a0pegou um martelo na gaveta da cozinha. Bateu na porta do quarto de Leopoldina. Ela falava com o namorado ao telefone e n\u00e3o queria abrir.<br \/>\nFalando em tom calmo, o mano pediu que ela lhe emprestasse a moto. Iludida, ela abriu uma fresta para passar-lhe a chave: \u201cEu acertei o olho dela com uma martelada\u201d.<br \/>\nAi ele a empurrou, entrou no quarto e acertou mais dois golpes, um na testa e outro na t\u00eampora.<br \/>\n\u201cDurou segundos\u201d, ele contou ao delegado na fita exibida no tribunal. \u201cMeu sobrinho acordou e eu disse que a vez dele ia chegar\u201d. Tr\u00eas marteladas no rosto desfiguraram o menino.<br \/>\nO pai, de 71, acordou com a\u00a0gritaria e correu para o quarto da filha, ainda de cuecas \u00a0\u2013 sendo recebido com tr\u00eas golpes, todos na cabe\u00e7a: \u201cEu n\u00e3o tinha nada contra meu pai e Pedrinho,\u00a0mas n\u00e3o queria testemunhas\u201d.<br \/>\nDepois que seu pat\u00e9tico pedido de socorro ( &#8220;mataram meu paizinho&#8221;) foi ouvido nas ruas, Liquinha recebeu bombeiros, param\u00e9dicos, vizinhos, familiares e a pol\u00edcia. Ele estava banhadinho, de roupa limpa, mas tinha manchas de\u00a0sangue nos p\u00e9s.<br \/>\nE levava nas m\u00e3os\u00a0o denunciador martelo ensanguentado. O primeiro policial na cena matou a charada na hora: doido de pedra.\u00a0Liquinha citava criminosos imagin\u00e1rios e a pol\u00edcia resolveu n\u00e3o contrari\u00e1-lo.<br \/>\nHavia sangue nas paredes e teto do quarto onde Leopoldina e Pedrinho foram encontrados. Tamb\u00e9m no hall onde o corpo do pai estava ca\u00eddo.<br \/>\nN\u00e3o havia nenhum suspeito, ningu\u00e9m na rua vira nada, os cachorros n\u00e3o latiram para supostos invasores &#8211; tudo apontava para Liquinha, mas\u00a0a pol\u00edcia demorava em prend\u00ea-lo porque primeiro queria entender o motivo para aquela carnificina. A tese do ci\u00fames da mana apareceria mais tarde &#8211; se perdeu na loucura geral.<br \/>\nNas horas seguintes ao crime a vila de pescadores dan\u00e7ou um bal\u00e9 de doidos.<br \/>\nLiquinha continuou circulando entre as centenas de pessoas que desfilaram pelo vel\u00f3rio e enterro como se nada tivesse acontecido \u2013 ele estava sempre sendo seguido por policiais \u00e0 paisana.<br \/>\nEu o entrevistei duas vezes, na madrugada do vel\u00f3rio e antes do enterro. Na ocasi\u00e3o, consegui pux\u00e1-lo para um cantinho, tomar um\u00a0caf\u00e9 com ele. E\u00a0fiz a pergunta que n\u00e3o queria calar &#8211; quem fez a matan\u00e7a?<br \/>\nPude perceber que ele ainda estava naquela loucura dos embalados por coca, babando, agitado: \u201cSe eu encontrar quem fez isto com minha fam\u00edlia eu juro que o mato\u201d. Prometia vingan\u00e7a contra o assassino imagin\u00e1rio.<br \/>\nAs pessoas ao nosso redor interrompiam a conversa para dar-lhe condol\u00eancias e fingiam acreditar na inoc\u00eancia dele.<br \/>\nMudei de assunto e lhe perguntei quais eram seus planos. Me disse que estava esperando o enterro para ir de moto at\u00e9 Goi\u00e1s para visitar uma namorada \u2013 e pediu para ser fotografado, sorridente, ao lado da motoca.<br \/>\n<figure id=\"attachment_21050\" aria-describedby=\"caption-attachment-21050\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Luiz-Flores-pedreiro-que-matou-a-fam\u00edlia-em-Penha-SC-09122012.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-21050 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Luiz-Flores-pedreiro-que-matou-a-fam\u00edlia-em-Penha-SC-09122012.jpg\" alt=\"Liquinha e sua moto, com  a qual visitaria uma namorada em Goi\u00e1s | RAO\/J\u00c1\" width=\"400\" height=\"600\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-21050\" class=\"wp-caption-text\">Liquinha e sua moto, com a qual visitaria uma namorada em Goi\u00e1s | RAO\/J\u00c1<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<span class=\"intertit\">o arrependimento<\/span><br \/>\nNo Tribunal do J\u00fari pude notar que Liquinha engordou bastante na pris\u00e3o, talvez uns 20 quilos, deveria estar com mais de 100. Estava bem barbeado, cabelo aparado, vestindo cal\u00e7a e camisa jeans. N\u00e3o olhou para a plateia de familiares, nem encarou primos, tios e sobrinhos que testemunharam.<br \/>\nLiquinha insistia em interromper o juiz durante o interrogat\u00f3rio para deixar bem claro um ponto: \u201cExcel\u00eancia, eu amava minha fam\u00edlia\u201d. O promotor ironizou tipo assim &#8220;imagine se n\u00e3o amasse&#8221;.<br \/>\nO matador descreveu o menino Pedrinho:\u00a0 &#8220;Meu sobrinho era um anjo de\u00a0crian\u00e7a&#8221;.\u00a0Neste ponto ele derrapou um pouquinho: \u201cEu sei que tenho que pagar, estou arrependido&#8221; &#8211; dois solu\u00e7os curtos acompanharam o momento de remorsos.<br \/>\nQuando o juiz perguntou pelos motivos dos crimes ele disse &#8220;eu n\u00e3o era a pessoa que sou hoje, fui v\u00edtima do uso da coca\u00edna que me controlava&#8221; &#8211; a mesma tese com que a defesa tentou\u00a0intern\u00e1-lo numa cl\u00ednica de rehab.<br \/>\nA tese de que o crime foi cometido por ci\u00fames da irm\u00e3 consta do inqu\u00e9rito policial, mas ningu\u00e9m pareceu realmente interessado em achar um motivo mais palp\u00e1vel.<br \/>\nLiquinha encontrou uma pessoa culpada por seu temperamento: &#8220;Minha m\u00e3e tapava minhas fraquezas&#8221;, resmungou, transformando o amor de dona Carmen num defeito.<br \/>\nDe tempos em tempos ele voltava a professar aquele amor eterno \u00e0 fam\u00edlia. L\u00e1 pelas tantas disse que quando sa\u00edsse da cadeia, queria constituir uma para si &#8211; ao que o promotor recomendou, com sarcasmo: &#8220;Fa\u00e7a como a Suzane Richtofen e case com um colega de c\u00e1rcere&#8221;.<br \/>\n<span class=\"intertit\">a condena\u00e7\u00e3o<\/span><br \/>\nOs jurados levaram menos de meia hora para concluir que ele merecia os 100 anos de cadeia, dando-lhe 97 anos e seis meses. O promotor achou de bom tamanho.<br \/>\nA defesa quer recorrer e pedir novos exames de sanidade mental. A tese \u00e9 que ele tem que ter um parafuso frouxo, pelo detalhe que nem Freud explica: por que fazer xixi no cad\u00e1ver da m\u00e3e?<br \/>\nO comportamento\u00a0dele enquanto ainda negava a autoria tamb\u00e9m surpreendeu aos policiais.<br \/>\nQuando familiares encontraram o corpo de dona Carmen nos fundos da propriedade, Liquinha foi levado para fazer o reconhecimento. Ele s\u00f3 deu uma espiadinha para concluir &#8220;que merda,\u00a0mataram minha m\u00e3e\u201d.<br \/>\nEm seguida, tirou o pinto pra fora e fez xixi no mato, na frente de peritos, policiais e bombeiros.<br \/>\nDepois da condena\u00e7\u00e3o, Liquinha foi levado de volta \u00e0 penitenci\u00e1ria da\u00a0Agron\u00f4mica, em Floripa. Ele est\u00e1 l\u00e1 para sua prote\u00e7\u00e3o, porque detentos assassinos e estupradores da cadeia de Canhanduba tentaram mat\u00e1-lo, horrorizados com a barb\u00e1rie de seus crimes.<br \/>\nHoje o matador cozinha pros carcereiros e diretores da pris\u00e3o. Virou evang\u00e9lico. Descobriu Cristo.<br \/>\nTodos na jaula atestam que ele tem um comportamento exemplar, o que vai contar quando pedir regime semiaberto, aquele no qual o condenado dorme na cadeia mas pode passar o dia na rua.<br \/>\nComo ele \u00e9 r\u00e9u prim\u00e1rio, o pessoal acha que em 8 anos o cidad\u00e3o Luiz Carlos Flores poder\u00e1 sair livre, para recome\u00e7ar sua vida.<br \/>\nEle disse pro irm\u00e3o Roberto que quando cumprir a pena quer se mudar de Penha para outro lugar do planeta onde ningu\u00e9m saiba sua hist\u00f3ria.<br \/>\nVaya con Dios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renan Antunes de Oliveira | C omo estava muito quente naquele dezembro, Liquinha passou todo dia dormindo com o ar condicionado ligado no quarto do sobrinho Pedro, na confort\u00e1vel casa da fam\u00edlia na rua Tijucas. Pelas 7 da noite ele\u00a0acordou faminto. Pediu bolinhos de carne pra dona Carmen. 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