{"id":21537,"date":"2015-04-19T13:13:06","date_gmt":"2015-04-19T16:13:06","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=21537"},"modified":"2015-04-19T13:13:06","modified_gmt":"2015-04-19T16:13:06","slug":"o-almanaque-dos-tempos-de-chumbo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-almanaque-dos-tempos-de-chumbo\/","title":{"rendered":"O \u2018Almanaque\u2019 dos tempos de chumbo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\"><strong>Luiz Cl\u00e1udio Cunha<\/strong>\u00a0<\/span><br \/>\n<span class=\"capitular\">E<\/span><br \/>\nnfim, uma boa not\u00edcia neste p\u00e2ntano de informa\u00e7\u00f5es desalentadas que fazem cada vez mais opressivo o cotidiano dos brasileiros: nenhum quartel, nenhum general ousou comemorar a trag\u00e9dia de 31 de mar\u00e7o de 1964, o golpe militar que derrubou o presidente Jo\u00e3o Goulart e implantou a ditadura militar h\u00e1 51 anos. O sil\u00eancio n\u00e3o foi produto de uma s\u00fabita convers\u00e3o democr\u00e1tica, mas ordem sum\u00e1ria da comandante-suprema das For\u00e7as Armadas, a presidente, ex-guerrilheira e ex-torturada Dilma Rousseff.<br \/>\nAinda assim, as faixas e gritos nada esparsos de grupos nas ruas que tentam jogar gasolina na fogueira da crise, pedindo a volta da ditadura e \u2018interven\u00e7\u00e3o militar j\u00e1!\u2019, mostram um dado preocupante que nivela gera\u00e7\u00f5es diferentes pela ignor\u00e2ncia e pela nostalgia. Os mais jovens, ignorantes dos horrores que disseminou a ditadura ao longo de 21 anos, e os mais velhos, c\u00ednicos saudosos de benef\u00edcios do regime de for\u00e7a que ruiu em 1985 com o advento da democracia.<br \/>\nEm 23 de mar\u00e7o passado, uma semana antes do anivers\u00e1rio do golpe de 1964, o Latin American Public Opinion Project (Lapop), um projeto de pesquisa coordenado em 28 na\u00e7\u00f5es das Am\u00e9ricas pela Universidade Vanderbilt, do Tennessee (EUA), divulgou o seu Americas Barometer, desta vez medindo o apoio a um eventual golpe militar em cada comunidade nacional.<br \/>\nEntre os 23 pa\u00edses pesquisados, o Brasil ocupa um constrangedor sexto lugar, com 47,6% de respostas positivas a um golpe militar em um ambiente de alta corrup\u00e7\u00e3o, no levantamento realizado em solo brasileiro pelo instituto Vox Populi, em 2014. O campe\u00e3o de nostalgia \u00e9 o Paraguai, que padeceu a mais longa ditadura do continente sob a era do general Alfredo Stroessner (1954-1989), com 56,1% de apoio dos paraguaios \u00e0 volta dos militares sob a justificativa de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/memorias_golpe2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-21539 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/memorias_golpe2.jpg\" alt=\"memorias_golpe2\" width=\"400\" height=\"450\" \/><\/a><br \/>\nA eros\u00e3o da f\u00e9 democr\u00e1tica no Brasil pode ser medida pelos gr\u00e1ficos que medem a temperatura do golpe, entre 2007 e 2014. Sete anos atr\u00e1s, ainda no Governo Lula, 38,9% dos brasileiros justificavam a volta dos militares ao poder pelo pretexto da elevada corrup\u00e7\u00e3o. Em 2010, quando Dilma venceu a elei\u00e7\u00e3o presidencial, um de cada tr\u00eas brasileiros (35,5%) apoiava a interven\u00e7\u00e3o militar. Quatro anos depois, a situa\u00e7\u00e3o se agravou: em 2014, um de cada dois brasileiros (47,6%) justificava um golpe militar sob o pretexto da corrup\u00e7\u00e3o elevada.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/memorias_golpe3-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-21540 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/memorias_golpe3-1.jpg\" alt=\"memorias_golpe3 (1)\" width=\"426\" height=\"330\" \/><\/a><br \/>\nA crise de confian\u00e7a na democracia persiste mesmo quando se cruza a pergunta central com o \u00edndice de aprova\u00e7\u00e3o da presidente Dilma Rousseff. No centro da oposi\u00e7\u00e3o mais ferrenha ao Pal\u00e1cio do Planalto, os que consideram o Governo Dilma \u201cruim ou muito ruim\u201d, o \u00edndice de simpatia a um golpe militar pela justificativa da corrup\u00e7\u00e3o chega a 52,8%, mais da metade dos consultados na pesquisa. Entre os indiferentes, que acham que o governo n\u00e3o \u00e9 bom, nem ruim, a justifica\u00e7\u00e3o ao golpe chega a 46,4%. O dado mais assombroso \u00e9 entre a popula\u00e7\u00e3o que apoia Dilma e que considera seu governo \u201cbom ou muito bom\u201d: 45,6% dessa suposta base governista reagem \u00e0 roubalheira com a solu\u00e7\u00e3o radical e imbecil do golpe militar.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/memorias_golpe3-11.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-21541 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/memorias_golpe3-11.jpg\" alt=\"memorias_golpe3 (1)\" width=\"426\" height=\"330\" \/><\/a><br \/>\nUma boa explica\u00e7\u00e3o para este surto autorit\u00e1rio dos brasileiros, manipulados ou n\u00e3o, est\u00e1 na mem\u00f3ria fraca do pa\u00eds. Ao contr\u00e1rio do Brasil, os \u00faltimos pa\u00edses do ranking s\u00e3o justamente Argentina, Uruguai e Chile, parceiros da ditadura brasileira nos anos de chumbo das d\u00e9cadas de 1960-1980, quando o Cone Sul era o inferno do terrorismo de Estado imposto por generais que esmagavam a democracia e os opositores sob o mantra da luta antisubversiva.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O dever de casa<\/span><br \/>\nO Chile, com apenas um entre cinco chilenos apoiando um novo golpe militar (23,5%), \u00e9 o ultimo pa\u00eds do ranking, ou o mais antip\u00e1tico \u00e0 volta do regime dos generais. Logo acima est\u00e3o Uruguai (28,8%) e Argentina (29,3%), mostrando a forte discord\u00e2ncia da esmagadora maioria de seus povos ao arb\u00edtrio que hoje encanta tantos brasileiros de cabe\u00e7a fraca ou mero oportunismo.<br \/>\nExiste uma raz\u00e3o forte que justifica esta acentuada debilidade democr\u00e1tica entre n\u00f3s: o Brasil \u00e9 o pa\u00eds mais leniente no processo de accountability, a devida presta\u00e7\u00e3o de contas necess\u00e1ria para a Justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o que levou nossos vizinhos da treva da ditadura para a luz da democracia. Chilenos, uruguaios e argentinos fizeram o que os brasileiros demoraram a fazer, ou nunca fizeram. As Comiss\u00f5es da Verdade, por exemplo. A brasileira foi instalada apenas em 2012, 27 anos ap\u00f3s a sa\u00edda do Pal\u00e1cio do Planalto \u2013 pela porta dos fundos \u2013 do \u00faltimo ditador de plant\u00e3o, o general Jo\u00e3o Baptista Figueiredo.<br \/>\nQuando os investigadores da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV) come\u00e7aram a levantar os nomes, endere\u00e7os e fichas dos que serviram ao regime militar e praticaram ou testemunharam graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, esbarraram no calend\u00e1rio tardio e na barreira intranspon\u00edvel do tempo. Boa parte de quem sabia ou cometia torturas j\u00e1 tinha morrido. Os sobreviventes, esmagados pela idade avan\u00e7ada, estavam todos com Alzheimer, Parkinson ou uma indisfar\u00e7\u00e1vel m\u00e1 vontade para abrir a porta, escavar lembran\u00e7as ou compartilhar seus arquivos. Assim, o Brasil continua a ser a \u00fanica grande ditadura da regi\u00e3o que n\u00e3o tem um s\u00f3 militar condenado por duas d\u00e9cadas de arb\u00edtrio inesquec\u00edvel.<br \/>\nLerdo, pregui\u00e7oso, tardio na apura\u00e7\u00e3o dos crimes de lesa-humanidade praticados pelo regime dos generais de 1964, o Brasil n\u00e3o deu elementos nem argumentos para dissuadir os jovens de 2015 da defesa inconsequente que fazem agora de uma ditadura que n\u00e3o viveram e que insistem em desconhecer. Esse erro infantil n\u00e3o cometeram nossos vizinhos.<br \/>\nEm 1983, no mesmo ano em que caiu a ditadura, a Argentina instalou a sua Comiss\u00e3o Nacional sobre Desaparecimento de Pessoas (Conadep), que investigou o per\u00edodo sangrento da \u201cguerra suja\u201d, entre a primeira junta militar, do general Jorge Videla (1976) e a \u00faltima, do general Reynaldo Bignone (1983).<br \/>\nEm 1985, apenas dois anos ap\u00f3s o fim do regime militar, o Uruguai estabeleceu sua comiss\u00e3o sobre desaparecidos pol\u00edticos. Em 2000, fez uma segunda, a Comiss\u00e3o para a Paz, que colheu os depoimentos para o relat\u00f3rio Uruguay Nunca M\u00e1s.E o Chile, assim que Pinochet saiu da cena pol\u00edtica, instituiu em 1990 a sua Comiss\u00e3o Nacional da Verdade e Reconcilia\u00e7\u00e3o, encarregada de apurar os abusos praticados entre a queda de Salvador Allende, em 1973, e a retirada de Pinochet.<br \/>\nO Brasil, com a hipocrisia habitual, formou sua Comiss\u00e3o Nacional da Verdade cedendo \u00e0 press\u00e3o nada sutil dos generais. Para n\u00e3o melindrar os comandantes militares, em vez de mirar especificamente o per\u00edodo de 21 anos da ditadura (1964-1985), fingiu que iria pesquisar abusos ao longo dos 43 anos entre duas Constituintes \u2013 as de 1945 e de 1988.<br \/>\nAssim, os generais imaginavam nivelar suas d\u00e9cadas de arb\u00edtrio e terror militar aos governos de civis democraticamente eleitos como os de Eurico Gaspar Dutra, Get\u00falio Vargas, Juscelino Kubitschek, J\u00e2nio Quadros e Jo\u00e3o Goulart. (Tancredo Neves, eleito pelo Col\u00e9gio Eleitoral que derrotou o candidato da ditadura Paulo Maluf, n\u00e3o chegou a exercer seu mandato).<br \/>\nApesar da tentativa de cerceamento, a CNV n\u00e3o perdeu o foco no per\u00edodo da ditadura e fez avan\u00e7os importantes, cumprindo com seriedade uma tarefa dif\u00edcil, agravada por tr\u00eas obst\u00e1culos importantes: o cinismo dos comandantes militares, a tibieza do Pal\u00e1cio do Planalto e a omiss\u00e3o do Congresso Nacional.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Cinismo e tibieza<\/span><br \/>\nDurante os 31 meses em que funcionou, a CNV lutou contra a expl\u00edcita m\u00e1 vontade dos generais que negavam qualquer colabora\u00e7\u00e3o ou acesso a arquivos militares. O jornal O Globo chegou a divulgar um of\u00edcio do ent\u00e3o comandante do Ex\u00e9rcito, general Enzo Peri, proibindo, em fevereiro de 2014, que os quart\u00e9is liberassem \u00e0 CNV informa\u00e7\u00f5es sobre torturas ou abusos de direitos humanos.<br \/>\nA falta de seriedade dos comandantes militares ficou expl\u00edcita na resposta debochada que Ex\u00e9rcito, Marinha e Aeron\u00e1utica deram ao circunstanciado requerimento enviado pela CNV pedindo informa\u00e7\u00f5es, com nomes, datas e documentos, sobre nove casos de mortes sob tortura e 17 relatos de presos torturados em cinco quart\u00e9is do Ex\u00e9rcito, uma base da Aeron\u00e1utica e outra da Marinha.<br \/>\nAtropelando as evid\u00eancias e desprezando a intelig\u00eancia da opini\u00e3o p\u00fablica, os comandantes simplesmente negaram os fatos, sustentando que nunca houve \u201cdesvio de finalidade\u201d nas instala\u00e7\u00f5es militares listadas pela CNV como centros de tortura.<br \/>\nOs generais chegaram ao ponto de esquecer o mais not\u00f3rio deles, a sede do DOI-CODI do II Ex\u00e9rcito, na afamada Rua Tut\u00f3ia, em S\u00e3o Paulo, onde em 1970 foi barbaramente torturada uma guerrilheira de 22 anos do grupo VAR-Palmares, codinomes \u201cEstela\u201d ou \u201cVanda\u201d, identificada nas fichas da repress\u00e3o como Dilma Rousseff, hoje presidente da Rep\u00fablica e, como tal, comandante suprema das For\u00e7as Armadas.<br \/>\nDilma teve o m\u00e9rito de convocar a CNV e o dem\u00e9rito de n\u00e3o assumir suas conclus\u00f5es. No momento solene de entrega do relat\u00f3rio final de tr\u00eas volumes e 4.328 p\u00e1ginas, responsabilizando 377 agentes e todos os cinco generais-presidentes pela morte e desaparecimento de 434 pessoas na ditadura, a ex-guerrilheira e comandante-em-chefe simplesmente amarelou.<br \/>\nA primeira ideia de Dilma, talvez para n\u00e3o melindrar os generais j\u00e1 agastados pela dura conclus\u00e3o da comiss\u00e3o, foi receber o relat\u00f3rio numa cerim\u00f4nia privada no Pal\u00e1cio do Planalto, restrita aos sete comiss\u00e1rios da CNV. Parecia um evento envergonhado, quase clandestino, que provocou repulsa nas fam\u00edlias de ex-presos pol\u00edticos e de mortos e desaparecidos. Diante do esc\u00e2ndalo iminente, Dilma recuou e abriu a cerim\u00f4nia para um sal\u00e3o de acesso do pal\u00e1cio restrito a convidados.<br \/>\nA mesma tibieza foi exibida por Dilma em 31 de mar\u00e7o de 2014, quando se recordava meio s\u00e9culo do golpe militar. Mais preocupada com a reelei\u00e7\u00e3o do que com sua biografia, Dilma deixou passar o anivers\u00e1rio em branco, sem a eleg\u00e2ncia de convocar a rede de r\u00e1dio e TV para marcar a data hist\u00f3rica com o seu depoimento autorizado de ex-presa pol\u00edtica e ex-torturada, que chegou ao poder n\u00e3o pelas armas da resist\u00eancia \u00e0 ditadura, mas pelo voto democr\u00e1tico do eleitor. Dilma esqueceu que, ao lado do uruguaio Jos\u00e9 Pepe Mujica e da chilena Michelle Bachelet, ela \u00e9 a \u00fanica presidente da Rep\u00fablica no continente que carrega na carne e na alma as cicatrizes do regime brutal dos generais.<br \/>\nA omiss\u00e3o do Congresso se mostrou pela baixa repercuss\u00e3o ali do cinquenten\u00e1rio do golpe e a falta de apoio expl\u00edcito \u00e0s duras conclus\u00f5es da CNV, que come\u00e7am com duas recomenda\u00e7\u00f5es essenciais para atender \u00e0 consci\u00eancia c\u00edvica e moral de um pa\u00eds leniente com a tortura e com a ditadura, hoje festejada nas ruas.<br \/>\nA primeira das 29 medidas propostas pela CNV pede o reconhecimento, pelas For\u00e7as Armadas, de sua responsabilidade nas torturas e viol\u00eancias cometidas durante o regime de arb\u00edtrio \u2013 uma impossibilidade pr\u00e1tica enquanto prevalecer o cinismo do Alto Comando e a apatia da comandante-suprema. A segunda medida, que se imp\u00f5e como dever hist\u00f3rico e exig\u00eancia de cortes internacionais, \u00e9 a revoga\u00e7\u00e3o da Lei de Anistia que a ditadura desenhou, em agosto de 1979, para beneficiar os torturadores com o privil\u00e9gio da impunidade.<br \/>\nNum Parlamento com 513 deputados e 81 senadores, existem apenas duas propostas para revisar esta obscena \u201clei de autoanistia\u201d que os militares fizeram aprovar por apenas cinco votos (206 a 201) num Congresso emasculado pelos atos institucionais para garantir \u00e0 for\u00e7a a hegemonia na C\u00e2mara dos Deputados do partido da ditadura, a Arena (221 cadeiras), sobre a frente de oposi\u00e7\u00f5es abrigada no MDB (186).<br \/>\nUm projeto da deputada Luiza Erundina (PSB-SP) e outro do senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), ambos pedindo a revis\u00e3o da Anistia de 1979 para permitir a puni\u00e7\u00e3o aos torturadores, s\u00e3o as \u00fanicas manifesta\u00e7\u00f5es parlamentares que confirmam a omiss\u00e3o e o desinteresse de um Congresso conservador, desatento \u00e0 Hist\u00f3ria e aos seus compromissos \u00e9ticos para com a verdade.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O sil\u00eancio que inspira<\/span><br \/>\nDiante de generais c\u00ednicos, governantes t\u00edbios e parlamentares omissos, restou o consolo do sil\u00eancio institucional das For\u00e7as Armadas no anivers\u00e1rio de 51 anos do golpe de 1964. Na ter\u00e7a-feira, 31 de mar\u00e7o, um grupo meio constrangido de 30 militares da reserva se reuniu na Pra\u00e7a do Mallet, em Santa Maria \u2013 300 km a oeste de Porto Alegre, no cora\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul \u2013, situada ao lado de um quartel de artilharia, para uma louva\u00e7\u00e3o \u00e0 derrubada de Jo\u00e3o Goulart.<br \/>\nNa cidade est\u00e1 a segunda maior concentra\u00e7\u00e3o de tropas do Ex\u00e9rcito brasileiro, 20 mil homens reunidos em torno da 3\u00aa Divis\u00e3o de Ex\u00e9rcito que comanda cinco brigadas blindadas e a maioria dos tanques pesados do pa\u00eds, e a poderosa base a\u00e9rea de Camobi, onde a FAB mant\u00e9m quatro esquadr\u00f5es com ca\u00e7as de ataque e helic\u00f3pteros de combate. Nenhum de seus integrantes estava no festejo envergonhado da pra\u00e7a.<br \/>\nNa Vila Militar, na zona oeste do Rio de Janeiro, maior agrupamento de for\u00e7a terrestre da Am\u00e9rica Latina, com 60 mil homens, quase um ter\u00e7o do efetivo atual (222 mil homens) do Ex\u00e9rcito brasileiro, nenhum dos 51 quart\u00e9is da \u00e1rea fez qualquer alus\u00e3o ou ato pelo anivers\u00e1rio de 31 de mar\u00e7o. Prevaleceu o respeito \u00e0 democracia, que os militares golpearam pela quebra da legalidade constitucional.<br \/>\nAssim, o Brasil nem lembrou os nomes dos novos comandantes militares, nomeados por Dilma na primeira semana de seu novo mandato, em janeiro passado. Foi a primeira troca de comando nas For\u00e7as Armadas feita por ela, que tinha herdado de Lula os chefes militares que sobreviviam no cargo desde 2007. Essa saud\u00e1vel, quase despercebida, rotina burocr\u00e1tica \u00e9 uma prova do vigor democr\u00e1tico do pa\u00eds, que os irrespons\u00e1veis que hoje pedem a volta da ditadura n\u00e3o sabem valorizar.<br \/>\nOs jornalistas que viveram e padeceram sob o regime militar sabem toda a diferen\u00e7a. Eram tempos duros, de medo e censura, em que todo editor competente ou rep\u00f3rter bem informado precisava ter, como fonte de refer\u00eancia obrigat\u00f3ria, um livro que hoje ningu\u00e9m mais conhece e que ainda \u00e9 editado todo ano: o Almanaque do Ex\u00e9rcito.<br \/>\nA primeira edi\u00e7\u00e3o a chamar aten\u00e7\u00e3o das reda\u00e7\u00f5es e dos jornalistas \u00e9 a do ano da gra\u00e7a de 1964, um catatau de 910 p\u00e1ginas pesando 1.176 gramas. A leitura era in\u00f3spita, mas essencial para entender e prever o que aconteceria com o Brasil e a vida (e morte) dos brasileiros, a partir do golpe.<br \/>\nO Almanaque, como hoje e sempre, trazia a tediosa rela\u00e7\u00e3o de cursos e gradua\u00e7\u00f5es de oficiais, colocados num ranking de merecimento que lhe garantia a preced\u00eancia nas listas de promo\u00e7\u00f5es. Nas democracias, isso \u00e9 uma irrelev\u00e2ncia administrativa de exclusivo interesse da comunidade castrense. Na ditadura, o Almanaque vigente era mais importante do que a Constitui\u00e7\u00e3o revogada e estuprada.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O guia das reda\u00e7\u00f5es<\/span><br \/>\nOs rep\u00f3rteres e editores das grandes reda\u00e7\u00f5es no Rio e S\u00e3o Paulo e das sucursais em Bras\u00edlia aprenderam a decodificar as entranhas do Almanaque para tentar decifrar o que poderia acontecer com os intestinos do poder enfeixado pelos generais.<br \/>\nEle traduzia um mundo fechado, distante, alheio ao universo dos civis e das lideran\u00e7as pol\u00edticas a que deviam se subordinar, se imperasse o mandamento constitucional. Estabelecido o arb\u00edtrio, a lei e a ordem estavam escritas e transcritas no Almanaque. Virou leitura ainda mais necess\u00e1ria para entender o pa\u00eds a partir de setembro de 1969, quando o general Arthur da Costa e Silva, o segundo presidente de plant\u00e3o do golpe, sofreu um derrame.<br \/>\nNa confus\u00e3o de poder criada pelo vazio do chefe, a primeira medida do Alto Comando foi vetar a posse do vice-presidente, o civil Pedro Aleixo. Mas era preciso botar algu\u00e9m no lugar do presidente entrevado, e n\u00e3o podia ser um civil como Aleixo. A solu\u00e7\u00e3o era consultar os \u00fanicos eleitores habilitados da ditadura: os generais. Num pa\u00eds de 90 milh\u00f5es de brasileiros, em 1969, apenas os 118 que tinham estrelas de general nos ombros estavam habilitados a escolher o sucessor do doente Costa e Silva.<br \/>\nA esculhamba\u00e7\u00e3o daqueles tempos estranhos foi anotada por um dos generais do Alto Comando, Ant\u00f4nio Carlos Muricy, e resgatadas no livro A Ditadura Escancarada pelo jornalista Elio Gaspari, que lia com lupa de exegeta as min\u00facias do Almanaque. Os 118 generais foram divididos em 11 distritos eleitorais. Com o cinismo de sempre, eles n\u00e3o classificavam aquilo de elei\u00e7\u00e3o, mas uma simples \u201cconsulta\u201d. Alguns generais votavam em tr\u00eas nomes, outros em apenas um.<br \/>\nNo III Ex\u00e9rcito, em Porto Alegre, s\u00f3 votaram generais. No I Ex\u00e9rcito, no Rio de Janeiro, os generais abriram a consulta para coron\u00e9is. Muricy espantou-se com essa democracia ampliada: \u201cNesse caso vamos acabar no cabo. Vamos ouvir o cabo\u2026\u201d A oficialidade mais jovem, que chegava a capit\u00e3es e majores, simpatizava muito com o general de divis\u00e3o Afonso Albuquerque Lima, da linha dura, mas nacionalista.<br \/>\nNa Marinha, ele recebeu 37 votos dos 65 almirantes consultados. Um dos almirantes de quatro estrelas chamou ao seu gabinete um almirante de tr\u00eas, Heitor Lopes de\u00a0Souza, que comandava o Corpo de Fuzileiros Navais. O quatro estrelas avisou que a Marinha apoiaria Albuquerque, conforme o relato de Gaspari:<br \/>\n\u2013 S\u00f3 se voc\u00ea quiser. Os fuzileiros ficam com M\u00e9dici \u2013 reagiu Souza.<br \/>\n\u2013 Isso n\u00e3o \u00e9 uma consulta. \u00c9 uma ordem \u2013 replicou o almirante.<br \/>\n\u2013 Ordem coisa nenhuma. Voc\u00ea comanda uma mesa. Eu comando 15 mil homens \u2013 lembrou o fuzileiro insubordinado.<br \/>\n\u2013 Nesse caso, mando prend\u00ea-lo \u2013 insistiu o almirante.<br \/>\n\u2013 E eu lhe dou uma rajada de metralhadora \u2013 atalhou o almirante Azambuja, chefe do Estado-Maior dos fuzileiros, apoiando a insubordina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo final desse ex\u00f3tico processo eleitoral, o comandante do III Ex\u00e9rcito, general Em\u00edlio Garrastaz\u00fa M\u00e9dici, ganhou 77 refer\u00eancias na \u201cconsulta\u201d a 102 generais, bem mais do que os 38 que preferiam Albuquerque. Na liturgia da ditadura, ficou expresso que um general de ex\u00e9rcito, de quatro estrelas, n\u00e3o poderia ser derrotado por outro de tr\u00eas estrelas, um mero general de divis\u00e3o. Os gal\u00f5es da tropa lembravam a hierarquia, que sustenta a estrutura dos quart\u00e9is e que ajudou a justificar o golpe contra Goulart em 1964. Um epis\u00f3dio mostra isso com mais contund\u00eancia.<br \/>\nNos dias confusos logo ap\u00f3s o derrame de Costa e Silva, o senador Daniel Krieger, da Arena ga\u00facha, foi chamado a Porto Alegre para receber em primeira m\u00e3o do general Em\u00edlio M\u00e9dici a sugest\u00e3o de chapa que ele levaria ao Alto Comando para a sucess\u00e3o presidencial: Jarbas Passarinho, coronel da reserva do Ex\u00e9rcito e ent\u00e3o ministro do Trabalho, para presidente, e Krieger para vice. A vers\u00e3o foi contada pelo pr\u00f3prio Passarinho, em 2010, ao rep\u00f3rter Geneton Moraes Neto, daGloboNews.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Decifrando signos<\/span><br \/>\nO del\u00edrio esbarrou na frase definitiva do chefe do Estado-Maior das For\u00e7as Armadas e futuro ministro do Ex\u00e9rcito de M\u00e9dici, general Orlando Geisel, de reluzentes quatro estrelas: \u201cGosto muito do Passarinho, mas n\u00e3o bato contin\u00eancia para coronel\u2026\u201d A partir da\u00ed, a leitura atenta doAlmanaque virou norma de servi\u00e7o para o jornalista que pretendia cobrir com precis\u00e3o a pol\u00edtica fardada do pa\u00eds.<br \/>\nA cada nova edi\u00e7\u00e3o, a cada nova lista de promo\u00e7\u00f5es, era preciso interpretar os c\u00f3digos embutidos no perfil dos 14 iluminados generais-de-ex\u00e9rcito que integrariam o pr\u00f3ximo Alto Comando, centro inacess\u00edvel de poder aos brasileiros comuns que n\u00e3o tinham voto nem estrela. Um comando de tropa, um curso, uma viagem, uma antiga subordina\u00e7\u00e3o na academia militar ou nos grandes comandos poderiam decifrar o pensamento do novo general. Um militar mais liberal ou um perfil de linha dura apontariam um novo equil\u00edbrio de for\u00e7as que levariam o Brasil para a abertura ou para o endurecimento pol\u00edtico. Era fundamental consultar e interpretar o Almanaque para entender a estranha mec\u00e2nica do poder e seus desdobramentos.<br \/>\nEsse tempo de primazia verde-oliva e obsess\u00e3o pelo Almanaque, felizmente, passou. Virou interesse espec\u00edfico apenas de quem vive o cotidiano do quartel, interessado na sua exclusiva evolu\u00e7\u00e3o profissional, com acontece em todo regime democr\u00e1tico que observa os limites institucionais das For\u00e7as Armadas nos termos soberanos da Constitui\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o ser\u00e1 jamais ultrapassada por um mero Almanaque.<br \/>\nNada expressa melhor esta evolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do que o perfil dos novos comandantes militares nomeados por Dilma e que ningu\u00e9m \u2013 ainda bem \u2013 conhece. Nem \u00e9 necess\u00e1rio consultar o Almanaque, basta digitar os seus nomes no Google. Assim, o jornalista que assina este texto, nascido em abril de 1951 em Caxias do Sul (RS), descobriu um dado aparentemente consolador: pela primeira vez \u00e9 mais velho do que os homens que comandam o Ex\u00e9rcito, a Marinha e a Aeron\u00e1utica.<br \/>\nTodos os tr\u00eas possuem fichas imaculadamente limpas na quest\u00e3o dos direitos humanos e da lealdade \u00e0 democracia, um contraste animador diante de antecessores e comandantes que ficaram marcados, d\u00e9cadas atr\u00e1s, pela brutalidade que inspiravam ou admitiam em seus subordinados no auge das viol\u00eancias da ditadura \u2013 e que nunca apareciam nas p\u00e1ginas do Almanaque.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/memorias_golpe5.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-21542 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/memorias_golpe5.jpg\" alt=\"memorias_golpe5\" width=\"577\" height=\"330\" \/><\/a><br \/>\n<span class=\"intertit\">Fora do Almanaque<\/span><br \/>\nO general Eduardo Dias da Costa Villas-Boas, nascido em novembro de 1951 em Cruz Alta (RS), s\u00f3 ingressou na escola de cadetes de Campinas em mar\u00e7o de 1967, duas semanas antes de Costa e Silva suceder Castelo Branco. Virou aspirante de Infantaria na Academia das Agulhas Negras no final de 1973, quando M\u00e9dici liderava a terceira e \u00faltima miss\u00e3o do Ex\u00e9rcito no Araguaia \u2013 a \u201cOpera\u00e7\u00e3o Marajoara\u201d, envolvendo 400 homens sob o comando do CIE, o Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito. Um ano depois, a guerrilha do PCdoB estava dizimada.<br \/>\nVillas Boas chegou a segundo tenente em agosto de 1974, cinco meses ap\u00f3s a posse de Ernesto Geisel, e a primeiro-tenente em agosto de 1976, quatro meses antes da \u201cChacina da Lapa\u201d \u2013 a opera\u00e7\u00e3o do DOI-CODI contra o Comit\u00ea Central do PCdoB no bairro paulistano da Lapa, que matou tr\u00eas dirigentes do partido, incluindo \u00c2ngelo Arroyo e Pedro Pomar. Foi promovido a major no Governo Sarney, em 1986, a tenente-coronel no Governo Collor, em 1991, e a coronel no Governo FHC, em 1996. Conseguiu suas duas estrelas de general de brigada em 2003, no Governo Lula, e as quatro estrelas do topo da carreira, general de ex\u00e9rcito, no Governo Dilma, em 2011.<br \/>\nNesse longo per\u00edodo, at\u00e9 pela idade, o novo comandante do Ex\u00e9rcito esteve distante dos horrores e abusos cometidos pelos camaradas de farda durante a ditadura. S\u00f3 viu o comunismo de perto em Pequim, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, quando era adjunto do adido militar na embaixada do Brasil na China.<br \/>\nO comandante da Marinha, almirante de esquadra Eduardo Bacellar Leal Ferreira, nascido em junho de 1952 no Rio de Janeiro (RJ), virou guarda-marinha aos 22 anos, em dezembro de 1974, quando Ernesto Geisel j\u00e1 estava no Planalto. Chegou a primeiro tenente em agosto de 1977, quatro meses ap\u00f3s Geisel fechar o Congresso para o \u201cPacote de Abril\u201d que inventou o senador bi\u00f4nico, estendeu o mandato de presidente para seis anos, cancelou as elei\u00e7\u00f5es diretas para governador em 1978 e garantiu a maioria da Arena no Col\u00e9gio Eleitoral pela amplia\u00e7\u00e3o artificial das bancadas governistas nos grot\u00f5es mais pobres do Norte e Nordeste.<br \/>\nVirou capit\u00e3o tenente em agosto de 1979, tr\u00eas dias ap\u00f3s Figueiredo assinar a Lei de Anistia que anistiou os torturadores, e chegou a capit\u00e3o de corveta em agosto de 1985, na ressaca das \u201cDiretas-J\u00e1\u201d. Ganhou a estrela de contra almirante em 2004, no Governo Lula, e chegou a topo como almirante de esquadra em 2013 no Governo Dilma.<br \/>\nPor fim, o comandante da Aeron\u00e1utica, tenente brigadeiro do ar Nivaldo Luiz Rossato, nascido em agosto de 1951 em S\u00e3o Gabriel (RS). Virou aspirante da FAB em dezembro de 1975, no segundo ano do Governo Geisel, e capit\u00e3o em agosto de 1981, quatro meses ap\u00f3s o atentado do Riocentro, no Rio, que feriu de morte o terrorismo do DOI-CODI, infartou o presidente Jo\u00e3o Figueiredo e implodiu o sonho do general Oct\u00e1vio Medeiros (chefe do SNI) de ser o sexto presidente do ciclo militar. Ganhou a estrela de oficial general como brigadeiro do ar em 2003, no Governo Lula, e chegou ao limite da carreira com as quatro estrelas de tenente brigadeiro do ar em 2011, no Governo Dilma.<br \/>\nUm detalhe extra, que n\u00e3o est\u00e1 em nenhum Almanaque e ainda n\u00e3o pode ser localizado no Google: nos dias agitados que antecediam o golpe, no frescor de nossos 12 anos, eu e o futuro comandante da FAB frequent\u00e1vamos, sem saber, as mesmas ruas de sua cidade natal, S\u00e3o Gabriel, para onde tinha me mudado quatro anos antes. Talvez tenhamos nos cruzado, de bicicleta, pelas largas cal\u00e7adas da pacata Pra\u00e7a Fernando Abbot, no centro da cidade, onde todos os moleques se divertiam sem compromisso.<br \/>\nEu e o brigadeiro Rossato nunca nos conhecemos. Nem poderia imaginar que aquele desconhecido guri de S\u00e3o Gabriel ingressaria depois na carreira militar, sobreviveria inc\u00f3lume aos anos de chumbo da ditadura que estava nascendo e se tornaria, na segunda d\u00e9cada do novo mil\u00eanio, o comandante da Aeron\u00e1utica de um governo democr\u00e1tico, exercido por uma ex-presa pol\u00edtica e ex-torturada de um regime que, nos idos de mar\u00e7o de 1964, ainda n\u00e3o perturbava a paz daquela pra\u00e7a no interior distante do Rio Grande do Sul.<br \/>\nNada disso, afinal, estava escrito no Almanaque.<br \/>\n<em>Luiz Cl\u00e1udio Cunha, jornalista, \u00e9 autor de Opera\u00e7\u00e3o Condor: o Sequestro dos Uruguaios (L&amp;PM, 2008)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Cl\u00e1udio Cunha\u00a0 E nfim, uma boa not\u00edcia neste p\u00e2ntano de informa\u00e7\u00f5es desalentadas que fazem cada vez mais opressivo o cotidiano dos brasileiros: nenhum quartel, nenhum general ousou comemorar a trag\u00e9dia de 31 de mar\u00e7o de 1964, o golpe militar que derrubou o presidente Jo\u00e3o Goulart e implantou a ditadura militar h\u00e1 51 anos. 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