{"id":21574,"date":"2015-04-22T19:50:02","date_gmt":"2015-04-22T22:50:02","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=21574"},"modified":"2015-04-22T19:50:02","modified_gmt":"2015-04-22T22:50:02","slug":"tirem-as-criancas-da-sala-voce-pode-morrer-a-qualquer-minuto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/tirem-as-criancas-da-sala-voce-pode-morrer-a-qualquer-minuto\/","title":{"rendered":"Tirem as crian\u00e7as da sala: &quot;voc\u00ea pode morrer a qualquer minuto\u201d"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Andres Vince<\/span><br \/>\nDomingo desses, caminhando pelo vasto deserto da programa\u00e7\u00e3o da TV aberta, fui parar na <a href=\"http:\/\/tvcomrs.clicrbs.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">TVCOM<\/a>, o canal local da RBS, no Sul.<br \/>\nH\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, n\u00e3o pousava por esse canal. Sinal ruim, exaustivas reprises, jeit\u00e3o de laborat\u00f3rio, n\u00e3o me deixavam simpatizar com ele. Mas, confesso que me surpreendi, ao assistir uma excelente <a href=\"http:\/\/videos.clicrbs.com.br\/rs\/tvcom\/video\/portoa\/2015\/04\/portoa-aldeia-kaingang-porto-alegre-tem-ensino-bilingue-ajuda-preservar-tradicoes-veja-historia-dessa-comunidade-19-04-2015\/119804\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">reportagem sobre os \u00edndios caingangues<\/a> num programa chamado\u00a0\u202a#\u200ePortoA.<br \/>\nInfelizmente, a reportagem era de encerramento, e, mais, n\u00e3o pude avaliar. Empolgado, nesse momento, deixei escapar a grande oportunidade de desligar a televis\u00e3o e ficar com essa boa impress\u00e3o: o jornalismo ainda vive. Est\u00e1 em coma profundo, respira por aparelhos, mas, ainda com atividade cerebral, mexe um dedinho do p\u00e9, de vez em quando.<br \/>\nEntra a chamada: a seguir, Bate-Bola. Pensei: programa desportivo, vou ver os gols do domingo e tal. \u00a0No est\u00fadio, ali presente, a nata do comentarismo esportivo do canal. Num \u00e1gil movimento reflexivo, tratei logo de levantar meu escudo.<br \/>\nContemporizei: nada mais justo, afinal, domingo \u00e0 noite \u00e9 o hor\u00e1rio nobre desse segmento. Eu s\u00f3 queria ver os gols do domingo.<br \/>\nEntra Pedro Ernesto Denardin, faz as honras da casa, faz o mercha habitual (todo mundo precisa comer), come\u00e7am as (pseudo) an\u00e1lises e os (in)consequentes debates.<br \/>\nJ\u00e1 tinha perdido o interesse no que estavam falando, quando o Pedro Ernesto comenta que algum fulano ali presente n\u00e3o iria ganhar a camisa da loja patrocinadora X, porque algu\u00e9m deixou o brinde no carro, e um lar\u00e1pio n\u00e3o deixou passar a oportunidade de incrementar seu guarda-roupa.<br \/>\nComo bom programa desportivo, levantada a bola, todos queriam chuta-la. Ent\u00e3o, come\u00e7aram as cenas de horror. Cada comentarista contou um caso de viol\u00eancia urbana, um mais cabeludo que o outro. O Guerrinha teve o requinte de dar uma dica: &#8220;ande sempre com pouca gasolina&#8221;. Ent\u00e3o, contou que lhe roubaram o carro \u00a0e como ele estava com pouca gasolina, o meliante largou seu carro logo adiante, pra trocar por outro, e que nessa troca, a v\u00edtima reagiu e&#8230; foi morta pelo bandido.<br \/>\nBaita dica, Guerrinha: &#8220;Preserve seu patrim\u00f4nio, \u00e0s custas da vida do pr\u00f3ximo&#8221;. Com pouca gasolina, o bandido abandona teu carro e pega outro. Azar se o bandido matar o pr\u00f3ximo, eu quero \u00e9 o meu carro. Bonito.<br \/>\nComo a vaidade \u00e9 um sentimento que acaba com a capacidade de racioc\u00ednio de uma pessoa, Pedro Ernesto, vendo o colega dominar a bola, olha diretamente pra c\u00e2mera, olho no olho do telespectador, ensaia uma express\u00e3o dram\u00e1tica e, como quem est\u00e1 abrindo uma transmiss\u00e3o futebol\u00edstica, tasca: &#8220;Meu senhor, minha senhora, voc\u00ea pode MORRER A QUALQUER MINUTO. Voc\u00ea pode sair na porta da sua casa e um bandido vir e lhe dar um tiro e voc\u00ea morre (&#8230;)&#8221;. Segue-se a isso um discurso mea culpa, afirmando que a maneira de falar \u00e9 para ver se alguma coisa acontece. Por parte do poder p\u00fablico, obviamente.<br \/>\nAqui j\u00e1 n\u00e3o se trata de ser ou n\u00e3o jornalismo ou algo que o valha. Do que se trata aqui \u00e9 de o fato de uma concess\u00e3o p\u00fablica estar sendo usada pra disseminar o terror. Sim, isso \u00e9 terrorismo puro. Exagero? Imagina se eu, pai, estou com um hipot\u00e9tico filho numa faixa de 7 a 10 anos, querendo ver os gols do domingo e entra uma pessoa e diz essas coisas. O que se passa na cabe\u00e7a dessa crian\u00e7a? Logo mais, a crian\u00e7a vai pra cama e pensa o qu\u00ea?<br \/>\nPensem por um minuto com a cabe\u00e7a da crian\u00e7a: &#8220;Poxa, tem um cara na TV dizendo que meu pai e minha m\u00e3e podem morrer a qualquer minuto&#8221;. Qual o impacto psicol\u00f3gico que isso pode causar? Algu\u00e9m pode dimensionar? Arrisco dizer: um adulto com desejo de ter uma arma.<br \/>\n\u00c9 uma irresponsabilidade total. Nem vou falar que o programa era pra ser desportivo, porque em dado momento estavam falando do valor pr\u00e1tico e moral do uso das ceroulas! Fiquei imaginando em que momento iriam comentar sobre os gl\u00fateos de alguma nova estagi\u00e1ria da TV. Certamente durante o intervalo.<br \/>\nAproveite o intervalo, confira se a porta est\u00e1 bem trancada e tire as crian\u00e7as da sala.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andres Vince Domingo desses, caminhando pelo vasto deserto da programa\u00e7\u00e3o da TV aberta, fui parar na TVCOM, o canal local da RBS, no Sul. H\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, n\u00e3o pousava por esse canal. Sinal ruim, exaustivas reprises, jeit\u00e3o de laborat\u00f3rio, n\u00e3o me deixavam simpatizar com ele. 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