{"id":21696,"date":"2015-04-28T21:56:29","date_gmt":"2015-04-29T00:56:29","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=21696"},"modified":"2015-04-28T21:56:29","modified_gmt":"2015-04-29T00:56:29","slug":"fuzilamento-na-indonesia-quatro-dias-na-cela-do-condenado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/fuzilamento-na-indonesia-quatro-dias-na-cela-do-condenado\/","title":{"rendered":"Fuzilamento na Indon\u00e9sia: quatro dias na cela do condenado"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Renan Antunes de Oliveira<\/span><br \/>\nO paranaense Rodrigo Muxfeldt Gularte, 42, foi <a href=\"http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/internacional\/noticia\/2015-04\/rodrigo-gularte-e-fuzilado-na-indonesia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">fuzilado na tarde desta ter\u00e7a-feira<\/a> (28) na Indon\u00e9sia, depois de 11 anos de batalha nos tribunais deste pais asi\u00e1tico para escapar da condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte por narcotr\u00e1fico.<br \/>\nA fam\u00edlia tentou at\u00e9 a \u00faltima hora obter clem\u00eancia alegando que ele estaria esquizofr\u00eanico.<br \/>\nPassei<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/na-balada-da-morte\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> quatro dias conversando com Rodrigo em fevereiro de 2005<\/a>, na cela dele. Perguntei se ele entendia os riscos e consequ\u00eancias de seu ato \u2013 ele foi preso pela alf\u00e2ndega local com seis quilos de coca escondidos em pranchas de surf, em julho de 2004.<br \/>\nResposta: \u201cSe a parada tivesse dado certo eu estaria surfando em Bali, cercado de mulheres\u201d.<br \/>\nN\u00e3o deu certo. Preso, ele confessou o crime e foi condenado \u00e0 morte.<br \/>\nRodrigo enfrentou o pelot\u00e3o de fuzilamento na companhia de um padre cat\u00f3lico irland\u00eas. O \u00faltimo pedido dele \u00e0 prima Angelita Muxfeldt foi para ser enterrado em Curitiba. H\u00e1 controv\u00e9rsias sobre o estado mental dele na hora final.<br \/>\nA m\u00e3e, dona Clarisse, que lutou o bom combate para salv\u00e1-lo, n\u00e3o quis assistir o filho que trouxe ao mundo ser morto t\u00e3o longe. A prima encomendou uma cruz de madeira artesanal para o caix\u00e3o e vai trazer as cinzas dele para casa.<br \/>\nO Rodrigo que eu entrevistei na cadeia me pareceu um sujeito muito normal \u2013 pode ser que tenha pirado depois.<br \/>\nAs autoridades indon\u00e9sias afirmavam que ele fingia a doen\u00e7a para escapar da condena\u00e7\u00e3o.<br \/>\nRodrigo era um traficante light. Fazia a rota Floripa-Bali-Amasterd\u00e3-Floripa para o traficante da pesada Dimi Papageorgiou, um carioca de pais gregos, apelidado de \u201cbar\u00e3o do ecstasy\u201d.<br \/>\nRodrigo fizera v\u00e1rias viagens de \u201censaio\u201d para trazer ecstasy do exterior. Na primeira tentativa de levar tanta coca para Bali ele caiu. Dimi o visitou na cadeia, mas na volta ao Brasil foi preso pela PF.<br \/>\n<span class=\"intertit\">TRECHOS DAS CONVERSAS NA CADEIA<\/span><br \/>\nO que mais me impressionou em 2005 foi o clima irreal na cadeia de Tangerang (sub\u00farbio de Jakarta), onde Rodrigo e o carioca <a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/nao-posso-me-queixar-da-vida-que-levei\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Marco Archer \u2013 fuzilado em janeiro<\/a> \u2013 eram celebridades.<br \/>\nEntre a quarta-feira 9 e o s\u00e1bado 12 de fevereiro, eles deram muitas gargalhadas relembrando suas aventuras.<br \/>\nOs dois n\u00e3o estavam nem a\u00ed para a possibilidade de enfrentar o Criador, via pelot\u00e3o de fuzilamento, ou passar o resto de suas vidas presos na \u00c1sia. Se sentiam como se tudo fosse apenas uma bad trip.<br \/>\nRodrigo foi mais usu\u00e1rio do que traficante. Come\u00e7ou cheirando solvente aos 13 anos.<br \/>\nDona Clarisse, a m\u00e3e de Rodrigo, mobilizou o Itamaraty para proteg\u00ea-lo. <a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/lula-pediu-clemencia-aos-condenados-nao-foi-atendido\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Apelou para Lula, Dilma, papa Francisco<\/a> e <a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/defesa-tenta-ultimo-recurso-para-evitar-fuzilamento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ao presidente da Indon\u00e9sia<\/a>, sempre sem sucesso.<br \/>\nHavia uma expectativa otimista no Itamaraty. No in\u00edcio, alguns diplomatas acreditavam que seria poss\u00edvel reduzir a pena de Rodrigo para pris\u00e3o perp\u00e9tua, em segunda inst\u00e2ncia, negociando em dinheiro uma redu\u00e7\u00e3o maior ainda na terceira, para 20 anos, com soltura em sete, talvez 10 \u2013 na \u00e9poca o Judici\u00e1rio indon\u00e9sio adotava uma regra n\u00e3o escrita de trocar tempo de encarceramento por uma pena pecun\u00e1ria.<br \/>\nOs custos para dar jeitinho nas senten\u00e7as e as despesas para manter Rodrigo numa cela cinco estrelas eram calculados em 200 mil d\u00f3lares \u2013 a m\u00e3e dele \u00e9 rica e tentou pagar.<br \/>\nMudan\u00e7as pol\u00edticas na Indon\u00e9sia acabaram com o projeto de resgate por dinheiro.<br \/>\nNo julgamento de Rodrigo, em 2005, j\u00e1 era poss\u00edvel prever. O povo mu\u00e7ulmano lotou o tribunal e pedia \u2018\u2018morte aos traficantes ocidentais crist\u00e3os\u2019\u2019, descri\u00e7\u00e3o na qual se encaixam Rodrigo e Marco Archer.<br \/>\nO pedido da massa deixou o governo firme para rejeitar as campanhas internacionais por direitos humanos, livre de d\u00favidas existenciais sobre a pena de morte.<br \/>\nNos momentos de maior del\u00edrio Rodrigo sonhava em voltar \u00e0s praias de Floripa e contar aos amigos como escapou daquela fria.<br \/>\nEle admirava muito Marco Archer. Eu pedi um exemplo da vida dele, Marco: \u201cU\u00e9, viajou pelo mundo todo, teve um monte de mulheres, foi nos lugares mais finos, comeu nos melhores restaurantes, tudo s\u00f3 no glamour, nunca usou uma arma, o cara \u00e9 demais.\u201d<br \/>\nEle me disse aquilo e parou por alguns segundos. Refletiu um pouco e me pediu ajuda: \u201cPor favor, brother, quando voc\u00ea for escrever, d\u00ea uma for\u00e7a, passe uma imagem positiva nossa, pra ajudar na campanha\u201d (pela liberta\u00e7\u00e3o).<br \/>\nEnt\u00e3o diga l\u00e1 o que voc\u00ea vai fazer quando for solto: \u201cBota a\u00ed que eu quero trabalhar 10 anos pro governo dando palestras pra crian\u00e7as sobre a roubada que \u00e9 o tr\u00e1fico\u201d.<br \/>\nEle disse isto e saboreou o efeito das palavras. Tragou seu Marlboro. Parecia s\u00e9rio, at\u00e9 jogar a fuma\u00e7a pra cima. Quando soltou tudo, o corpo j\u00e1 estava se chacoalhando. \u00c9 que ele n\u00e3o conseguiu conter o riso.<br \/>\n<span class=\"intertit\">GL\u00d3RIA NA CADEIA<\/span><br \/>\nRodrigo se exibiu para mim deslumbrado com a pris\u00e3o, seu momento de gl\u00f3ria: \u201cSomos (com Marco) os \u00fanicos entre 180 milh\u00f5es de brasileiros\u201d (hoje o Brasil j\u00e1 tem 200 milh\u00f5es).<br \/>\nEle parecia deslumbrado com a notoriedade obtida com o narcotr\u00e1fico \u2013 cujo pico de audi\u00eancia \u00e9 entre jovens ricos praticantes de esportes radicais.<br \/>\nRodrigo queria botar um di\u00e1rio na internet, coisa que nunca faria.<br \/>\nEnquanto Rodrigo esteve em Tangerang ele comprou privil\u00e9gios: \u201cAqui \u00e9 como numa pousada, muito legal, s\u00f3 que jogaram a chave fora\u201d, me disse. Parecia satisfeito, mesmo sendo acostumado ao conforto de sua su\u00edte com sauna, na casa da fam\u00edlia, em Curitiba.<br \/>\nEnquanto os 1300 presos mu\u00e7ulmanos viviam amontoados em 10 por jaula, ele tinha uma exclusiva. Equipada com TV, ventilador, geladeira, forno el\u00e9trico, som pauleira, jardim privativo. Ele criava p\u00e1ssaros, bonsais e a gata Tigrinha.<br \/>\nEle usava os presos pobres como faxineiros cabeleireiros e pedicures. Podia receber gente sem formalidades, todos os dias. Rodrigo foi visitado pela fam\u00edlia, pela namorada, a empres\u00e1ria carioca Adriana Andrade, e pelo parceir\u00e3o Papageorgiou.<br \/>\nA balada na cadeia n\u00e3o parava nunca. Rodrigo tamb\u00e9m tinha uma namorada local, prima de outro condenado, em quem dava uns amassos na sala do comandante \u2013 subornado para usar o sof\u00e1.<br \/>\nPodia consumir ecstasy e outras drogas. Nas noites quentes rolava um chopinho gelado, cortesia de um chef\u00e3o local, preso no mesmo pavilh\u00e3o.<br \/>\nComo Tangerang \u00e9 uma pris\u00e3o provis\u00f3ria, nos arredores de Jacarta, Rodrigo vivia como naquela piada da hora do recreio no inferno. O secret\u00e1rio do diabo poderia anunciar o fim dos privil\u00e9gios a qualquer momento.<br \/>\nEste dia finalmente chegou. Depois de sentenciado, ele foi transferido para a ilha onde seria fuzilado \u2013 um Carandiruz\u00e3o com 10 mil presos mu\u00e7ulmanos.<br \/>\n<span class=\"intertit\">NAS DROGAS DESDE OS 13<\/span><br \/>\nRodrigo nasceu em Foz do Igua\u00e7u. \u00c9 neto de latifundi\u00e1rio produtor de soja, filho de m\u00e3e milion\u00e1ria. O pai \u00e9 um m\u00e9dico ga\u00facho de Santana do Livramento, Rubens Borges Gularte \u2013 fragilizado pela idade e por uma doen\u00e7a, ele desistiu de tentar salvar o filho. Era tudo com a m\u00e3e.<br \/>\nAos 13, j\u00e1 em Curitiba, Rodrigo come\u00e7ou nas drogas, cheirando solventes. \u201cEra um garoto maravilhoso, a alegria da fam\u00edlia, nunca levantou a voz\u201d, isso \u00e9 tudo o que a m\u00e3e contava dele naquela \u00e9poca.<br \/>\nCom 18 foi preso fumando um baseado no parque Barig\u00fci. O pai queria deixar que ele fosse processado. A m\u00e3e n\u00e3o concordou, subornou um delegado com mil d\u00f3lares pra soltar o garoto: \u201cSe fossem prender todos os que fumam\u201d, justificou dona Clarisse.<br \/>\nO garoto ganhou seu primeiro carro. Botou amigos dentro e saiu pela Am\u00e9rica Latina como um Che Guevara mauricinho, bebendo e se drogando. \u201cFiz cada loucura\u201d, me contou.<br \/>\nAos 20 Rodrigo era um rapaz de 1,84m, magr\u00e3o, modos educados, cheio de namoradas. Teve um breve romance com a professora catarinense Maria do Rocio, 13 anos mais velha, fazendo Jimmy, hoje com 23, autista. Raramente via o filho: \u201cEu n\u00e3o estava preparado para a paternidade\u201d, disse \u2013 no dia do fuzilamento Rocio e o filho n\u00e3o foram localizados.<br \/>\nRodrigo contou que viajava muito, na pira\u00e7\u00e3o total: \u201cEm Marrocos, fumei o melhor haxixe\u201d. No Peru: \u201cCoca da pura\u201d. Na Holanda: \u201cEcstasy de primeira\u201d.<br \/>\nAos 24, sai b\u00eabado e drogado de uma festa. Bate o carro num t\u00e1xi, tenta fugir, bate noutro carro, abandona tudo e corre pra casa da m\u00e3e. Ela d\u00e1 uma volta na pol\u00edcia, chama um m\u00e9dico, interna o garoto.<br \/>\nNa ficha de interna\u00e7\u00e3o, o m\u00e9dico anotou: \u201cMostrou onipot\u00eancia, estava depressivo\u201d \u2013 o diagn\u00f3stico de esquizofrenia s\u00f3 apareceria na reta final do fuzilamento.<br \/>\nNos anos seguintes a m\u00e3e fez de tudo para ele dar certo. Abriu para Rodrigo uma creperia, em Curitiba. N\u00e3o deu. Uma casa de massas, em Floripa. N\u00e3o deu. Mandou pra fazenda da fam\u00edlia. N\u00e3o deu. Rodrigo foi estudar no Paraguai. N\u00e3o deu. Ele se matriculou na UFSC. N\u00e3o deu.<br \/>\nRodrigo come\u00e7ou no tr\u00e1fico: \u201cFiz v\u00e1rias viagens \u00e0 Europa s\u00f3 para trazer skunk\u201d, confessou pra mim.<br \/>\n<span class=\"intertit\">\u201cA COCA\u00cdNA \u00c9 DO MAL\u201d<\/span><br \/>\nA pris\u00e3o: \u201cOs carinhas (Dimi e seus asseclas) me deram as pranchas com coca\u00edna dentro (em Floripa). Embarquei em Curitiba, onde o raio x \u00e9 ruim, pra desembarcar em Jakarta\u201d.<br \/>\nEle se lamentou: \u201cS\u00f3 depois soube que os japoneses doaram um raio x potente pros indon\u00e9sios, eles pegaram a droga\u201d.<br \/>\nRodrigo filosofou: \u201cMeu erro foi a coca. O skunk \u00e9 energia positiva, o ecstasy d\u00e1 um barato legal, mas a coca\u00edna \u00e9 do mal\u201d.<br \/>\nO desabafo: \u201cSe a parada tivesse dado certo eu estaria surfando em Bali, cercado de mulheres&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renan Antunes de Oliveira O paranaense Rodrigo Muxfeldt Gularte, 42, foi fuzilado na tarde desta ter\u00e7a-feira (28) na Indon\u00e9sia, depois de 11 anos de batalha nos tribunais deste pais asi\u00e1tico para escapar da condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte por narcotr\u00e1fico. A fam\u00edlia tentou at\u00e9 a \u00faltima hora obter clem\u00eancia alegando que ele estaria esquizofr\u00eanico. 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