{"id":21721,"date":"2015-04-30T18:22:24","date_gmt":"2015-04-30T21:22:24","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=21721"},"modified":"2015-04-30T18:22:24","modified_gmt":"2015-04-30T21:22:24","slug":"um-corpo-sem-o-tampo-do-cranio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/um-corpo-sem-o-tampo-do-cranio\/","title":{"rendered":"Um corpo, sem o tampo do cr\u00e2nio"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Por Renan Antunes de Oliveira, em Araquari (SC)<\/span><br \/>\nA Pol\u00edcia Militar de Santa Catarina tentou encobrir o sumi\u00e7o do deficiente mental Wesley Lopes, de 25 anos.<br \/>\nEle foi visto, pela \u00faltima vez, sendo metido \u00e0 for\u00e7a num cambur\u00e3o do 27\u00ba Batalh\u00e3o da Pol\u00edcia Militar (BPM), na noite de 27 de setembro de 2013.<br \/>\nEle foi apelidado de &#8220;Amarildo catarinense&#8221; pela semelhan\u00e7a do<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Caso_Amarildo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> ocorrido com aquele pedreiro sumido na UPP da Rocinha<\/a>.<br \/>\nSe nas favelas do Rio de Janeiro \u00e9 dif\u00edcil identificar e punir policiais que cometem crimes em servi\u00e7o, nos grot\u00f5es do Brasil \u00e9 quase imposs\u00edvel &#8211; Araquari fica a 180 km de Floripa, no litoral norte catarinense.<br \/>\nO delegado da cidade, Rodrigo Aquino Gomes, agiu no primeiro dia p\u00f3s sumi\u00e7o e indiciou dois policiais militares do 27\u00ba BPM como respons\u00e1veis pelo desaparecimento de Wesley.<br \/>\nEm seguida, Gomes deu inicio \u00e0 busca pelo cad\u00e1ver: eram poucas as chances dele ser encontrado vivo.<br \/>\nPara encobrir o caso e proteger os PMs suspeitos, a corpora\u00e7\u00e3o e a Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica produziram e mantiveram uma farsa continuada por um ano e tr\u00eas meses, at\u00e9 janeiro.<br \/>\nO bal\u00e9 das mentiras come\u00e7ou na primeira vers\u00e3o oficial do comandante dos soldados envolvidos: ele disse que eles n\u00e3o estiveram no local do sumi\u00e7o, n\u00e3o prenderam Wesley e nem o levaram no cambur\u00e3o &#8211; naquele dia ainda n\u00e3o se falava em morte.<br \/>\nMas uma testemunha viu Wesley ser levado da rua Santo Ant\u00f4nio. Anotou a placa do cambur\u00e3o e descreveu os soldados &#8211; com base nesta testemunha o delegado Gomes desentocou os dois.<br \/>\nA PM ent\u00e3o mudou a vers\u00e3o: admitiu que os soldados X e Y prenderam Wesley &#8211; os nomes deles foram protegidos pela corpora\u00e7\u00e3o. O delegado exigiu que o preso fosse entregue na delegacia, mas a PM j\u00e1 n\u00e3o pode apresent\u00e1-lo: era o sumi\u00e7o total.<br \/>\nPara dar jeito de verdade, a PM usou a desculpa padr\u00e3o: os dois PMs teriam ido ao local (uma casa branca, no n\u00famero 602 da rua Santo Ant\u00f4nio) investigar den\u00fancia an\u00f4nima de narcotr\u00e1fico.<br \/>\nOs soldados disseram que soltaram Wesley &#8220;numa esquina&#8221;, perto de casa, &#8220;minutos depois&#8221; da abordagem.<br \/>\nSoltar nunca aconteceu: do alto da Santo Ant\u00f4nio \u00e9 poss\u00edvel saber qual dos moradores est\u00e1 na rua &#8211; todos se conhecem e Wesley era o louquinho do peda\u00e7o. Jamais ficaria inc\u00f3gnito nela. Ningu\u00e9m o viu, nunca mais.<br \/>\nO delegado Gomes continuou as buscas, mesmo sem apoio da PM. Montou volantes com amigos e familiares. Procurou por todos os becos e matagais do bairro, sem sucesso: pelo faro do policial, Wesley estaria morto e desovado por ali.<br \/>\nTr\u00eas dias depois a PM deu mais uma vers\u00e3o mentirosa: Wesley teria sido visto num carro, com traficantes, tamb\u00e9m perto de casa, mas n\u00e3o teria descido porque n\u00e3o queria voltar .<br \/>\nO objetivo da vers\u00e3o n\u00famero 4 era fazer cessarem as buscas do delegado.<br \/>\nO pai de Wesley, Jair, motorista de uma pedreira, disse no primeiro dia ap\u00f3s o desaparecimento que &#8220;a PM est\u00e1 mentindo, tenho certeza que mataram meu filho&#8221; &#8211; e manteve a mesma vers\u00e3o at\u00e9 <a href=\"http:\/\/ndonline.com.br\/joinville\/noticias\/199251-corpo-de-wesley-lopes-desaparecido-ha-quase-um-ano-e-encontrado-em-araquari.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o dia em que o cad\u00e1ver foi encontrado<\/a>, quase um ano depois, em 17 de setembro de 2014.<br \/>\nJair deu uma explica\u00e7\u00e3o simples para sua certeza enfim confirmada: &#8220;Eu sabia que eles estavam mentindo porque a doen\u00e7a mental de Wesley n\u00e3o lhe permitiria viver nas ruas sozinho. Ele nunca saia de perto de casa porque n\u00e3o saberia fazer nada, nem voltar&#8221;.<br \/>\nNa fase sem o corpo, o inqu\u00e9rito policial militar conduzido pela PM absolveu os soldados e os reintegrou \u00e0 tropa. A ju\u00edza Nayana Scherer, que deixou a comarca no final de 2014, afirma que, antes de sair, tentou &#8220;de todas as formas saber quem deu sumi\u00e7o no &#8216;nosso Amarildo&#8217; &#8220;.<br \/>\nEla disse que inicialmente suspeitou de viol\u00eancia policial. Para apurar o caso, interrogou o comandante do destacamento onde atuavam os PMs: &#8220;Ele me garantiu que eram dois soldados novos, um deles muito s\u00e9rio, e que ningu\u00e9m do comando estava encobrindo o sumi\u00e7o&#8221; &#8211; lembrando que naquela altura o corpo ainda n\u00e3o aparecera.<br \/>\nSobre o n\u00e3o-s\u00e9rio dos dois PMs ela nada sabe. O capit\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 mais entrevistas sobre o caso. O inqu\u00e9rito interno da PM subiu \u00e0 Corregedoria. Os dois soldados acusados levaram apenas um peteleco, anotado na folha disciplinar de cada um, pela mentira sobre meter Wesley no cambur\u00e3o.<br \/>\nNo fim, tamb\u00e9m foram inocentados: &#8220;N\u00e3o h\u00e1 elementos suficientes (para condena\u00e7\u00e3o) na investiga\u00e7\u00e3o&#8221; foi a conclus\u00e3o dos corregedores, em Florian\u00f3polis.<br \/>\nN\u00e3o satisfeita, a ju\u00edza Nayana chamou a for\u00e7a de elite da Delegacia de Desaparecidos da Pol\u00edcia Civil.<br \/>\nUma equipe de Floripa assumiu o caso na pequena cidade, hoje not\u00e1vel por sediar a f\u00e1brica da BMW.<br \/>\nA ju\u00edza fez sua parte autorizando escutas telef\u00f4nicas e<a href=\"http:\/\/anoticia.clicrbs.com.br\/sc\/geral\/noticia\/2015\/01\/investigacao-da-morte-de-wesley-lopes-em-araquari-ocorre-em-segredo-de-justica-4688123.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> decretando sigilo no processo<\/a> &#8220;para proteger as testemunhas dos supostos autores&#8221;.<br \/>\nEla esperou em v\u00e3o pelos resultados: &#8220;Crimes assim n\u00e3o s\u00e3o comuns em Santa Catarina, eu queria dar uma satisfa\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia, estava curiosa para saber quem teria feito aquilo&#8221;.<br \/>\nA investiga\u00e7\u00e3o classe A concluiu que Wesley estava vivo e bem. Numa descri\u00e7\u00e3o muito colorida, os agentes afirmaram que ele fora visto passeando em Balne\u00e1rio Cambori\u00fa em agosto de 2014, a 90 km de Araquari.<br \/>\nA Secretaria de Seguran\u00e7a deu o caso por encerrado, louvando o trabalho de seus policiais das duas for\u00e7as, civil e militar.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o acredito que isto tenha acontecido, n\u00e3o fazia sentido&#8221;, disse a ju\u00edza. &#8220;A testemunha que vira Wesley era ligada a policiais, mas eles n\u00e3o o pegaram, quando \u00e0quela altura lhes convinha apresentarem Wesley vivo para acabar com as suspeitas (sobre os PMs)&#8221;.<br \/>\nUm dos investigadores agora acredita que Wesley morreu na mesma noite em que sumiu.<br \/>\nEm setembro do ano passado um lavrador encontrou a ossada num matagal perto da rua Santo Ant\u00f4nio.<br \/>\nO exame de DNA bateu, mas o resultado n\u00e3o foi revelado pela Secretaria de Seguran\u00e7a at\u00e9 o in\u00edcio deste ano.<br \/>\nO perito do IML de Joinville que examinou o cad\u00e1ver n\u00e3o conseguiu saber a causa da morte.<br \/>\nO corpo, mesmo decomposto, n\u00e3o tinha marcas de tiros, nem pauladas, nem facadas.<br \/>\nEntretanto, faltava um peda\u00e7o de osso do cr\u00e2nio.<br \/>\n&#8220;J\u00e1 vi casos assim. Foi como se algu\u00e9m tivesse dado um tiro na boca e arrancado o tampo. O peda\u00e7o de osso faltante poderia mostrar a passagem da bala, seu calibre e outras evid\u00eancias. Quem o matou, levou s\u00f3 o osso, apagando as provas&#8221;, disse o perito.<br \/>\nQuem se daria tanto trabalho para matar e esconder o louquinho da rua Santo Ant\u00f4nio?<br \/>\nQuando o corpo apareceu o delegado Gomes indiciou os PMs tamb\u00e9m pelo assassinato &#8211; mas, talvez assustado com a repercuss\u00e3o na c\u00fapula da Secretaria de Seguran\u00e7a, n\u00e3o quis mais falar sobre o caso.<br \/>\nEle mandou seu inqu\u00e9rito para o f\u00f3rum de Araquari em fevereiro. O processo rola l\u00e1 dentro como uma batata quente. J\u00e1 est\u00e1 no terceiro promotor em menos de dois meses.<br \/>\nUma mulher viu o sumi\u00e7o &#8211; \u00e9 a testemunha n\u00famero um &#8211; e n\u00e3o teve medo. O nome dela foi preservado pela ju\u00edza Nayana &#8220;porque foi ela que deu origem \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o&#8221;. A testemunha-chave acordou com gritos na rua naquela noite de 27 de setembro: &#8220;Wesley estava no meu port\u00e3o me chamando, ele queria entrar&#8221;, fugindo da abordagem de PMs.<br \/>\nEla espiou pela janela: &#8220;Vi quando ele foi puxado pela camisa para a cal\u00e7ada e arrastado para a rua pelos soldados&#8221;.<br \/>\nA mulher ouviu ent\u00e3o o curto di\u00e1logo que selaria a sorte de Wesley:<br \/>\nPM 1: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 irm\u00e3o do Robson?&#8221;<br \/>\nWL: &#8220;Sou&#8221;.<br \/>\nPM2: &#8220;Qual \u00e9 o teu nome&#8221;<br \/>\nWL:\u00a0&#8220;Wesley&#8221;.<br \/>\nPM1: &#8220;Soletre!&#8221;<br \/>\nFoi a\u00ed que a coisa pegou: Wesley era analfabeto. Tinha \u00f3bvias dificuldades de fala. Sabia dizer apenas meia d\u00favida de respostas essenciais. Soletrar era demais pra ele e ent\u00e3o ele se calou.<br \/>\n&#8220;Acho que os PMs acreditaram que ele estava tentando engan\u00e1-los e se enfureceram&#8221;, disse a testemunha. &#8220;A\u00ed eles come\u00e7aram a bater nele e o meteram no cambur\u00e3o&#8221;.<br \/>\nA mulher da janela anotou as placas e correu para a casa do pai dele com a not\u00edcia. Seu Jair levou o caso ao delegado Gomes, que fez o servi\u00e7o de acordo com a lei.<br \/>\nO delegado exigiu o GPS localizador das andan\u00e7as do cambur\u00e3o dos PMs na noite do sumi\u00e7o &#8211; isto ajudou a desmontar a primeira vers\u00e3o mentirosa do comando, indicando que a viatura permanecera estacionada na rua Santo Ant\u00f4nio bem na hora indicada pela testemunha (s\u00f3 ent\u00e3o a PM admitiu que eles pegaram Wesley).<br \/>\nFaltava a comprova\u00e7\u00e3o de que o mesmo cambur\u00e3o estivera naquele matagal (onde mais tarde o corpo foi encontrado) na mesma noite.<br \/>\nO GPS mostrou que a dupla de PMs que sumiu com Wesley no ponto A da rua Santo Ant\u00f4nio esteve, naquela noite, no ponto B do matagal onde ele seria encontrado um ano depois.<br \/>\nIsto n\u00e3o significa que os PMs deram sumi\u00e7o e mataram Wesley &#8211; eles s\u00e3o inocentes at\u00e9 prova em contr\u00e1rio.<br \/>\nPara culp\u00e1-los ser\u00e1 preciso que o MPE aceite as provas do inqu\u00e9rito, fa\u00e7a a den\u00fancia, que a Justi\u00e7a a aceite e que os dois sejam condenados pelo j\u00fari.<br \/>\nPor seguran\u00e7a, seu Jair, que j\u00e1 demonstrou certa capacidade de farejar mentiras, mudou-se da cidade com a fam\u00edlia.<br \/>\nOs dois soldados suspeitos ainda est\u00e3o na tropa, cumprindo sua miss\u00e3o di\u00e1ria de proteger o povo catarinense.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Renan Antunes de Oliveira, em Araquari (SC) A Pol\u00edcia Militar de Santa Catarina tentou encobrir o sumi\u00e7o do deficiente mental Wesley Lopes, de 25 anos. 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