{"id":21742,"date":"2015-05-03T18:10:29","date_gmt":"2015-05-03T21:10:29","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=21742"},"modified":"2015-05-03T18:10:29","modified_gmt":"2015-05-03T21:10:29","slug":"licoes-da-borregaard","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/licoes-da-borregaard\/","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es da Borregaard"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Elmar Bones<\/span><br \/>\nEram\u00a015 horas do domingo (03), quando <a href=\"http:\/\/jcrs.uol.com.br\/site\/noticia.php?codn=195534\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">entrou em opera\u00e7\u00e3o a nova unidade da Celulose\u00a0 Riograndense<\/a>, em Gua\u00edba.<br \/>\nO primeiro fardo de celulose vai se materializar dois dias depois, tempo em que se completa o circuito da produ\u00e7\u00e3o \u2013 da entrada da madeira (cavacos de\u00a0 eucalipto) at\u00e9 a sa\u00edda da pasta de celulose na ponta final do processo industrial.<br \/>\nQuando estiver operando a pleno, em setembro, ser\u00e1 uma das maiores e mais modernas fabricas de celulose do mundo, capaz de produzir dois milh\u00f5es de toneladas por ano.<br \/>\nAo pre\u00e7o de hoje, em torno dos 700 d\u00f3lares a tonelada, ter\u00e1 um faturamento de 1,4 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano.<br \/>\nUm projeto exemplar no capitalismo brasileiro: investimento privado, sem isen\u00e7\u00e3o de imposto, rela\u00e7\u00f5es de trabalho evolu\u00eddas, integra\u00e7\u00e3o com a comunidade.<br \/>\nE, no entanto, tudo come\u00e7ou com um fracasso.<br \/>\n***<br \/>\nO projeto de uma grande f\u00e1brica de celulose \u00e0 margem do Gua\u00edba foi apresentado aos ga\u00fachos em 1971, sem chance para discuss\u00e3o.<br \/>\nEra um projeto privado de um grupo noruegu\u00eas, Borregaard, com financiamento do governo militar brasileiro.<br \/>\nDizia-se que\u00a0 a grande f\u00e1brica ia funcionar como uma alavanca para a industrializa\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul. Era o grande projeto que o regime militar devia ao Estado.<br \/>\nMais tarde se soube que a f\u00e1brica entrou em funcionamento sem qualquer estudo de impacto ambiental.<br \/>\nUm relat\u00f3rio t\u00e9cnico alertava para o risco de polui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas que abastecem Porto Alegre e toda a regi\u00e3o metropolitana, mas foi engavetado.<br \/>\nQuando o cheiro de enxofre exalado da chamin\u00e9 na outra margem do lago passou a tomar Porto Alegre nos dias de vento sudeste, os moradores da capital ga\u00facha se assustaram.<br \/>\nPassaram a dar ouvidos aos militantes do movimento ambientalista, que tinha \u00e0 frente Jos\u00e9 Lutzenberger e sua aguerrida Agapan.<br \/>\nO pior n\u00e3o era o cheiro, insistia Lutzenberger. O pior era o que estavam lan\u00e7ando na \u00e1gua que abastece a cidade: res\u00edduos de madeira num caldo qu\u00edmico altamente t\u00f3xico. Estudos da universidade identificaram\u00a0ind\u00edcios de dioxinas na deforma\u00e7\u00e3o em peixes.<br \/>\nA campanha dos ambientalistas ganhou a ades\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica , da Ordem dos Advogados e do Correio do Povo, o jornal mais influente do Estado na \u00e9poca.<br \/>\nJair Soares, ent\u00e3o secret\u00e1rio da Sa\u00fade, obteve na Justi\u00e7a\u00a0 autoriza\u00e7\u00e3o para fechar a f\u00e1brica, at\u00e9 que ela colocasse filtros para eliminar o mau cheiro e reduzir a descarga no Gua\u00edba.<br \/>\nFato in\u00e9dito na hist\u00f3ria do Estado, em pleno regime militar, 1973.<br \/>\nJos\u00e9 Lutzenberger que fundara a Agapan dois anos antes, mendigando notinhas nos jornais para suas reuni\u00f5es, tornou-se uma refer\u00eancia nacional.<br \/>\nA Celulose Borregaard virou s\u00edmbolo do mau comportamento empresarial. Reabriu,\u00a0 foi fechada outra vez tr\u00eas meses depois.<br \/>\nNesse meio tempo, revelados detalhes do neg\u00f3cio, com excessivos benef\u00edcios fiscais, ficou insustent\u00e1vel a situa\u00e7\u00e3o dos noruegueses.<br \/>\nO governo mais uma vez injetou dinheiro para que o Montepio da Fam\u00edlia Militar, um condom\u00ednio de coron\u00e9is, comprasse a f\u00e1brica. Um general assumiu a presid\u00eancia e empresa passou a chamar-se\u00a0 Rio Grande Celulose Ltda (Riocell).<br \/>\nO \u201cgeneral desodorante\u201d, diziam, que faria sumir o mau cheiro que seguia assolando a cidade quando soprava o sudeste.<br \/>\nA ind\u00fastria, no entanto, tinha dois pilares. Um processo produtivo bastante moderno e eficiente (menos na parte ambiental) e um modelo de gest\u00e3o bem avan\u00e7ado, com um corpo t\u00e9cnico altamente qualificado.<br \/>\nForam os t\u00e9cnicos que perceberam: por mais for\u00e7a que tivessem os generais na \u00e9poca, a quest\u00e3o das emiss\u00f5es de gases e de lan\u00e7amento de organoclorados nas \u00e1guas do Gua\u00edba tinham que ter solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas.<br \/>\nEm 1984, quando j\u00e1 pertencia a um terceiro dono, a Klabin, a empresa havia resolvido a quest\u00e3o dos gases. Naquele ano estava inaugurando uma Esta\u00e7\u00e3o de Tratamento de Efluentes, na qual havia investido 3,5 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<br \/>\nJos\u00e9 Lutzenberger foi o \u00fanico do movimento ambientalista presente \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o. Ali conversou com ao engenheiro\u00a0 Aldo Sani, superintendente da f\u00e1brica.<br \/>\nO circuito de recupera\u00e7\u00e3o das \u00e1guas estava resolvido, atingira n\u00edveis satisfat\u00f3rios. Mas havia os res\u00edduos s\u00f3lidos, os restos de madeira contaminados que ficariam empilhados a c\u00e9u aberto &#8211; uma fonte de contamina\u00e7\u00e3o do solo e das \u00e1gua.<br \/>\nAli, Lutzenberger se sentiu desafiado. Ele j\u00e1 discutia com seus seguidores da Agapan sobre como e quando passar da cr\u00edtica \u00e0 pr\u00e1tica, do discurso \u00e0 a\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAceitou o desafio. Suas pesquisas permitiram \u00e0 empresa chegar hoje a quase\u00a0100%\u00a0de recupera\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos s\u00f3lidos, transformados em solo org\u00e2nico e adubo. \u00c9 um caso exemplar de cr\u00edtica construtiva, uma das muitas li\u00e7\u00f5es que o \u201ccaso Borregaard\u201d tem ensinado \u00a0ao Rio Grande do Sul.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elmar Bones Eram\u00a015 horas do domingo (03), quando entrou em opera\u00e7\u00e3o a nova unidade da Celulose\u00a0 Riograndense, em Gua\u00edba. 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