{"id":21774,"date":"2015-05-05T09:21:42","date_gmt":"2015-05-05T12:21:42","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=21774"},"modified":"2015-05-05T09:21:42","modified_gmt":"2015-05-05T12:21:42","slug":"walter-lidio-encara-o-grenalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/walter-lidio-encara-o-grenalismo\/","title":{"rendered":"Walter L\u00eddio encara o grenalismo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">GERALDO HASSE<\/span><br \/>\nCom a arrancada da nova f\u00e1brica de Gua\u00edba no primeiro domingo de maio de 2015, a Celulose Riograndense passa a fazer parte do clube ga\u00facho do bilh\u00e3o de d\u00f3lares por ano.<br \/>\nEst\u00e1 ao lado da\u00a0Gerdau, Lojas Renner, Sicredi, Braskem, Randon, Marcopolo, Tramontina, Grendene, Getnet, Bianchini, SLC e Vonpar, segundo o <a href=\"http:\/\/www.amanha.com.br\/500maiores\/#500maioressul\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ranking 2014 da revista Amanh\u00e3<\/a>, com as 500 maiores do Sul.<br \/>\nAt\u00e9 agora, por causa de sua turbulenta trajet\u00f3ria ambiental e sua baixa express\u00e3o econ\u00f4mica, a empresa qu\u00edmica guaibense n\u00e3o se arvorava a ter voz no seleto grupo dos grand\u00f5es do Estado.<br \/>\nCom a quadruplica\u00e7\u00e3o de sua capacidade &#8211;\u00a0de 450 mil toneladas para 1,8 milh\u00f5es de toneladas ao ano -, a empresa parece disposta a perder o medo de ser grande, pois dever\u00e1 causar um impacto de 1,1% no Produto Interno Bruto ga\u00facho, segundo estimativa da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas.<br \/>\nEsse novo status combina com a postura mais assertiva do seu principal executivo, o engenheiro Walter L\u00eddio Nunes, que liderou as obras de expans\u00e3o da empresa, na qual foram investidos US$ 2,2 bilh\u00f5es.<br \/>\nNo encontro com os jornalistas convidados para conhecer a f\u00e1brica, no \u00faltimo dia 30 de abril, ele foi taxativo: \u201cSe o governo quer mesmo acabar com a corrup\u00e7\u00e3o, que \u00e9 end\u00eamica entre n\u00f3s, o primeiro passo \u00e9 reduzir a burocracia\u201d.<br \/>\nSegundo Nunes, \u00e9 preciso acabar com as \u201cexig\u00eancias cartelizantes\u201d que permeiam os editais de empresas estatais e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos.<br \/>\nComo exemplo de comportamento propiciador da forma\u00e7\u00e3o de cart\u00e9is, citou a Petrobras, que est\u00e1 na ordem-do-dia desde 2014, gra\u00e7as \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, do Minist\u00e9rio P\u00fablico da Pol\u00edcia Federal.<br \/>\n<span class=\"intertit\">est\u00e1gio em gua\u00edba<\/span><br \/>\nO depoimento de Walter L\u00eddio Nunes \u00e9 significativo porque se trata de um engenheiro nativo de Porto Alegre que fez a maior parte de sua carreira fora do Rio Grande do Sul.<br \/>\nFormado na engenheira mec\u00e2nica da PUC, ele lembra com detalhes de seu est\u00e1gio estudantil na f\u00e1brica de celulose de Gua\u00edba, na primeira metade dos anos 1970:<br \/>\n\u201cMinha obriga\u00e7\u00e3o era passar 4 horas por dia na f\u00e1brica, mas eu cheguei a dormir no alojamento dos trabalhadores para acompanhar tarefas que me interessavam\u201d.<br \/>\nAp\u00f3s cada jornada, sua roupa fedia, impregnada pelo cheiro de enxofre emitido pela f\u00e1brica daqueles tempos pioneiros.<br \/>\nMesmo olhado com estranheza pelos colegas, que ca\u00e7oavam da sua \u201ccatinga de gamb\u00e1\u201d, ele teria come\u00e7ado sua carreira em Gua\u00edba. Mas as desaven\u00e7as da ind\u00fastria Borregaard com as autoridades ambientais, que fecharam duas vezes a f\u00e1brica, o afugentaram.<br \/>\nEm busca do primeiro emprego, Nunes foi parar no Esp\u00edrito Santo, contratado pela Aracruz Celulose, que come\u00e7ou a produzir em 1978. \u00a0Nos seus mais de 30 anos de experi\u00eancia no Esp\u00edrito Santo, Walter L\u00eddio se defrontou mais de uma vez, como gerente e\/ou diretor, com um bra\u00e7o do famoso cartel burocr\u00e1tico que \u201ccria dificuldades para vender facilidades.\u201d<br \/>\nNos anos 1980, a Aracruz ensaiou expandir sua f\u00e1brica mas foi proibida de aumentar suas planta\u00e7\u00f5es de eucalipto no Esp\u00edrito Santo. O projeto acabou sendo implantado no sul da Bahia.<br \/>\nHoje, passados tantos anos daquela desaven\u00e7a pol\u00edtico-ambiental, Walter L\u00eddio Nunes acredita que as exig\u00eancias capixabas daquela \u00e9poca faziam parte de um esquema de achaques que tinha como express\u00e3o maior, no \u00e2mbito parlamentar, o deputado Jos\u00e9 Carlos Gratz, que emergiu do jogo do bicho para o comando da Assembleia Legislativa do Estado. Mais tarde, Gratz seria cassado e preso.<br \/>\n<span class=\"intertit\">repatria\u00e7\u00e3o<\/span><br \/>\nComo principal executivo da Aracruz Celulose, o engenheiro ga\u00facho comandou a compra da f\u00e1brica de Gua\u00edba, controlada pelo grupo paranaense Klabin, que elevara sua capacidade de produ\u00e7\u00e3o a 450 mil toneladas anuais de celulose, quase o dobro da original.<br \/>\nEm 2005, depois de considerar a hip\u00f3tese de investir no Uruguai, no Paraguai e em outros estados, a Aracruz decidiu expandir sua produ\u00e7\u00e3o em Gua\u00edba.<br \/>\nO projeto foi aprovado pelo governo de Germano Rigotto, que atra\u00edra outros dois investimentos em celulose: Votorantim e Stora Enso.<br \/>\nDepois de entrar em atrito com os advers\u00e1rios do cultivo maci\u00e7o de eucalipto, a melhor mat\u00e9ria-prima para a fabrica\u00e7\u00e3o de celulose de fibra curta, os tr\u00eas megaprojetos foram suspensos por causa da crise financeira de 2008, que provocou o desaparecimento da Aracruz Celulose, absorvida pela Fibria, novo nome do segmento de papel\/celulose do grupo Votorantim.<br \/>\nNo ano seguinte, a Fibria Gua\u00edba foi vendida para o grupo Matte, que possui tr\u00eas f\u00e1bricas de celulose no Chile.<br \/>\nNunes participou de todas essas opera\u00e7\u00f5es, ao fim das quais ganhou carta branca de Eleodoro Matte para auditar e refazer o projeto de quadruplica\u00e7\u00e3o da planta de Gua\u00edba.<br \/>\nMais de 30 anos depois de se formar, o ex-estagi\u00e1rio da engenharia da PUC \u00e9 o presidente da ex-Borregaard. Em Gua\u00edba, provavelmente, ele encerrar\u00e1 sua carreira.<br \/>\n<span class=\"intertit\">credenciado<\/span><br \/>\nA experi\u00eancia profissional de Walter L\u00eddio\u00a0o credencia a falar com propriedade do comportamento dos empres\u00e1rios do Esp\u00edrito Santo e do Rio Grande do Sul.<br \/>\nTalvez por conviver h\u00e1 s\u00e9culos com baianos, fluminenses e mineiros, que concorrem para usar a infraestrutura portu\u00e1ria do Esp\u00edrito Santo, os capixabas s\u00e3o abertos a negocia\u00e7\u00f5es e fazem acordos com facilidade.<br \/>\nUm dos orgulhos de Walter L\u00eddio \u00e9 ter ajudado a viabilizar em torno da Aracruz Celulose, no Esp\u00edrito Santo, cerca de 70 empresas que nasceram de contratos simples de fornecimento de um ou dois itens.<br \/>\nUma dessas empresa, chamada Frioar, cresceu tanto que se tornou fornecedora de equipamentos de ar dos jatos da Embraer.<br \/>\nNo Rio Grande do Sul, ao contr\u00e1rio, Nunes encanzinou-se ao verificar o quanto \u00e9 arraigado o costume de investir na contenda.<br \/>\nNo af\u00e3 de proteger a pr\u00f3pria empresa, alguns empres\u00e1rios acabam inviabilizando muitos neg\u00f3cios. \u201cO \u00edndice de omiss\u00e3o social \u00e9 muito alto no Rio Grande do Sul\u201d, diz Nunes.<br \/>\nUm dos resultados do cultivo exacerbado do conflito &#8211; que alguns chamam de \u201cgrenaliza\u00e7\u00e3o da vida\u201d &#8211;\u00a0\u00e9 a descontinuidade administrativa, expressa no descarte quadrienal de governadores que n\u00e3o conseguem reeleger-se ou eleger o sucessor.<br \/>\nEm consequ\u00eancia, o Estado n\u00e3o possui um projeto de futuro.<br \/>\nConclus\u00e3o de Walter L\u00eddio Nunes: \u201cNo fim das contas, para resgatar a autoestima, o ga\u00facho se volta para o passado e cultiva lendas distorcidas\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GERALDO HASSE Com a arrancada da nova f\u00e1brica de Gua\u00edba no primeiro domingo de maio de 2015, a Celulose Riograndense passa a fazer parte do clube ga\u00facho do bilh\u00e3o de d\u00f3lares por ano. 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