{"id":21863,"date":"2015-05-08T11:24:09","date_gmt":"2015-05-08T14:24:09","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=21863"},"modified":"2015-05-08T11:24:09","modified_gmt":"2015-05-08T14:24:09","slug":"babel-on-line-comunicacao-digital-e-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/babel-on-line-comunicacao-digital-e-capitalismo\/","title":{"rendered":"Babel on line: comunica\u00e7\u00e3o digital e capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Geraldo Hasse<\/span><br \/>\nQuando a TV chegou ao Brasil, d\u00e9cadas atr\u00e1s, algu\u00e9m tentou vender um televisor a um pr\u00f3spero agricultor, homem razoavelmente bem informado, assinante de jornais e radiouvinte contumaz.<br \/>\nMeio de m\u00e1 vontade, j\u00e1 sabendo que o novo brinquedo tecnol\u00f3gico come\u00e7ava a ornar a sala dos ricos da cidade, o bom homem rural aceitou ir a uma loja.<br \/>\nDiante do caixote luminoso, foi informado de que era preciso dispor de uma certa infraestrutura para usar o aparelho: uma mesa perto de uma tomada de luz e \u2013 o mais dif\u00edcil \u2013 uma antena no telhado, para captar as imagens.<br \/>\nNaquele hor\u00e1rio vespertino, na loja, clientes e vendedores podiam assistir a um filme no principal canal dispon\u00edvel. Em outro canal, rolava uma novela, mas a imagem estava com chuviscos. Na terceira emissora, arrastava-se um xaroposo programa de est\u00fadio.<br \/>\nO agricultor ficou decepcionado:<br \/>\n&#8211; Se a televis\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, n\u00e3o me interessa.<br \/>\nO vendedor e outras pessoas presentes lhe perguntaram qual era sua expectativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 novidade. Ele explicou:<br \/>\n&#8211; Me falaram tanto da TV que eu imaginei assim: a gente vai girando um bot\u00e3o e escolhe um programa. Pode ser a paisagem de um pa\u00eds distante, uma partida de futebol, uma corrida de cavalos, um filme, uma orquestra, um programa de not\u00edcias e assim por diante \u2013 tudo muito rico e mais variado do que um cinema, mas de acordo com meu desejo, n\u00e3o com a vontade da esta\u00e7\u00e3o de TV.<br \/>\nEncurtando o causo, o agricultor morreu com mais de 80 anos em 1994, o ano em que a internet entrou timidamente no Brasil. Portanto, ele n\u00e3o teve a oportunidade de acompanhar o que vivenciamos hoje em dia: boa parte do mundo est\u00e1 conectada, \u00e9 como se viv\u00eassemos numa torre de Babel em que as pessoas (as que podem, claro) se comunicam e se entendem, ou brigam.<br \/>\nImaginemos aquele agricultor, hoje centen\u00e1rio, diante de um moderno televisor ligado num provedor de TV a cabo e zapeando \u00e0 vontade entre uma centena de canais de TV. Ser\u00e1 que ele se sentiria satisfeito e realizado por poder ver tantos filmes, e jogos, e jornais, e musicais, e programas de aventuras nas paisagens mais ex\u00f3ticas?<br \/>\nSimplificando, podemos dizer que chegamos perto do ponto imaginado pelo agricultor de nossa hist\u00f3ria. De uma forma ou de outra, hoje podemos desfrutar de facilidades semelhantes \u00e0quelas imaginadas meio s\u00e9culo atr\u00e1s por nosso matreiro personagem.<br \/>\nFruto do casamento da inform\u00e1tica com a telecomunica\u00e7\u00e3o, a internet revolucionou a vida moderna.<br \/>\n\u00c9 claro que \u00e9 preciso dispor de certa infraestrutura t\u00e9cnica, mas basta acionar o mouse de um computador ou as teclas de um controle de TV ou de um telefone celular para ter acesso a 1001 imagens de diversas partes do mundo.<br \/>\nF\u00e1cil e divertido, n\u00e3o? Barato n\u00e3o \u00e9, mas o que \u00e9 barato no mundo moderno? (Um cafezinho no bar da esquina custa mais do que um quilo de a\u00e7\u00facar no supermercado).<br \/>\nMuito mais r\u00e1pida no gatilho do que jornais e revistas, a internet n\u00e3o \u00e9 apenas um meio de comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma ferramenta de m\u00faltipla utilidade e com alta capacidade de intera\u00e7\u00e3o com as fontes de informa\u00e7\u00e3o e a massa de internautas.<br \/>\nO meio que mais se aproxima da m\u00eddia digital, em rapidez, \u00e9 o r\u00e1dio, mas a este falta a imagem, o grande trunfo da televis\u00e3o, naturalmente mais lerda porque depende do deslocamento de equipamentos pesados e equipes numerosas. E de patroc\u00ednios consistentes. A infraestrutura que garante a qualidade das imagens\/palavras est\u00e1 montada.<br \/>\nO que importa lembrar aqui \u00e9 o seguinte: diante do avassalador poder de comunica\u00e7\u00e3o dos meios digitais, as emissoras de r\u00e1dio e TV, os jornais e revistas reduziram seu raio de investiga\u00e7\u00e3o, contentando-se em ser instrumento de lobbies que se especializaram na produ\u00e7\u00e3o de dicas, dossi\u00eas e releases \u2013 tudo com um vi\u00e9s substancialmente mercantil.<br \/>\nEsse perfil comercial, submisso a quem paga mais, transformou a maioria dos profissionais da comunica\u00e7\u00e3o em meros servi\u00e7ais acr\u00edticos e a\u00e9ticos.<br \/>\nDe uma forma ou de outra, como refletiu o agricultor de nossa hist\u00f3ria, todos n\u00f3s consumidores\/usu\u00e1rios continuamos submissos \u00e0 vontade dos donos dos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas n\u00e3o \u00e9 somente a\u00ed que mora o perigo.<br \/>\nO perigo maior est\u00e1 na carteliza\u00e7\u00e3o e na oligopoliza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Em alguns pa\u00edses, essas deforma\u00e7\u00f5es s\u00e3o proibidas por lei. Em outros, caso do Brasil, a pr\u00f3pria m\u00eddia dominante argumenta que controlar a (de)forma\u00e7\u00e3o de redes tentaculares seria impor a censura e ferir a liberdade de express\u00e3o.<br \/>\nO governo se intimida e n\u00e3o ousa propor nada. E segue o baile dirigido pelos grupos que transformaram a comunica\u00e7\u00e3o social num neg\u00f3cio altamente rent\u00e1vel. O interesse p\u00fablico foi colocado de lado.<br \/>\nBem ou mal, enquanto os profissionais da comunica\u00e7\u00e3o de massa seguem manuais t\u00e9cnicos e c\u00f3digos morais que t\u00eam como norte o compromisso com os valores democr\u00e1ticos e os direitos humanos, os donos dos neg\u00f3cios midi\u00e1ticos est\u00e3o severamente subordinados ao pensamento \u00fanico ditado pelas leis do mercado ou, seja, \u201cpara vender mais, fazemos qualquer neg\u00f3cio\u201d.<br \/>\nVeja, a prop\u00f3sito, o que escreveu em <a href=\"http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Blog\/Blog-do-Emir\/Vencer-a-batalha-das-ideias\/2\/33405\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">seu \u00faltimo artigo na Carta Maior o ensaista Emir Sader<\/a>: \u201cO estilo de consumo \u2018shopping \u00a0center\u2019 se globalizou de maneira aparentemente avassaladora. \u00c9 uma esp\u00e9cie de ponta de lan\u00e7a do neoliberalismo, materializando seu principio geral, de que tudo \u00e9 mercadoria, tudo tem pre\u00e7o, tudo se vende, tudo se compra\u201d.<br \/>\nSim, sempre houve um conflito entre a liberdade de express\u00e3o dos comunicadores profissionais e a necessidade de sobreviv\u00eancia material dos empreendimentos midi\u00e1ticos, mas nunca talvez na hist\u00f3ria da humanidade se viveu uma crise t\u00e3o intensa e larga como a atual. Nesse contexto, o vigor da m\u00eddia digital \u00e9 enganoso.<br \/>\nO estar conectado (ao mundo digital) \u00e9 uma esp\u00e9cie de droga. Quem se sujeita \u00e0 conex\u00e3o permanente por meio dos diversos instrumentos de comunica\u00e7\u00e3o digital est\u00e1 inexoravelmente submetido \u00e0s pautas do mercado, que se orienta pela raz\u00e3o mercantil.<br \/>\nO mercadejar insano que acompanha todos os movimentos em torno da moderniza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica conspira contra a vida em harmonia com a natureza, entendida como um contato amig\u00e1vel com animais, vegetais, terra, mar e ar.<br \/>\nObserve como muitas pessoas se tornaram, mais do que usu\u00e1rias, dependentes, viciadas em aparelhos digitais, que servem \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o pessoal mas est\u00e3o infiltrados por mil estrat\u00e9gias de mercantiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEsses instrumentos diab\u00f3licos que condensam telefonia, inform\u00e1tica, eletr\u00f4nica, m\u00e1quina de escrever, canal de correio e not\u00edcias, aproximam as pessoas distantes e isolam quem est\u00e1 pr\u00f3ximo.<br \/>\nEm qualquer lugar, podemos ver diversas pessoas juntas fisicamente, mas dispersas espiritualmente, gra\u00e7as ao uso das vias digitais dispon\u00edveis.<br \/>\nAt\u00e9 na rua as pessoas caminham de olho nos seus aparelhinhos de comunica\u00e7\u00e3o digital, buscando nutrir-se de informa\u00e7\u00f5es superficiais e apressadas.<br \/>\nAparentemente, a aliena\u00e7\u00e3o sustentada pela m\u00eddia alimenta a robotiza\u00e7\u00e3o das pessoas. Tem-se a impress\u00e3o de que a rede mundial de computadores assumiu efetivamente a lideran\u00e7a do processo de comunica\u00e7\u00e3o de massa, sobrepondo-se aos meios tradicionais \u2013 jornais, revistas, r\u00e1dio, TV.<br \/>\nEst\u00e1 pendente de confirma\u00e7\u00e3o o vatic\u00ednio segundo o qual os meios impressos (jornal, revista, livro) v\u00e3o morrer nas garras da m\u00eddia eletr\u00f4nica, mas a verdade \u00e9 que, atualmente, a comunica\u00e7\u00e3o de massa parece depender mais do tiroteio vigente na rede mundial de computadores do que da modorra dos meios convencionais de informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDiante dessa parafern\u00e1lia midi\u00e1tica, o que diria o agricultor da nossa hist\u00f3ria? Acredito que ele juntaria suas tralhas de pesca e diria:<br \/>\n\u201cMinha gente, t\u00f4 sartando fora!\u201d<br \/>\n<span class=\"intertit\">LEMBRETE DE OCASI\u00c3O<\/span><br \/>\n<em>\u201cPara mim a pol\u00edtica \u00e9 a luta para que a maioria das pessoas tenha uma vida melhor. Viver melhor n\u00e3o \u00e9 apenas ter mais: \u00e9 ser feliz, e isso tem a ver com as car\u00eancias materiais, mas tamb\u00e9m com outras coisas.\u201d<\/em><br \/>\n<strong>Pepe Mujica<\/strong>, ex-presidente do Uruguai, que continua usando um fusca 1973 e morando numa ch\u00e1cara nos arredores de Montevid\u00e9u.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse Quando a TV chegou ao Brasil, d\u00e9cadas atr\u00e1s, algu\u00e9m tentou vender um televisor a um pr\u00f3spero agricultor, homem razoavelmente bem informado, assinante de jornais e radiouvinte contumaz. 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