{"id":23209,"date":"2015-08-06T11:36:43","date_gmt":"2015-08-06T14:36:43","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=23209"},"modified":"2015-08-06T11:36:43","modified_gmt":"2015-08-06T14:36:43","slug":"dilma-kissinger-os-delatores-e-o-bate-boca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/dilma-kissinger-os-delatores-e-o-bate-boca\/","title":{"rendered":"Dilma, Kissinger, os delatores e o bate-boca"},"content":{"rendered":"<p><figure id=\"attachment_23210\" aria-describedby=\"caption-attachment-23210\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/mural_luizclaudiocunha.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-23210\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/mural_luizclaudiocunha.jpg\" alt=\"Mural para a biografia de Dilma Rousseff\" width=\"600\" height=\"178\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-23210\" class=\"wp-caption-text\">Mural para a biografia de Dilma Rousseff<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<span class=\"assina\">Luiz Cl\u00e1udio Cunha *<\/span><br \/>\nNo final de junho, no curto espa\u00e7o de 60 horas, a presidente Dilma Rousseff trocou Bras\u00edlia por Nova York e se manteve, imp\u00e1vida, nas largas fronteiras da escatologia.<br \/>\nEm Bras\u00edlia, Dilma falou merda privadamente em uma tensa reuni\u00e3o na noite de sexta-feira, 26, na biblioteca do Pal\u00e1cio da Alvorada, reagindo com f\u00faria ao depoimento do empres\u00e1rio Ricardo Pessoa, preso na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, que revelou ter doado R$ 7,5 milh\u00f5es para a campanha do PT em 2014.<br \/>\n\u2014 Eu n\u00e3o vou pagar pela merda dos outros \u2014 avisou Dilma aos quatro homens que ouviam, em sil\u00eancio, a f\u00e9tida alegoria presidencial: os ministros Jos\u00e9 Eduardo Cardoso (Justi\u00e7a), Edinho Silva (Comunica\u00e7\u00e3o Social), Alo\u00edsio Mercadante (Casa Civil) e o assessor especial Giles Azevedo. \u2014 N\u00e3o sou eu quem vai pagar por isso. Quem fez que pague \u2014 decretou ela, segundo o relato das rep\u00f3rteres Natuza Nery e Marina Dias, da Folha de S.Paulo.<br \/>\nDilma disse e ainda pensou merda: \u2014 Z\u00e9, voc\u00ea n\u00e3o poderia ter pedido ao Teori [Zavascki] para aguardar quatro ou cinco dias para homologar a dela\u00e7\u00e3o [do empreiteiro]? \u2014, perguntou a presidente ao seu ministro da Justi\u00e7a, como se fosse poss\u00edvel que algu\u00e9m do Executivo interferisse nas a\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) que conduz o processo da Lava Jato.<br \/>\nDilma estava especialmente irritada com a revela\u00e7\u00e3o feita horas antes da viagem oficial de cinco dias que faria a partir da manh\u00e3 seguinte, s\u00e1bado, 27, aos Estados Unidos, culminando com uma reuni\u00e3o de trabalho com Barack Obama.<br \/>\n\u2014 Isso \u00e9 uma agenda nacional, Z\u00e9, e voc\u00ea fodeu a minha viagem \u2014 emendou Dilma no seu ameno jeito de ser.<br \/>\nEm Nova York, tr\u00eas dias depois, Dilma borrou-se publicamente, numa sala do elegante hotel Saint Regis, na Quinta Avenida, onde a presidente cumprimentou efusivamente Henry Kissinger. Mais do que um encontro de absoluta nulidade diplom\u00e1tica, a troca de sorrisos ecoou uma sonora bofetada hist\u00f3rica.<br \/>\nA inutilidade vem do fato de que Kissinger hoje, aos 92 anos, n\u00e3o \u00e9 nada, al\u00e9m de um lobista retirado e palestrante ocasional muito bem remunerado. A bofetada vem do passado recente, quando Kissinger foi tudo e muito mais: assessor de Seguran\u00e7a Nacional da Casa Branca e secret\u00e1rio de Estado dos presidentes Nixon e Ford, entre 1969 e 1975, per\u00edodo em que era amigo do peito, suporte e mentor dos regimes militares mais sangrentos do Cone Sul.<br \/>\nEspecialmente o do general brasileiro Em\u00edlio Garrastaz\u00fa M\u00e9dici (1969-1974), s\u00edmbolo maior da repress\u00e3o que prendeu em S\u00e3o Paulo em 16 de janeiro de 1970 uma guerrilheira do grupo VAR-Palmares chamada Dilma Rousseff. Levada para a OBAN (Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante) da rua Tut\u00f3ia, ela sobreviveu ali a 22 dias de intensa tortura, que inclu\u00eda pau-de-arara, choques el\u00e9tricos, socos e palmat\u00f3ria.<br \/>\nEram t\u00e9cnicas de interrogat\u00f3rio que os brasileiros aprimoravam com os especialistas ianques que o sempre sorridente Kissinger da Seguran\u00e7a Nacional espalhava pelas ditaduras camaradas do sul do continente, todas alinhadas contra o fantasma do comunismo.<br \/>\nParafraseando de forma desastrada a FHC (&#8220;esque\u00e7am o que eu escrevi&#8221;), Dilma aparentemente esqueceu o que viveu e sofreu, ao rasgar seu melhor elogio ao patrono das ditaduras que ela combatia: &#8220;O professor Kissinger \u00e9 uma pessoa fant\u00e1stica, com uma grande vis\u00e3o global&#8221;, concedeu a ex-guerrilheira e ex-torturada, ap\u00f3s sua inexplic\u00e1vel audi\u00eancia ao ex-secret\u00e1rio americano.<br \/>\nUm evento vergonhoso cuja incongru\u00eancia hist\u00f3rica passou batida at\u00e9 pela militante imprensa de esquerda, com a not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o do sempre atento M\u00e1rio Magalh\u00e3es, autor da biografia definitiva de Carlos Marighella e de um texto soberbo em seu blog de excel\u00eancia, que sempre vale ler para nunca esquecer. (<a href=\"http:\/\/blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br\/2015\/06\/30\/ao-bajular-kissinger-dilma-tripudia-sobre-sua-propria-historia\/\">Leia aqui<\/a>).<br \/>\nOutro rep\u00f3rter esperto, o argentino Dar\u00edo Pignotti, correspondente em Bras\u00edlia da ag\u00eancia ANSA e do jornal mais prestigiado de Buenos Aires, o P\u00e1gina 12, foi atr\u00e1s de quem nunca esquece, o ativista do Movimento de Justi\u00e7a e Direitos Humanos, Jair Krischke, que assessora a Justi\u00e7a da It\u00e1lia no julgamento de uma centena de autoridades latino-americanas denunciadas por envolvimento com a Opera\u00e7\u00e3o Condor, inclusive quatro brasileiros.<br \/>\n&#8220;Lamentei profundamente a falta de sensibilidade de nossa presidente&#8221;, criticou Krischke. Outro brasileiro ouvido pelo rep\u00f3rter da ANSA foi bem mais indulgente. Jo\u00e3o Vicente Goulart, filho do presidente deposto em 1964 com o apoio da CIA e suporte financeiro e militar dos EUA de Kissinger, achou que o encontro desatinado foi meramente &#8220;imposi\u00e7\u00e3o do cerimonial norte-americano&#8230;&#8221;.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O estilo dur\u00e3o de Dilma<\/span><br \/>\nQuem conhece Dilma sabe que \u2014 nem que a vaca tussa! \u2014 seria poss\u00edvel lhe empurrar goela abaixo uma audi\u00eancia intrag\u00e1vel. Quem n\u00e3o paga a &#8216;merda&#8217; dos outros, n\u00e3o aceita suas regras. Se recebeu, radiante, a m\u00e3o amiga do ex-inimigo \u00e9 porque algo tossiu bem \u00e0 presidente brasileira.<br \/>\nA m\u00edstica do pavio curto e da casca grossa j\u00e1 faz parte do folclore dilmista, que ela rebate com uma frase bem-humorada: &#8220;Pois \u00e9, somos um bando de mulheres duronas, rodeadas por homens meigos&#8221;, costumava ironizar Dilma, quanto tinha ao lado a doce companhia de ministras como Gleisi Hoffman, Ideli Salvatti e Maria do Ros\u00e1rio. Muita gente jura, sem ousar confirmar nada, que viu auxiliares e assessores chorando ao deixar os gabinetes de Dilma \u2014 fosse na Casa Civil ou agora na presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<br \/>\nEsse estilo \u00e1spero, autorit\u00e1rio pode ser heran\u00e7a dos tempos da luta armada, como explica um companheiro de combate, o ex-guerrilheiro Fernando Pimentel: &#8220;Dilma lapidou seu senso de disciplina, de organiza\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 uma pessoa muito met\u00f3dica, organizada, severa, r\u00edgida com prazos, resultados e metas.<br \/>\nEla n\u00e3o transige com falhas ou erros. E isso, acho, tem a ver com nossa milit\u00e2ncia, porque na clandestinidade qualquer falha podia levar \u00e0 pris\u00e3o ou at\u00e9 \u00e0 morte de companheiros&#8221;, explicou o atual governador de Minas Gerais ao rep\u00f3rter Ricardo Setti, na campanha de 2010 que a levou \u00e0 presid\u00eancia. Apesar dessa dura experi\u00eancia e disciplina, Dilma desarranjou-se em Nova York, ao falar \u00e0 imprensa logo ap\u00f3s os salamaleques a Kissinger, ao confundir ditadura com democracia.<br \/>\n\u2014 Eu n\u00e3o respeito delator. Estive presa na ditadura militar e sei o que \u00e9. Tentaram me transformar numa delatora. A ditadura fazia isso com os presos, e garanto a voc\u00eas que resisti bravamente \u2014 gabou-se a presidente.<br \/>\nComo se sabe, todo regime de for\u00e7a tenta arrancar confiss\u00f5es de seus presos e dissidentes pol\u00edticos pela tortura, e Dilma merece elogios por ter resistido. Outros, que nem sempre sobreviveram, n\u00e3o conseguiram resistir. Isso n\u00e3o os torna delatores, mas apenas torturados que sucumbiram \u00e0 tortura, no limite de suas dores, que s\u00e3o pessoais e incompar\u00e1veis. Talvez ainda extasiada com a conversa de minutos antes com o &#8216;fant\u00e1stico&#8217; Kissinger, o &#8216;Dr. Strangelove&#8217; do terror de Estado que ajudou a implantar no Cone Sul nas d\u00e9cadas de 60 e 70,<br \/>\nDilma trocou alhos e bugalhos. Lembrou que aprendeu na escola a n\u00e3o gostar de Joaquim Silv\u00e9rio dos Reis, o fazendeiro falido que, no final do S\u00e9culo 18, dedurou a conspira\u00e7\u00e3o que tentava libertar o Brasil do dom\u00ednio da Coroa portuguesa. Sua den\u00fancia levou Joaquim Jos\u00e9 da Silva Xavier, o Tiradentes, \u00e0 pris\u00e3o e \u00e0 forca. O l\u00edder da Inconfid\u00eancia Mineira morreu para se tornar her\u00f3i da P\u00e1tria e Silv\u00e9rio passou \u00e0 hist\u00f3ria n\u00e3o como delator, mas traidor. \u00c9 uma diferen\u00e7a brutal que Dilma j\u00e1 devia ter aprendido \u2014 na escola e na vida.<br \/>\nTraidor \u00e9 o canalha que delata o mocinho para os bandidos, como fez Silv\u00e9rio ao denunciar Tiradentes para os meganhas do Visconde de Barbacena. Ao contr\u00e1rio, delator \u2014 reconhecido e premiado pela Justi\u00e7a \u2014 \u00e9 aquele que entrega os bandidos para o mocinho, como fazem agora o empreiteiro Ricardo Pessoa, o doleiro Alberto Yousseff, o ex-diretor Paulo Roberto Costa e outros 20 arrependidos e envolvidos com a roubalheira na Petrobr\u00e1s. Sem que nada disso os fa\u00e7a her\u00f3is da P\u00e1tria.<br \/>\nQualquer um pode e deve denunciar o que sabe ou descobre ser ilegal ou nocivo \u00e0s pessoas ou \u00e0 sociedade. Mas, s\u00f3 pode delatar aquele que, participante ou infiltrado em um grupo, bando ou organiza\u00e7\u00e3o criminosa, decide em um dado momento romper a pr\u00e1tica criminosa e contar o que sabe para as autoridades e para a Justi\u00e7a, movido por raz\u00f5es de consci\u00eancia, por simples arrependimento, por mera conveni\u00eancia. At\u00e9 mesmo pelas vantagens legais de quem colabora com a lei, atra\u00eddo pelos benef\u00edcios transparentes da dela\u00e7\u00e3o premiada.<br \/>\nSe n\u00e3o est\u00e1 solid\u00e1ria aos bandidos, a presidente da Rep\u00fablica tem a obriga\u00e7\u00e3o de respeitar, sim, os delatores amparados e protegidos pela lei e pelos tribunais. Como pessoa de bem, Dilma n\u00e3o tem nenhum motivo para se opor \u00e0 dela\u00e7\u00e3o gratificada pela Justi\u00e7a, sob pena de sustentar publicamente a omert\u00e1 da M\u00e1fia dos grandes empreiteiros nacionais que assaltaram a maior empresa brasileira, que a presidente jura defender.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Repetindo FHC<\/span><br \/>\nSe n\u00e3o gosta de delator, cabe a Dilma Rousseff ao menos reverenciar as pr\u00f3prias leis que assina e promulga na condi\u00e7\u00e3o de presidente. Ao contr\u00e1rio de FHC, Dilma deveria lembrar do que subscreveu. A lei 12.529, que ela firmou em 2011, ainda no seu primeiro mandato, j\u00e1 previa o &#8216;acordo de leni\u00eancia&#8217; para aceitar a dela\u00e7\u00e3o premiada nos crimes contra a ordem econ\u00f4mica (Art. 86 e 87).<br \/>\nEsses artigos imp\u00f5em que o delator identifique os demais envolvidos, fornecendo informa\u00e7\u00f5es e documentos que provem os crimes. A lei define os benef\u00edcios da dela\u00e7\u00e3o, desde o perd\u00e3o judicial, chegando a uma redu\u00e7\u00e3o de 2\/3 da pena original ou sua substitui\u00e7\u00e3o por penas restritivas, desde que a colabora\u00e7\u00e3o seja volunt\u00e1ria e efetiva (Art. 4).<br \/>\nDois anos depois, em 2013, como lembra o advogado criminalista Francisco Hayashi, Dilma firmou outra lei, refor\u00e7ando as garantias processuais da dela\u00e7\u00e3o. Em dois par\u00e1grafos do Art. 4, existem defini\u00e7\u00f5es essenciais: o colaborador renuncia ao direito ao sil\u00eancio e fica comprometido a dizer a verdade (\u00a7 14) e o juiz necessita de meios de provas diversos para condenar, n\u00e3o apenas baseado no depoimento do delator (\u00a7 16). Os Art. 4 e 15 exigem a presen\u00e7a do advogado para negociar, confirmar e executar a colabora\u00e7\u00e3o. A dela\u00e7\u00e3o premiada n\u00e3o nasceu com Dilma.<br \/>\nVem do Governo Collor, quando a lei 8.072, de 1990, a chamada &#8216;Lei de Crimes Hediondos&#8217;, permitiu a redu\u00e7\u00e3o de um a 2\/3 da pena a delatores que permitissem o desmantelamento pela pol\u00edcia de quadrilhas engajadas em crimes como tortura, tr\u00e1fico de drogas e terrorismo. Uma lei posterior, a 8.137, beneficiou delatores de crimes contra o sistema financeiro e a ordem tribut\u00e1ria.<br \/>\nEm 1998, no Governo FHC, a lei 9.613 estendeu a dela\u00e7\u00e3o premiada ao combate \u00e0 lavagem de dinheiro e, no ano seguinte, a lei 9.807 regulamentou a prote\u00e7\u00e3o \u00e0s testemunhas que fizessem a colabora\u00e7\u00e3o premiada. Lula, em 2006, assinou a lei 11.343, ampliando os benef\u00edcios da dela\u00e7\u00e3o contra crimes do tr\u00e1fico de drogas.<br \/>\nAssim, a dela\u00e7\u00e3o que Dilma n\u00e3o respeita \u00e9 um processo cont\u00ednuo de aprimoramento legal que completa 25 anos e passa pela caneta de quatro presidentes, incluindo ela mesma. Em vez de perder tempo com gente da laia de Henry Kissinger, que n\u00e3o abre nenhum futuro para o Brasil e s\u00f3 lembra um terr\u00edvel passado para os brasileiros, Dilma deveria aproveitar melhor sua agenda para n\u00e3o transigir com falhas ou erros, para ser fiel ao generoso perfil desenhado para ela pelo ex-companheiro de guerrilha Fernando Pimentel.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Os traidores<\/span><br \/>\nDilma poderia come\u00e7ar pela Hist\u00f3ria, lapidando melhor a percep\u00e7\u00e3o confusa que tem do que s\u00e3o delatores e traidores. Silv\u00e9rio, que dedurou Tiradentes, \u00e9 um mero traidor. Est\u00e1 na companhia infame de outros personagens hist\u00f3ricos que a presidente deveria revisitar, sem ter que passar pelo vexame do aperto de m\u00e3o a que se submeteu agora com Kissinger.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 preciso ser crist\u00e3, como sabe a ex-marxista Dilma, para lembrar em primeiro lugar de Judas Iscariotes, o homem que vendeu Cristo por 30 moedas e virou s\u00edmbolo universal de trai\u00e7\u00e3o. O major noruegu\u00eas Vidkun Quisling (1887-1945), membro de um partido local inspirado no III Reich, foi a Berlim, em dezembro de 1939, sugerir a Hitler que invadisse seu pr\u00f3prio pa\u00eds, coisa que o F\u00fchrer fez sem cerim\u00f4nia quatro meses depois.<br \/>\nNo poder, Quisling perseguiu os judeus e estimulou os jovens da Noruega a se alistar nas tropas Waffen SS. Morreu fuzilado, condenado por alta trai\u00e7\u00e3o logo ap\u00f3s a derrota da Alemanha. A palavra quisling, em noruegu\u00eas, virou sin\u00f4nimo de &#8216;traidor da p\u00e1tria&#8217;.<br \/>\nEm busca de alguns trocados, o pastor Efialtes de Trachis, cidade da Gr\u00e9cia antiga em 480 a.C, cometeu a trai\u00e7\u00e3o que definiu a batalha das Term\u00f3pilas, o estreito caminho entre a montanha e o mar onde 300 bravos espartanos do rei Le\u00f4nidas retardavam h\u00e1 dez dias o avan\u00e7o do ex\u00e9rcito invasor de 300 mil homens do rei Xerxes I.<br \/>\nO pastor grego revelou uma pequena trilha na montanha que permitiu que os persas flanqueassem a passagem para atacar por tr\u00e1s a heroica tropa de Le\u00f4nidas e outros dois mil aliados gregos. Efialtes morreu dez anos depois, por raz\u00f5es ainda obscuras, mas sobrevive para sempre na l\u00edngua grega: seu nome \u00e9 sin\u00f4nimo de &#8216;dem\u00f4nio&#8217; ou &#8216;pesadelo&#8217;.<br \/>\nO farmac\u00eautico Benedict Arnold (1740-1801) conseguiu combater por dois ex\u00e9rcitos advers\u00e1rios na mesma guerra. Americano de Connecticut, lutou cinco anos no ex\u00e9rcito de Washington, que tinha nele um de seus generais mais leais na guerra de independ\u00eancia contra os ingleses.<br \/>\nDesertou para o lado contr\u00e1rio, nos dois anos seguintes, e chegou a brigadeiro-general das tropas da Inglaterra, onde se refugiou depois. Morreu em Londres e foi enterrado sem honras militares. A primeira linha da biografia escrita em 1865 por George Canning Hill diz: &#8220;Benedict, o traidor, nasceu em&#8230;&#8221;. Um dos fundadores da P\u00e1tria, Benjamin Franklin, escreveu: &#8220;Judas vendeu um \u00fanico homem. Arnold, tr\u00eas milh\u00f5es&#8221;.<br \/>\nO \u00faltimo exemplo cl\u00e1ssico de traidor, ainda vivo, \u00e9 um brasileiro que Dilma deve lembrar: Jos\u00e9 Anselmo dos Santos (1942- ) entrou na hist\u00f3ria como Cabo Anselmo, um marinheiro que amotinou seus camaradas na Marinha e acirrou o clima de subleva\u00e7\u00e3o militar que levou \u00e0 derrubada de Jo\u00e3o Goulart em 1964.<br \/>\nPreso, fugiu, exilou-se em Cuba e voltou como guerrilheiro ao Brasil, onde passou a colaborar secretamente com o DOPS do delegado S\u00e9rgio Fleury, Infiltrou-se em grupos da luta armada e ajudou o DOPS a montar em Pernambuco, em 1973, uma emboscada que matou seis militantes da VPR, a organiza\u00e7\u00e3o de onde se originou a VAR-Palmares da guerrilheira Dilma.<br \/>\nNo &#8216;massacre da granja S\u00e3o Bento&#8217;, um dos seis mortos era Soledad Barret Viedma, uma linda morena paraguaia de 28 anos, executada com quatro tiros na cabe\u00e7a, depois de presa e torturada. Estava gr\u00e1vida de cinco meses.<br \/>\nO pai era o namorado, cabo Anselmo, o agente duplo que se infiltrou no grupo e armou a ratoeira que matou a mulher e o filho. Anselmo \u00e9, talvez, o exemplo mais acabado no Brasil do patife que resume a trai\u00e7\u00e3o. Ele, como Silv\u00e9rio, merece o rep\u00fadio de Dilma e de todos n\u00f3s.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Os delatores<\/span><br \/>\nJ\u00e1 os delatores, ao contr\u00e1rio do que diz a presidente, cumpriram o caminho inverso da remiss\u00e3o. Romperam penosos compromissos de subordina\u00e7\u00e3o, confidencialidade, sigilo e lealdade para com grupos, corpora\u00e7\u00f5es e interesses que se mostraram alheios aos valores supremos da lei, da \u00e9tica, do direito e da justi\u00e7a, que protegem os cidad\u00e3os e definem as sociedades democr\u00e1ticas. Por conveni\u00eancia legal, consci\u00eancia pol\u00edtica ou o amadurecimento de ideias e atitudes, eles refizeram suas op\u00e7\u00f5es, tomando decis\u00f5es ousadas em benef\u00edcio do bem comum.<br \/>\nMais do que reduzir suas penas, redesenharam suas biografias e, em alguns casos, mudaram a Hist\u00f3ria \u2014 corrigindo o mal pelo bem. S\u00e3o traidores, somente, para seus antigos parceiros ou comparsas de descaminho e de ilegalidade. Para o resto da humanidade, s\u00e3o apenas delatores que ajudam a reencontrar o caminho justo e certo, fechando os atalhos e desvios de car\u00e1ter.<br \/>\nO empreiteiro Ricardo Pessoa, que Dilma n\u00e3o respeita, decidiu h\u00e1 quatro meses que n\u00e3o queria mais preservar os segredos impublic\u00e1veis da quadrilha que assaltou a Petrobras. Aceitou a colabora\u00e7\u00e3o premiada, prevista em lei, e passou a abastecer a Pol\u00edcia Federal e o Minist\u00e9rio P\u00fablico com detalhes da opera\u00e7\u00e3o criminosa que agora ajuda a desmontar na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato.<br \/>\nTodos n\u00f3s que deploramos o passado corrupto do empreiteiro devemos respeitar, agora, o seu presente de colaborador com a lei que combate a corrup\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 preciso gostar de Pessoa, basta respeitar a transi\u00e7\u00e3o que ele faz, desertando da quadrilha para combat\u00ea-la com os instrumentos da lei. O caminho inverso \u00e9 que n\u00e3o deveria merecer o respeito da presidente: todos os que afrontam a lei, pelas vantagens indevidas da corrup\u00e7\u00e3o, \u00e9 que devem ser repudiados, especialmente pelo servidor p\u00fablico n\u00ba 1 do Pa\u00eds \u2014 a presidente da Rep\u00fablica.<br \/>\nO italiano Tommaso Buscetta (1928-2000), um dos chefes mais importantes da Cosa Nostra siciliana, \u00e9 um mero traidor para os mafiosos, mas \u00e9 tamb\u00e9m o mais importante delator para a Justi\u00e7a da It\u00e1lia e dos Estados Unidos. Preso no Brasil em 1983, ajudou a desmontar a M\u00e1fia nativa, colaborando com as investiga\u00e7\u00f5es do juiz Giovanni Falcone, uma vers\u00e3o italiana de S\u00e9rgio Moro.<br \/>\nExtraditado para os Estados Unidos, Buscetta dinamitou a Cosa Nostra norte-americano. Suas revela\u00e7\u00f5es levaram mais de 350 membros da hierarquia mafiosa para a cadeia. Morreu de c\u00e2ncer aos 71, ainda clandestino no interior dos Estados Unidos e amparado pelo respeit\u00e1vel Programa de Prote\u00e7\u00e3o \u00e0 Testemunha.<br \/>\nO americano Daniel Ellberg (1931- ) foi fuzileiro na Guerra do Vietn\u00e3, voltou empregado pela Rand Corporation como analista militar e, dali, passou a trabalhar para o Pent\u00e1gono. Operando no cora\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina de guerra americana, ele se deu conta de que o povo e o Congresso americano estavam sendo enganados pela propaganda triunfalista da Casa Branca sobre uma guerra que, de fato, caminhava para a derrota. Ellsberg copiou clandestinamente 7 mil p\u00e1ginas de relat\u00f3rios secretos que contavam a verdade e os repassou para o The New York Times, em 1971.<br \/>\nQuando o jornal foi bloqueado na Justi\u00e7a, Ellsberg liberou os Pentagon Papers para o The Washington Post e outros 17 jornais, tornando in\u00fatil a censura. Dois meses ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o doTimes, um grupo de aloprados que trabalhavam com Nixon na Casa Branca invadiu o escrit\u00f3rio do psiquiatra de Ellsberg, tentando provar que ele era desequilibrado. Um ano depois, junho de 1972, o mesmo bando invadiu o QG dos Democratas no edif\u00edcio Watergate, marcando o in\u00edcio do fim de Richard Nixon. A democracia americana e o primado da liberdade de express\u00e3o, garantido pela Suprema Corte, se refor\u00e7aram a partir de Daniel Ellsberg, um admir\u00e1vel delator que, como tal, Dilma precisa respeitar.<br \/>\nWilliam Mark Felt (1913-2008) era um policial que chegou a vice-diretor do FBI, a Pol\u00edcia Federal americana. E contrariou o Governo Nixon, tornando-se a principal e secreta fonte dos dois rep\u00f3rteres do The Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, que cobriam o caso Watergate. Falava em encontros furtivos, r\u00e1pidos, no subterr\u00e2neo de uma garagem em Washington, dando o caminho certo para a apura\u00e7\u00e3o precisa que atingiu o cora\u00e7\u00e3o da quadrilha da Casa Branca e seu chefe, Richard Nixon.<br \/>\nA dela\u00e7\u00e3o continuada de Felt, que passou \u00e0 historia pelo codinome de &#8216;Garganta Profunda&#8217;, tornou poss\u00edvel a mais significativa cobertura pol\u00edtica da hist\u00f3ria americana e deu ao mundo a dimens\u00e3o de um jornalismo altivo e obcecado por seu dever de servir ao p\u00fablico, n\u00e3o ao poder. Todos n\u00f3s, jornalistas ou n\u00e3o, respeitamos um delator como Mark Felt.<br \/>\nO analista de sistemas Edward Snowden (1983) trabalhou na \u00e1rea de inform\u00e1tica da CIA e, como terceirizado, atuou no setor cibern\u00e9tico da NSA, a mega-ag\u00eancia de vigil\u00e2ncia global do sistema de intelig\u00eancia dos Estados Unidos. Esse superpoder, que permitiu \u00e0 NSA grampear os telefones de governantes mundiais, como Dilma Rousseff, produziu uma epifania em Snowden, que um dia pensou: &#8220;Isso \u00e9 algo que n\u00e3o \u00e9 para ser decidido por n\u00f3s. O p\u00fablico precisa decidir se esses programas e pol\u00edticas est\u00e3o certos ou errados&#8221;. Ent\u00e3o, cresceu nele a percep\u00e7\u00e3o de que \u00e9 o Estado que deve servir ao cidad\u00e3o, e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<br \/>\nMuito menos vigi\u00e1-lo. Snowden aplicou o maior golpe da hist\u00f3ria da intelig\u00eancia americana, revelando em maio de 2013 programas e procedimentos secretos da NSA aos jornais The Guardian e The Washington Post. Com a ajuda de Sarah Harrison, advogada do WikiLeaks, Snowden voou de Hong Kong para Moscou, onde vive hoje na condi\u00e7\u00e3o de asilado pol\u00edtico, para escapar ao pedido de pris\u00e3o do governo dos Estados Unidos, que o acusa de espionagem, roubo e transfer\u00eancia de documentos confidenciais americanos.<br \/>\nTecnicamente, Snowden \u00e9 um delator, que abandonou seus colegas de trabalho, seu empregador e seu pa\u00eds. Para o resto do mundo, que era vigiado por ele, \u00e9 um her\u00f3i. Dilma, um dos alvos da NSA denunciados por Snowden, talvez n\u00e3o o respeite, mas n\u00e3o \u00e9 o que acontece na Universidade de Glasgow, a escola mais respeit\u00e1vel da Esc\u00f3cia, a quarta mais antiga do mundo anglofalante: foi fundada em 1451, meio s\u00e9culo antes da descoberta do Brasil. Em fevereiro de 2014, Snowden foi agraciado com o cargo simb\u00f3lico de reitor da Universidade de Glasgow, vencendo tr\u00eas concorrentes em uma elei\u00e7\u00e3o aberta e recebendo mais da metade dos 6.560 votos.<br \/>\nOutro especialista em tecnologia de informa\u00e7\u00e3o, Herv\u00e9 Daniel Marcel Falciani (1972- ) \u00e9 um engenheiro franco-italiano que provocou o maior vazamento de dados banc\u00e1rios do mundo. Trabalhando na \u00e1rea de Private Bank da ag\u00eancia do HSBC em Genebra, Falciani percebeu que, mais do que gerenciar um programa de prote\u00e7\u00e3o a clientes, estava na verdade encobrindo atividades fraudulentas em dimens\u00f5es planet\u00e1rias.<br \/>\n&#8220;Bancos como o HSBC criaram um sistema para ficarem ricos \u00e0 custa da sociedade, atrav\u00e9s do apoio \u00e0 evas\u00e3o fiscal e \u00e0 lavagem de dinheiro&#8221;, disse ele \u00e0 revista alem\u00e3 Der Spiegel. Em 2008, com os dados criptografados das contas secretas de 106 mil clientes espalhados por 203 pa\u00edses e 22 para\u00edsos fiscais, somando mais de US$ 100 bilh\u00f5es em dep\u00f3sitos n\u00e3o revelados, Falciani fugiu para a Fran\u00e7a.<br \/>\nEm dezembro passado, Falciani foi indiciado pela Su\u00ed\u00e7a por violar as leis de sigilo banc\u00e1rio do pa\u00eds e por espionagem industrial. A Fran\u00e7a, que o acolheu, fez o contr\u00e1rio: indiciou o HSBC que Falciani delatou por lavagem de dinheiro. Assim, ele \u00e9 bandido na Su\u00ed\u00e7a e mocinho na Fran\u00e7a. Ou traidor para os su\u00ed\u00e7os e delator para os franceses, uma diferen\u00e7a nada sutil que Dilma Rousseff talvez n\u00e3o tenha percebido.<br \/>\n<span class=\"intertit\">A impunidade em xeque<\/span><br \/>\nA explos\u00e3o de f\u00faria de Dilma contra Ricardo Pessoa, o empreiteiro da UTC que &#8216;fodeu&#8217; com sua viagem aos Estados Unidos, n\u00e3o \u00e9 uma confus\u00e3o pessoal e pontual. \u00c9 uma incompreens\u00e3o generalizada que vitima a imprensa brasileira em geral no caso espec\u00edfico da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, alvo de uma cobertura, mais ou menos hostil, que depende do vi\u00e9s partid\u00e1rio ou da inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2014 e quase nada do jornalismo.<br \/>\nOs brasileiros sempre se lamentaram que o Brasil seja o para\u00edso da impunidade, onde o bra\u00e7o longo da lei nunca alcan\u00e7a os poderoso, os ricos e os influentes. A partir de 17 de mar\u00e7o de 2014, essa regra come\u00e7ou a ruir com a maior opera\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da Pol\u00edcia Federal \u2014 a Lava Jato.<br \/>\nEm 17 fases sucessivas, que nesta semana voltou a prender o ex-ministro Jos\u00e9 Dirceu, fazendo uma liga\u00e7\u00e3o direta entre Mensal\u00e3o e Petrol\u00e3o, a PF desarticulou um esquema de corrup\u00e7\u00e3o e evas\u00e3o de divisas na maior empresa do pa\u00eds, a Petrobr\u00e1s, atingindo o cora\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio geralmente suspeito e sempre intocado das empreiteiras, o setor mais din\u00e2mico e vulner\u00e1vel do capitalismo brasileiro.<br \/>\nCooptando tr\u00eas diretores da empresa \u2014 Paulo Roberto Costa (Abastecimento), Renato Duque (Servi\u00e7os) e Nestor Cerver\u00f3 (Internacional) \u2014, os tr\u00eas principais partidos da base governista (PP, PT e PMDB) armaram, respectivamente, seus esquemas clandestinos de patroc\u00ednio estatal, fazendo caixa atrav\u00e9s das maiores empreiteiras nacionais, integrantes de um cartel que manipulava contratos e licita\u00e7\u00f5es bilion\u00e1rias na Petrobr\u00e1s, segundo o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF). Uma opera\u00e7\u00e3o que teria movimentado cerca de R$ 10 bilh\u00f5es, dos quais j\u00e1 foram recuperados R$ 870 milh\u00f5es e bloqueados outros R$ 2 bilh\u00f5es.<br \/>\nOs presidentes e principais executivos das maiores empreiteiras foram denunciados pelo MPF ou indiciados pela PF, incluindo a\u00ed a Odebrecht, a Andrade Gutierrez, a Camargo Correia, a Mendes J\u00fanior, a OAS, a Queiroz Galv\u00e3o, a Engevix, entre as mais destacadas. O STF autorizou a abertura de inqu\u00e9rito contra 47 pol\u00edticos suspeitos de envolvimento na corrup\u00e7\u00e3o \u2014 entre eles, 32 que s\u00e3o ou foram do PP, 7 do PMDB, 6 do PT, um do PSDB e um do PTB.<br \/>\nNo bando, 11 senadores, 21 deputados federais e os dois chefes m\u00e1ximos do Parlamento: o deputado Eduardo Cunha, presidente da C\u00e2mara, e o senador Renan Calheiros, presidente do Senado, pela ordem os n\u00fameros tr\u00eas e quatro na linha de sucess\u00e3o da presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<br \/>\nEntre empreiteiros, lobistas, doleiros, consultores e executivos, 23 j\u00e1 firmaram acordo de dela\u00e7\u00e3o premiada, certamente um grupo que pode n\u00e3o ter o respeito de Dilma, mas receber\u00e1 toda a considera\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a, que \u00e9 o que importa. Um \u00fanico gerente da Petrobras, Pedro Barusco, confessou ter depositado US$ 97 bilh\u00f5es em contas particulares na Su\u00ed\u00e7a, dos quais o Brasil j\u00e1 conseguiu repatriar R$ 182 milh\u00f5es.<br \/>\nSegundo Barusco revelou na CPI da Petrob\u00e1s, ele come\u00e7ou a receber propina na empresa em 1997, no segundo Governo FHC, e o esquema de corrup\u00e7\u00e3o se ampliou a partir de 2004, no primeiro Governo Lula. Nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2014, conforme levantamento do MPF, as empreiteiras investigadas pela Lava Jato doaram, juntas, R$ 98,8 milh\u00f5es aos dois candidatos que chegaram ao segundo turno \u2013 o tucano A\u00e9cio Neves e a petista Dilma Rousseff.<br \/>\nTodos esses n\u00fameros e fatos superlativos, apesar do desprezo de Dilma, deviam ser motivo de j\u00fabilo nacional. Enfim, temos a pol\u00edcia e a Justi\u00e7a atacando a intoc\u00e1vel plutocracia e a roubalheira mais sofisticada. Mas, a leitura do notici\u00e1rio n\u00e3o traduz esse orgulho. Pelo contr\u00e1rio. A m\u00e1 vontade fica expl\u00edcita no notici\u00e1rio que, com frequ\u00eancia, tenta desqualificar a Justi\u00e7a, o juiz S\u00e9rgio Moro, o Minist\u00e9rio P\u00fablico e a PF, destacando ou omitindo detalhes conforme sua simpatia ou antipatia partid\u00e1ria.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O Fla-Flu da imprensa<\/span><br \/>\nMal comparando, como no Maracan\u00e3 dos bons tempos, que se dividia entre duas torcidas inflamadas, temos hoje um Fla-Flu midi\u00e1tico envolvendo a Lava Jato. De um lado, uma imprensa que uns e outros, com as devidas nuances, definem como grande, tradicional, conservadora, reacion\u00e1ria, oposicionista, tucana e\/ou golpista.<br \/>\nDe outro, com as ressalvas de cada um, a imprensa qualificada como pequena, alternativa, progressista, esquerdista, governista, petista e\/ou legalista. O diabo \u00e9 que, em alguns momentos, o leitor fica com a impress\u00e3o de que ambos t\u00eam raz\u00e3o nas ofensas de parte a parte.<br \/>\nO jornalismo brasileiro, por isso, vive um mau momento, em que regride aos tempos do per\u00edodo anterior \u00e0 ditadura militar, quando imperavam jornais de forte engajamento pol\u00edtico-partid\u00e1rio. No trepidante interregno democr\u00e1tico de duas d\u00e9cadas que compreende a queda do Estado Novo de Vargas (1946) e a deposi\u00e7\u00e3o de Jango (1964), os grandes di\u00e1rios nacionais se dividiam entre o PSD e a UDN, que representavam a direita agr\u00e1ria-industrial do campo conservador. Um \u00fanico jornal, a \u00daltima Hora de Samuel Wainer, abra\u00e7ava a pauta da esquerda trabalhista-nacionalista do PTB e seus aliados comunistas.<br \/>\nA imprensa de meados do S\u00e9culo 20 refor\u00e7ou seu estigma golpista porque, como vivandeira impenitente, ati\u00e7ava os quarteis em tempos de forte engajamento dos militares das tr\u00eas For\u00e7as Armadas no debate das quest\u00f5es pol\u00edticas, em um ambiente radicalizado pelo confronto ideol\u00f3gico da Guerra Fria.<br \/>\nOs clubes militares fermentavam a agita\u00e7\u00e3o militar que, ecoada e estimulada pela grande imprensa, levou \u00e0 conspira\u00e7\u00e3o e ao golpe de 1964. Essa \u00e9 uma diferen\u00e7a crucial, e alentadora, nesses tempos de forte debate partid\u00e1rio. N\u00e3o temos mais o pano de fundo da Guerra Fria e os militares, despolitizados por 30 anos de democracia que os levaram \u00e0 marcha for\u00e7ada da legalidade constitucional, n\u00e3o fazem mais parte da discuss\u00e3o pol\u00edtica. E isso \u00e9 muito bom.<br \/>\nTanto que a comandante-suprema das For\u00e7as Armadas, a presidente da Rep\u00fablica, \u00e9 acatada com normalidade e disciplina, apesar de ser uma ex-guerrilheira e ex-presa pol\u00edtica torturada pelo regime militar. Por isso, n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel nenhuma aventura golpista com odor castrense no Pa\u00eds, apesar dos imbecis que invadem as ruas e as redes sociais clamando pela volta da ditadura que nunca viveram.<br \/>\nAssim, quem imagina golpear o mandato de Dilma Rousseff precisa contar n\u00e3o com as quatro-estrelas dos generais comprometidos com a legalidade constitucional, mas com a estrela decadente de um arrivista e inconsequente como Eduardo Cunha, que aposta no confronto para desestabilizar o Pal\u00e1cio do Planalto que ele aponta como inimigo a ser abatido.<br \/>\nAssim, para n\u00e3o ferir suscetibilidades, \u00e9 mais saud\u00e1vel definir as duas torcidas organizadas da imprensa como &#8216;grande m\u00eddia&#8217; ou &#8216;m\u00eddia alternativa&#8217;.<br \/>\nA grande m\u00eddia erra, e erra muito, quando \u00e9 desonesta e bate pelo vi\u00e9s ideol\u00f3gico no governo, avan\u00e7ando os limites da legalidade constitucional e ampliando os espa\u00e7os da intoler\u00e2ncia mais reacion\u00e1ria. A m\u00eddia alternativa erra, e erra muito, quando \u00e9 desonesta ao defender at\u00e9 os equ\u00edvocos e bobagens do governo, transpondo os limites do bom senso e atropelando a intelig\u00eancia do p\u00fablico.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Choque da cadeia<\/span><br \/>\nExiste um agravante, no caso da m\u00eddia alternativa: sua vis\u00e3o rasa de que tudo e todos que criticam o governo s\u00e3o de direita, e tudo e todos os que apoiam o governo s\u00e3o de esquerda. O mundo \u00e9 mais complexo do que isso, e n\u00e3o t\u00e3o desonesto. Um \u00f3rg\u00e3o de direita pode, \u00e0s vezes, dizer uma verdade. Um ve\u00edculo de esquerda pode, quem sabe, dizer uma mentira. N\u00e3o \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que determina e consagra, na origem, o que \u00e9 mentira ou verdade. O bom jornalismo n\u00e3o se formata pela esquerda ou pela direita, mas pela informa\u00e7\u00e3o honesta, verdadeira, leg\u00edtima, precisa, que infelizmente tem inimigos poderosos, como ensina a Hist\u00f3ria, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, \u00e0s vezes simultaneamente.<br \/>\nJornalistas mais velhos, adestrados pelo tempo, sabem que n\u00e3o devem servir como inocentes \u00fateis em qualquer processo golpista. Como jornalistas e pensadores, cabe a eles a miss\u00e3o permanente de denunciar manobras golpistas, venham de onde vier, da direita ou da esquerda.<br \/>\n\u00c9 preciso cuidado, portanto, para n\u00e3o assumir posi\u00e7\u00f5es supostamente democr\u00e1ticas que t\u00eam ra\u00edzes no sectarismo pol\u00edtico ou no fundamentalismo ideol\u00f3gico. Nada tisna mais a imagem combativa e cr\u00edtica da m\u00eddia alternativa do que a indulg\u00eancia plen\u00e1ria que, na sua maioria, ela concede \u00e0s besteiras cometidas pelo Governo Dilma e seus pr\u00f3ceres.<br \/>\nUm bom exemplo \u00e9 a sanha do PT em pedir que Dilma Rousseff exija do ministro Jos\u00e9 Eduardo Cardoso o enquadramento da Pol\u00edcia Federal pelo desgaste natural causado pela investiga\u00e7\u00e3o da Lava Jato. O que \u00e9 isso, companheiro? \u00c9 dif\u00edcil encontrar algum site, portal ou blog da m\u00eddia alternativa lembrando que a Pol\u00edcia Federal n\u00e3o pertence ao PT nem ao Governo Dilma.<br \/>\n\u00c9 uma institui\u00e7\u00e3o do Estado, a quem cabe cumprir a lei, sob qualquer governo, petista ou tucano. Ningu\u00e9m dos alternativos ficou injuriado por essa tentativa de manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da PF pelo PT, embora sempre tenham reclamado de um eventual uso pol\u00edtico da PF pelo PSDB, nos tempos de FHC.<br \/>\nMuitos desses sites e blogs da esquerda mais progressista, avan\u00e7ada e libert\u00e1ria s\u00e3o pr\u00f3digos e \u00e1geis na condena\u00e7\u00e3o em bloco ao juiz S\u00e9rgio Moro e \u00e0 sua condu\u00e7\u00e3o da Lava Jato. Exibem uma curiosa solidariedade aos ladr\u00f5es da Petrobr\u00e1s, emocionados com as agruras de ilustres empres\u00e1rios pegos em flagrante, sensibilizados pelo horror de ver os chef\u00f5es das maiores empreiteiras encarcerados em condi\u00e7\u00f5es vexat\u00f3rias.<br \/>\nA m\u00eddia alternativa se apressou em ecoar um preciso relato da rep\u00f3rter M\u00f4nica Bergamo, ignorando o fato de que ela integra a reda\u00e7\u00e3o de um ve\u00edculo &#8216;suspeito&#8217; da grande m\u00eddia, a Folha de S.Paulo. No dia 22 de fevereiro, na mat\u00e9ria &#8216;Na cela escura&#8217;, Bergamo relata o drama existencial dos 23 empres\u00e1rios e executivos presos na s\u00e9tima fase da Lava Jato, encarando inesperadamente a dura realidade da cust\u00f3dia da PF em Curitiba.<br \/>\nEspremidos em tr\u00eas celas com \u00fanico beliche, o lugar acolheu um n\u00famero de presos quatro vezes maior. Cada cela tem um s\u00f3 vaso sanit\u00e1rio e uma pia. Um preso reclamou: &#8220;Nada separa a latrina do resto. A pessoa vai ao banheiro na frente de todos os presos ali. Colocamos um colch\u00e3o entre a privada e as camas&#8230;&#8221;. Mesmo nas celas, embora inocentes, falavam baixinho e cobrindo a boca para evitar leitura labial, com medo de escutas ambientais.<br \/>\nPrivados de rel\u00f3gios, sofriam ainda mais, segundo um advogado contou \u00e0 rep\u00f3rter: &#8220;Para quem n\u00e3o faz absolutamente nada, n\u00e3o ter no\u00e7\u00e3o do tempo que passa \u00e9 muito cruel&#8221;. Sensibilizada, a PF acabou pendurando um rel\u00f3gio de parede em uma das celas. Como os talheres s\u00e3o de pl\u00e1stico, a faca n\u00e3o corta a carne servida \u2013 e os empreiteiros, antes acostumados aos finos talheres de prata de endere\u00e7os elegantes da gastronomia internacional, eram obrigados a comer com as m\u00e3os.<br \/>\nUm horror!<br \/>\n<span class=\"intertit\">O roubo do PIB<\/span><br \/>\nOs grandes empreiteiros, com certeza, tiveram na PF de Curitiba uma p\u00e1lida ideia do supl\u00edcio dos c\u00e1rceres brasileiros, muitos deles constru\u00eddos por suas empresas e que o ministro Jos\u00e9 Eduardo Cardoso, em um dia inspirado, j\u00e1 carimbou como &#8216;medievais&#8217;. O relat\u00f3rio mais recente do Infopen (Sistema Integrado de Informa\u00e7\u00f5es Penitenci\u00e1rias), com dados de 2014 e divulgados em junho passado pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, mostra que o Brasil tem mais de 607 mil presos, a quarta maior popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo. Eram, antes da Lava Jato, 233 mil encarcerados em 2000. Nesses 14 anos, essa multid\u00e3o cresceu em 161%. Nesse ritmo, o Brasil ter\u00e1 cerca de 1 milh\u00e3o de presos em 2022 \u2014 n\u00e3o se sabe quantos empreiteiros entre eles.<br \/>\nA presidente Dilma Rousseff, que j\u00e1 avisou que n\u00e3o vai pagar pela &#8216;merda&#8217; dos outros, agora se lamenta pelo esterco conjuntural dos empreiteiros flagrados no assalto \u00e0 Petrobr\u00e1s. Em reuni\u00e3o com 12 ministros na segunda-feira (27) para tratar da crise econ\u00f4mica e da negocia\u00e7\u00e3o com o Congresso, Dilma reclamou que os efeitos da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato provocaram uma queda de 1 ponto percentual no PIB brasileiro.<br \/>\nA presidente nem lamentou a roubalheira, apenas se queixou da investiga\u00e7\u00e3o sobre ela. Com essa tortuosa observa\u00e7\u00e3o, Dilma passou a ideia de que o rombo das contas p\u00fablicas \u00e9 agravado por quem investiga a ladroagem, n\u00e3o por quem a comete. Nesse racioc\u00ednio err\u00e1tico, se a Lava Jato n\u00e3o existisse, o PIB aumentaria, em vez de cair.<br \/>\nQuando se imagina que a presidente da Rep\u00fablica poderia louvar a pol\u00edcia e a Justi\u00e7a que combatem o crime, ela as desqualifica. Uma bobagem dessa grandeza foi replicada, com insist\u00eancia, por aqueles que alertaram sobre a eventual depress\u00e3o econ\u00f4mica causada pela a\u00e7\u00e3o do MPF e do juiz S\u00e9rgio Moro, acusados at\u00e9 de amea\u00e7ar a sobreviv\u00eancia das grandes empreiteiras nacionais, afundando ainda mais a economia.<br \/>\nO mesmo e tolo argumento foi usado no Segundo Imp\u00e9rio, quando prosperou a campanha abolicionista que tentava tirar do Brasil o t\u00edtulo de \u00faltima na\u00e7\u00e3o do mundo com a escravid\u00e3o legalizada. Com a mesma indig\u00eancia mental de agora, os escravagistas alegavam que a liberta\u00e7\u00e3o dos negros colocaria em colapso a economia, ao ferir gravemente os interesses dos grandes latifundi\u00e1rios que baseavam suas usinas, planta\u00e7\u00f5es de cana e cria\u00e7\u00f5es de gado na abjeta for\u00e7a de trabalho das senzalas.<br \/>\nOs donos de engenhos, senhores do setor mais din\u00e2mico de uma economia atrasada, agr\u00e1ria e pr\u00e9-capitalista, tinham a import\u00e2ncia estrat\u00e9gica dos empreiteiros de hoje. Abolir a escravid\u00e3o, diziam, seria a ru\u00edna do Imp\u00e9rio. A casa grande n\u00e3o tinha nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com o aspecto moral do fim da escravid\u00e3o, e nenhuma raz\u00e3o nos fundamentos econ\u00f4micos da bobagem que vociferavam.<br \/>\nO Brasil, como se sabe, sobreviveu, recriado, moralizado, modernizado. Insistir, agora, que o Pa\u00eds cair\u00e1 no buraco por causa de um punhado de empreiteiros pegos com a boca na botija \u00e9 zombar da intelig\u00eancia dos brasileiros.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O Brasil n\u00e3o quebra<\/span><br \/>\nO jornal Valor Econ\u00f4mico mostrou, em novembro passado, que \u00e9 um exagero imaginar que o pa\u00eds ficaria paralisado no caso das grandes empresas investigadas na Lava Jato serem declaradas inid\u00f4neas. Se as nove maiores empreiteiras \u2014 Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS Queiroz Galv\u00e3o, Camargo Corr\u00eaa, Galv\u00e3o Engenharia, UTC, Mendes J\u00fanior e Engevix\u00a0 \u2014 envolvidas na investiga\u00e7\u00e3o virassem inid\u00f4neas, existiriam pelo menos outras 13 empreiteiras nacionaiscom a receita l\u00edquida superior a R$ 1 bilh\u00e3o \u2014 e ainda imunes \u00e0 Lava Jato.<br \/>\nO professor de direito e infraestrutura da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV), M\u00e1rio Engler, explica seu otimismo: &#8220;O mercado vai se acomodar e v\u00e3o surgir outros players. O Brasil n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dependente das grandes empreiteiras como pode parecer. Elas t\u00eam muito poder, mas o Pa\u00eds n\u00e3o pode se comportar como ref\u00e9m delas&#8221;.<br \/>\nO jornal lembra que existem no mundo ao menos 11 empreiteiras maiores do que a Odebrecht, em termos de receita. Entre elas, segundo a revista especializada Engineering News-Record (ENR), est\u00e3o a espanhola ACS, a alem\u00e3 Hochtief, as americanas Bechtel e Fluor, as francesas Vinci e Technip e a sueca Skanska. Antes que a xenofobia se manifeste \u00e9 bom lembrar que grandes empreiteiras internacionais, como a Ferrovial, Acciona e Isolux Cors\u00e1n, j\u00e1 atuam no Brasil.<br \/>\nA cada dela\u00e7\u00e3o, a Lava Jato soma novas informa\u00e7\u00f5es, dados, planilhas, balancetes, mensagens e c\u00f3pias sem tarja preta de tenebrosas transa\u00e7\u00f5es, impens\u00e1veis no mundo respeit\u00e1vel de bilion\u00e1rios que ca\u00edram em tenta\u00e7\u00e3o, apesar de suas s\u00f3lidas fortunas.<br \/>\nDiante do constrangimento do flagrante policial e do vexame do c\u00e1rcere coletivo, alguns acharam melhor delatar o que sabiam para abreviar o sofrimento da cadeia \u2014 e tudo isso deixou Dilma Rousseff consternada. A presidente devia prestar aten\u00e7\u00e3o ao que ensina Paulo Roberto Galv\u00e3o de Carvalho, um dos procuradores que investiga a Lava Jato: &#8220;A dela\u00e7\u00e3o premiada gerou uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia.<br \/>\nA partir do momento em que algu\u00e9m reconhece que havia o esquema e o pagamento de propina, passamos a ter mais provas em rela\u00e7\u00e3o a outros envolvidos. As pessoas que n\u00e3o tinham o menor receio de serem punidas come\u00e7aram a t\u00ea-lo e aderiram \u00e0 dela\u00e7\u00e3o. Isso veio como um efeito domin\u00f3&#8221;, explicou Carvalho \u00e0 Deutsche Welle Brasil.<br \/>\nCom a colabora\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico da Su\u00ed\u00e7a, que identificou contas abertas no exterior pela Odebrecht para adubar os executivos camaradas da Petrobr\u00e1s, a Lava Jato localizou 56 atos de corrup\u00e7\u00e3o e 136 de lavagem de dinheiro. A empresa nega, mas a investiga\u00e7\u00e3o cal\u00e7ou a den\u00fancia contra Marcelo Odebrecht, presidente do grupo, e outras 12 pessoas por corrup\u00e7\u00e3o, lavagem de dinheiro e organiza\u00e7\u00e3o criminosa. S\u00f3 a Odebrecht, diz a Lava Jato, movimentou R$ 389 milh\u00f5es em corrup\u00e7\u00e3o e R$ 1,06 bilh\u00e3o em lavagem de dinheiro.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Hooligans e black blocs <\/span><br \/>\nApesar dos fatos, dos n\u00fameros e do avan\u00e7o da investiga\u00e7\u00e3o, a Dilma do primeiro mandato, festejada pela demiss\u00e3o implac\u00e1vel de meia d\u00fazia de ministros flagrados em malfeitos, aparentemente afrouxou seus r\u00edgidos padr\u00f5es morais no segundo mandato, e exibe agora uma surpreendente contrariedade para com os delatores que ajudam na faxina da Petrobr\u00e1s. Essa dificuldade de percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio da presidente.<br \/>\nCom uma imprensa pontuada pelo tosco Fla-Flu ou Gre-Nal de torcidas organizadas em torno dos dois partidos que dividem o poder no Pa\u00eds h\u00e1 duas d\u00e9cadas, espa\u00e7os importantes da m\u00eddia abdicam da serenidade para vestir a camiseta de\u00a0hooligans\u00a0petistas ou tucanos, que se xingam e se ofendem em coros plangentes para destacar as falcatruas alheias, minimizando ou ignorando as roubalheiras de seu time favorito. Jornalistas de simpatias tucanas investem contra a corrup\u00e7\u00e3o petista, esquecidos dos malfeitos praticados por seus \u00edcones do PSDB. Jornalistas de amores petistas atacam a corrup\u00e7\u00e3o tucana, tolerantes com as tungas cometidas por seus \u00eddolos do PT.<br \/>\nNessa guerra intermin\u00e1vel, uma imprensa cada vez mais partidarizada, em suas v\u00e1rias plataformas, se afasta do jornalismo para o abra\u00e7o de urso do facciosismo, que tenta convencer o distinto p\u00fablico mais pelo eco do adjetivo do que pela for\u00e7a do substantivo, mais pelo peso da opini\u00e3o induzida do que pela informa\u00e7\u00e3o produzida.<br \/>\nTudo isso provoca a partidariza\u00e7\u00e3o acentuada de parte da imprensa e de parcela influente de seus profissionais, hoje rebaixados a golpistas ou governistas, acantonados em sites direitistas ou esquerdistas, em blogs &#8216;sujinhos&#8217; ou &#8216;limpinhos&#8217;, em espa\u00e7os que podem ser o\u00a0black-hole\u00a0da sensatez ou o\u00a0big-bang\u00a0da intoler\u00e2ncia.<br \/>\nS\u00e3o mundos e universos restritos do pensamento \u00fanico. N\u00e3o h\u00e1 lugar para o contradit\u00f3rio, que permite o debate e estimula a intelig\u00eancia.\u00a0Imp\u00f5e-se o pensamento \u00fanico onde s\u00f3 os simpatizantes de um lado e outro s\u00e3o aceitos nos espa\u00e7os de coment\u00e1rios para reproduzir, bovinamente, a rea\u00e7\u00e3o de manada de uma multid\u00e3o mesmerizada, radicalizada,\u00a0black blocs\u00a0do teclado, todos corajosamente protegidos pela m\u00e1scara do anonimato, que dilui responsabilidades, propaga baixarias e dissemina mediocridades.<br \/>\nAssim, o jornalismo afunda na paix\u00e3o e o Pa\u00eds chega ao limite do absurdo quando o pr\u00f3prio presidente da C\u00e2mara comanda chicanas parlamentares para impor sua pauta reacion\u00e1ria, retr\u00f3grada, saudada em coro no plen\u00e1rio por deputados marchando em rid\u00edcula prociss\u00e3o e entoando salmos e c\u00e2nticos b\u00edblicos.<br \/>\nQuando imbecis escrevem na cal\u00e7ada em frente ao apartamento de J\u00f4 Soares que o apresentador da Rede Globo deve morrer s\u00f3 por ter entrevistado a presidente da Rep\u00fablica. Quando um idiota se infiltra no hotel onde Dilma se hospeda, nos Estados Unidos, para ofender a presidente e depois se vangloriar, no Facebook, que \u00e9 membro da direita e da &#8216;onda conservadora&#8217;.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Piada sem gra\u00e7a<\/span><br \/>\nBoa parte da m\u00eddia alternativa comprou o peixe podre do exagero, tentando desqualificar o trabalho da Lava Jato pela chacota. Comparam o juiz S\u00e9rgio Moro ao delegado S\u00e9rgio Fleury, o homem que torturava seus presos na ditadura. Nivelam a 13\u00aa Vara Federal de Curitiba, na avenida Anita Garibaldi, aos infames endere\u00e7os do DOI-CODI da rua Tutoia, em S\u00e3o Paulo, e da rua Bar\u00e3o de Mesquita, no Rio de Janeiro.<br \/>\nConfundem a Justi\u00e7a Federal do juiz Moro com os espa\u00e7os de arame farpado da base americana de Guant\u00e1namo, em Cuba. S\u00e3o piadas infelizes, que apenas replicam o desarranjo de Dilma, ousando confundir ditadura e democracia. Humorismo em vez de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma disfun\u00e7\u00e3o do jornalismo, que existe para esclarecer, n\u00e3o para desconcertar \u2014 muito menos brincar com coisa s\u00e9ria, como o duro combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPara as gera\u00e7\u00f5es mais jovens, que podem acreditar que DOI-CODI \u00e9 a mesma coisa que Justi\u00e7a Federal, \u00e9 bom explicar a piada boboca, que presta um desservi\u00e7o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o da garotada e \u00e0 verdade hist\u00f3rica pela farsa da pilh\u00e9ria abobalhada. Em ditadura, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existe justi\u00e7a.<br \/>\nAo DOI-CODI, centros de tortura do Ex\u00e9rcito nas grandes capitais, as pessoas presas eram levadas encapuzadas, algemadas, sem mandado judicial, sem conhecimento das fam\u00edlias, \u00e0s vezes arrastadas porque j\u00e1 n\u00e3o podiam caminhar, pelos golpes ou tiros recebidos da repress\u00e3o. Tudo era feito na clandestinidade, encoberto pelo breu da noite, como sempre se faz quando o arb\u00edtrio deixa de assumir seus atos vergonhosos. N\u00e3o havia nenhum jornalista, muito menos fot\u00f3grafo da imprensa, para testemunhar a chegada ou sa\u00edda de presos.<br \/>\nBasta comparar com a intensa cobertura da imprensa, hoje, nos procedimentos da Lava Jato em Curitiba. Os presos chegam e saem caminhando, sem qualquer restri\u00e7\u00e3o, muito menos algemas, \u00e0 luz do dia, sob as c\u00e2meras da TV e dos fot\u00f3grafos, acompanhados por seus advogados e escoltados por agentes da Pol\u00edcia Federal .<br \/>\n<span class=\"intertit\">Laranja e preto<\/span><br \/>\nA desgra\u00e7a das piadinhas fica mais rombuda quando se compara a Justi\u00e7a Federal curitibana com a aviltante base americana de Guant\u00e1namo, em Cuba, onde a lei a e justi\u00e7a n\u00e3o entram. Para l\u00e1 s\u00e3o enviados supostos terroristas, que os Estados Unidos capturaram no Afeganist\u00e3o e no Iraque, e onde s\u00e3o submetidos a torturas e a maus tratos, segundo a Anistia Internacional, que batizou o lugar como &#8220;o Gulag de nossos tempos&#8221;. Como prisioneiros de guerra, eles n\u00e3o t\u00eam assist\u00eancia jur\u00eddica e pairam no limbo legal de uma base alheia ao direito internacional.<br \/>\nDesde 2002, logo ap\u00f3s o 11 de Setembro, 779 presos foram levados para l\u00e1, sem acusa\u00e7\u00e3o formada, sem processo e sem direito a julgamento. Hoje permanecem ali 116 presos, 48 deles em um impasse kafkiano: s\u00e3o &#8220;muito perigosos para serem transferidos, mas n\u00e3o pass\u00edveis de processo&#8221;, embora n\u00e3o tenham nenhuma acusa\u00e7\u00e3o. Cerca de 20 menores de 18 anos est\u00e3o l\u00e1, o que viola a lei internacional. Oito homens j\u00e1 morreram, seis por suic\u00eddio, segundo o Pent\u00e1gono.<br \/>\nVinte e cinco presos fizeram 41 tentativas fracassadas de suic\u00eddios, confirma Guant\u00e1namo. O presidente Obama determinou o fechamento da base em 2009, mas a ordem trombou no Congresso republicano, que vetou a transfer\u00eancia dos presos para o territ\u00f3rio continental. Como se v\u00ea, Guant\u00e1namo \u00e9 exatamente igual a Curitiba. O portal de entrada do Campo Delta 1, de m\u00e1xima seguran\u00e7a, com vigil\u00e2ncia severa dos soldados americanos, lembra muito a desguarnecida entrada da Justi\u00e7a Federal onde acontece a Lava Jato&#8230;<br \/>\nA maior semelhan\u00e7a entre a base de Guant\u00e1namo e a da Lava Jato \u00e9 o tom monocrom\u00e1tico de seus frequentadores. Em Cuba, \u00e9 o uniforme laranja berrante dos presos, em Curitiba, \u00e9 o padr\u00e3o preto-cinza dos ternos austeros do batalh\u00e3o de advogados dos presos. O resto \u00e9 muito diferente.<br \/>\nEm fotos oficiais da Marinha americana, os presos aparecem com filtros de ar sobre a boca e \u00f3culos pretos sobre os olhos, as m\u00e3os cobertas por luvas, amarradas na frente por algemas de pl\u00e1stico, com macac\u00e3o laranja e um gorro da mesma cor, sentados ou agachados no ch\u00e3o, sob controle estrito de militares, em um estreito corredor vigiado por c\u00e3es pastores. Um forte contraste com o batalh\u00e3o de senhores engravatados, carregando pastas executivas e mochilas com os documentos de seus clientes, os presos que eles visitam na Justi\u00e7a Federal de Curitiba.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Tortura e inquisi\u00e7\u00e3o<\/span><br \/>\nO festival de tolices continua quando se tenta vender a ideia de que S\u00e9rgio Moro \u00e9 uma reencarna\u00e7\u00e3o de figuras malditas como Fleury ou Torquemada. \u00c9 bom lembrar que o juiz da Lava Jato, com apenas 43 anos, nasceu na cidade paranaense de Maring\u00e1 em 1972 \u2014 tempos terr\u00edveis em que a guerrilheira Dilma Rousseff, presa e torturada, sangrava nos por\u00f5es do DOI-CODI. Quando nascia o juiz, o delegado S\u00e9rgio Fleury, na flor de seus 39 anos, j\u00e1 tinha a fama merecida de um dos s\u00edmbolos da repress\u00e3o do regime militar.<br \/>\nLevou para o DOPS paulista a sua expertise de delegado truculento de Furtos e Roubos e de l\u00edder do &#8216;Esquadr\u00e3o da Morte&#8217;, que executava marginais na periferia. Cooptou o cabo Anselmo para torna-lo agente duplo na guerrilha, armou a emboscada que matou o l\u00edder da ALN, Carlos Marighella, prendeu Jos\u00e9 Dirceu e outros l\u00edderes estudantis no congresso clandestino da UNE em Ibi\u00fana, atuou no &#8216;massacre da Lapa&#8217; que executou a lideran\u00e7a do PCdoB e virou pe\u00e7a essencial da repress\u00e3o militar.<br \/>\nEssa alian\u00e7a o livrou da pris\u00e3o, como l\u00edder do &#8216;esquadr\u00e3o da morte&#8217; denunciado pelo promotor H\u00e9lio Bicudo. A ditadura aprovou a Lei Fleury, truque que adiava qualquer pris\u00e3o de r\u00e9us prim\u00e1rios, como era o caso do delegado. Na madrugada de 1\u00ba de maio de 1979, morreu afogado no litoral paulista, uma morte suspeita, mas conveniente para a ditadura. Foi enterrado sem necropsia. A not\u00edcia de sua morte, anunciada pelo jornalista Juca Kfouri \u2014 pouco antes do discurso do l\u00edder metal\u00fargico Lula no est\u00e1dio de Vila Euclides, em S\u00e3o Bernardo \u2014, foi saudada com uma explos\u00e3o de aplausos do p\u00fablico de 100 mil pessoas.<br \/>\nO outro par\u00e2metro de Moro, conforme seus detratores, seria Tom\u00e1s de Torquemada (1420-1498), o inquisidor geral que espalhou o terror nos reinos de Castela e Arag\u00e3o. Definido como o &#8216;martelo dos hereges, a luz de Espanha, o salvador do pa\u00eds, a honra do seu fim&#8217;, Torquemada, um frade dominicano e confessor da rainha Isabel, passou a perseguir os judeus e mu\u00e7ulmanos convertidos, a quem condenava a torturas terr\u00edveis e \u00e0 morte na fogueira. Morreu de morte natural, no final do s\u00e9culo 15. Trezentos anos depois, seu t\u00famulo foi violado, os ossos roubados e incinerados.<br \/>\nPela insist\u00eancia da piada, parece que desejam a Moro algo parecido com o fim de Fleury e de Torquemada&#8230;<br \/>\nA gracinha mais irrespons\u00e1vel \u00e9 a que tenta estabelecer algum tipo de paralelo entre a 13\u00aa Vara Federal, na avenida Anita Garibaldi, no bairro curitibano do Ah\u00fa, com os dois endere\u00e7os mais afamados da ditadura: o DOI-CODI do II Ex\u00e9rcito, na paulistana rua Tut\u00f3ia, e o DOI-CODI do I Ex\u00e9rcito, na carioca rua Bar\u00e3o de Mesquita.<br \/>\nNas duas maiores cidades brasileiras, onde agiam as organiza\u00e7\u00f5es mais ativas da guerrilha urbana, concentrou-se a repress\u00e3o mais violenta e sanguin\u00e1ria. A Tutoia, comandada pelo ent\u00e3o major Carlos Alberto Brilhante Ustra, e a Bar\u00e3o de Mesquita, chefiada pelo major Adyr Fi\u00faza de Castro, re\u00fanem o maior n\u00famero de casos de tortura e morte do Ex\u00e9rcito brasileiro, conforme levantamento da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade.<br \/>\nForam 51 mortos em S\u00e3o Paulo, 30 no Rio de Janeiro. Um frio levantamento de 1978 do ent\u00e3o major de cavalaria Freddie Perdig\u00e3o Pereira, um dos nomes mais not\u00f3rios da repress\u00e3o no pa\u00eds, mostra n\u00fameros in\u00e9ditos de terror e sangue da Tutoia. Nos seus primeiros sete anos de vida, tortura e morte, ali foram presas 2.541 pessoas. Dessas, 1001 foram &#8216;encaminhadas ao DOPS para processo&#8217;, 201 foram destinadas a &#8216;outros \u00f3rg\u00e3os&#8217; e 1.289 acabaram liberadas. Morreram 51.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Vladimir Herzog vive<\/span><br \/>\nA tese insana de que a Justi\u00e7a Federal em Curitiba funciona e adota os mesmos m\u00e9todos bandoleiros dos DOI-CODI de S\u00e3o Paulo e Rio, os mais truculentos da ditadura, levanta uma instigante quest\u00e3o.<br \/>\nSe isso fosse verdade, Vladimir Herzog estaria entre n\u00f3s, vivo e s\u00e3o.<br \/>\n\u00c0s 8h da manh\u00e3 de 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura de SP, ingressou no pr\u00e9dio da Tutoia, convocado no dia anterior para prestar depoimento. Sete horas e muitas torturas depois apareceu morto na cela do DOI, enforcado com o cinto do macac\u00e3o que seus carcereiros esqueceram de retirar, para inflar a tese de \u2018suic\u00eddio\u2019.<br \/>\nEm mar\u00e7o de 2013, a mentira de 37 anos foi desfeita pela Justi\u00e7a que, a pedido da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, mandou refazer o atestado de \u00f3bito de Herzog, agora reconhecido como morto \u201cem decorr\u00eancia de les\u00f5es e maus tratos sofridos durante interrogat\u00f3rio em depend\u00eancias do II Ex\u00e9rcito (DOI-CODI)\u201d.<br \/>\nEm um primeiro momento, o general Ednardo D\u2019\u00c1vila Mello, comandante do II Ex\u00e9rcito, sobreviveu ao \u2018suic\u00eddio\u2019 de Herzog. Menos de tr\u00eas meses depois, outro \u2018suic\u00eddio\u2019 abreviou a carreira do general. Ao meio-dia de sexta-feira, 16 de janeiro de 1976, o metal\u00fargico Manoel Fiel Filho foi preso na f\u00e1brica e levado por dois agentes do DOI-CODI. L\u00e1 aguentou longas 25 horas. Uma nota oficial do II Ex\u00e9rcito anunciou que, \u00e0s 13h de s\u00e1bado, 17 de janeiro, o oper\u00e1rio era a mais nova v\u00edtima do surto de \u2018suic\u00eddio\u2019 da ditadura. Dessa vez, na falta de um cinto, tinha se enforcado com as meias, dizia a nota, embora cal\u00e7asse chinelos sem meias na hora da pris\u00e3o.<br \/>\nHerzog entrou vivo e saiu morto do DOI-CODI. Ficou apenas a imagem inacredit\u00e1vel do preso enforcado com o cinto que ningu\u00e9m usa na pris\u00e3o, os p\u00e9s dobrados sobre o ch\u00e3o da cela. Ningu\u00e9m viu seu interrogat\u00f3rio. Mas ouviram. Presos que aguardavam no corredor o momento de sua inquisi\u00e7\u00e3o ouviam os gritos de dor de Herzog sob tortura, at\u00e9 que se imp\u00f4s um sil\u00eancio definitivo, sinistro.<br \/>\nSe Herzog tivesse, hoje, a sorte de cair nas m\u00e3os do juiz Moro, em vez dos celerados do DOI-CODI, desfrutaria do mesmo tratamento dispensado aos delatores que Dilma Rousseff, que um dia passou pelo DOI-CODI, n\u00e3o respeita.<br \/>\nAs cenas p\u00fablicas do civilizado &#8216;DOI-CODI&#8217; do juiz Moro n\u00e3o deixam d\u00favidas. Os depoimentos n\u00e3o s\u00e3o clandestinos. Cada um com seu cinto, alguns com a gravata, dep\u00f5em ao juiz diante de um microfone, numa grande sala com v\u00e1rias cadeiras ocupadas por advogados e seus assistentes. O v\u00eddeo dos depoimentos \u00e9 distribu\u00eddo \u00e0 imprensa, exibido em todos os telejornais.<br \/>\nOs delatores falam de forma serena, convincente, espont\u00e2nea. E, mais importante: saem de l\u00e1 vivos. Voltam para suas celas, mas vivos, benef\u00edcio que n\u00e3o foi dado a Vladimir Herzog. Assim, a for\u00e7ada compara\u00e7\u00e3o que se faz entre o DOI-CODI e a Justi\u00e7a Federal de Curitiba, \u00e9 mais do que uma piada infeliz. \u00c9 um insulto doloroso, uma afronta \u00e0 mem\u00f3ria e \u00e0 Hist\u00f3ria.<br \/>\nO respeito, ou sua falta, est\u00e1 na base da crise de valores que transtorna a pol\u00edtica e o jornalismo. Come\u00e7a com a presidente da Rep\u00fablica, que n\u00e3o respeita delatores que s\u00e3o estimulados e amparados pela lei, e se estende \u00e0 parte da imprensa que tenta desqualificar, pelo deboche e pelo escracho, a mais ampla, a mais consistente e a maior investiga\u00e7\u00e3o de corrup\u00e7\u00e3o e lavagem de dinheiro da hist\u00f3ria do Brasil.<br \/>\nUm evento de grandeza suficiente para ser respeitado por todos \u2014 da presidente da Rep\u00fablica aos jornalistas que acompanham um processo hist\u00f3rico e pioneiro que quebra a impunidade de alguns dos agentes mais poderosos, intoc\u00e1veis e influentes do pa\u00eds, que se atreveram a golpear os cofres e a imagem de nossa mais emblem\u00e1tica empresa p\u00fablica.<br \/>\nTudo isso merece respeito. E uma imprensa que se respeita deve encarar, com a devida seriedade, uma apura\u00e7\u00e3o penosa \u2013 mas necess\u00e1ria \u2013 para redimir um pa\u00eds t\u00e3o machucado pela corrup\u00e7\u00e3o. Os jornalistas precisam entender, com precis\u00e3o, seu papel, preservando sempre sua independ\u00eancia diante dos governos e dos poderosos.<br \/>\nUm respeit\u00e1vel jornalista alem\u00e3o ensinou: &#8220;A fun\u00e7\u00e3o da imprensa \u00e9 ser o c\u00e3o de guarda p\u00fablico, o denunciador incans\u00e1vel dos dirigentes, o olho onipresente, a boca onipresente do esp\u00edrito do povo que guarda com ci\u00fame sua liberdade&#8221;.<br \/>\nEle tinha 31 anos quando disse isso num tribunal, em 1849, defendendo-se de uma a\u00e7\u00e3o do governo local contra o jornal que ele editava, a Neue Rheinische Zeitung (Nova Gazeta Renana&#8217;).<br \/>\nO nome do jornalista era Karl Marx.<br \/>\n<em>*Jornalista, \u00e9 autor de Opera\u00e7\u00e3o Condor: o Sequestro dos Uruguaios (L&amp;PM, 2008) cunha.luizclaudio@gmail.com<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Cl\u00e1udio Cunha * No final de junho, no curto espa\u00e7o de 60 horas, a presidente Dilma Rousseff trocou Bras\u00edlia por Nova York e se manteve, imp\u00e1vida, nas largas fronteiras da escatologia. 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