{"id":23422,"date":"2015-08-12T00:01:36","date_gmt":"2015-08-12T03:01:36","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=23422"},"modified":"2015-08-12T00:01:36","modified_gmt":"2015-08-12T03:01:36","slug":"a-republica-de-santa-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-republica-de-santa-cruz\/","title":{"rendered":"A Rep\u00fablica de Santa Cruz"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Matheus Chaparini<\/span><br \/>\nA Casa do Estudante Santacruzense foi fundada em 29 de mar\u00e7o de 1953, no n\u00famero 278 da Tomaz Flores. Desde ent\u00e3o, tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de jovens de Santa Cruz que iveram estudar em Porto Alegre j\u00e1 passaram por ali.<br \/>\nAntes disso, a casa funcionava como pensionato, e j\u00e1 abrigava jovens que vinham do interior em busca de uma forma\u00e7\u00e3o na capital. Um grupo de estudantes decidiu se unir e compra-la, atrav\u00e9s de um financiamento de 300 mil cruzeiros na Caixa Econ\u00f4mica Federal. A casa foi quitada atrav\u00e9s de diversas doa\u00e7\u00f5es de pol\u00edticos locais e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e para administr\u00e1-la foi fundada a Uni\u00e3o dos Estudantes Santacruzenses.<br \/>\nAtualmente a casa pertence \u00e0 Uesc, mas funciona de forma aut\u00f4noma, apenas com recursos pr\u00f3prios. As tarefas s\u00e3o divididas e todo morador tem de assumir algum cargo administrativo, como presid\u00eancia, tesouraria ou secretarias: de manuten\u00e7\u00e3o, comunica\u00e7\u00e3o, compras, limpeza. A capacidade total \u00e9 para 21 pessoas, divididas em 10 quartos. Hoje s\u00e3o dez moradores fixos, mais tr\u00eas visitantes e tr\u00eas intercambistas &#8211; duas argentinas e uma venezuelana.<br \/>\nTodo come\u00e7o de semestre \u00e9 aberto o processo seletivo para novos moradores, neste m\u00eas ser\u00e3o 10 vagas. O crit\u00e9rio \u00e9 ser estudante universit\u00e1rio e ser de Santa Cruz. N\u00e3o precisa necessariamente ter nascido na cidade, basta comprovar que morou e estudou l\u00e1 por pelo menos um ano.<br \/>\nNos \u00faltimos anos, tem sido dif\u00edcil completar todas vagas com santacruzenses, ent\u00e3o abre-se exce\u00e7\u00f5es para moradores de outras cidades do interior e intercambistas. \u201cEu acho que muita gente est\u00e1 ficando l\u00e1. Pelo Prouni, pelas bolsas que est\u00e3o saindo na Unisc, j\u00e1 tem mais gente conseguindo ficar e estudar sem ter que vir pra capital\u201d, explica Bruno F\u00e9lix Segatto.<br \/>\nBruno \u00e9 mestrando em Hist\u00f3ria na UFRGS, vive na Cesc desde 2009 e n\u00e3o \u00e9 natural de Santa Cruz. Nascido em Ven\u00e2ncio Aires, morou na cidade de 97 a 99 e de 2006 a 2009. Mais antiga na casa que ele, somente a gata Tchanga. \u201cQuando eu me mudei pra c\u00e1 ela estava morando aqui h\u00e1 duas semanas\u201d, conta Bruno.<br \/>\nPara ele o principal motivo pelo qual os jovens escolhem a Cesc \u00e9 o contato com gente da cidade. \u201cComo todo mundo \u00e9 de Santa Cruz, muita gente j\u00e1 se conhece. Alguns j\u00e1 frequentavam a casa, outros tinham familiares que moraram aqui. Porque a casa \u00e9 bem conhecida em Santa Cruz. Ent\u00e3o ela j\u00e1 \u00e9 uma refer\u00eancia pra quem vem pra c\u00e1 e n\u00e3o sabe onde vai morar.\u201d<br \/>\nOutro fator \u00e9 a boa localiza\u00e7\u00e3o, pr\u00f3ximo aos campi Centro e Sa\u00fade da UFRGS e acess\u00edvel de \u00f4nibus para o Vale e a PUC. A quest\u00e3o financeira tamb\u00e9m pesa na escolha. Como a casa \u00e9 propriedade da Uni\u00e3o dos Estudantes de Santa Cruz, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio pagar aluguel. A mensalidade de R$130 cobre as contas da casa e eventuais custos de manuten\u00e7\u00e3o. Fica bem mais barato que dividir o aluguel de um apartamento. Inclusive um dos crit\u00e9rios utilizados na sele\u00e7\u00e3o \u00e9 a baixa renda.<br \/>\n<figure id=\"attachment_23423\" aria-describedby=\"caption-attachment-23423\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Bruno-e-a-gata-Tchanga-2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-23423 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Bruno-e-a-gata-Tchanga-2.jpg\" alt=\"Bruno e a gata Tchanga, os moradores mais antigos da Cesc\" width=\"700\" height=\"525\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-23423\" class=\"wp-caption-text\">Bruno e a gata Tchanga, os moradores mais antigos da Cesc<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<figure id=\"attachment_23424\" aria-describedby=\"caption-attachment-23424\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/DSCN0864.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-23424 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/DSCN0864.jpg\" alt=\"As camas penduradas no teto para aproveitar espa\u00e7o\" width=\"600\" height=\"800\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-23424\" class=\"wp-caption-text\">As camas penduradas no teto para aproveitar espa\u00e7o<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<span class=\"intertit\">Fichas conservam mem\u00f3ria<\/span><br \/>\nOs arquivos ainda bem conservados guardam boa parte da hist\u00f3ria da casa. No quarto que funciona como sala de estudos h\u00e1 um gaveteiro de metal que guarda fichas de papel amareladas, com fotos 3&#215;4 bem produzidas, telefones de 4 d\u00edgitos, assinaturas caligrafadas e dezenas de sobrenomes alem\u00e3es. Ali encontramos diversos ex-moradores da Cesc, como um dos fundadores, o radialista e pol\u00edtico Lauro Haggeman, falecido em maio deste ano e o ex-prefeito de Santa Cruz e secret\u00e1rio da casa civil do governo Yeda, Jos\u00e9 Alberto Wenzel.<br \/>\nPesquisando nos arquivos, encontramos a ficha de uma mo\u00e7a, raridade nos tempos antigos. \u201cEra pouco comum gurias sa\u00edrem do interior e virem estudar na capital. N\u00e3o sei se chegava a ser proibido ter guria aqui na casa, a quest\u00e3o \u00e9 que nenhuma guria ia vir morar aqui. Imagina como a fam\u00edlia ficaria mal afamada naquela \u00e9poca em Santa Cruz: uma menina, morando numa casa de estudante, com um monte guri em Porto Alegre.\u201d explica Bruno. Gisela Thecla Becker se mudou para a casa em 1955 quando veio prestar vestibular.<br \/>\n<figure id=\"attachment_23426\" aria-describedby=\"caption-attachment-23426\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/fichas-de-antigos-moradores-2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-23426 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/fichas-de-antigos-moradores-2.jpg\" alt=\"Ficha de Gisela, primeira mulher na casa \" width=\"700\" height=\"525\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-23426\" class=\"wp-caption-text\">Ficha de Gisela Becker, primeira mulher na casa<\/figcaption><\/figure><br \/>\nNo come\u00e7o de cada semestre, acontece uma festa de integra\u00e7\u00e3o, para dar as boas vindas aos novos moradores. Johannes Kolberg, que vive na casa desde 2012, comenta que as festas j\u00e1 foram mais frequentes na Cesc. \u201cDeu uma acalmada, porque teve uma vizinha que reclamou e foi estabelecido um hor\u00e1rio de sil\u00eancio.<br \/>\nA gente procura manter essa boa rela\u00e7\u00e3o. Mas a casa j\u00e1 foi mais ativa em rela\u00e7\u00e3o a festas, afinal \u00e9 uma casa de estudantes, n\u00e9? Hoje em dia t\u00e1 todo mundo respons\u00e1vel, mudou o perfil do estudante.\u201d A maioria dos moradores da casa estuda e trabalha, ent\u00e3o acaba sobrando pouco tempo para as confraterniza\u00e7\u00f5es. Inclusive o dono do mercadinho tem observado que o pessoal de Santa Cruz j\u00e1 consumiu mais cerveja em outros tempos.<br \/>\nO registro mais antigo encontrado nos arquivos da Cesc \u00e9 um documento de compra e venda, datado em 1919. Ao longo do tempo a casa passou por algumas mudan\u00e7as, mas a estrutura \u00e9 basicamente a mesma. No ano passado, um ex-morador apareceu para visitar e, percebendo a necessidade da uma reforma na rede el\u00e9trica &#8211; que era da d\u00e9cada de 80 e j\u00e1 n\u00e3o dava conta das tr\u00eas geladeiras e diversos notebooks &#8211; fez uma doa\u00e7\u00e3o. \u201cEle veio aqui, participou de algumas jantas conosco e doou uma quantia para ajudar na reforma\u201d, conta Johannes.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Causos de amor e repress\u00e3o<\/span><br \/>\nA Cesc tamb\u00e9m proporciona belos causos de amor, como a Shakespeariana hist\u00f3ria de Jonas Monteiro. O antigo colega de quarto de Johannes conheceu sua namorada na casa, ou melhor, em cima da casa. Na parede dos fundos tem uma escada de ferro que leva at\u00e9 o telhado. Jonas costumava subir e l\u00e1 em cima conheceu uma mo\u00e7a, moradora de um dos pr\u00e9dios vizinhos que tem as janelas viradas para a casa. Ali em cima conheceram, apaixonaram-se e o relacionamento come\u00e7ou com visitas pela janela, \u00e0 la Romeu e Julieta. Hoje Jonas est\u00e1 formado em Engenharia Mec\u00e2nica e n\u00e3o mora mais na casa &#8211; quem se forma tem direito a morar apenas mais um semestre na Cesc. O relacionamento continua.<br \/>\nMas as paredes verdes do casar\u00e3o da Tomas Flores n\u00e3o guardam apenas hist\u00f3rias de amor. Sendo uma casa de estudantes e tendo atravessado o per\u00edodo da ditadura militar, a Cesc j\u00e1 teve alguns problemas com a repress\u00e3o. Um senhor que diz ter morado na casa na d\u00e9cada de 70 reapareceu h\u00e1 alguns meses e compartilhou com os atuais moradores um destes epis\u00f3dios. Johannes conta que chegava em casa e o homem estava parado na cal\u00e7ada, olhando admirado.<br \/>\nAo colocar a chave no port\u00e3o, foi abordado pelo saudoso visitante \u201cTu sabe que aqui j\u00e1 foi uma casa de estudante? Sabia que eu j\u00e1 morei nessa casa?\u201d Convidado a entrar, o visitante proporcionou uma tarde de mem\u00f3rias. Conta ele que um dia voltava da aula \u00e0 tarde e ao entrar pela porta notou que n\u00e3o havia ningu\u00e9m em casa, algo incomum em um lar com tantos viventes. Foi um vizinho que deu a not\u00edcia: os milicos estiveram a\u00ed e levaram todo mundo. Tivesse chego um pouco mais cedo, quem sabe tivesse a mesma falta de sorte dos outros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Matheus Chaparini A Casa do Estudante Santacruzense foi fundada em 29 de mar\u00e7o de 1953, no n\u00famero 278 da Tomaz Flores. Desde ent\u00e3o, tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de jovens de Santa Cruz que iveram estudar em Porto Alegre j\u00e1 passaram por ali. 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