{"id":24183,"date":"2015-09-06T11:16:54","date_gmt":"2015-09-06T14:16:54","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=24183"},"modified":"2015-09-06T11:16:54","modified_gmt":"2015-09-06T14:16:54","slug":"o-jornalismo-que-nao-ve-e-se-omite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-jornalismo-que-nao-ve-e-se-omite\/","title":{"rendered":"O jornalismo que n\u00e3o v\u00ea e se omite"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Luiz Cl\u00e1udio Cunha<\/span><br \/>\nO Brasil ficou chocado com os 84 segundos de imagens em preto e branco que assistiu nos principais telejornais do pa\u00eds na sexta-feira, 28 de agosto. Mostravam as cenas violentas de um assalto \u00e0 luz do dia numa avenida movimentada de S\u00e3o Bernardo do Campo, SP, quando o ladr\u00e3o esmurra o vidro de um carro, arranca a motorista que o dirigia, joga a mulher no ch\u00e3o e arranca com o ve\u00edculo.<br \/>\n(Reprodu\u00e7\u00e3o de fotos ABCD Maior)<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/roubo01.png\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-24184\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/roubo01-300x98.png\" alt=\"roubo01\" width=\"374\" height=\"132\" \/><\/a><br \/>\nO ataque: aos 15 seg, o homem come\u00e7a a esmurrar a porta da motorista.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/roubo02.png\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-24185\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/roubo02-300x92.png\" alt=\"roubo02\" width=\"375\" height=\"125\" \/><\/a><br \/>\nO recuo: aos 21 seg, o carro branco atr\u00e1s d\u00e1 marcha a r\u00e9 para se afastar do ataque.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/roubo03.png\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-24186\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/roubo03-300x99.png\" alt=\"roubo03\" width=\"371\" height=\"132\" \/><\/a><br \/>\nA fuga: aos 25 seg, o carro de tr\u00e1s manobra pela direita e foge dali.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/roubo04.png\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-24187\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/roubo04-300x104.png\" alt=\"roubo04\" width=\"368\" height=\"137\" \/><\/a><br \/>\nA omiss\u00e3o: aos 59 seg surge algu\u00e9m para ajudar, enquanto os carros passam sem parar.<br \/>\nForam cenas captadas \u00e0s 8h da manh\u00e3 do s\u00e1bado anterior, 22, pelo sistema de seguran\u00e7a da prefeitura, num trecho da avenida Jos\u00e9 Fornari, no bairro Ferraz\u00f3polis, e divulgadas pelo jornalABCD Maior.\u00a0Repetida exaustivamente, a sequ\u00eancia impressiona pela brutalidade, que todo mundo v\u00ea. Os telejornais viram e reprisaram. Mas, o jornalismo fracassou em sua miss\u00e3o b\u00e1sica ao n\u00e3o ver, ali, o que devia ter visto, registrado e denunciado.<br \/>\nVamos rever a cena captada com neutralidade pela c\u00e2mera da avenida e ecoada com insensibilidade pela imprensa brasileira \u2013 acess\u00edvel o <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/ watch?v=sQLZ6xyykNw\">YouTube<\/a>.<br \/>\nUm homem de menos de 30 anos aproveita o tr\u00e2nsito parado, circunda por tr\u00e1s de um Honda Fit, como se fosse cruzar a avenida, e aos 10 segundos da grava\u00e7\u00e3o se volta de repente em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta da motorista. Com inesperada viol\u00eancia, come\u00e7a a esmurrar o vidro. O carro tenta arrancar. O primeiro murro acontece aos 15 seg. Aos 16 seg, um segundo murro. Aos 17, o terceiro. Ele for\u00e7a a abertura da porta aos 18, que se abre no segundo seguinte.<br \/>\nCom viol\u00eancia, puxa para fora a motorista, uma senhora de 64 anos, e a joga sobre o canteiro central da avenida, aos 25 segundos. Ele toma o lugar da motorista e arranca com o carro. Outra mulher, que estava no banco de passageiro, consegue sair pela porta direita, pega uma bolsa ca\u00edda na avenida e vai ao encontro da amiga, ca\u00edda sobre o canteiro central. Aos 59 seg, enfim, um homem cruza a avenida ao encontro das duas mulheres, para prestar algum socorro.<br \/>\n<span class=\"intermenos\">Na c\u00e2mera e na consci\u00eancia<\/span><br \/>\nA motorista de 64 anos, a psicopedagoga Rosa Maria Costa, deslocou o tornozelo e sofreu quatro fraturas na perna direita. O ladr\u00e3o acabou capotando o carro na Via Anchieta e, no acidente, ainda atropelou um homem de 65 anos. Um carro parou para socorrer, o motorista desceu e o ladr\u00e3o roubou o outro carro, desaparecendo. Um fato nada estranho na Grande S\u00e3o Paulo, onde acontece um roubo ou furto de carro a cada quatro minutos. Entre janeiro e julho, na maior regi\u00e3o metropolitana do pa\u00eds, 74.129 ve\u00edculos foram surrupiados por bandidos.<br \/>\nO que mais espantou na cena de viol\u00eancia em S\u00e3o Bernardo, que todo mundo viu, foi a cena que a imprensa n\u00e3o viu, n\u00e3o comentou ou desprezou. Ningu\u00e9m da TV, r\u00e1dio ou jornal, nenhum colunista, nenhum blogueiro, nenhum militante das ub\u00edquas redes sociais destacou o vergonhoso espet\u00e1culo coletivo de acovardamento, omiss\u00e3o, neglig\u00eancia e falta de solidariedade que marcou o entorno da agress\u00e3o na avenida.<br \/>\nEst\u00e1 tudo l\u00e1, gravado para sempre na c\u00e2mera da TV e na consci\u00eancia envergonhada de quem tudo viu e nada fez. Ou fez errado. Como o motorista do carro branco, provavelmente um Corolla, parado imediatamente atr\u00e1s do carro atacado pelo assaltante.<br \/>\nQuando o agressor desferiu seu terceiro murro na porta, aos 17 seg, o motorista do Corolla come\u00e7a a dar r\u00e9 no carro. Se tivesse feito o contr\u00e1rio, acelerando em dire\u00e7\u00e3o ao atacante, que n\u00e3o estava armada, ele teria frustrado a agress\u00e3o e afugentado o agressor. Em vez disso, o carro branco recua uns dois ou tr\u00eas metros, lentamente. No momento em que Rosa Maria \u00e9 jogada na avenida, o Corolla vira \u00e0 sua direita e desaparece de cena atr\u00e1s de uma van parada ao lado, com um motorista, tamb\u00e9m inerte, \u00e0 dire\u00e7\u00e3o. O carro roubado, o Corolla e a van arrancam quase ao mesmo tempo, enquanto a v\u00edtima rolava na avenida.<br \/>\nNo canto inferior direito da tela, tr\u00eas homens passam pela cal\u00e7ada, indiferentes ao drama das duas mulheres no canteiro central. S\u00f3 aos 59 seg aparece um homem de jaqueta preta, que atravessa a avenida para socorrer as duas mulheres. Durante os 84 segundos que dura a cena gravada, o que se v\u00ea e ningu\u00e9m comenta \u00e9 um desfile pusil\u00e2nime de indiferen\u00e7a, de gente que n\u00e3o se importa, que n\u00e3o v\u00ea, n\u00e3o olha, n\u00e3o para e n\u00e3o comete nenhum gesto de solidariedade. Al\u00e9m da van e do Corolla que fugiram da cena do crime, outros quatro carros, dois \u00f4nibus e um caminh\u00e3o passaram pelo local, no sentido do carro assaltado. Do outro lado da avenida, no sentido inverso, passaram 21 carros neste curto espa\u00e7o de tempo \u2014 e ningu\u00e9m parou, nem por curiosidade.<br \/>\nNesta sociedade cada vez mais integrada por redes sociais, cada mais conectada por ferramentas como Facebook, Twitter e WhatsApp, cada vez mais interligada por geringon\u00e7as eletr\u00f4nicas que deixam todo mundo plugado em todos a todo momento, a cena brutal de S\u00e3o Bernardo escancara o chocante est\u00e1gio de uma civiliza\u00e7\u00e3o cada vez mais desintegrada, mais desconectada, mais desintegrada. \u00c9 uma humanidade apenas virtual, falsa, narcisista, cibern\u00e9tica, ego\u00edsta, que se decomp\u00f5e em pixels e se desfaz na tela fria da vida cada vez mais distante e desimportante.<br \/>\n<span class=\"intermenos\">Ninho da omiss\u00e3o<\/span><br \/>\nA pol\u00edcia, sempre fria e t\u00e9cnica, recomenda n\u00e3o reagir em casos de assalto, para evitar danos maiores. No epis\u00f3dio deprimente de Rosa Maria, tratava-se n\u00e3o de reagir, mas de defender uma vida, de proteger um ser humano, de cessar uma agress\u00e3o, de impedir um abuso, obriga\u00e7\u00e3o que cabe a todos e a cada um de n\u00f3s. A rea\u00e7\u00e3o de um, um apenas, motivaria o aux\u00edlio de outro, e mais outro, numa sucess\u00e3o de atos reflexivos de autodefesa em grupo que explicam a evolu\u00e7\u00e3o do homem da caverna para o abrigo solid\u00e1rio da civiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNingu\u00e9m fez isso \u2014 na hora certa, com a firmeza necess\u00e1ria, com a generosidade devida, com a presteza impreter\u00edvel. Esse espet\u00e1culo coletivo de insensibilidade e de crua indiferen\u00e7a atropelou toda a imprensa, em suas v\u00e1rias plataformas. Naufragaram at\u00e9 mesmo os programas e apresentadores que vivem da viol\u00eancia expl\u00edcita e cotidiana de nossas cidades, grandes ou pequenas, com seu festival intermin\u00e1vel de \u2018mundo c\u00e3o\u2019.<br \/>\nOs programas das grandes redes de TV, que cruzam as manh\u00e3s e tardes do Pa\u00eds com a tediosa banalidade de sangue, morte e viol\u00eancia do cotidiano, se refestelaram com a caso de S\u00e3o Bernardo, reprisando v\u00e1rias vezes a cena da avenida. Como sempre, no estilo furioso e mesmerizado de todos, despontou a tropa de elite da trucul\u00eancia na TV, sob o comando de Jos\u00e9 Luiz Datena (Band), Marcelo Rezende (Record) e Ratinho (SBT). Aos gritos, aos berros, no jeito gritado de um e de todos, ecoaram como de h\u00e1bito a vis\u00e3o policial e teratol\u00f3gica da realidade, deixando de lado a preocupa\u00e7\u00e3o social de uma seguran\u00e7a p\u00fablica falida e desarvorada pelas balas perdidas da incompet\u00eancia dos governantes.<br \/>\nS\u00f3 esqueceram do entorno, da cena expl\u00edcita de covardia e indiferen\u00e7a das pessoas que testemunham, assistem, presenciam, mas n\u00e3o interferem, n\u00e3o interv\u00eam, n\u00e3o reagem. Ningu\u00e9m lembrou do exemplo de S\u00e3o Bernardo para denunciar esta falsa sociedade compartilhada, mais preocupada em seus interesses compartimentados, que nenhuma rede social humaniza ou aproxima, a n\u00e3o ser virtualmente.<br \/>\nUm jornalismo que n\u00e3o v\u00ea o que \u00e9 necess\u00e1rio, que n\u00e3o percebe o contexto al\u00e9m do texto, descumpre a sua miss\u00e3o. Esconde a realidade, ao inv\u00e9s de revel\u00e1-la. O rep\u00f3rter fiel ao seu of\u00edcio deve estar atento ao murro do assaltante no vidro do carro. Mas deve prestar aten\u00e7\u00e3o maior ao Corolla branco e aos carros que passam por ali, indiferentes ao que se v\u00ea e ao que acontece.<br \/>\nO bom jornalismo sabe que \u00e9 nesse ninho da omiss\u00e3o que cresce a viol\u00eancia e prospera o fascismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Cl\u00e1udio Cunha O Brasil ficou chocado com os 84 segundos de imagens em preto e branco que assistiu nos principais telejornais do pa\u00eds na sexta-feira, 28 de agosto. 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