{"id":24192,"date":"2015-09-06T11:18:04","date_gmt":"2015-09-06T14:18:04","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=24192"},"modified":"2015-09-06T11:18:04","modified_gmt":"2015-09-06T14:18:04","slug":"berlin-bom-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/berlin-bom-fim\/","title":{"rendered":"Tsunami de refugiados p\u00f5e em cheque projeto europeu de civiliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Mariano Senna<\/span><br \/>\n<em>De Berlim<\/em><br \/>\nO dilema dos refugiados na Europa \u00e9 manchete em todos os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o do continente h\u00e1 mais de um ano. <a href=\"http:\/\/www.independent.co.uk\/news\/world\/europe\/if-these-extraordinarily-powerful-images-of-a-dead-syrian-child-washed-up-on-a-beach-dont-change-europes-attitude-to-refugees-what-will-10482757.html\">As fotos de crian\u00e7as refugiadas mortas<\/a> em praias do litoral da Turquia se apresentam agora como \u00faltimo e desesperado apelo para sensibilizar a opini\u00e3o p\u00fablica sobre o assunto. Ou ser\u00e1 uma cartada final para desumanizar a crise e abrir o caminho de uma solu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica?<br \/>\nA d\u00favida vem da forma seletiva e descontextualizada como alguns ve\u00edculos apresentam o problema. A revista Der Spiegel, por exemplo, foca a quest\u00e3o dos<a href=\"http:\/\/spon.de\/vgTyG\"> refugiados barrados na esta\u00e7\u00e3o de Budapeste em sua viagem rumo a Munique na Alemanha<\/a>. Estima-se que sejam 3.000 pessoas esperando pelo trem na capital da Hungria. At\u00e9 a \u00faltima semana de Agosto, autoridades alem\u00e3s contavam mais de duas mil pessoas chegando ao pa\u00eds por essa via diariamente.<br \/>\nBlindada contra crises econ\u00f4micas e incensadas por uma imagem humanista p\u00f3s-segunda guerra, a Alemanha \u00e9 hoje o destino preferido daqueles fugindo dos horrores da guerra, ou da falta de perspectiva econ\u00f4mica. O governo federal de Berlin j\u00e1 deixou claro que s\u00f3 receber\u00e1 quem de fato for refugiado de guerra. Mas se j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil diferenciar quem \u00e9 quem num mar de gente, que dir\u00e1 encontrar recursos para dar abrigo para todo esse povo.<br \/>\nE eles veem de todos os lados e por todas as vias. Dados oficiais indicam a entrada de mais de 100 mil pessoas nessa condi\u00e7\u00e3o no pa\u00eds no \u00faltimo m\u00eas. Segundo estimativas, s\u00f3 na capital alem\u00e3 chegar\u00e3o 70 mil novos refugiados este ano em busca de abrigo. Os programas de r\u00e1dio citam c\u00e1lculos de ONGs prevendo 800 mil pessoas chegando de fato \u00e0 Alemanha at\u00e9 o in\u00edcio de Setembro. Um &#8220;tsunami&#8221; de gente segundo os principais ve\u00edculos de informa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<br \/>\nSurpreendida pela onda de pessoas buscando ref\u00fagio ou simplesmente uma vida melhor, a Europa se defronta com<a href=\"http:\/\/elpais.com\/elpais\/2015\/09\/02\/opinion\/1441213709_408502.html\"> sua verdadeira face<\/a>. Editoriais j\u00e1 falam no \u201cnaufr\u00e1gio\u201d europeu. Com grandes dificuldades para manterem coeso seu projeto pol\u00edtico de uni\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica, os pa\u00edses do bloco fazem um jogo de empurra-empurra com o problema humanit\u00e1rio. Todos se dizem sobrecarregados com desabrigados, para muito al\u00e9m das suas \u201ccotas\u201d. Bruxelas prop\u00f5e emergencialmente aumentar tal <a href=\"http:\/\/internacional.elpais.com\/internacional\/2015\/09\/03\/actualidad\/1441270073_291236.html\">\u201ccontingente\u201d em 120 mil pessoas<\/a>. Um paliativo, que nem de longe enfrenta toda complexidade da quest\u00e3o.<br \/>\nBem longe da pol\u00edtica, a situa\u00e7\u00e3o dos refugiados em capitais como Berlin toma contornos Kafkianos. Pelo processo convencional, qualquer pedido de asilo deve ser encaminhado no pa\u00eds de origem. Algo imposs\u00edvel nas regioes assoladas pela guerra. Os que chegam \u00e0 Europa em sua grande maioria nem passaporte t\u00eam. Outros nem mesmo documentos de identifica\u00e7\u00e3o carregam. Soma-se a isso a barreira da l\u00edngua. A comunica\u00e7\u00e3o, como tantas outras coisas, depende de int\u00e9rpretes volunt\u00e1rios.<br \/>\nExemplos abundam. \u201cK.D.\u201d \u00e9 um refugiado do Mali. Trabalhava desde os 14 anos com o pai no transporte de carga para pa\u00edses vizinhos, especialmente a L\u00edbia. Com a queda de Muammar Kaddafi, perdeu n\u00e3o s\u00f3 o trabalho, mas a perspectiva de vida, pois radicais isl\u00e2micos que assumiram o v\u00e1cuo do poder passaram a amea\u00e7ar todos que n\u00e3o se convertessem ou aceitassem os mandamentos da religi\u00e3o.\u00a0 O jovem chegou \u00e0 Espanha h\u00e1 dois anos depois de atravessar o mar Mediterr\u00e2neo em um barco de pesca junto com outras centenas de pessoas.<br \/>\nHostilizado pelos espanh\u00f3is, decidiu migrar para o Norte. Foi levado de carro para a Alemanha, sob a promessa de um tratamento mais amig\u00e1vel. Ficou um ano e meio concentrado em um abrigo improvisado no interior do Estado da Sax\u00f4nia, no centro-sul do pa\u00eds. Como n\u00e3o tinha seguido os tr\u00e2mites da burocracia oficial, caiu num limbo, como a maioria dos refugiados. Nao possui passaporte, autoriza\u00e7\u00e3o de trabalho, seguro sa\u00fade, e nenhum outro direito, s\u00f3 o de continuar vivo.<br \/>\nIncitado por amigos refugiados, resolveu tentar ajuda na capital Berlin. Conhecida por sua multiculturalidade, a cidade \u00e9 o destino predileto dos que buscam alguma sa\u00edda para o problema da burocracia. Acabou abrigado ilegalmente em uma rep\u00fablica estudantes. Ali, al\u00e9m de abrigo, recebe comida, roupas, aulas de alem\u00e3o, esporte, lazer e at\u00e9 assessoria jur\u00eddica. Hoje aos 20 anos, anda mais confiante de que vai encontrar uma sa\u00edda. \u201cAs pessoas me dizem que eu terei que casar para ficar aqui, mas n\u00e3o foi para isso que vim para c\u00e1\u201d, conta ele.<br \/>\nPor conta da paralisia das autoridades, as solu\u00e7\u00f5es para dramas como esse t\u00eam aparecido de iniciativas individuais. Em sua maioria oferecida por estudantes e suas agremia\u00e7\u00f5es. Boris Jacob \u00e9 um desses exemplos. Estudante de PhD na Universidade Humboldt de Berlim, ele tem dedicado suas manhas para voluntariamente ajudar centenas de refugiados abrigados em alojamentos espalhados pela periferia da cidade. Entre as atividades, uma das mais importantes \u00e9 o recolhimento de alimentos doados por supermercados e restaurantes. \u201c\u00c9 o m\u00ednimo que posso fazer, apesar de toda a dificuldade, uma forma de manter a esperan\u00e7a\u201d, explica ele, dizendo que n\u00e3o l\u00ea mais nenhum jornal, nem acompanha nenhum notici\u00e1rio para evitar ser contaminado pela propaganda \u201cdesumanizante\u201d que circula pelos ve\u00edculos de informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOutro exemplo \u00e9 o <a href=\"http:\/\/festivalgegenrassismus.wordpress.com\/\">Festival Contra Racismo<\/a> que acontece pelo quarto ano em Kreuzberg, bairro bo\u00eamio da capital alem\u00e3. Patrocinado e organizado basicamente pelos gr\u00eamios estudantis das tr\u00eas maiores universidades da cidade, o festival oferece atra\u00e7\u00f5es culturais e art\u00edsticas de cunho conscientizador. O p\u00fablico apesar de pequeno se mostra bastante engajado. \u201cDiscrimina\u00e7\u00e3o racial est\u00e1 na base das nossas pol\u00edticas de migra\u00e7\u00e3o. \u00c9 fundamental promover a consci\u00eancia sobre isso se quisermos enfrentar o problema dos refugiados adequadamente\u201d, ensina Thomas Eckermann, que foi ao evento este fim de semana junto com seu filho de 8 anos.<br \/>\n*Foto: a imagem colhida pelo fot\u00f3grafo italiano Massimo Sestini enquanto acompanhava o trabalho da Guarda Costeira Italiana est\u00e1 entre as exibidas na Exposi\u00e7\u00e3o World Press Photo que acontece at\u00e9 11 de Setembro na Esta\u00e7\u00e3o Central de Berlin (Hauptbahnhof).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mariano Senna De Berlim O dilema dos refugiados na Europa \u00e9 manchete em todos os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o do continente h\u00e1 mais de um ano. 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