{"id":244,"date":"2006-07-27T13:37:57","date_gmt":"2006-07-27T16:37:57","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=244"},"modified":"2006-07-27T13:37:57","modified_gmt":"2006-07-27T16:37:57","slug":"luciano-alabarse-em-cena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/luciano-alabarse-em-cena\/","title":{"rendered":"Luciano Alabarse em cena"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/capas_novas\/othelo.jpg?0.963853387070474\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"350\" height=\"233\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\"><strong>Alabarse, sobre os destaques desta edi\u00e7\u00e3o: \u201cNekrosius \u00e9 o nome do Em Cena\u201d (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Naira Hofmeister<\/strong><br \/>\nO diretor de teatro Luciano Alabarse \u00e9 um dos respons\u00e1veis pela cria\u00e7\u00e3o do Porto Alegre em Cena e pela sua eleva\u00e7\u00e3o ao posto de \u201cmaior festival de teatro do Brasil\u201d. Considerado arrogante por alguns, reverenciado por outros, Alabarse exp\u00f5e alguns pontos de vista que alimentam essa pol\u00eamica nessa entrevista, concedida na segunda-feira, 24 de julho, no Solar Para\u00edso.<br \/>\nDepois de tr\u00eas anos afastado da coordena\u00e7\u00e3o do festival, ele enfrentou cr\u00edticas na edi\u00e7\u00e3o de 2005, por exterminar a &#8220;fila dos sem ingresso&#8221;, diminuir as apresenta\u00e7\u00f5es descentralizadas e aumentar em 100% o valor das entradas, que at\u00e9 2004, custavam R$ 10.<br \/>\nOs valores continuam R$ 20 para 2006, medida que \u00e9 defenida com furor ideol\u00f3gico por Alabarse. Ele argumenta que o trabalho art\u00edstico deve ser pago, assim como qualquer outro. \u201cLamento que uma pessoa pense que pode simplesmente invadir o teatro: \u00e9 uma falta de respeito com quem compra ingresso, com os artistas\u201d.<br \/>\nAl\u00e9m de falar das novidades de 2006, como o 1\u00ba Trof\u00e9u Braskem Em Cena, que vai distribuir quase R$ 30 mil em pr\u00eamios aos espet\u00e1culos ga\u00fachos, o coordenador do festival sublinha as principais atra\u00e7\u00f5es que escolheu para a 13\u00aa edi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE faz uma cr\u00edtica \u00e0 \u201cauto-sufici\u00eancia\u201d do ga\u00facho, que parece ter invadido o campo das artes. \u201cO teatro que se faz no Rio Grande do Sul \u00e9 bom, est\u00e1 num patamar de qualidade elogi\u00e1vel, mas n\u00e3o pode se bastar a si mesmo\u201d, cutuca, numa alus\u00e3o \u00e0 freq\u00fcente pr\u00e1tica de aplaudir todos os espet\u00e1culos em p\u00e9.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/capas_novas\/med_alabrase.jpg?0.6450046837073389\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"188\" height=\"250\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\">Alabarse: \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada mais equivocado do que aplaudir de p\u00e9 a todos os espet\u00e1culos. Eu fico sentado. S\u00f3 levanto quando \u00e9 algo excepcional\u201d (Foto: Naira Hofmeister\/J\u00c1)<\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong>J\u00c1 \u2013 Muda alguma coisa no Em Cena 2006?<\/strong><br \/>\nUm festival de teatro \u00e9 sempre a mesma coisa: apresenta\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos convidados, dentro de um per\u00edodo de tempo. N\u00e3o quero passar filmes no Em Cena, nem fazer instala\u00e7\u00f5es de artes pl\u00e1sticas&#8230; Quero uma programa\u00e7\u00e3o cada vez mais qualificada e digna, no sentido da provoca\u00e7\u00e3o e da beleza art\u00edstica. Um evento cheio de atividades agregadas gera um incha\u00e7o desnecess\u00e1rio. Gosto quando um festival de teatro tenha na sua programa\u00e7\u00e3o o seu foco absoluto.<br \/>\n<strong>J\u00c1 \u2013 Mas h\u00e1 novidades&#8230;<\/strong><br \/>\nVamos ter uma atividade solid\u00e1ria \u00e0 Casa dos Artistas, que est\u00e1 passando por uma fase muito dif\u00edcil. Quem levar 1 kg de alimento tem desconto de 50% no ingresso. \u00c9 uma atividade compat\u00edvel, n\u00e3o demag\u00f3gica, de vis\u00e3o social. E o p\u00fablico que ajudar tem a solidariedade do festival. Tamb\u00e9m pela primeira vez, a pedido de um patrocinador, teremos um pr\u00eamio no festival, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de m\u00e9rito, mas tamb\u00e9m de dinheiro, que acho importante. \u00c9 o <a href=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/detalhe_teatro.php?id=248\">Trof\u00e9u Braskem Em Cena<\/a>, que vai premiar o melhor espet\u00e1culo ga\u00facho com R$ 20 mil.<br \/>\n<strong>J\u00c1 \u2013 Quais os destaques da 13\u00aa edi\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<\/strong>\u00c9 uma das edi\u00e7\u00f5es mais interessantes do meu ponto de vista, pois conseguimos espet\u00e1culos que jamais estariam em Porto Alegre. \u00c9 uma oportunidade para que as pessoas venham \u00e0 cidade. Tenho particular interesse de que o Brasil conhe\u00e7a o diretor lituano [Eimuntas] Nekrosius, com a sua vers\u00e3o de Othelo que \u00e9 extraordin\u00e1rio e s\u00f3 vem a Porto Alegre. Ou a Pina Bausch, que vai se apresentar em S\u00e3o Paulo com ingressos \u00e0 R$ 200 e aqui vai custar entre R$ 20 e R$ 10. \u00c9 claro que qualquer festival ambiciona ter a Pina Bausch na sua programa\u00e7\u00e3o, assim como o Nekrosius, que eu vi na Europa e em Buenos Aires. Esse \u00e9 o nome do Porto Alegre em Cena que Porto Alegre ainda n\u00e3o conhece e que o Brasil nunca ouviu falar.<br \/>\n<strong>J\u00c1 \u2013 Em 2005, o valor dos ingressos aumentou em 100%, diminuiu o n\u00famero de espet\u00e1culos gratuitos e acabaram com \u201ca fila dos sem ingresso\u201d. Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nEu tenho horror da fila dos sem ingressos!!! E esse ano, no que depender de mim, n\u00e3o haver\u00e1. Nenhum festival de teatro precisa alimentar esse v\u00edcio. Todos eventos no mundo s\u00e3o pagos e tem pol\u00edticas solid\u00e1rias, de redu\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o de ingressos, de cotas de convites. N\u00e3o vejo porque no nosso festival isso deva ser encorajado ou aplaudido. O trabalho art\u00edstico n\u00e3o tem que ser de gra\u00e7a. Ou sou convidado, ou compro um ingresso, ou n\u00e3o vou. No ano passado, as estat\u00edsticas mostraram que est\u00e1vamos certos em nossa estrat\u00e9gia, porque 97% dos ingressos vendidos nas bilheterias do Em Cena, foram de R$ 10 [vendidos com 50% desconto]. Isso \u00e9 estat\u00edstica e os n\u00fameros n\u00e3o mentem. Se eu fosse praticar pre\u00e7os de mercado, cobraria R$ 40, R$ 50, R$ 200.<br \/>\n<strong>J\u00c1 \u2013 Mas isso n\u00e3o exclui uma parte do p\u00fablico?<\/strong><br \/>\nSe algu\u00e9m quer trabalhar de gra\u00e7a, que seja feliz. O meu trabalho custa, eu sei quanto e isso deve ser repassado para o p\u00fablico. Tenho horror de gente que acha que o trabalho art\u00edstico tem que ser de gra\u00e7a! Porque nada no mundo \u00e9 de gra\u00e7a. N\u00e3o existe em nenhum lugar do mundo um ingresso t\u00e3o acess\u00edvel quanto o nosso. N\u00e3o acho que seja educado, nem vou contribuir para a falta de educa\u00e7\u00e3o com a cultura. Nem o Festival de Gramado \u00e9 de gra\u00e7a, nem o Porto Ver\u00e3o Alegre, nem a Mostra de Inverno&#8230; Ent\u00e3o, n\u00e3o vejo porque o Porto Alegre em Cena deveria fazer benemer\u00eancia. Lamento que uma pessoa pense que simplesmente vai chegar e entrar no teatro, invadir. \u00c9 uma falta de respeito com quem compra ingresso, com os artistas. Eu fui \u00e0 Berlim, h\u00e1 dois meses e o ingresso custava 35 euros. No festival de Santiago do Chile, custava 200 pesos. Eu gosto que seja um ingresso extremamente barato, acess\u00edvel, mas que tenha essa demarca\u00e7\u00e3o: a arte n\u00e3o \u00e9 de gra\u00e7a, arte \u00e9 trabalho e trabalho tem que ser remunerado.<br \/>\n<strong>J\u00c1 \u2013 Sendo um projeto realizado via Lei de Incentivo \u00e0 Cultura (LIC), n\u00e3o deveria existir uma responsabilidade de devolver ao p\u00fablico esse investimento?<\/strong><br \/>\nA LIC me pede 10% dos convites e eu dou. N\u00e3o devo nada \u00e0 LIC, tudo que a LIC me pede, eu dou. As Leis de Incentivo, incentivam, n\u00e3o bancam, n\u00e3o \u00e9 100% subsidiado. As a\u00e7\u00f5es de inclus\u00e3o social que a gente vai fazer s\u00e3o espec\u00edficas. Por exemplo, esse ano chamei a T\u00f4nia Carreiro para mostrar seu espet\u00e1culo nos bairros da cidade. Tem tamb\u00e9m o Teatro de Rua, que tradicionalmente \u00e9 sem ingressos, e as oficinas gratuitas. Esses s\u00e3o incentivos de um festival para que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o fique sem nada. Ou seja, mesmo aqueles que n\u00e3o tem dinheiro algum para ir ao teatro, podem desfrutar o festival, nas a\u00e7\u00f5es de inclus\u00e3o social. Quando um espet\u00e1culo \u00e9 oferecido de gra\u00e7a, ele s\u00f3 atrapalha o trabalho dos artistas, porque eu n\u00e3o vou querer pagar para ver um espet\u00e1culo, se tem outro de gra\u00e7a.<br \/>\n<strong>J\u00c1 \u2013 E qual o valor estimado de gastos no Porto Alegre em Cena 2006?<br \/>\n<\/strong>\u00c9 dif\u00edcil falar, pois ainda n\u00e3o fechamos os valores. Mas um festival como o nosso, n\u00e3o sai por menos de R$ 2 milh\u00f5es. Ano passado custou R$ 2 milh\u00f5es e 300 mil. Ainda mais que \u00e9 um festival internacional, com grandes atra\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 nada decadente. A m\u00eddia brasileira vem em peso, porque o Em Cena \u00e9 uma pot\u00eancia art\u00edstica e gera uma provoca\u00e7\u00e3o est\u00e9tica.<br \/>\n<strong>J\u00c1 \u2013 Que lhe parece a descentraliza\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o podemos transformar um festival de teatro em um evento de clientelismo para ganhar votos. Sou contra a demagogia. No ano passado, teve sim a parte da descentraliza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o houve em todos bairros da cidade, porque n\u00e3o tinha or\u00e7amento para isso. Esse ano, \u00e9 uma grande fa\u00e7anha do festival contar com uma estrela do porte da T\u00f4nia Carreiro, dirigida pelo Fauzi Arap, que \u00e9 um dos meus diretores de teatro preferidos, para ir a essas popula\u00e7\u00f5es de baixa renda. N\u00e3o estou dando qualquer coisa, n\u00e3o estou fazendo pol\u00edtica, eu acredito no que fa\u00e7o. Alguns espet\u00e1culos que far\u00e3o duas apresenta\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m v\u00e3o aos bairros. Mas esse \u00e9 um espet\u00e1culo pensado para isso. Eu n\u00e3o contratei a T\u00f4nia Carreiro para ir ao Theatro S\u00e3o Pedro, eu contratei ela para conhecer os bairros da cidade, baseada numa experi\u00eancia que ela fez nos CEUs [Centros Educacionais Unificados] de S\u00e3o Paulo. Levar qualquer coisa, s\u00f3 para preencher uma planilha, n\u00e3o tem ganho real para a popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fica nada. Nesse caso, acho que realmente estou colaborando com uma mudan\u00e7a, com um patamar. Mas n\u00e3o \u00e9 por pol\u00edtica, \u00e9 por arte mesmo. E tem outras pessoas que colocam a pol\u00edtica antes da arte.<br \/>\n<strong>J\u00c1 \u2013 Mas nas primeiras edi\u00e7\u00f5es essas pol\u00edticas de incentivo como a descentraliza\u00e7\u00e3o o subs\u00eddio dos ingressos j\u00e1 existiam&#8230;<\/strong><br \/>\nEstou aqui para promover a\u00e7\u00f5es que qualifiquem o Porto Alegre em Cena. Por que o festival \u00e9 considerado o melhor do Brasil? Porque eu tenho essa preocupa\u00e7\u00e3o e meus l\u00edderes pol\u00edticos me deixam trabalhar, n\u00e3o me sinto nem um pouco pressionado a fazer demagogia. Sempre foi assim, n\u00e3o s\u00f3 agora, mesmo quando a prefeitura era governada pelo PT. Nunca gostei da \u201cfila dos sem\u201d, isso cresceu assustadoramente na minha aus\u00eancia&#8230; eu participei do 1\u00ba ao 8\u00ba e havia os espet\u00e1culos de rua, que sempre s\u00e3o de gra\u00e7a. Ano passado, trouxemos uma co-produ\u00e7\u00e3o chilena e francesa, e era um espet\u00e1culo de rua magn\u00edfico nos bairros. N\u00e3o era qualquer espet\u00e1culo, n\u00e3o gosto disso, nunca gostei. At\u00e9 onde eu trabalhei esse era o meu padr\u00e3o. Eu sei bem aonde quero chegar, na qualifica\u00e7\u00e3o cada vez maior do evento. S\u00f3 assim tem import\u00e2ncia. Por que os festivais de cinema ou artes c\u00eanicas v\u00e3o despertando menos interesse? Porque eles decaem em qualidade, v\u00e3o fazendo pol\u00edtica. Por exemplo, se um festival de cinema quer mais artistas globais do que gente de cinema \u2013 n\u00e3o t\u00f4 falando de A ou B \u2013, perde a import\u00e2ncia. N\u00e3o quero que perca a import\u00e2ncia com o que n\u00e3o \u00e9 importante. Minha busca \u00e9 para que o festival traga profissionais, que n\u00e3o precisam ser necessariamente conhecidos, mas com qualidade. N\u00e3o importa se a cidade n\u00e3o conhece, acho que j\u00e1 consegui ao longo da minha vida, um cr\u00e9dito na cidade e Porto Alegre sempre presta aten\u00e7\u00e3o no que eu proponho para ela como artista.<br \/>\n<strong>J\u00c1 \u2013 Nesse tempo em que esteve afastado, essas quest\u00f5es mudaram o rumo do festival? Isso poderia ser marcado como uma diferen\u00e7a?<br \/>\n<\/strong>S\u00e3o diferen\u00e7as, mas n\u00e3o fiquei preocupado com o festival enquanto n\u00e3o estava aqui, mesmo porque trabalhei no festival de teatro de Buenos Aires. As coisas acabam, assim como a dire\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a de teatro que termina. Nunca fico pensando no passado, sempre opero no presente e no futuro. Gosto muito do Ramiro [Silveira], \u00e9 meu amigo e, salvo um engano meu, come\u00e7ou como meu estagi\u00e1rio l\u00e1 na coordena\u00e7\u00e3o de Artes C\u00eanicas. Nunca torci contra. Seria um engano se eu achasse que outras pessoas t\u00eam que pensar como eu. Cada um que estiver na frente do Em Cena vai imprimir a sua marca.<br \/>\n<strong>J\u00c1 \u2013 E qual a marca que o Luciano Alabarse deixa?<\/strong><br \/>\nAssisti aos v\u00eddeos de todas pe\u00e7as que mandaram, e foram quase 300. Tinha per\u00edodos em que eu dormia na frente na televis\u00e3o, \u00e0s vezes h\u00e1 surpresas magn\u00edficas no material que te mandam. Mas um festival n\u00e3o se faz s\u00f3 de inscri\u00e7\u00e3o, se faz de convites principalmente. S\u00e3o as pe\u00e7as que tu queres que estejam presentes. A parte nacional e internacional \u00e9 da minha responsabilidade. A mais delicada de qualquer festival \u00e9 sempre a local, porque todo mundo quer estar num evento dessa envergadura. Nessa parte, sempre divido a curadoria. Esse ano foram 10 curadores, todas pessoas de teatro, para que ningu\u00e9m acredite que estou prejudicando ou protegendo determinados grupos. Desde o Luiz Paulo Vasconcelos, coordenador de Artes C\u00eanicas, at\u00e9 o Alo\u00edsio Tomasoni, que \u00e9 da \u00e1rea de dan\u00e7a, a gente do teatro que trabalha no festival, diretores e atores que n\u00e3o tinham pe\u00e7as disputando vagas.<br \/>\n<strong>J\u00c1 \u2013 Quais as caracter\u00edsticas que dos espet\u00e1culos de fora de Porto Alegre?<\/strong><br \/>\nNunca preparo nada, simplesmente vou ver os espet\u00e1culos. A melhor forma para selecionar, \u00e9 assistir \u00e0s pe\u00e7as. Se pudesse, veria todos, mas n\u00e3o tenho tanto dinheiro assim, porque tudo isso \u00e9 do meu bolso. N\u00e3o procuro coisas espec\u00edficas: o que importa \u00e9 que te surpreendam. \u00c0s vezes \u00e9 uma dire\u00e7\u00e3o surpreendente, outras uma atua\u00e7\u00e3o maravilhosa ou um texto que te chama aten\u00e7\u00e3o. Pode tudo em teatro, diferentes linguagens, provoca\u00e7\u00e3o. N\u00e3o acho que teatro \u00e9 s\u00f3 para as pessoas gostarem, \u00e9 para provocar tamb\u00e9m. Nem todos espet\u00e1culos s\u00e3o belos, alguns s\u00e3o inc\u00f4modos, trazem inova\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas que chocam o gosto conservador, mas todo o festival tem que ter isso. Ningu\u00e9m entra por ser amigo, ou deixa de estar porque eu n\u00e3o conhe\u00e7o. Tem, que ter um valor est\u00e9tico.<br \/>\n<strong>J\u00c1 \u2013 Recentemente, duas pe\u00e7as shakespearianas estiveram em cartaz na cidade: o Hamlet, dirigido por voc\u00ea, e Sonho de uma noite de ver\u00e3o, da Patr\u00edcia Fagundes. Mas h\u00e1 uma corrente que defende o teatro contempor\u00e2neo para estimular a reflex\u00e3o sobre a vida moderna e acredita que montar cl\u00e1ssicos seria algo menos engajado&#8230;<br \/>\n<\/strong>Acho que cl\u00e1ssicos s\u00e3o cl\u00e1ssicos, justamente por se incorporarem ao imagin\u00e1rio do ocidente. Achar que um Sheakspeare n\u00e3o tem nada a dizer dos dias de hoje \u00e9 estranho. Um dos defeitos de Porto Alegre \u00e9 que a cidade tem muito pouco contato com os cl\u00e1ssicos. Se a gente vai a Berlim, por exemplo, sempre tem uma ou duas montagens de Shakespeare, Ibsen, Tchecov. Por exemplo, o Hamlet fazia 30 anos que n\u00e3o era montada em Porto Alegre. Ou seja, toda uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o viu&#8230; n\u00e3o vejo qual \u00e9 o ganho disso. N\u00e3o gosto \u00e9 do dogma&#8230; n\u00e3o acho que nem o cl\u00e1ssico seja a salva\u00e7\u00e3o, e tampouco o contempor\u00e2neo. O teatro \u00e9 um territ\u00f3rio sem preconceitos. E uma cidade que n\u00e3o tem acesso ao cl\u00e1ssico \u00e9 uma cidade menor, sem cultura.<br \/>\n<strong>J\u00c1 \u2013 Qual a tua avalia\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o c\u00eanica local?<\/strong><br \/>\nOntem [23 de julho] assisti \u00e0 pe\u00e7a da Deborah [Finochiaro], Sobre Anjos e Grilos. L\u00e1 pelas tantas, o Mario Quintana diz assim: \u201cPorto Alegre, num determinado tempo, era uma pequena cidade grande, e hoje acho que \u00e9 uma grande cidade pequena\u201d. Isso \u00e9 t\u00e3o bonito e t\u00e3o verdadeiro&#8230; Eu n\u00e3o me identifico em nada com essa coisa separatista, hist\u00f3rica, do Rio Grande do Sul, da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha. N\u00e3o gosto disso, gosto de estar conectado com o Brasil, com o mundo e gosto que o mundo esteja conectado com Porto Alegre. N\u00e3o tenho nenhuma rela\u00e7\u00e3o de deslumbramento com o mundo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o tenho de auto-sufici\u00eancia e \u00e0s vezes penso que o nosso povo acredita que pode ser auto-suficiente e n\u00e3o h\u00e1 nada mais enganoso que isso, ainda mais na arte. O teatro que se faz no Rio Grande do Sul \u00e9 bom, est\u00e1 num patamar de qualidade elogi\u00e1vel, mas n\u00e3o pode se bastar a si mesmo. Temos que ver o teatro do mundo, o que as pessoas est\u00e3o fazendo ou realizando. Essa troca \u00e9 legal, n\u00e3o \u00e9 subserviente, e trabalho para que aconte\u00e7a. Uma boa temporada de teatro mescla tudo: experi\u00eancias de vanguarda, cl\u00e1ssicos, teatro de texto, sem texto.<br \/>\n<strong>J\u00c1 \u2013 E essa pr\u00e1tica que se instaurou em Porto Alegre, de aplaudir de p\u00e9 a todos os espet\u00e1culos?<br \/>\n<\/strong>N\u00e3o h\u00e1 nada mais equivocado do que isso, eu fico sentado. S\u00f3 me levanto para aplaudir quando \u00e9 algo realmente excepcional. Tamb\u00e9m n\u00e3o gosto de ser aplaudido de p\u00e9 por costume ou h\u00e1bito. Nenhum lugar do mundo aplaude de p\u00e9 por h\u00e1bito&#8230; e aqui sim. Isso causa a falsa impress\u00e3o de que tudo \u00e9 muito bom e n\u00e3o \u00e9. N\u00e3o sou o vil\u00e3o da novela quando digo que tudo n\u00e3o \u00e9 bom em teatro. Procuro ter sempre uma perspectiva para selecionar. Pensar que aqui temos o melhor teatro do mundo, que ningu\u00e9m erra&#8230; isso \u00e9 o come\u00e7o de uma ilus\u00e3o nefasta que \u00e9 a de achar que somos melhores, superiores ao outros. E n\u00e3o somos, simplesmente porque \u00e9 da troca com os outros que vem o crescimento. Sempre vejo muito teatro ga\u00facho, n\u00e3o tenho nenhum problema de aplaudir teatro ga\u00facho, mas essa arrog\u00e2ncia \u00e9 desnecess\u00e1ria. O que ajuda \u00e9 eu, como diretor de teatro, querer me aperfei\u00e7oar. O p\u00fablico n\u00e3o aplaudindo tudo de p\u00e9 ou pensando que eu tenho que trabalhar de gra\u00e7a. E essas experi\u00eancias de troca, como se faz no Em Cena \u00e9 que despertam o interesse.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alabarse, sobre os destaques desta edi\u00e7\u00e3o: \u201cNekrosius \u00e9 o nome do Em Cena\u201d (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o) Naira Hofmeister O diretor de teatro Luciano Alabarse \u00e9 um dos respons\u00e1veis pela cria\u00e7\u00e3o do Porto Alegre em Cena e pela sua eleva\u00e7\u00e3o ao posto de \u201cmaior festival de teatro do Brasil\u201d. Considerado arrogante por alguns, reverenciado por outros, Alabarse [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-244","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-3W","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/244","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=244"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/244\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=244"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=244"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=244"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}