{"id":25026,"date":"2015-10-02T23:16:17","date_gmt":"2015-10-03T02:16:17","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=25026"},"modified":"2015-10-02T23:16:17","modified_gmt":"2015-10-03T02:16:17","slug":"nos-120-anos-do-correio-do-povo-o-esquecimento-de-breno-caldas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/nos-120-anos-do-correio-do-povo-o-esquecimento-de-breno-caldas\/","title":{"rendered":"Nos 120 anos do Correio do Povo, a segunda morte de Breno Caldas"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"intermenos assina\">JOS\u00c9 ANTONIO PINHEIRO MACHADO<\/span><br \/>\nCom a mesma discri\u00e7\u00e3o que viveu, o jornalista Breno Caldas teve no dia 1\u00ba de outubro passado sua segunda morte.<br \/>\nO fato ocorreu nos festejos dos 120 anos do Correio do Povo e na edi\u00e7\u00e3o comemorativa a essa importante data. Breno Caldas foi o jornalista mais importante da hist\u00f3ria do Correio do Povo.<br \/>\nFilho do fundador, Caldas J\u00fanior, Breno Caldas comandou o jornal durante 50 anos \u2015 os 50 anos em que o Correio do Povo se tornou um dos jornais mais importantes do Pa\u00eds.<br \/>\nApesar disso, seu nome n\u00e3o mereceu destaque na edi\u00e7\u00e3o comemorativa do jornal. Na verdade, o Correio do Povo de hoje, que comemora os 120 anos que n\u00e3o viveu, \u00e9 bem diferente do Correio do Povo que construiu a lenda: o Correio do Povo de Breno Caldas.<br \/>\nA primeira morte do jornalista Breno Caldas, sua morte f\u00edsica, ocorreu em 1989, aos 79 anos, depois de uma agonia quase t\u00e3o dolorosa quanto a do jornal que dirigiu durante meio s\u00e9culo, o Correio do Povo.<br \/>\nFui seu amigo durante seus \u00faltimos anos, quando j\u00e1 estava longe de ser um dos 10 homens mais ricos do Brasil, co\u00admo foi considerado pela revista Veja nos anos 1970.<br \/>\nAproximei-me de Breno Caldas movido pela perplexidade que, desde 1984, atingia a maioria dos ga\u00fachos: co\u00admo e por que o Correio, a publica\u00e7\u00e3o ma\u00adis importante do Rio Grande \u2015 e uma das mais importantes do Brasil \u2015, quebrou?<br \/>\nEra a hist\u00f3ria incr\u00edvel de um jornal que tinha deixado de circular apesar de ter invej\u00e1vel espa\u00e7o publicit\u00e1rio e 90 mil assinaturas pagas.<br \/>\nJ\u00e1 tinha ouvido as opini\u00f5es e an\u00e1lises mais diversas, mas eu queria saber a vers\u00e3o do personagem principal: o que pensava a respeito aque\u00adle homem enigm\u00e1tico que tinha sido uma esp\u00e9cie de Vice-Rei do Rio Grande, e que, depois da derrocada, se recolhera a um sil\u00eancio impenetr\u00e1vel na sua bela propriedade da Ponta do Arado?<br \/>\nNossos primeiros contatos foram mui\u00adto dif\u00edceis, pois o &#8220;Dr. Breno&#8221; n\u00e3o admitia a id\u00e9ia da publica\u00e7\u00e3o de um depoimento seu sobre o fim do Correio do Povo:<br \/>\n&#8220;Ningu\u00e9m est\u00e1 interessado nas desculpas de um falido&#8221;, dizia, com sua inesgot\u00e1vel capacidade de rir de si mesmo.<br \/>\nSe n\u00e3o fosse nossa paix\u00e3o em comum por alguns espl\u00eandidos cavalos, espe\u00adcialmente os egressos dos campos de cria\u00e7\u00e3o do inesquec\u00edvel Marcel Boussac, as conversas n\u00e3o teriam ido adiante: talvez tivessem ficado naquele final de uma tarde luminosa de inverno em que tomamos ch\u00e1 ingl\u00eas Earl Grey com bis\u00adcoitos caseiros, quando visitei-o pela primeira vez.<br \/>\nMas, por causa dos cavalos, voltamos a conversar, e o assunto voltou para o jornal. Por fim, o constrangimento do empres\u00e1rio mal sucedido sucumbiu diante da sensibilidade do velho redator- chefe, e Breno Caldas concordou em me conceder um longo depoimento que resultou no livro \u201cMeio S\u00e9culo de Correio do Povo \u2014Gl\u00f3ria e Agonia de um Grande Jornal\u201d\u2015 o livro mais vendido da Feira do Livro de Porto Alegre de 1987, que obrigou a Editora L&amp;PM a imprimir uma segunda edi\u00e7\u00e3o durante a Feira.<br \/>\nComo ficou claro no livro, Breno Caldas tinha a dizer, \u00e9 claro, muito mais do que desculpas sobre a fal\u00eancia; e muito mais gente do que ele imaginava estava interessada na\u00a0sua vers\u00e3o.<br \/>\nQuase todos perceberam esse lado \u00e9pico de uma trag\u00e9dia shakesperiana: ele perdeu sua fortuna tentando salvar sua paix\u00e3o, o jornal.<br \/>\nMas o livro n\u00e3o tem o depoimento de um ressentido, mas sim o balan\u00e7o de algu\u00e9m que chegou ao fim da vida com seu dever cumprido. Nas saborosas reminisc\u00eancias de um velho jornalista, Breno Cal\u00addas retratou de forma impiedosa, os equ\u00edvocos &#8211; especial\u00admente os dele &#8211; que levaram sua empre\u00adsa a mergulhar em d\u00edvidas impag\u00e1veis quando decidiu renovar o parque gr\u00e1fico e implantar uma emissora de TV. Tam\u00adb\u00e9m fez um libelo corajoso com acusa\u00e7\u00f5es (que n\u00e3o tiveram contesta\u00e7\u00e3o) a pol\u00edticos e governantes da \u00e9poca que deram a voz de comando: &#8220;Vamos que\u00adbrar o Breno!&#8221; Atribu\u00eda isso a um ajuste de contas de poderosos, descontentes com sua &#8220;excessiva independ\u00eancia&#8221;.<br \/>\nEra um homem conservador, mas, como lhe confidenciara um general, &#8220;n\u00e3o inteira\u00admente confi\u00e1vel&#8221;. Sua fal\u00eancia foi um filme repetido nos tempos do &#8220;milagre brasileiro&#8221; com tantos outros empre\u00ads\u00e1rios: depois de ter sido induzido a cap\u00adtar financiamentos em d\u00f3lar atrav\u00e9s da famigerada \u201cResolu\u00e7\u00e3o 63\u201d, Breno Caldas enfrentou duas maxi-desvaloriza\u00e7\u00f5es da moeda que multi\u00adplicaram sua d\u00edvida.<br \/>\nEm vez de deixar a pessoa jur\u00eddica, isto \u00e9, o jornal, afundar, salvando sua fortuna pessoal, resistiu em desespero e consumiu 90% do seu imen\u00adso patrim\u00f4nio particular tentando salvar\u00a0o Correio do Povo. Por certo que n\u00e3o agiu com a prud\u00eancia que se quer de um empres\u00e1rio, mas foi um jornalista exemplar: num dos lances finais da agonia do jornal, quando n\u00e3o tinha mais cr\u00e9dito para obter papel, trocou a metade dos 800 hectares que possu\u00eda na espetacular Fazenda do Arado, no sul de Porto Alegre, pelas bobinas ne\u00adcess\u00e1rias para imprimir o Correio mais algumas semanas.<br \/>\nNo que restou do Arado, uma bel\u00edssi\u00adma propriedade no extremo sul do munic\u00edpio de Porto Alegre, onde o rio Gua\u00edba faz a sua \u00faltima volta, Bruno Caldas passou os \u00faltimos anos sem qual\u00adquer arrependimento pelos preju\u00edzos incalcul\u00e1veis que teve: &#8220;Tudo o que eu possu\u00eda, veio do Correio; era justo que voltasse para o jornal.&#8221;<br \/>\nDurante as grava\u00e7\u00f5es do depoimentos que me concedeu sempre se recusou a mencionar as cifras exatas de suas per\u00addas. Mas, depois do livro impresso, num fim de tarde, quando beb\u00edamos Dimple na sacada do seu gabinete, no Arado, diante do p\u00f4r-de-sol no Gua\u00edba, confes\u00adsou:<br \/>\n&#8220;Uma vez, naqueles dias, numa \u00fanica tarde perdi 35 milh\u00f5es de d\u00f3lares&#8221;.<br \/>\nMas em seguida mudou de assunto, passando a recordar Estensoro, El Centauro, El Supremo, Estupenda, e outros corredores magn\u00edficos que, nos bons tempos, criou nos campos do Haras do Arado. Tamb\u00e9m o Haras se foi, na voragem das d\u00edvidas.<br \/>\nA todos esses golpes resistiu sem amargura, recolhendo-se \u00e0s tardes silen\u00adciosas de sua bela biblioteca com cente\u00adnas de volumes encardenados em couro, onde se deliciava lendo Dickens, Goethe e Chateaubriand \u2015 sempre no original: ele falava, lia e escrevia com flu\u00eancia em ingl\u00eas, franc\u00eas e alem\u00e3o..<br \/>\nS\u00f3 n\u00e3o teve for\u00e7as para enfrentar um \u00faltimo golpe, poucos anos antes de sua pr\u00f3pria morte: a morte do filho, Francisco Ant\u00f4nio, de pouco mais de 50 anos, que por mais de tr\u00eas d\u00e9cadas o acompanhou, tamb\u00e9m trabalhando no Correio, na ger\u00eancia comercial. A luta silenciosa do filho durante mais de um ano contra o c\u00e2ncer, sem uma queixa sequer, deixou Breno Caldas espantado:<br \/>\n&#8220;O meu filho tinha fibras que eu desconhecia&#8221;, me disse.<br \/>\nN\u00e3o se recu\u00adperou desse golpe, por\u00e9m. E poucos meses depois, com problemas renais e respirat\u00f3rios, mergulhou numa agonia dolorosa e irrevers\u00edvel. Enfrentou-a com a serenidade que suportou o naufr\u00e1gio do seu jornal, revelando as mesmas fibras insuspeitadas do seu filho diante da morte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JOS\u00c9 ANTONIO PINHEIRO MACHADO Com a mesma discri\u00e7\u00e3o que viveu, o jornalista Breno Caldas teve no dia 1\u00ba de outubro passado sua segunda morte. O fato ocorreu nos festejos dos 120 anos do Correio do Povo e na edi\u00e7\u00e3o comemorativa a essa importante data. 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