{"id":25042,"date":"2015-10-04T23:21:59","date_gmt":"2015-10-05T02:21:59","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=25042"},"modified":"2015-10-04T23:21:59","modified_gmt":"2015-10-05T02:21:59","slug":"wisnik-os-gauchos-sao-os-galegos-da-america","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wisnik-os-gauchos-sao-os-galegos-da-america\/","title":{"rendered":"Wisnik: \u201cOs ga\u00fachos s\u00e3o os galegos da Am\u00e9rica\u201d"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Geraldo Hasse<\/span><br \/>\nOs ga\u00fachos s\u00e3o compar\u00e1veis aos galegos, cuja identidade oscila entre Espanha e Portugal. Com essa sacada o professor multim\u00eddia Jos\u00e9 Miguel Wisnik encerrou na tarde do s\u00e1bado 3 de outubro o semin\u00e1rio N\u00f3s Outros Ga\u00fachos, que durante cinco meses discutiu num dos audit\u00f3rios da reitoria da UFRGS a dualidade lusoplatina dos habitantes do Rio Grande do Sul.<br \/>\nA plat\u00e9ia do encerramento, cerca de 100 pessoas, era majoritariamente feminina e com predomin\u00e2ncia do pessoal da psicologia, pois no sof\u00e1 dos palestrantes estava a psicanalista Caterina Koltai, paulistana que afirma ter conhecido o Brasil \u2013 e os ga\u00fachos, em particular &#8212; como exilada pol\u00edtica na Fran\u00e7a a partir de 1968.<br \/>\nAo contr\u00e1rio do esperado, Koltai se exp\u00f4s muito pouco. Desculpando-se por \u201cdesconhecer os ga\u00fachos\u201d, leu um texto em que chamou a aten\u00e7\u00e3o para a atualidade dos refugiados como paradigma de uma nova era. \u201cO refugiado n\u00e3o pertence ao novo lugar mas n\u00e3o quer ser assimilado a qualquer pre\u00e7o\u201d, disse. Assim, esse p\u00e1ria permanece \u201cestrangeiro\u201d, ou seja, um estranho que \u00e9 visto inicialmente como diferente mas pode ser apenas \u201cexclu\u00eddo\u201d ou se tornar um \u201cinimigo\u201d.<br \/>\nSegundo Koltai, o confronto eu x outro \u00e9 uma realidade antiga que muda com o tempo. Na \u00e9poca do Imp\u00e9rio Romano, a palavra \u201cestrangeiro\u201d (que significava \u201cn\u00e3o familiar\u201d) era apenas um adjetivo. Somente muitos s\u00e9culos depois, passou a ser tamb\u00e9m um substantivo. Sinal de que o problema se adensava.<br \/>\nNo caso dos ga\u00fachos, lembrou a ex-ap\u00e1trida Koltai, a dualidade tem a ver com a exist\u00eancia da fronteira. \u201cUma identidade sempre se constr\u00f3i em oposi\u00e7\u00e3o a outra\u201d, disse ela, salientando que \u201co imigrante transformou o ind\u00edgena em estrangeiro\u201d. \u00a0Depois, respondendo a uma quest\u00e3o, ela disse: \u201cO fundamentalismo \u00e9 uma doen\u00e7a da identidade: todos n\u00f3s somos de alguma forma xen\u00f3fobos &#8212; xen\u00f3fobos ordin\u00e1rios \u2013, mas cada discurso escolhe seu desafeto, o inimigo a ser destru\u00eddo\u201d.<br \/>\nO G\u00caNIO PAULISTA<br \/>\nJos\u00e9 Miguel Wisnik abriu o peito, declarando-se paulista de S\u00e3o Vicente, filho de polaco paranaense e m\u00e3e mineira, casado com uma baiana, situa\u00e7\u00e3o que lhe permitiu, desde cedo, compreender a diversidade brasileira. Quando chegou \u00e0 Universidade de S\u00e3o Paulo, aos 18 anos, encontrou no curso de Letras muitos ga\u00fachos que o surpreenderam pelo \u201cletramento superior\u201d, obtido em escolas particulares como o Col\u00e9gio Anchieta (jesu\u00edtas) e em escolas p\u00fablicas que receberam a influ\u00eancia do positivismo. Entre os colegas, citou Flavio Aguiar, Ligia Chiapini e Paulo Neves.<br \/>\nEssa realidade de 50 anos atr\u00e1s mudou bastante. Para Wisnik, \u201co letramento superior do ga\u00facho vem sendo lavado\u201d pela homogeneiza\u00e7\u00e3o do conte\u00fado dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, que priorizam a sobreviv\u00eancia comercial em detrimento da cultura. Disso resulta a busca de sa\u00eddas na constru\u00e7\u00e3o de uma mitologia superior. \u201cO mito est\u00e1 num entrelugar\u201d situado a meio caminho entre a realidade e ilus\u00e3o.<br \/>\nSem se dar conta de que citara involuntariamente o uruguaianense Tabajara Ruas, escritor e cineasta cujo trabalho se baseia na hist\u00f3ria mas real\u00e7a os mitos ga\u00fachos, Wisnik elogiou o livro O Gaucho de Jos\u00e9 de Alencar como uma obra \u201cprofunda psicanaliticamente\u201d, mas preferiu comentar mais largamente o conto A Hora e a Vez de Augusto Matraga, no qual o mineiro Guimar\u00e3es Rosa faz duelarem dois sujeitos terrivelmente envolvidos com os sentimentos de inveja e vingan\u00e7a.<br \/>\nO HARAQUIRI DE GET\u00daLIO<br \/>\nCitando o professor ga\u00facho Luis Augusto Fischer, que palestrara pela manh\u00e3 e ocupava uma das poltronas do palco, ao lado de Sinara Robin, do departamento de Difus\u00e3o Cultural da UFRGS, o professor paulista lembrou a import\u00e2ncia do duelo como uma das marcas do homem do Sul. E acabou descambando para a pol\u00edtica ao afirmar que Get\u00falio Vargas, com todas suas conhecidas ambig\u00fcidades, foi o \u00fanico brasileiro at\u00e9 hoje a praticar um haraquiri pol\u00edtico, capitalizando a morte como suprema cartada pol\u00edtica.<br \/>\nDepois, Wisnik alongou-se ao falar dos cinco generais-presidentes, tr\u00eas deles nascidos no Rio Grande do Sul e todos eles alunos do Col\u00e9gio Militar de Porto Alegre (onde tamb\u00e9m estudaram nobres figuras da literatura como M\u00e1rio Quintana e do direito como Darcy Azambuja). E lembrou at\u00e9 do mando no futebol exercido por t\u00e9cnicos como Jo\u00e3o Saldanha, Dunga e Felip\u00e3o. Mas, lembrou ele, o RS tamb\u00e9m tem figuras s\u00f3brias, comedidas e moderadas como o pr\u00f3prio M\u00e1rio Quintana, o compositor Lupic\u00ednio Rodrigues, o cronista Luis Fernando Ver\u00edssimo (\u201co melhor cronista do Brasil contempor\u00e2neo\u201d) e o m\u00fasico Vitor Ramil.<br \/>\nWisnik concluiu assim: \u201cO Rio Grande do Sul se coloca lugar \u00e0 margem n\u00e3o devidamente compreendido pelo pa\u00eds. A integra\u00e7\u00e3o malograda com o Brasil \u00e9 compensada por uma integra\u00e7\u00e3o com o Sul\u201d, coisa muito bem captada pelo pelotense Vitor Ramil com sua Est\u00e9tica do Frio. Tudo isso se pode explicar porque \u201co Brasil \u00e9 t\u00e3o grande que, nele, qualquer um desaparece\u201d.<br \/>\nFoi a\u00ed que o professor vicentino associou os ga\u00fachos aos galegos. A Gal\u00edcia, na Espanha, na fronteira de Portugal, est\u00e1 situada no que antigamente se chamada \u201cfinis terra\u201d. O Rio Grande do Sul, de certa forma, tamb\u00e9m faz parte de um fim do mundo onde \u00e9 preciso se apegar a mitos e amuletos capazes de fazer alguma diferen\u00e7a. Por exemplo: \u201cO Rio Grande do Sul tem a vantagem cultural de estar no meio entre Rio e Buenos Aires.\u201d<br \/>\nBRAVATA<br \/>\nAparentemente escalado para fazer o papel de moderador na sess\u00e3o de encerramento do semin\u00e1rio \u2013 \u00e0 qual n\u00e3o compareceu o convidado uruguaio, historiador Gerardo Caetano Hargain &#8211;, o escritor Luis Augusto Fischer aproveitou para fazer duas ou tr\u00eas interven\u00e7\u00f5es sarc\u00e1sticas. Primeiro, ao afirmar que \u201co melhor escritor ga\u00facho de todos os tempos chama-se Jorge Luis Borges\u201d. Segundo, ao sugerir que, em considera\u00e7\u00e3o a Gisele Bundchen e outras modelos, sugere-se inverter os versos finais do hino riograndense: em vez de \u201csirvam nossas fa\u00e7anhas de modelo a toda terra\u201d, cante-se \u201csirvam nossas modelos de fa\u00e7anha a toda terra\u201d. Por fim, ele lembrou que, al\u00e9m da mania do duelo, os ga\u00fachos tem outra marca: o h\u00e1bito da bravata. Ou, seja, \u201cdo rid\u00edculo ao sublime, temos tudo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse Os ga\u00fachos s\u00e3o compar\u00e1veis aos galegos, cuja identidade oscila entre Espanha e Portugal. 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