{"id":25270,"date":"2015-10-12T17:41:33","date_gmt":"2015-10-12T20:41:33","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=25270"},"modified":"2015-10-12T17:41:33","modified_gmt":"2015-10-12T20:41:33","slug":"pouca-presenca-de-negros-na-tv-leva-a-racismo-na-infancia-dizem-especialistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/pouca-presenca-de-negros-na-tv-leva-a-racismo-na-infancia-dizem-especialistas\/","title":{"rendered":"Pouca presen\u00e7a de negros na TV leva a racismo na inf\u00e2ncia, dizem especialistas"},"content":{"rendered":"<p>O estudante Anderson Ramos passou boa parte da 4\u00aa s\u00e9rie (hoje 5\u00ba ano) sendo chamado de \u201cmacaco\u201d, \u201cpreto fedido\u201d, \u201csujo\u201d e ouvindo \u201cpiadas\u201d por causa do cabelo crespo. As ofensas vinham de colegas da escola que, assim como ele, tinham 10 anos. O menino relatava os casos para a professora, que nada fez, e para a m\u00e3e, que demorou a entender que o filho estava sendo v\u00edtima de inj\u00farias raciais.<br \/>\n\u201cQuando comecei a chorar muito para n\u00e3o ir \u00e0 escola e pedi para raspar o cabelo, minha m\u00e3e percebeu que eu estava sofrendo com aquilo, mesmo sem eu saber direito o que era\u201d, afirma Ramos, hoje com 20 anos. \u201cQuando a gente \u00e9 crian\u00e7a, n\u00e3o tem maturidade para fazer a leitura do que aconteceu, mas sente a dor que o racismo causa. E n\u00e3o \u00e9 brincadeira de crian\u00e7a, \u00e9 racismo\u201d, diz o estudante.<br \/>\nApesar de pouco discutido, o racismo na inf\u00e2ncia e nas escolas existe e precisa ser enfrentado, na opini\u00e3o de professores e especialistas ouvidos pela Ag\u00eancia Brasil. Eles destacam a pouca representa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as negras nos meios de comunica\u00e7\u00e3o como uma das causas do problema.<br \/>\nProfessora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) e coordenadora do N\u00facleo de Estudos Afro-Brasileiros da institui\u00e7\u00e3o, Ren\u00edsia Garcia Filice acredita que o racismo existe dentro das escolas e ocorre de forma cruel, efetiva e naturalizada. Para ela, essa atitude na inf\u00e2ncia \u00e9 fruto do que a crian\u00e7a viu ou vivenciou fora do ambiente escolar.<br \/>\n\u201cA crian\u00e7a pode ter vivenciado isso numa postura dos pais, em algum coment\u00e1rio ou at\u00e9 em algo que os professores fizeram ou deixaram de fazer\u201d, diz Ren\u00edsia. Segundo ela, alguns professores se omitem em situa\u00e7\u00f5es de racismo pela falta de informa\u00e7\u00e3o, por naturalizar os casos ou achar que n\u00e3o \u00e9 um problema. \u201cPor isso, s\u00e3o necess\u00e1rias pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas para que as crian\u00e7as se percebam iguais e com iguais direitos\u201d, acrescenta.<br \/>\nIldete Batista d\u00e1 aula para crian\u00e7as de 5 anos em uma escola no Distrito Federal. Ela afirma que as quest\u00f5es raciais aparecem principalmente no momento de disputa e durante as brincadeiras. Professora h\u00e1 mais de 20 anos, Ildete afirma que faltam refer\u00eancias para as crian\u00e7as. \u201cO que fica como belo \u00e9 o que se aparece na TV, nos livros \u2013 inclusive nos materiais did\u00e1ticos. A gente v\u00ea muitas propagandas, livros de hist\u00f3rias infantis em que os personagens s\u00e3o brancos.\u201d<br \/>\nA professora desenvolve, na escola, um trabalho contra o racismo e para colocar mais refer\u00eancias africanas na educa\u00e7\u00e3o. Isso, segundo Ildente, vem dando resultados. \u201cNo in\u00edcio do ano, uma menina me disse que n\u00e3o gostava do cabelo dela, por ser crespo. Em um desenho, por exemplo, ela se fez loira do olho azul. Agora, no final do ano, ela se desenha uma crian\u00e7a negra com cabelo enrolado. Isso mostra que o trabalho tem que ser feito e, se ele \u00e9 feito com respeito, a gente consegue vencer esses problemas\u201d, acredita.<br \/>\nSegundo o professor do curso de direito da UnB Johnatan Razen, quando h\u00e1 ofensas entre crian\u00e7as, no col\u00e9gio, os pais devem relatar o caso \u00e0 escola, para a que a institui\u00e7\u00e3o promova a\u00e7\u00f5es educativas. \u201cSe o caso envolver um professor ou a ofensa vier da institui\u00e7\u00e3o \u2013 como obrigar uma aluna a alisar o cabelo \u2013, cabe acionar a Justi\u00e7a\u201d, orienta. Se tiver conhecimento de atitudes racistas dentro do espa\u00e7o e se omitir, a escola tamb\u00e9m pode ser responsabilizada penalmente, de acordo com Razen.<br \/>\n<span class=\"intermenos\">Representa\u00e7\u00e3o<\/span><br \/>\nPara a professora do curso de comunica\u00e7\u00e3o social da Universidade Cat\u00f3lica de Bras\u00edlia (UCB) Isabel Clavelin, h\u00e1 uma tend\u00eancia de aumento na representa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as negras nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, nos \u00faltimos anos. &#8220;Mas elas figuram em pap\u00e9is de coadjuvantes, e a representa\u00e7\u00e3o est\u00e1 aqu\u00e9m da propor\u00e7\u00e3o de negros no Brasil&#8221;, diz a pesquisadora.<br \/>\n\u201cIsso tem um efeito devastador, porque a crian\u00e7a se v\u00ea ausente ou n\u00e3o se v\u00ea como ela realmente \u00e9. Ela est\u00e1 sempre atr\u00e1s. A interpreta\u00e7\u00e3o dessas mensagens tem um efeito muito danoso, que \u00e9 a recusa, de se retirar do espa\u00e7o da centralidade\u201d, afirma Isabel. \u201cEnfrentar o racismo na inf\u00e2ncia \u00e9 crucial e deve mobilizar toda a sociedade brasileira, porque ali est\u00e3o sendo moldadas todas as possibilidades de identidade das pessoas\u201d, acrescenta.<br \/>\nA escritora Kiussam de Oliviera, que trabalha com a literatura infantil com o objetivo de fortalecer a identidade das crian\u00e7as negras, afirma que falta representa\u00e7\u00e3o positiva. \u201cEm um pa\u00eds de maioria negra, n\u00e3o se justifica uma televis\u00e3o totalmente branca, como n\u00f3s temos. A partir do momento que as emissoras entenderem que o p\u00fablico negro \u00e9 grande, n\u00f3s viveremos uma fase diferente desta que estamos passando, onde h\u00e1 viol\u00eancia por conta da cor da pele, agress\u00f5es focadas na ra\u00e7a \u2013 cada vez mais banalizada.&#8221;\u00a0O estudante Jo\u00e3o Gabriel, de 11 anos, sente falta de mais crian\u00e7as negras na televis\u00e3o. \u201cNos desenhos e nos programas de TV, quem \u00e9 gordo e negro est\u00e1 sempre sendo xingado, \u00e9 sempre t\u00edmido e os outros zoam dele. A\u00ed a gente v\u00ea isso e acha que \u00e9 sempre assim. Os colegas acham que todos precisam ser iguais e ser diferente \u00e9 ruim.\u201d<br \/>\n<span class=\"intermenos\">Novo Programa<\/span><br \/>\nCom a maioria dos personagens negros, come\u00e7a hoje a ser exibido na TV Brasil odesenho colombiano Guilhermina e Candel\u00e1rio. Para marcar a passagem do Dia da Crian\u00e7a, a emissora exibir\u00e1 quatro epis\u00f3dios em sequ\u00eancia, \u00e0s 9h45 e \u00e0s 13h. A partir da\u00ed, o desenho ser\u00e1 transmitido de segunda a s\u00e1bado, na Hora da Crian\u00e7a, faixa de programa\u00e7\u00e3o de segunda a sexta das 8h15 \u00e0s 12h e das 12h30 \u00e0s 17h; e no s\u00e1bado, das 8h15 \u00e0s 12h.<br \/>\nA s\u00e9rie mostra o cotidiano dos dois irm\u00e3os, cuja capacidade de sonhar transforma cada dia em aventura. A cada dia, eles esperam ansiosamente a chegada do V\u00f4 Faustino, a quem contam suas aventuras. O av\u00f4 desfruta das hist\u00f3rias narradas pelos netos e compartilha sua experi\u00eancia de vida e sabedoria.<br \/>\nCoproduzida pelo Se\u00f1al Colombia e pela Fosfenos Media, a anima\u00e7\u00e3o Guilhermina e Candel\u00e1rio \u00e9 um dos primeiros desenhos do g\u00eanero com protagonistas negros a ser exibido na TV aberta brasileira.<br \/>\nDa Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O estudante Anderson Ramos passou boa parte da 4\u00aa s\u00e9rie (hoje 5\u00ba ano) sendo chamado de \u201cmacaco\u201d, \u201cpreto fedido\u201d, \u201csujo\u201d e ouvindo \u201cpiadas\u201d por causa do cabelo crespo. As ofensas vinham de colegas da escola que, assim como ele, tinham 10 anos. 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