{"id":25495,"date":"2015-10-17T20:14:22","date_gmt":"2015-10-17T23:14:22","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=25495"},"modified":"2015-10-17T20:14:22","modified_gmt":"2015-10-17T23:14:22","slug":"torturador-passava-natal-no-local-do-crime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/torturador-passava-natal-no-local-do-crime\/","title":{"rendered":"Torturador passava Natal no local do crime"},"content":{"rendered":"<p>O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, primeiro militar reconhecido pela Justi\u00e7a como torturador depois da Ditadura de 1964, criou e comandou, de outubro de 1970 a dezembro de 1973, o maior centro de repress\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds, o DOI CODI, de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nNesses quatro anos, segundo sua mulher, Maria Jose\u00edta, o Natal e o Ano Novo da fam\u00edlia (ela, Ustra e a filha Patr\u00edcia de 3 anos) \u00a0foram passados no quartel, junto com as mulheres ligadas \u00e0 luta armada que estavam presas e, sistematicamente, torturadas.<br \/>\nA afirma\u00e7\u00e3o est\u00e1 numa carta que ela escreveu \u00e0s filhas, Patr\u00edcia e Renata, em 1985, quando Ustra foi apontado publicamente como torturador pela atriz Bete Mendes, ex-militante da VAR-Palmares.<br \/>\nA inten\u00e7\u00e3o da carta \u00e9 rebater \u201cas cal\u00fanias jogadas sobre um homem bom\u201d que lutou numa guerra contra terroristas.<br \/>\nO texto resume a tese que depois seria sustentada no livro \u201cRompendo o Sil\u00eancio\u201d, que Ustra escreveu logo depois. \u201cEstes terroristas obrigaram as For\u00e7as Armadas a se lan\u00e7arem as ruas e aos campos, contra o inimigo desconhecido que se escondia na clandestinidade\u201d.<br \/>\n\u201cHouve a guerra e em uma guerra h\u00e1 mortos e feridos, mas os militares n\u00e3o a queriam nem iniciaram\u201d.<br \/>\nPara demonstrar que havia um tratamento humanit\u00e1rio aos presos, descreve uma \u201cpequena obra assistencial a algumas presas mais ou menos seis, uma inclusive gr\u00e1vida\u201d. Ela levava a filha, com tr\u00eas anos. \u201cIamos quase todos os dias. Tu brincavas com algumas, enquanto eu, com outras, ensinava trabalhos manuais, como tric\u00f4, croch\u00ea e tape\u00e7aria. Passe\u00e1vamos ao sol, convers\u00e1vamos (jamais sobre pol\u00edtica), levava tortas para o lanche, feitas pela minha empregada. Enfim as acompanh\u00e1vamos\u201d.<br \/>\nFizemos sapatinhos, casaquinhos, mantinhas para o beb\u00ea e com uma lista feita no DOI pelo `torturador` Ustra, compramos um presente para o beb\u00ea. Ele nasceu no Hospital das Cl\u00ednicasem outubro de 1973 ou 1972, tendo o \u201ccentro de torturas\u201d mandado flores \u00e0 m\u00e3e e\u00a0 eu e tu, Patr\u00edcia, fomos visit\u00e1-los. Era um homenzinho lindo e forte\u201d.<br \/>\n\u201cMinhas filhas, os anivers\u00e1rios delas eram sempre comemorados com bolos e festinhas. Os Natais e Anos Novos jaimais passamos em casa durante os quatro anos que o pai de voc\u00eas comandou o DOI, sempre foram passados l\u00e1 (o pai, eu e tu Patricia, Renata n\u00e3o era nascida) Tu, Patricia, \u00e0s vezes a pedido das presas ficavas sozinha com elas. Da\u00ed o artigo \u201cBrinquedo Macabro\u201d, do jornalista Moacyr O. Filho, que diz que teu pai te deixava com as presas que acabavam de ser torturadas\u201d.<br \/>\nUstra morreu no dia 15 de outubro de 2015, aos 83 anos. Estava internado no Hospital Santa Helena em Brasilia, para tratamento de um c\u00e2ncer.<br \/>\nO\u00a0coronel reformado\u00a0fazia quimioterapia e estava com a imunidade baixa.<br \/>\nNos per\u00edodo em que comandou o\u00a0Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es do Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (DOI-Codi),\u00a0na d\u00e9cada de 1970,\u00a0em S\u00e3o Paulo, 502 pessoas teriam sido torturadas \u00a0e 50 no local.<br \/>\nUstra\u00a0sempre\u00a0negou todas as acusa\u00e7\u00f5es, apesar dos in\u00fameros relatos de ex-presos e at\u00e9 de ex-agentes. Em sua \u00faltima entrevista ao jornal ZH, ele admitiu \u201cexcessos\u201d, o que para o presidente do\u00a0Movimento de Justi\u00e7a e Direitos Humanos (MJDH), Jair Krischke, foi uma &#8220;confiss\u00e3o de um contumaz torturador&#8221;.<br \/>\n<figure id=\"attachment_25498\" aria-describedby=\"caption-attachment-25498\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-25498 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/909275-ustra_protesto_2.jpg\" alt=\"Bras\u00edlia - Integrantes do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) protestaram com faixas e cartazes em frente a casa do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra (Fabio Rodrigues Pozzebom\/Ag\u00eancia Brasil)\" width=\"700\" height=\"466\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-25498\" class=\"wp-caption-text\">Protestos em frente a casa do coronel\/Fabio Rodrigues Pozzebom\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<figure id=\"attachment_25499\" aria-describedby=\"caption-attachment-25499\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-25499 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/909296-manifestacao_congresso_50_anos_golpe_64_mpa-6946.jpg\" alt=\"Bras\u00edlia - Movimentos sociais fazem manifesta\u00e7\u00e3o em frente ao Congresso Nacional, lembrando os 50 anos do golpe militar que deu in\u00edcio \u00e0 ditadura no Brasil, em 1964 (Fabio Rodrigues Pozzebom\/Ag\u00eancia Brasil)\" width=\"700\" height=\"504\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-25499\" class=\"wp-caption-text\">Manifesta\u00e7\u00e3o em frente ao Congresso Nacional,\/Fabio Rodrigues Pozzebom\/Ag Brasil<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<span class=\"intertit\">Ustra: um corpo sem dignidade<\/span><br \/>\n<span class=\"assina\">Renan Quinalha <\/span><br \/>\n<span class=\"assina\">Advogado<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">OBITU\u00c1RIO COM HURRAS, de Mario Benedetti<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">(&#8230;)<br \/>\nviva<br \/>\nmorreu o cretino<br \/>\nvamos festej\u00e1-lo<br \/>\ne n\u00e3o chorar como de h\u00e1bito<br \/>\nque chorem os que s\u00e3o como ele<br \/>\ne que engulam suas l\u00e1grimas<br \/>\nfoi-se embora o monstro magnata<br \/>\nacabou-se para sempre<br \/>\nvamos festej\u00e1-lo<br \/>\nsem ficar mornos<br \/>\nsem acreditar que este<br \/>\n\u00e9 um morto qualquer<br \/>\nvamos festej\u00e1-lo<br \/>\nsem ficar frouxos<br \/>\nsem esquecer que este<br \/>\n\u00e9 um morto de merda<\/p>\n<p>Ustra morreu hoje. Com 83 anos, faleceu tranquilamente em um hospital, com tratamento m\u00e9dico adequado e na companhia de sua fam\u00edlia. Em tudo o oposto do sofrimento atroz que impingiu \u00e0s suas v\u00edtimas e seus familiares<br \/>\nCoronel da ditadura, Ustra comandou o principal centro clandestino de deten\u00e7\u00e3o e tortura brasileiro. No DOI-CODI de S\u00e3o Paulo, onde era conhecido como \u2018major Tibiri\u00e7\u00e1\u2019, pelas suas m\u00e3os sujas de sangue, entre 1970 e 1974, passaram ao menos 50 pessoas que foram mortas ou est\u00e3o at\u00e9 hoje desaparecidas, al\u00e9m de mais de 500 pessoas torturadas barbaramente.<br \/>\nSua fam\u00edlia ter\u00e1 um corpo presente para velar e consumar o luto da sua perda. N\u00e3o ser\u00e1 um corpo torturado como o dos milhares de presos pol\u00edticos, que passaram pelos c\u00e1rceres ilegais da ditadura brasileira. N\u00e3o ser\u00e1 um corpo enforcado como o de\u00a0Vladimir Herzog. N\u00e3o ser\u00e1 um corpo desfigurado como o de\u00a0Eduardo Leite\u00a0(Bacuri). N\u00e3o ser\u00e1 um corpo mutilado, como o de\u00a0Luiz Eduardo da Rocha\u00a0Merlino. N\u00e3o ser\u00e1 um corpo desaparecido, como o de Hirohaki Torigoe. N\u00e3o ser\u00e1 um corpo baleado, como o de\u00a0Carlos Marighella. N\u00e3o ser\u00e1 um corpo sepultado como indigente ou com nome falso, como no caso de\u00a0Luiz Eurico Tejera Lisboa. N\u00e3o ser\u00e1 um corpo jogado em uma vala comum, como o de\u00a0Fl\u00e1vio Carvalho Molina. N\u00e3o ser\u00e1 um corpo enterrado e desenterrado diversas vezes para depois ser atirado no alto mar, como o de Rubens Paiva.<br \/>\nOs m\u00e9dicos que trataram do Ustra n\u00e3o faltar\u00e3o com a verdade, ao contr\u00e1rio dos peritos e legistas que o auxiliaram a encobrir seus crimes na ditadura. Seu atestado de \u00f3bito n\u00e3o ser\u00e1 forjado com vers\u00e3o falsa da causa mortis como \u201catropelamento\u201d, como no caso de\u00a0Alexandre Vannucchi Leme, \u201ctentativa de fuga\u201d, como no caso de\u00a0\u00a0Luiz Hirata, \u201ctiroteio\u201d, como no caso de\u00a0Sonia Maria de Moraes Angel Jones, ou \u201csuic\u00eddio\u201d, como no caso de\u00a0Manoel Fiel Filho.<br \/>\nTampouco constar\u00e1, neste documento, uma morte fict\u00edcia e n\u00e3o esclarecida como nos atestados emitidos conforme a Lei dos Desaparecidos Pol\u00edticos (Lei 9.140 de 1995).<br \/>\nMas seu corpo, que ser\u00e1 enterrado ou cremado inteiro, com atestado de \u00f3bito verdadeiro, com todos os cuidados m\u00e9dicos e na companhia de seus familiares que dele poder\u00e3o se despedir \u00e9 um corpo sem dignidade. \u00c9 o corpo de um torturador covarde. \u00c9 o corpo de um violador dos direitos humanos. \u00c9 o corpo de algu\u00e9m que matou, torturou, desapareceu e ainda achava que agiu corretamente. Morre reivindicando seus atos em gozo da liberdade e da impunidade que os verdugos n\u00e3o merecem. \u00c9 o corpo impune que atesta a falta de justi\u00e7a da nossa democracia.<br \/>\nAo menos ele foi um dos 377 torturadores reconhecidos oficialmente pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade e tamb\u00e9m foi declarado torturador pelo Judici\u00e1rio paulista em hist\u00f3rica a\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Teles.<br \/>\nOutros assassinos da ditadura ainda est\u00e3o vivos. Cabe agora ao Judici\u00e1rio parar de torturar a justi\u00e7a e a verdade. Que a lembran\u00e7a dos nomes daqueles e daquelas que tombaram resistindo \u00e0 ditadura e que foram v\u00edtimas diretas da viol\u00eancia do Ustra n\u00e3o nos permita esquecer esse passado e nos motive a lutar ainda mais pela justi\u00e7a.<br \/>\nAlceri Maria Gomes da Silva, Alex de Paula Xavier Pereira, Alexander Jos\u00e9 Ibsen Voer\u00f5es, Alexandre Vannucchi Leme, Ana Maria Nacinovic Corr\u00eaa, \u00c2ngelo Arroyo, Ant\u00f4nio Benetazzo, Ant\u00f4nio Carlos Bicalho Lana, Ant\u00f4nio S\u00e9rgio de Mattos, Arnaldo Cardoso Rocha, Aylton Adalberto Mortati, Carlos Nicolau Danielli\u00a0(Carlinhos), Dorival Ferreira, Edson Neves Quaresma, Eduardo Ant\u00f4nio da Fonseca, Emmanuel Bezerra dos Santos, Fl\u00e1vio Carvalho Molina, Francisco Jos\u00e9 de Oliveira\u00a0(Chico Dial\u00e9tico), Francisco Seiko Okama, Frederico Eduardo Mayr, Gelson Reicher, Gerardo Magela Fernandes Torres da Costa, Grenaldo de Jesus da Silva, Helber Jos\u00e9 Gomes Goulart, H\u00e9lcio Pereira Fortes, Hiroaki Torigoe, Iuri Xavier Pereira, Jo\u00e3o Batista Franco Drummond, Jo\u00e3o Carlos Cavalcanti Reis, Joaquim Alencar de Seixas, Joelson Crispim, Jos\u00e9 Ferreira de Almeida, Jos\u00e9 Id\u00e9sio Brianezi, Jos\u00e9 J\u00falio de Ara\u00fajo, Jos\u00e9 Maria Ferreira Ara\u00fajo, Jos\u00e9 Maximino de Andrade Netto, Jos\u00e9 Milton Barbosa, Jos\u00e9 Roberto Arantes de Almeida, Lauriberto Jos\u00e9 Reyes, Luiz Eduardo da Rocha Merlino, Luiz Eurico Tejera Lisboa, Luiz Jos\u00e9 da Cunha, Manoel Fiel Filho, Manoel Lisboa de Moura, Manuel Jos\u00e9 Nunes Mendes de Abreu, Marcos Nonato da Fonseca, Norberto Nehring, Pedro Ventura Felipe de Ara\u00fajo Pomar, Raimundo Eduardo da Silva, Roberto Macarini, Ronaldo Mouth Queiroz, Rui Osvaldo Aguiar Pf\u00fctzenreuter, S\u00f4nia Maria Lopes de Moraes Angel Jones, Virg\u00edlio Gomes da Silva, Vladimir Herzog e Yoshitane Fujimori<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, primeiro militar reconhecido pela Justi\u00e7a como torturador depois da Ditadura de 1964, criou e comandou, de outubro de 1970 a dezembro de 1973, o maior centro de repress\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds, o DOI CODI, de S\u00e3o Paulo. 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