{"id":26164,"date":"2015-11-09T21:07:56","date_gmt":"2015-11-10T00:07:56","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=26164"},"modified":"2015-11-09T21:07:56","modified_gmt":"2015-11-10T00:07:56","slug":"neto-de-jango-atende-na-rocinha-pelo-mais-medicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/neto-de-jango-atende-na-rocinha-pelo-mais-medicos\/","title":{"rendered":"Neto de Jango atende na Rocinha pelo &quot;Mais M\u00e9dicos&quot;"},"content":{"rendered":"<p><em>Por\u00a0Felipe Betim, para o\u00a0El Pa\u00eds<\/em><br \/>\nO doutor Jo\u00e3o Marcelo Viera Goulart, de 26 anos, atende seus pacientes em uma pequena sala do primeiro andar do rec\u00e9m reformado edif\u00edcio do Centro Municipal de Sa\u00fade Dr. Albert Sabin.<br \/>\nTrabalha de oito da manh\u00e3 \u00e0s cinco da tarde neste centro, que \u00e9 voltado para a aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, ao lado de outros m\u00e9dicos, enfermeiros e agentes comunit\u00e1rios \u2014muitos j\u00e1\u00a0velhos de guerra\u2014 para garantir a sa\u00fade b\u00e1sica dos milhares de moradores da favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro.<br \/>\nJo\u00e3o \u00e9 apenas mais um m\u00e9dico que, como todos os demais, preza pela sa\u00fade de seus pacientes. Mas um detalhe de sua vida chama aten\u00e7\u00e3o: ele \u00e9 um dos oito netos do ex-presidente\u00a0Jo\u00e3o Goulart (Jango), deposto pelo golpe militar de 1964.<br \/>\n&#8220;Minha fam\u00edlia tem uma hist\u00f3ria pol\u00edtica. Nasci e fui criado neste meio&#8221;, resume, de forma discreta, sobre suas origens.<br \/>\nSeu pai,\u00a0Jo\u00e3o Vicente Goulart, \u00e9 presidente do\u00a0instituto\u00a0que leva o nome do ex-mandat\u00e1rio e trabalha para levantar um memorial em homenagem a ele.<br \/>\nComo Jo\u00e3o, neto de um ex-presidente, foi parar em uma favela carioca atrav\u00e9s de um programa do Governo Federal, fazendo um trabalho t\u00e3o silencioso quanto nobre para a popula\u00e7\u00e3o da comunidade?<br \/>\nA trajet\u00f3ria deste ga\u00facho \u2014&#8221;mas nasci no Maranh\u00e3o por acidente!&#8221;\u2014 vem sendo uma aventura.<br \/>\nAo assumir &#8220;certa maturidade, certa vis\u00e3o de mundo&#8221;, e se dar conta das insistentes injusti\u00e7as sociais do Brasil, viu que a sua luta n\u00e3o era atrav\u00e9s da pol\u00edtica partid\u00e1ria, mas sim da medicina.<br \/>\nAo terminar o ensino m\u00e9dio no Rio de Janeiro, decidiu de cara ir estudar aonde, para ele, est\u00e1 a melhor medicina do mundo: Cuba.<br \/>\nA raz\u00e3o \u00e9 simples: o pa\u00eds \u2014quest\u00f5es pol\u00edticas \u00e0 parte, cabe ressaltar\u2014 est\u00e1 entre os que possuem os melhores indicadores de sa\u00fade do mundo, segundo aOrganiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade\u00a0(OMS), por desenvolver h\u00e1 d\u00e9cadas uma medicina voltada para a preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as e promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, tamb\u00e9m conhecida como medicina de fam\u00edlia.<br \/>\nL\u00e1, doen\u00e7as como a\u00a0tuberculose\u00a0foram praticamente erradicadas, enquanto que o \u00edndice de mortalidade infantil \u00e9 baix\u00edssimo.<br \/>\nJo\u00e3o queria beber desta fonte. E chega a ser curioso: seu av\u00f4 foi deposto, entre outras raz\u00f5es, por ser considerado um comunista, ao tentar implementar v\u00e1rias pol\u00edticas sociais no pa\u00eds. Mas foi o seu neto que efetivamente se aproximou de Cuba para buscar no pa\u00eds um exemplo de sistema p\u00fablico de sa\u00fade e de medicina a serem aplicados no pa\u00eds.<br \/>\nAo terminar o ensino m\u00e9dio, ele se inscreveu no projeto ELAM (Escuela Latinoamericana de Medicina), promovido pelo Governo cubano para formar mais de 20.000 m\u00e9dicos latino-americanos sem nenhum custo na Ilha.<br \/>\n&#8220;Eles davam tudo: livros, alimenta\u00e7\u00e3o, moradia, desodorante, papel higi\u00eanico, sabonete. Tudo mesmo&#8221;, conta. &#8220;J\u00e1 no primeiro ano temos aulas pr\u00e1ticas nos consult\u00f3rios de medicina da fam\u00edlia e policl\u00ednicas. No terceiro, aula te\u00f3rica e pr\u00e1tica dentro de hospital para ver de perto complica\u00e7\u00f5es cardiovasculares, AVC, trabalho em UTI&#8221;.<br \/>\nAp\u00f3s seis anos e meio morando na Ilha, onde conheceu sua esposa, a equatoriana e tamb\u00e9m estudante de medicina Sandra, Jo\u00e3o decidiu regressar para o Brasil para aplicar seus conhecimentos no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS).<br \/>\nSua volta, em julho de 2013, coincidiu com o lan\u00e7amento do programa\u00a0Mais M\u00e9dicos, que tem o objetivo de levar doutores, muitos deles formados no exterior, brasileiros ou estrangeiros, a lugares do pa\u00eds com car\u00eancia de profissionais.<br \/>\n&#8220;Foi tudo muito r\u00e1pido: me formei, fiz a inscri\u00e7\u00e3o no programa, vim pra c\u00e1, revalidei meu diploma, e me inseri no programa&#8221;. Ap\u00f3s uma temporada no munic\u00edpio de Duque de Caxias, onde trabalhava com sua esposa e outros colegas latino-americanos, finalmente foi transferido para a Rocinha.<br \/>\n<span class=\"intermenos\">A import\u00e2ncia da Aten\u00e7\u00e3o Prim\u00e1ria<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nO neto de Jango tem uma ambi\u00e7\u00e3o pessoal: participar da implementa\u00e7\u00e3o do programa\u00a0Sa\u00fade da Fam\u00edlia\u00a0no pa\u00eds, uma estrat\u00e9gia do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade que, desde os anos 1990, tem o objetivo de expandir a rede de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria em todo o territ\u00f3rio nacional atrav\u00e9s, sobretudo, de incentivos aos Estados e Munic\u00edpios.<br \/>\nNa Rocinha, o doutor Jo\u00e3o aplica o que, para ele, \u00e9 a ess\u00eancia da medicina: o exame f\u00edsico, a conversa com o paciente e o acompanhamento constante para prevenir, diagnosticar e tratar doen\u00e7as, principalmente as cr\u00f4nicas como diabetes, hipertens\u00e3o, entre outras. &#8220;85% dos problemas se resolvem com a aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, segundo v\u00e1rios estudos&#8221;, argumenta.<br \/>\n&#8220;H\u00e1 pessoas desse pa\u00eds que, com 80 anos, nunca viram um m\u00e9dico. E claro que nesses lugares n\u00e3o tem infraestrutura! Mas se voc\u00ea coloca um profissional no lugar e desenvolve a medicina da fam\u00edlia, boa parte dos problemas dessa comunidade ser\u00e3o resolvidos. E a\u00ed vai come\u00e7ar a surgir demanda de aparelho raio-X e outros equipamentos&#8221;.<br \/>\nJo\u00e3o tamb\u00e9m quer lutar contra uma medicina que, para ele, \u00e9 demasiada voltada para o mercado.<br \/>\nEm sua opini\u00e3o, o principal obst\u00e1culo a ser vencido \u00e9 o da forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, que deveria ser mais &#8220;humanit\u00e1ria&#8221;. &#8220;Quando o aluno vai para a pr\u00e1tica, vai direto para o hospital ver o AVC, o infarto, a insufici\u00eancia renal&#8230; Mas n\u00e3o vai aprender o que deveria ter sido feito para que o paciente n\u00e3o estivesse ali. Que \u00e9 a preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a, a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e o acompanhamento cont\u00ednuo do doente cr\u00f4nico&#8221;, detalha.<br \/>\n&#8220;O problema \u00e9 que aqui o estudante se forma j\u00e1 pensando na especialidade que vai fazer para logo abrir o seu consult\u00f3rio particular. Esta \u00e9 a realidade&#8221;.<br \/>\nEsta forma\u00e7\u00e3o se traduz em uma cultura m\u00e9dica &#8220;mercantilista&#8221;, na qual o m\u00e9dico, muitas vezes sem examinar o paciente, pede &#8220;mil exames&#8221; e resson\u00e2ncias por uma dor no joelho; ou na qual uma pessoa vai direto para um hospital por qualquer mal-estar, explica.<br \/>\nTrata-se, em sua vis\u00e3o, de um paradigma que deve ser superado, o que inclusive tornaria o SUS mais barato e eficiente. &#8220;Ao investir em medicina preventiva, voc\u00ea economiza em rem\u00e9dio, em exames, em interna\u00e7\u00e3o&#8230; Tudo isso \u00e9 muito caro&#8221;.<br \/>\nJo\u00e3o \u00e9 otimista. Acredita que o SUS vem melhorando desde que foi criado, em 1988, ainda que falte incentivo ao sistema publico, infraestrutura de qualidade e est\u00edmulo \u00e0 carreira no setor p\u00fablico.<br \/>\nSobre seu futuro, conta que est\u00e1 fazendo especializa\u00e7\u00e3o em aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e sa\u00fade da fam\u00edlia na UERJ, e que seu contrato com o\u00a0Mais M\u00e9dicos\u00a0termina no ano que vem. Diz que seria &#8220;excelente&#8221; continuar trabalhando na Rocinha, mas sua prioridade \u00e9 fazer um mestrado em gest\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica.<br \/>\nMaria Helena, diretora do centro no qual trabalha, confia em que continuar\u00e1 contando com os servi\u00e7os do doutor Jo\u00e3o. Com um tapa em suas costas e um abra\u00e7o, diz: &#8220;Ah, mas voc\u00ea vai continuar com a gente n\u00e9?&#8230; Nosso Jo\u00e3o!&#8221;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Felipe Betim, para o\u00a0El Pa\u00eds O doutor Jo\u00e3o Marcelo Viera Goulart, de 26 anos, atende seus pacientes em uma pequena sala do primeiro andar do rec\u00e9m reformado edif\u00edcio do Centro Municipal de Sa\u00fade Dr. Albert Sabin. 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