{"id":264,"date":"2006-09-22T15:31:27","date_gmt":"2006-09-22T18:31:27","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=264"},"modified":"2006-09-22T15:31:27","modified_gmt":"2006-09-22T18:31:27","slug":"um-pais-tropical-abencoado-por-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/um-pais-tropical-abencoado-por-deus\/","title":{"rendered":"Um pa\u00eds tropical, aben\u00e7oado por Deus"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/cultura2\/med_copesulcultural.jpg?0.8025879134999134\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"350\" height=\"233\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\"><strong>O m\u00fasico e ensa\u00edsta Jos\u00e9 Miguel Wisnik, o cr\u00edtico de cinema Pedro Butcher e o diretor de teatro Z\u00e9 Celso Martinez (Fotos: Cleber Passus\/Divulga\u00e7\u00e3o\/J\u00c1)<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Naira Hofmeister<\/strong><br \/>\nO caldeir\u00e3o de tend\u00eancias, por vezes antag\u00f4nicas ou n\u00e3o lineares, \u00e9 a g\u00eanese da cultura brasileira, contempor\u00e2nea mesmo em sua origem. Essa pode ser a s\u00edntese das palestras que Z\u00e9 Celso Martinez, Jos\u00e9 Miguel Wisnik e Pedro Butcher realizaram dentro do Projeto Copesul Cultural, na noite de ter\u00e7a-feira, 19, cujo tema era Brasil Contempor\u00e2neo.<br \/>\nA primeira interven\u00e7\u00e3o, de Pedro Butcher, teve como alvo a constru\u00e7\u00e3o do Cinema Brasileiros no s\u00e9culo 20 e as perspectivas para os pr\u00f3ximos anos, principalmente ligadas a tecnologia digital. A seguir, Jos\u00e9 Miguel Wisnik utilizou o futebol como met\u00e1fora da matriz criadora do brasileiro, pouco objetiva mas com um conceito art\u00edstico complexo. Por fim, Z\u00e9 Celso Martinez levou o p\u00fablico \u00e0 loucura, abordando temas diversos como o trabalho que desenvolve no teatro Oficina, legaliza\u00e7\u00e3o das drogas, urbaniza\u00e7\u00e3o ou pol\u00edtica contempor\u00e2nea. \u201cO PT fez um favor \u00e0 sociedade, porque revelou como funciona o sistema realmente\u201d, disse, arrancando aplausos dos espectadores.<br \/>\n<strong><span style=\"color: #cc3300\">Macuna\u00edma e futebol: a evid\u00eancia da arte brasileira<\/span><\/strong><br \/>\nA cultura tupiniquim pode ser compreendida atrav\u00e9s dos tipos liter\u00e1rios que ela mesma produz. Macuna\u00edma, her\u00f3i e vil\u00e3o ao mesmo tempo, representa a matriz sobre a qual se forjou a arte nacional: o que deveria ser considerado defici\u00eancia, acaba originando a singularidade e o espetacular: \u201cEm Garrincha, o que parece faltar, vira a sobra\u201d, anotou Wisnik, que defendeu que o futebol se aproxima enormemente do teatro, por ser o primeiro esporte dedicado \u00e0 plat\u00e9ia, com c\u00f3digos universais que tornam poss\u00edvel sua compreens\u00e3o em qualquer lugar.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/cultura2\/wisnik.jpg?0.13963867563849003\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"350\" height=\"233\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\">Wisnik: a redescoberta\u00a0do&#8217;jeitinho brasileiro&#8217;<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, \u201cn\u00e3o h\u00e1 como falar em futebol, em qualquer parte do mundo, sem considerar a exist\u00eancia do Brasil\u201d, acredita. \u00c9 essa import\u00e2ncia da contribui\u00e7\u00e3o nacional ao desenvolvimento da arte da bola \u2013 na contram\u00e3o do desinteresse e insucesso americano pelo \u2018soccer\u2019 \u2013 que o transforma em via de express\u00e3o da cultura brasileira em toda a parte.<br \/>\nWisnik criou uma rela\u00e7\u00e3o entre arte erudita e a pr\u00e1tica esportiva, que explica a subjetividade da cultura nacional. \u201cO futebol alem\u00e3o \u00e9 uma prosa realista; o italiano, uma prosa estetizante, e o brasileiro pura poesia\u201d. Segundo o pensador, essa caracter\u00edstica po\u00e9tica \u00e9 justamente atravessada pela narrativa que liga o futebol ao teatro. Ambos podem ser \u00e9picos, tr\u00e1gicos, l\u00edricos ou uma par\u00f3dia: n\u00e3o dependem diretamente do resultado final, do n\u00famero \u2013 de gols ou de p\u00fablico \u2013, mas sim, da atua\u00e7\u00e3o de seus integrantes.<br \/>\nEssa uni\u00e3o do popular com o erudito, que se repete na m\u00fasica, por exemplo, n\u00e3o se assemelha a nenhum outro movimento cultural no mundo. A m\u00fasica de beira da praia de Tom Jobim, fortemente influenciada pelo maestro Villa-Lobos, que, por sua vez, foi grande admirador do chor\u00e3o Pixinguinha. \u201cTente explicar essa rela\u00e7\u00e3o para um franc\u00eas&#8230;. nunca v\u00e3o entender\u201d.<br \/>\n<strong><span style=\"color: #cc3300\">No cinema, falta a marca de brasilidade<\/span><\/strong><br \/>\nPedro Butcher deixou clara sua opini\u00e3o de que, ao menos no cinema, o Brasil n\u00e3o conseguiu impor sua personalidade. \u00c0 exce\u00e7\u00e3o do Cinema Novo \u2013 liderado por Glauber Rocha na efervescente d\u00e9cada de 60 \u2013 , a s\u00e9tima arte nacional n\u00e3o imprimiu originalidade ao produto. Ao mesmo tempo que n\u00e3o soube reinvent\u00e1-lo a partir dos modelos j\u00e1 existentes, como fizeram os filmes de a\u00e7\u00e3o asi\u00e1ticos, que \u201cobrigaram a industria americana a remoldar-se\u201d.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/cultura2\/butcher.jpg?0.9725421002082613\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"187\" height=\"280\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\">Pedro Butcher criticou a falta de identidade do cinema nacional<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Para o cr\u00edtico de cinema, a melhor caracter\u00edstica da atual fase brasileira de produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica \u00e9 a tend\u00eancia \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o, desenhada pelas tecnologias digitais e a facilidade de acesso. \u201cA nova hegemonia da Rede Globo \u00e9\u00a0 mastod\u00f4ntica e corre s\u00e9rio risco de se destruir quando houver um enorme espa\u00e7o a se preencher\u201d, disse.<br \/>\n\u00c9 tamb\u00e9m a Internet que possibilita o acesso as grandes referencias do cinema. \u201cVejo muitos jovens cr\u00edticos de cinema \u2013 gente de 20 anos \u2013 que tem um largo conhecimento, que, na minha \u00e9poca, s\u00f3 podia ser atualizado atrav\u00e9s dos cineclubes\u201d.<br \/>\n<strong><span style=\"color: #cc3300\">Z\u00e9 Celso \u00e9 a contemporaneidade em pessoa<\/span><\/strong><br \/>\nSe a contemporaneidade nada mais \u00e9 do que uma intensa e constante tens\u00e3o entre as diversas tend\u00eancias, ela est\u00e1 presente na arte brasileira desde sempre, que se constituiu a partir da diversidade. E na noite de ter\u00e7a-feira, 19, o p\u00fablico p\u00f4de presenciar uma delas, ao vivo. Z\u00e9 Celso Martinez, antol\u00f3gico diretor teatral que ajudou a fundar o movimento tropicalista com a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, que revolucionou as artes c\u00eanicas, forjando a brasilidade nos palcos.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/cultura2\/zecelso.jpg?0.15006399841034695\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"350\" height=\"233\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\"><strong>Z\u00e9 Celso: a encarna\u00e7\u00e3o da contemporaneidade<\/strong><\/span><\/p>\n<p>E foi no clima tropicalista que ele abriu sua fala: \u201cGosto de ser brasileiro como o Glauber falava: com \u2018Z\u2019 e \u2018Y\u2019\u201d. Z\u00e9 Celso \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o do conceito de contempor\u00e2neo: sabe o que quer dizer, mas fala de uma maneira nada linear e acaba trasnmitindo sua mensagem mesmo sem deixar claro o racioc\u00ednio que pretende fazer.<br \/>\nO artista passeou por diversos assuntos. Atualizou a hist\u00f3ria do Teatro Oficina, que estr\u00e9ia essa semana a montagem completa de Os Sert\u00f5es, de Euclides da Cunha, preparada durante os seis \u00faltimos anos. Cada um dos cinco cap\u00edtulos virou uma noite de espet\u00e1culo, assim que a pe\u00e7a come\u00e7a na quarta-feira e termina num domingo. O mais curto dos textos dura 3h30 e os mais longos (os dois \u00faltimos), 6h.<br \/>\nZ\u00e9 Celso ainda defendeu suas id\u00e9ias de cria\u00e7\u00e3o, por parte do Oficina, do Teatro Est\u00e1dio \u2013 \u201cporque a arte chega sim \u00e0 multid\u00e3o \u2013 e\u00a0 da Pluriversidade Brasileira \u2013 \u201cpara formar l\u00edderes\u201d. Cantou Primavera, como se fosse uma ode \u00e0 esperan\u00e7a, em homenagem \u00e0 nova esta\u00e7\u00e3o que chega, ao colega e amigo Wisnik \u2013 autor da can\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCutucou a classe pol\u00edtica, defendendo que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), as maiores fac\u00e7\u00f5es do crime organizado em S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro \u201cdemonstram que ainda h\u00e1 vida no pa\u00eds\u201d. \u201c\u00c9 imposs\u00edvel viver sob o dom\u00ednio do capitalismo, onde tudo se reduz a guetos, e as pessoas est\u00e3o proibidas de se encontrar\u201d, atacou. E completou \u201cNossa l\u00edngua permitiu a aproxima\u00e7\u00e3o entre PODER e PHODER, com PH mesmo, que e a mesma coisa!\u201d.<br \/>\nAinda falando sobre marginalidade, Z\u00e9 Celso foi aplaudido ao defender a legaliza\u00e7\u00e3o das drogas, sob o argumento de que morre-se muito menos de overdose do que de tiro: \u201cA droga n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o policial, \u00e9 sim, cultural e educacional\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O m\u00fasico e ensa\u00edsta Jos\u00e9 Miguel Wisnik, o cr\u00edtico de cinema Pedro Butcher e o diretor de teatro Z\u00e9 Celso Martinez (Fotos: Cleber Passus\/Divulga\u00e7\u00e3o\/J\u00c1) Naira Hofmeister O caldeir\u00e3o de tend\u00eancias, por vezes antag\u00f4nicas ou n\u00e3o lineares, \u00e9 a g\u00eanese da cultura brasileira, contempor\u00e2nea mesmo em sua origem. 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