{"id":26441,"date":"2015-11-14T14:11:15","date_gmt":"2015-11-14T17:11:15","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=26441"},"modified":"2015-11-14T14:11:15","modified_gmt":"2015-11-14T17:11:15","slug":"por-que-e-tao-dificil-tirar-dinheiro-dos-ricos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/por-que-e-tao-dificil-tirar-dinheiro-dos-ricos\/","title":{"rendered":"Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil tirar dinheiro dos ricos"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Sergio Lagranha<\/span><br \/>\n<span class=\"entreperg\">Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil tirar dinheiro dos ricos?<\/span><br \/>\nJoseph Stiglitz, Pr\u00eamio Nobel de Economia em 2001, 72 anos, esteve no Brasil no in\u00edcio de novembro para participar do Fronteiras do Pensamento, em S\u00e3o Paulo. Professor da Universidade de Columbia, em Nova York, Stiglitz \u00e9 autor de trabalhos fundamentais como \u201cRumo a um novo paradigma\u201d e mais recentemente \u201cO pre\u00e7o da desigualdade\u201d, sobre a mais nova crise do capitalismo, que come\u00e7ou com a quebra dos mercados em 2008.<br \/>\nJuntamente com o franc\u00eas Thomas Piketty (O Capital), \u00e9 uma das principais vozes que entende que a quest\u00e3o distributiva est\u00e1 no cerne da an\u00e1lise econ\u00f4mica. Os vultosos desequil\u00edbrios que se manifestaram nos mercados financeiros, na cota\u00e7\u00e3o internacional do petr\u00f3leo e nos mercados imobili\u00e1rios durante as \u00faltimas d\u00e9cadas puseram em xeque a ideia de converg\u00eancia inexor\u00e1vel para a trajet\u00f3ria de crescimento equilibrado.<br \/>\nJoseph Stiglitz foi o entrevistado do Espa\u00e7o P\u00fablico, da TV Brasil, apresentado pelos jornalistas Paulo Moreira Leite e Florestan Fernandes J\u00fanior. Abaixo, partes fundamentais de sua entrevista:<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Conselho \u00e0 presidente Dilma Rousseff<\/span><br \/>\nAcho que o Brasil deveria se comprometer com as pol\u00edticas desenvolvidas nos \u00faltimos 20 anos, que come\u00e7aram com o presidente Fernando Henrique Cardoso e continuaram o presidente Lula. Melhorar a educa\u00e7\u00e3o, expandir o Bolsa Fam\u00edlia, combater a fome. O Brasil \u00e9 um exemplo de combate eficaz \u00e0s desigualdades. V\u00ea-se pelas estat\u00edsticas. \u00c9 surpreendente.<br \/>\nEm um curto per\u00edodo, percebe-se uma grande redu\u00e7\u00e3o na desigualdade. \u00c9 uma grande conquista. A quest\u00e3o \u00e9 como dar continuidade. Segundo voc\u00eas, uma das raz\u00f5es para o sucesso foi a redu\u00e7\u00e3o do desemprego. Com a gente n\u00e3o foi diferente. Por\u00e9m, o que me preocupa hoje \u00e9 que voc\u00eas estejam impondo pol\u00edticas de austeridade, com cortes que sem d\u00favida aumentar\u00e3o a taxa de desemprego e aumentar\u00e3o as desigualdades.<br \/>\nH\u00e1 um aspecto da economia brasileira que deveria ser investigado mais a fundo. Refiro-me ao setor financeiro. O Brasil \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o. Talvez n\u00e3o de uma forma para se orgulhar. O Brasil tem sim umas institui\u00e7\u00f5es muito boas, que s\u00e3o respeitadas no mundo inteiro como o BNDES, um dos primeiros bancos de desenvolvimento, que \u00e9 usado em toda parte como modelo do que vale a pena imitar. O novo banco de desenvolvimento dos BRICS, o AIIB (Asian Infrastructure Investment Bank), todos usam o BNDES como modelo.<br \/>\nNo entanto, as entidades privadas do setor financeiro cobram as maiores taxas de juros do mundo. As taxas de juros sufocam a economia e acabam com o or\u00e7amento, tiram dinheiro que poderia ser usado para o crescimento, para combater desigualdades, para resolver diversos problemas.<br \/>\nQuero tentar colocar isso em uma perspectiva hist\u00f3rica. Voltemos aos Estados Unidos ao final da Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, a d\u00edvida p\u00fablica em rela\u00e7\u00e3o ao PIB era de 130%. Provavelmente mais que o dobro da d\u00edvida do Brasil. A maioria das pessoas veria nisso um desastre. Mas n\u00f3s n\u00e3o encaramos como um desastre. Dissemos: Alcan\u00e7aremos a sustentabilidade n\u00e3o com cortes em investimentos, mas aumentando os investimentos, para fazer o PIB crescer. Se o PIB cresce, a d\u00edvida p\u00fablica diminui. Usamos essa estrat\u00e9gia.<br \/>\nDemos educa\u00e7\u00e3o gratuita, a todos que lutaram na guerra. N\u00e3o durante dois ou quatro anos, mas at\u00e9 que estivessem qualificados. N\u00e3o nas escolas ruins, mas nas melhores e mais caras. Em Harvard, Columbia e de gra\u00e7a. Quer\u00edamos a economia crescendo com oportunidade para todos. Criamos um programa nacional de rodovias. Precis\u00e1vamos do pais unido.<br \/>\nAs ferrovias foram feitas no meio do s\u00e9culo 19. Criamos programas de tecnologia, para garantir que ter\u00edamos a tecnologia mais avan\u00e7ada do mundo. O ponto-chave \u00e9: n\u00e3o fizemos cortes, gastamos. Mas parte do sucesso em reduzir a d\u00edvida p\u00fablica deveu-se \u00e0 queda das taxas de juros. N\u00e3o permitimos que o nosso governo pagasse as taxas exorbitantes que o governo brasileiro paga.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">No Brasil os ganhos de capital n\u00e3o s\u00e3o taxados <\/span><br \/>\n\u00c9 revoltante. Nos EUA, debatemos a cria\u00e7\u00e3o de um sistema tribut\u00e1rio mais justo, segundo o qual a renda de todos deve ser tributada da mesma forma. Por que taxar mais a renda de um trabalhador que a de quem junta cupons ou herdou dinheiro dos pais, que especula no setor imobili\u00e1rio? Por que pagam menos impostos de quem trabalha para viver? N\u00e3o h\u00e1 justificativa. Ent\u00e3o, devemos nos perguntar: podem ao menos nos livrar dessa distor\u00e7\u00e3o e dessa desigualdade? Quando ou\u00e7o falar de pa\u00edses como o Brasil, que n\u00e3o cobram nenhum imposto, n\u00e3o consigo entender.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">For\u00e7a dos bancos nas campanhas pol\u00edticas<\/span><br \/>\nEssa \u00e9 uma luta em todo lugar. Lutamos muito nos EUA para regular os bancos, acabar com os empr\u00e9stimos predat\u00f3rios, com a explora\u00e7\u00e3o. Foi uma grande luta. A sociedade civil engajou-se bastante. Vale dizer que t\u00ednhamos um projeto de lei forte, o Dodd-Frank (fez altera\u00e7\u00f5es no ambiente regulat\u00f3rio financeiro americano) aprovado no governo Obama, em 2010. Havia um equil\u00edbrio de poder entre 350 milh\u00f5es de cidad\u00e3os e 10 bancos. Era basicamente igual. Mas t\u00ednhamos um trunfo.<br \/>\nOlhando para nossa hist\u00f3ria a de voc\u00eas \u00e9 diferente. Houve dois per\u00edodos no passado, quando o interesse corporativo fugiu do controle, quando a desigualdade fugiu do controle. Nesses dois momentos, os eleitores americanos ergueram-se e disseram: \u2018Ainda somos uma democracia. Ainda.\u2019 Eles foram \u00e0s urnas. E ap\u00f3s a Era de Ouro no final do s\u00e9culo 19 instaurou-se uma legisla\u00e7\u00e3o progressista, bipartid\u00e1ria, que abriu a concorr\u00eancia e reduziu o poder monopolista. Funcionou por um tempo.<br \/>\nAp\u00f3s a loucura dos anos 20, com a quebra da Bolsa, a grande depress\u00e3o, aprovamos a Glass-Steagall e o Wagner Act que dava direito de negocia\u00e7\u00e3o aos trabalhadores. Aprovamos a Previd\u00eancia Social que protegia os idosos. Demos uma nova cara aos Estados Unidos. A quest\u00e3o \u00e9: o Brasil precisa de um eleitorado indignado que diga: Olha n\u00e3o h\u00e1 porque o Brasil ser diferente de qualquer outra economia de mercado ou mista. Por que as taxas de juros s\u00e3o exorbitantes? Por que o governo tem que pagar esta taxa?<br \/>\nH\u00e1 diversas formas de reagir nesse cen\u00e1rio. Ao mudar as regras e os controles mudamos o funci0namento do mercado financeiro. Se me pergunto o que minou a confian\u00e7a nos Estados Unidos. Foi o nosso sistema financeiro que provocou a crise global. Depois da crise, o dinheiro voltou para os Estados Unidos. Por que? Foi porque confiavam no nosso sistema banc\u00e1rio? N\u00e3o. Nosso sistema banc\u00e1rio se mostrou incompetente na gest\u00e3o de risco. Seu \u00fanico ponto forte era a explora\u00e7\u00e3o de gente comum na concess\u00e3o de empr\u00e9stimos predat\u00f3rios, cr\u00e9ditos de risco, coisas assim. O dinheiro voltou porque confiavam no nosso governo. Sabiam que o governo apoiaria o sistema financeiro.<br \/>\nBasicamente o Brasil precisa mudar as regras que supervisionam os bancos. Por exemplo: se voc\u00eas exigissem que os bancos recolhessem mais dep\u00f3sitos e os mantivessem em reservas e essas reservas fossem emprestadas ao governo. Isso reduziria o custo da d\u00edvida para o governo brasileiro. \u00c9 uma mudan\u00e7a de regra simples. A maioria dos pa\u00edses exige que o sistema banc\u00e1rio mantenha grandes reservas no Banco Central e emprestam esse dinheiro ao governo, a juros muito baixos ou nulos. Assim, o governo arrecada fundos a juros muito baixos. Ou seja, tudo depende de como definimos as regras do jogo.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O que funciona no mercado financeiro do Brasil \u00e9 o BNDES<\/span><br \/>\nO fato das taxas de juros do Brasil serem t\u00e3o altas deixa as empresas do pa\u00eds em desvantagem competitiva em rela\u00e7\u00e3o ao resto do mundo. Voc\u00eas tiveram resultados bons at\u00e9 demais, considerando as desvantagens competitivas impostas pelo mercado financeiro. Mas precisam reconhecer que h\u00e1 algo errado com o mercado financeiro que p\u00f5e toda a economia do pa\u00eds em tamanha desvantagem.<br \/>\nA \u00fanica parte do mercado financeiro que est\u00e1 funcionando, de certa forma, s\u00e3o os bancos desenvolvimento, como o BNDES. Eles emprestam com juros razo\u00e1veis. Alguns dizem que s\u00e3o subsidiados. N\u00e3o s\u00e3o subsidiados. S\u00e3o taxas de juros normais. S\u00e3o taxas de juros praticadas em qualquer economia normal. A taxa dos t\u00edtulos do Tesouro dos EUA ajustadas \u00e0 infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 em -2%. Ou seja, temos uma taxa de juros negativa, enquanto a taxa real de juros no Brasil \u00e9 bem positiva e elevada. \u00c9 uma concorr\u00eancia desleal. As taxas negativas nos livraram de um desempenho econ\u00f4mico ainda pior do que ter\u00edamos de outra forma.<br \/>\nA economia dos Estados Unidos continua fr\u00e1gil sobretudo a dois fatores: Primeiro, nossa enorme desigualdade, que significa falta de demanda. Quando h\u00e1 muito dinheiro no topo e muito pouco na base, ocorre falta de demanda e isso enfraquece a economia. O segundo fator \u00e9 pol\u00edtico. Temos uma esp\u00e9cie branda de austeridade. Mais branda que a da Europa, Gr\u00e9cia, Espanha e Portugal, mas ainda assim ela existe, e a maioria das pessoas n\u00e3o percebe.<br \/>\nTemos hoje cerca de meio milh\u00e3o de funcion\u00e1rios p\u00fablicos a menos do que t\u00ednhamos antes da crise. Com uma expans\u00e3o regular da nossa economia, ter\u00edamos em m\u00e9dia dois milh\u00f5es de funcion\u00e1rios p\u00fablicos a mais. Uma lacuna de 2,5 milh\u00f5es. \u00c9 um grau s\u00e9rio de austeridade. Mesmo dissimulado, tem debilitado nossa economia. Vemos essa fraqueza refletida em aumentos salariais. Os sal\u00e1rios est\u00e3o quase estagnados. Faz parte da hist\u00f3ria, da enorme luta travada pela classe m\u00e9dia americana.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Ningu\u00e9m constr\u00f3i a vida do zero <\/span><br \/>\nAlgo que chama a aten\u00e7\u00e3o na sociedade de hoje \u00e9 que muitas pessoas que est\u00e3o no topo creem que sua superioridade econ\u00f4mica \u00e9 uma recompensa justa pelo trabalho que fazem. Um candidato \u00e0 presid\u00eancia dos EUA disse que construiu a vida do zero, um self made man. S\u00f3 que ningu\u00e9m constr\u00f3i a vida \u201cdo zero\u201d por defini\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um problema fundamental: todos n\u00f3s nos beneficiamos com a sociedade em que vivemos.<br \/>\nVejo gente que trabalha muito, gente muito talentosa, em outros pa\u00edses, e que n\u00e3o tem dinheiro. Se conseguimos conquistar alguma coisa \u00e9 gra\u00e7as a sociedade em que estamos; como o governo fiscaliza a aplica\u00e7\u00e3o as leis, o usufruto das rodovias p\u00fablicas, todas essas coisas quem nem paramos para pensar, mas s\u00e3o fundamentais para nosso bem-estar. As pessoas precisam entender que n\u00e3o existe prosperidade \u201cdo zero\u201d. Somos todos parte da sociedade. \u00c9 por isso que ser solid\u00e1rio \u00e9 t\u00e3o importante.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Um voto para cada d\u00f3lar <\/span><br \/>\nEssa \u00e9 uma das principais quest\u00f5es que discuto no meu livro \u201cO pre\u00e7o da desigualdade\u201d. H\u00e1 uma conex\u00e3o muito forte entre a desigualdade econ\u00f4mica e pol\u00edtica. Gostamos de pensar em democracia como \u201cum voto para cada pessoa\u201d. Pois eu digo que na democracia americana, e em outros pa\u00edses tamb\u00e9m, tem-se visto, cada vez mais, \u201cum voto para cada d\u00f3lar\u201d.<br \/>\nNos Estados Unidos somos muito abertos, permitimos que as empresas fa\u00e7am doa\u00e7\u00f5es ilimitadas \u00e0s campanhas. E o dinheiro fala mais alto na pol\u00edtica. Nos Estados Unidos, por exemplo, e tamb\u00e9m em outros pa\u00edses, voc\u00eas sabem do Brasil mais do que eu, quem est\u00e1 no topo paga menos impostos que aqueles mais abaixo.<br \/>\nAt\u00e9 Warren Buffett, um dos maiores magnatas dos EUA, chegou a dizer: \u2018Isso est\u00e1 errado.\u2019 Ele achava errado pagar menos impostos que a secret\u00e1ria dele. Mas embora tenha dito isso, e ele \u00e9 uma das vozes honestas que pedem reformas, n\u00e3o mudamos nada.<br \/>\nOu seja, ainda \u00e9 verdade que os especuladores fundi\u00e1rios, que s\u00e3o muito ricos, pagam a metade dos impostos de quem trabalha para viver. Dei um depoimento no Congresso h\u00e1 pouco tempo em uma comiss\u00e3o de republicanos, democratas e independentes e um dos senadores pediu que eu explicasse para ele, para um de seus eleitores, que \u00e9 encanador, por que paga mais impostos que um especulador fundi\u00e1rio. Especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria n\u00e3o gera mais terras. N\u00e3o h\u00e1 nenhum aumento da oferta. Ele diz que n\u00e3o \u00e9 justo e pediu uma explica\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m conseguiu explicar e, ainda assim, o Congresso n\u00e3o muda isso. Nem mesmo o Presidente prop\u00f5e uma mudan\u00e7a.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Nos EUA os sal\u00e1rios dos pobres est\u00e3o mais baixos do que h\u00e1 60 anos<\/span><br \/>\nCerca de 30 anos atr\u00e1s, os Estados Unidos come\u00e7aram uma experi\u00eancia. Se diminuirmos os impostos no topo, acabamos com os controles, a economia cresce mais r\u00e1pido. A desigualdade aumentaria, mas o crescimento seria t\u00e3o grande, que at\u00e9 a classe m\u00e9dia ou baixa se beneficiaria. Mais de 30 anos se passaram desde esse experimento, e ele est\u00e1 falido. S\u00f3 serviu para uma coisa: criar desigualdade. E tornar os Estados Unidos, entre os pa\u00edses desenvolvidos, com maior desigualdade e um dos pa\u00edses com menor igualdade de oportunidades.<br \/>\nInfelizmente, a economia na realidade cresceu mais devagar do que nas d\u00e9cadas ap\u00f3s a Segunda Guerra com a riqueza mais distribu\u00edda. Como resultado, quem est\u00e1 no meio piorou de situa\u00e7\u00e3o de 25 anos para c\u00e1. Quase todo o crescimento de um ter\u00e7o do s\u00e9culo foi direcionado aos 10% do topo. Nas camadas mais baixas os sal\u00e1rios est\u00e3o mais baixos do que h\u00e1 60 anos. Imaginem 60 anos sem aumento para os mais pobres!<br \/>\nInfelizmente os republicanos comprometeram-se ao chamado doubling dow, que significa duplicar uma aposta em uma estrat\u00e9gia malsucedida. Colocar mais dinheiro. O plano n\u00e3o d\u00e1 certo h\u00e1 mais de 30 anos? Ent\u00e3o, n\u00e3o fizemos o suficiente. Reitero a minha an\u00e1lise, que est\u00e1 no livro: se continuarmos assim a desigualdade s\u00f3 vai aumentar e o crescimento diminuir. O argumento que defendo no livro \u201cO pre\u00e7o da desigua\u00e7dade\u201d \u00e9: estamos pagando caro pela desigualdade, pela nova l\u00f3gica \u201cum voto para cada d\u00f3lar\u201d e ainda enfraquecemos nossa economia, que est\u00e1 ficando mais lenta, mais imediatista.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">A desigualdade no centro da discuss\u00e3o<\/span><br \/>\nEsta n\u00e3o \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o da esquerda. O FMI, que n\u00e3o \u00e9 de esquerda, j\u00e1 divulgou pesquisas que mostram que pa\u00edses mais desiguais apresentam desempenho mais baixo, crescem mais devagar, com menos estabilidade. H\u00e1 muitas raz\u00f5es para isso, que minha pesquisa, a do FMI e a da OCDE (Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f3mico) tentam investigar.<br \/>\nA primeira \u00e9 a seguinte: Quando a desigualdade \u00e9 grande, sobretudo em termos de oportunidades, isso significa que as camadas mais baixas est\u00e3o ficando abaixo do potencial. N\u00e3o tem uma educa\u00e7\u00e3o adequada. Na realidade ocorre um mau uso, um subaproveitamento do recurso mais importante: o humano. N\u00e3o \u00e9 aproveitado ao m\u00e1ximo. \u00c9 claro que isso reduz o crescimento.<br \/>\nH\u00e1 outras raz\u00f5es que t\u00eam a ver com o crescimento da desigualdade na maioria dos pa\u00edses e com distor\u00e7\u00f5es da economia, como o poder no monop\u00f3lio, quando presidentes de grandes empresas conseguem ficar com uma fatia t\u00e3o grande da renda da empresa que n\u00e3o sobra nada para investir. Se n\u00e3o h\u00e1 investimento, n\u00e3o h\u00e1 crescimento.<br \/>\nO setor financeiro, uma das maiores fontes da desigualdade, tem tirado dinheiro das empresas em vez de investi-los. Assim surgem as distor\u00e7\u00f5es desses monop\u00f3lios que, na verdade, reduzem o crescimento. Existem ainda outros problemas. O sistema financeiro, fonte de tanta desigualdade, e imediatista e, portanto, n\u00e3o investe em tecnologia, em gente e, como consequ\u00eancia, a economia n\u00e3o se sai muito bem.<br \/>\nMas h\u00e1 ainda uma raz\u00e3o muito importante, que nos leva de volta \u00e0 quest\u00e3o da solidariedade. Para que uma sociedade funcione, \u00e9 necess\u00e1rio que haja um consenso. \u00c9 necess\u00e1rio que haja apoio ao investimento p\u00fablico em infraestrutura, tecnologia, educa\u00e7\u00e3o, tudo que faz a sociedade funcionar. Vivemos numa sociedade urbana e quem vive nesse meio interage muito. Precisamos de \u00e1gua, saneamento, pavimenta\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o h\u00e1 solidariedade social, se n\u00e3o h\u00e1 coes\u00e3o, n\u00e3o haver\u00e1 apoio pol\u00edtico para os investimentos p\u00fablicos, que s\u00e3o essenciais.<br \/>\nUma das raz\u00f5es para essa falta de apoio \u00e9 que quem est\u00e1 no topo n\u00e3o precisa de escola p\u00fablica. N\u00e3o precisa de transporte p\u00fablico. Eles j\u00e1 t\u00eam at\u00e9 helic\u00f3pteros. N\u00e3o precisam de parques, nem de outros servi\u00e7os p\u00fablicos. Eles t\u00eam medo de que, se o governo for forte demais v\u00e1 usar o poder para distribuir renda. N\u00e3o percebem como essa vis\u00e3o \u00e9 estreita porque a \u00fanica prosperidade sustent\u00e1vel e real \u00e9 a prosperidade compartilhada. Quando a sociedade tem mais coes\u00e3o e igualdade at\u00e9 o 1% mais rico se beneficia.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Derrocada nos processos democr\u00e1ticos de Gr\u00e9cia e Portugal<\/span><br \/>\nO que est\u00e1 muito claro \u00e9 que as pol\u00edticas econ\u00f4micas que a troika &#8211; FMI, o banco central europeu e Comiss\u00e3o Europeia &#8211; impuseram sobre Gr\u00e9cia, Portugal e outros pa\u00edses foram um desastre. A consequ\u00eancia veio em forma de depress\u00f5es. Essa austeridade \u00e9 inaceit\u00e1vel. 62% da popula\u00e7\u00e3o dos dois pa\u00edses votaram contra a austeridade. Mas o que se passa na Europa \u00e9 preocupante porque corr\u00f3i a democracia.<br \/>\nNo caso da Gr\u00e9cia, ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es, a troika disse: \u2018a escolha da pol\u00edtica econ\u00f4mica n\u00e3o cabe a voc\u00eas. Voc\u00eas devem nos obedecer.\u2019 Ao entrar na zona do euro, abriram m\u00e3o da autonomia econ\u00f4mica. Em Portugal o presidente se recusa a instalar uma coliga\u00e7\u00e3o que tinha a maioria dos votos. Alega que s\u00e3o contra a zona do euro. Estamos presenciando uma verdadeira derrocada dos processos democr\u00e1ticos nos dois pa\u00edses.<br \/>\nEm linhas gerais o euro era um projeto pol\u00edtico, mas a solidariedade n\u00e3o era forte suficiente para criar institui\u00e7\u00f5es que o fariam funcionar. Por causa disso, desenvolveram um projeto econ\u00f4mico, mas a integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica sobrepujou a pol\u00edtica. Desde a cria\u00e7\u00e3o do euro vemos o resultado que, ao meu ver, foi um desastre t\u00e3o econ\u00f4mico quanto pol\u00edtico. Portanto, eles perderam a soberania econ\u00f4mica.<br \/>\nOutro aspecto preocupante \u00e9 que h\u00e1 muita desonestidade e hipocrisia. O FMI foi bem claro: A d\u00edvida da Gr\u00e9cia precisa ser restruturada. Ela n\u00e3o pode ser paga. N\u00e3o d\u00e1 para tirar dinheiro de onde n\u00e3o existe. O princ\u00edpio de dar a uma empresa, fam\u00edlia ou pa\u00eds a chance de recome\u00e7ar \u00e9 um princ\u00edpio b\u00e1sico da economia. A ONU tem seguido esse princ\u00edpio, mas a Alemanha se recusa a reconhec\u00ea-lo.<br \/>\nO desfecho que prevejo \u00e9 uma esp\u00e9cie de hipocrisia lingu\u00edstica. Far\u00e3o uma \u2018remodelagem\u2019 da d\u00edvida. E qual a diferen\u00e7a entre remodelagem e renegocia\u00e7\u00e3o ou redu\u00e7\u00e3o da d\u00edvida? \u00c9 tudo a mesma coisa, mas os alem\u00e3es n\u00e3o admitem que n\u00e3o ser\u00e3o pagos. E n\u00e3o ser\u00e3o pagos pelo que a Alemanha fez com a Gr\u00e9cia. Se a Alemanha tivesse criado um programa que permitisse o crescimento da Gr\u00e9cia, a Gr\u00e9cia teria condi\u00e7\u00f5es de pagar. A Alemanha, na verdade, matou a Gr\u00e9cia. E agora vai pagar o pato, porque a Gr\u00e9cia n\u00e3o tem dinheiro para pagar a d\u00edvida. Tudo isso aumenta a desigualdade entre os pa\u00edses da Europa e dentro da Europa.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Se voc\u00ea faz parte do 1% mais rico, v\u00e1 para os EUA <\/span><br \/>\nPara mim o ponto-chave \u00e9 que a Guerra Fria acabou; a guerra entre o comunismo e a economia de mercado acabou e agora precisamos reformular a discuss\u00e3o. Que tipo de sociedade \u00e9 esta que temos? Sabemos que, para que uma economia prospere, o mercado precisa ser valorizado. Pode ser uma economia de mercado, mas tamb\u00e9m sabemos que, em toda a economia bem-sucedida, o governo desempenha um papel importante.<br \/>\nQuem incentiva os investimentos dos Estados Unidos na Internet? Todas as grandes inova\u00e7\u00f5es nos EUA tiveram o suporte do governo. Depois as empresas chegam e colocam no mercado, mas foi o governo que fez a pesquisa b\u00e1sica. Portanto, temos o governo, temos o mercado, e temos ainda a sociedade civil. Quais s\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es mais fortes dos Estados Unidos? S\u00e3o as universidades. N\u00e3o visam ao lucro nem s\u00e3o governamentais. Harvard, Columbia, nenhuma tem fins lucrativos. N\u00e3o s\u00e3o nem governo nem mercado. S\u00e3o parte do que eu chamo sociedade civil.<br \/>\nPrecisamos pensar como equilibrar os tr\u00eas. Se houver desequil\u00edbrio, chegamos a uma situa\u00e7\u00e3o em que a sociedade n\u00e3o funciona bem. Foi o que aconteceu nos EUA antes da crise de 2008. Perdemos o equil\u00edbrio, deixamos os mercados livres demais. Todos sofremos as consequ\u00eancias. Ainda sofremos as consequ\u00eancias.<br \/>\nH\u00e1 diversos tipos de economia de mercado. Os pa\u00edses escandinavos t\u00eam conseguido um equil\u00edbrio maior. T\u00eam crescido com mais for\u00e7a e todos os setores da sociedade sentem essa prosperidade. \u00c9 um modelo econ\u00f4mico poss\u00edvel, uma alternativa ao americano, e acho que, sob muitos aspectos, tem funcionado bem melhor para a maioria dos cidad\u00e3os.<br \/>\nSe voc\u00ea faz parte do 1%, v\u00e1 para os EUA, \u00e9 o melhor lugar. Ainda mais se voc\u00ea faz parte do primeiro d\u00e9cimo desse 1%. Mas se voc\u00ea \u00e9 pobre, n\u00e3o \u00e9 o melhor lugar para nascer. Escolha outro lugar para nascer. Esta \u00e9 uma discuss\u00e3o importante para o Brasil e outros pa\u00edses: que tipo de sociedade, que tipo de equil\u00edbrio entre essas tr\u00eas partes da sociedade almejamos.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Per\u00edodo no Conselho Econ\u00f4mico de Bill Clinton <\/span><br \/>\n\u00c9 claro que o primeiro mandato do presidente dos EUA Bill Clinton (1993-1997) foi um per\u00edodo muito bom, quando come\u00e7amos a reduzir a desigualdade, em parte gra\u00e7as ao nosso trabalho, mas gra\u00e7as tamb\u00e9m ao que ocorria na economia mundial. Uma das coisas que fizemos foi ajudar a planejar uma economia voltada ao pleno emprego.<br \/>\nQuero salientar como isso \u00e9 importante, tanto para o crescimento como para a prosperidade partilhada. Porque quando reduzimos a taxa de desemprego \u2013 hoje considera-se aceit\u00e1vel 5% a 6% de desemprego \u2013 cria-se press\u00f5es para aumentar os sal\u00e1rios da base. Isso ajuda as pessoas que est\u00e3o na base. Vimos de forma clara que somente neste per\u00edodo que os grupos sociais marginalizados como os afro-americanos, latinos, come\u00e7aram a ter aumentos salariais.<br \/>\nEssa \u00e9 uma das principais raz\u00f5es para a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade. Justi\u00e7a seja feita, eu era chefe do Conselho de Assessoria Econ\u00f4mica (de 1995 a 1997), e impedimos que certas coisas ruins acontecessem. Depois que sa\u00ed, no segundo mandato de Clinton (1997\u20132001), alguns erros foram cometidos.<br \/>\nE houve, a meu ver, um n\u00famero consider\u00e1vel de erros, isto \u00e9, a desregula\u00e7\u00e3o do setor financeiro, a revoga\u00e7\u00e3o da lei Glass Steagall, que separava os bancos comerciais dos de investimentos. A lei que proibia controlar derivativos, produtos de risco que levaram contribuintes a pagar US$ 180 bilh\u00f5es para salvar uma \u00fanica empresa, a seguradora AIG. Foi inacredit\u00e1vel. Combati esses problemas quando era chefe do conselho.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Bastidores do governo Clinton<\/span><br \/>\nNa verdade, tivemos uma discuss\u00e3o interna no governo de Bill Clinton. O secret\u00e1rio do Tesouro era a favor de revogar a Lei Glass Steagall, mas como economista, n\u00e3o como executivo de Wall Street. Ele veio de Wall Street e voltou para l\u00e1. Eu adotava o ponto de vista da economia, da sociedade como um todo, e disse que aquilo n\u00e3o eram bom, nem para a economia, nem para a sociedade. Eu expliquei os motivos e conseguimos revogar a lei. Mas, no final, as for\u00e7as desregula\u00e7\u00e3o cresceram demais. Aquelas mudan\u00e7as foram feitas e pagamos um pre\u00e7o muito alto, por esse tipo desregula\u00e7\u00e3o do setor financeiro.<br \/>\nOutra coisa aconteceu, enquanto eu ainda chefiava o Conselho de Assessores Econ\u00f4micos. Foi uma batalha que lutei e perdi. Ganhamos algumas, perdemos outras, faz parte da pol\u00edtica. Refiro-me \u00e0 batalha de reduzir os impostos sobre os ganhos de capital. Nossa an\u00e1lise no conselho era bastante clara. Reduzir os impostos sobre os ganhos de capital n\u00e3o gera mais investimento. Menos impostos para a especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria n\u00e3o gera mais terra. Gera apenas mais gente rica. Ent\u00e3o, os ganhos de capital n\u00e3o resultaram em bons incentivos. Geraram incentivos distorcidos, estimulando a especula\u00e7\u00e3o. Mas isso criou ainda mais desigualdade. Clinton reduziu os impostos sobre ganhos de capital, mas o problema piorou na gest\u00e3o de presidente Bush, quando foram reduzidos ainda mais. O que acabou gerando mais desigualdade nos EUA.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sergio Lagranha Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil tirar dinheiro dos ricos? Joseph Stiglitz, Pr\u00eamio Nobel de Economia em 2001, 72 anos, esteve no Brasil no in\u00edcio de novembro para participar do Fronteiras do Pensamento, em S\u00e3o Paulo. 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