{"id":27542,"date":"2015-12-09T11:54:54","date_gmt":"2015-12-09T14:54:54","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=27542"},"modified":"2015-12-09T11:54:54","modified_gmt":"2015-12-09T14:54:54","slug":"27542-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/27542-2\/","title":{"rendered":"Porto Alegre tenta captar as li\u00e7\u00f5es de Berlim"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Geraldo Hasse<\/span><br \/>\nEsteve em Porto Alegre o deputado federal alem\u00e3o Klaus Mindrup, bi\u00f3logo socialdemocrata que atua em Berlim. Ele foi ciceroneado pelo economista Raul Pont, prefeito da capital ga\u00facha na \u00e9poca do primeiro F\u00f3rum Social Mundial, o megaevento que h\u00e1 15 anos espalhou que seria poss\u00edvel criar um mundo melhor.<br \/>\nEm Berlim a vida melhorou para a maioria, mostrou Mindrup. Em Porto Alegre tamb\u00e9m, mas n\u00e3o para todos. Quando Mindrup perguntou a Pont quanto subs\u00eddio a prefeitura local d\u00e1 ao transporte p\u00fablico, o ex-prefeito ga\u00facho respondeu constrangido: \u201cNIX!\u201d<br \/>\nEm Berlim, livre do Muro h\u00e1 25 anos, a maior parte da poupan\u00e7a est\u00e1 nas m\u00e3os de caixas populares, que financiam a democratiza\u00e7\u00e3o de todas as inst\u00e2ncias da vida da popula\u00e7\u00e3o \u2013 educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, transporte, arte, cultura, lazer.<br \/>\nMindrup \u00e9 s\u00f3cio de uma cooperativa habitacional que comprou 20 pr\u00e9dios pr\u00e9dios antigos, restaurados para habita\u00e7\u00e3o, escrit\u00f3rios e pequenos neg\u00f3cios. \u00a0Em pleno capitalismo, Berlim conseguiu criar um mundo melhor para a maioria com subs\u00eddios do governo da cidade. Porto Alegre, ao contr\u00e1rio, parece ter perdido terreno(s).<br \/>\n\u201cDesde 2010 foram aprovados oito projetos de shoppings centers em Porto Alegre\u201d, disse Rodrigo Oliveira, presidente do PT da capital, na abertura do evento POA Mais!, que tenta resgatar o esp\u00edrito original do F\u00f3rum Social Mundial, cujas boas inten\u00e7\u00f5es foram devastadas por \u00a0eventos internacionais sinistros como a destrui\u00e7\u00e3o das torres g\u00eameas de Nova York em 2001, a crise financeira global de 2008 e o surto de guerras e terror dos \u00faltimos anos. \u201c\u00c9 a economia, idiotas!\u201d, dizem os pragm\u00e1ticos submissos \u00e0 l\u00f3gica capitalista.<br \/>\nEmbora n\u00e3o possam ser encarados como um mal em si, oito novos shoppings se ajustam mais \u00e0 ideia do F\u00f3rum de Davos, cujo enfoque \u00e9 predominantemente econ\u00f4mico. Enquanto isso, uma parcela da popula\u00e7\u00e3o da capital tenta conter a ocupa\u00e7\u00e3o do centen\u00e1rio Cais Mau\u00e1 por um projeto mais comercial do que social. Submisso \u00e0s propostas dos empreendedores dos setores imobili\u00e1rio e da constru\u00e7\u00e3o civil, o poder formal n\u00e3o ousa tomar nenhuma iniciativa em favor das necessidades da popula\u00e7\u00e3o carente que ronda os in\u00fameros pr\u00e9dios vazios de \u00e1reas decadentes do centro da capital. Segundo o vereador Carlos Comasseto, em Porto Alegre h\u00e1 750 vilas fora da lei e 50 comunidades em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria.<br \/>\nAinda que Porto Alegre n\u00e3o seja p\u00e1reo para Berlim, ou talvez por isso mesmo, a retomada do F\u00f3rum Social Mundial foi tema capaz de lotar o audit\u00f3rio do Hotel Everest. Na noite de segunda-feira (7\/12), \u00a0cerca de 200 pessoas foram l\u00e1 ouvir tr\u00eas personalidades: al\u00e9m do visitante alem\u00e3o Klaus Mindrup, deram seu recado o polon\u00eas naturalizado brasileiro Ladislau Dowbor, um dos principais economistas (de esquerda) em atividade no pa\u00eds; e o economista Marcio Pochmann, ex-presidente do IPEA e atual comandante da Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, do PT.<br \/>\nLadislau Dowbor, coordenador dos cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da PUC-SP, \u201cbaixou\u201d para o audit\u00f3rio uma s\u00e9rie de dados sobre a destrui\u00e7\u00e3o do planeta. \u201cDesde 1970 liquidamos com a exist\u00eancia de 52% dos vertebrados\u201d, disse, dando a impress\u00e3o de que gastaria seus 20 minutos com a apresenta\u00e7\u00e3o de um quadro de horrores. N\u00e3o, ele foi equ\u00e2nime. O Brasil deu uma boa melhorada em seus indicadores sociais. Por exemplo, de 1991 para 2010, o \u00edndice de mortalidade infantil caiu de 30\/1000 para 15\/1000; a expectativa de vida subiu de 65 anos para 75 anos; e a maioria absoluta dos munic\u00edpios se livrou do conceito de \u201cbaixo\u201d no \u00cdndice de Desenvolvimento Humano. Em compensa\u00e7\u00e3o, \u201c\u00e9 mais f\u00e1cil tirar o essencial dos pobres do que o sup\u00e9rfluo dos ricos\u201d, disse ele, citando um pol\u00edtico franc\u00eas. De fato, os dados mostram que o Brasil se tornou prisioneiro do sistema financeiro. \u201cEste ano, o governo vai pagar R$ 400 bilh\u00f5es para o custeio da d\u00edvida p\u00fablica\u201d, disse Dowbor, salientando que, nesse estado de coisas, n\u00e3o sobra dinheiro para custear obras. Hoje no Brasil tanto os investimentos p\u00fablicos quanto os investimentos privados est\u00e3o travados pelo n\u00f3 do endividamento.<br \/>\nTemos assim uma situa\u00e7\u00e3o inversa \u00e0 da Alemanha: l\u00e1, 60% dos recursos financeiros dispon\u00edveis s\u00e3o administrados por caixas populares de poupan\u00e7a que visam o bem-estar social; aqui, onde o Produto Interno Bruto soma R$ 5,5 trilh\u00f5es, um total de R$ 3,1 trilh\u00f5es est\u00e1 girando em credi\u00e1rios, t\u00edtulos e aplica\u00e7\u00f5es financeiras cujo foco \u00e9 sustentar os bancos e os rentistas. \u201cO problema do Brasil n\u00e3o \u00e9 falta de recursos, mas falta de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d, resumiu o economista, que sugeriu ao p\u00fablico captar no Google o estudo \u201cResgatando o Potencial Financeiro\u201d, de sua autoria.<br \/>\nEm sua palestra, M\u00e1rcio Pochmann condenou o curtoprazismo, \u201cque n\u00e3o d\u00e1 espa\u00e7o para as utopias\u201d. Para ele, a globaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo n\u00e3o apenas colocou a economia em primeiro lugar, mas tornou a pol\u00edtica irrelevante. Dessa situa\u00e7\u00e3o adv\u00eam o descr\u00e9dito dos partidos e a desimport\u00e2ncia dos sindicatos. O mundo est\u00e1 imerso num surto de conservadorismo alimentado por corpora\u00e7\u00f5es gigantescas que dominam 80% do com\u00e9rcio mundial e controlam 2\/3 dos investimentos em cria\u00e7\u00e3o de tecnologia. Segundo Pochmann, 147 grupos econ\u00f4micos controlam 60% do PIB mundial e apenas seis pa\u00edses t\u00eam or\u00e7amentos maiores do que as receitas das quatro maiores corpora\u00e7\u00f5es globais, que interferem a seu feitio sobre os poderes locais, regionais e nacionais. No Brasil, um dos sintomas da distor\u00e7\u00e3o do processo pol\u00edtico est\u00e1 na elei\u00e7\u00e3o de 272 deputados \u2018ruralistas\u2019 por uma popula\u00e7\u00e3o 86% urbana. Na esteira dessa dessintonia v\u00e3o se criando inova\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias que correpondem menos ao interesse p\u00fablico e mais aos interesses privados. \u201cAlguns estados est\u00e3o terceirizando o ensino\u201d, lembrou Pochmann, que est\u00e1 preocupado com o crescimento da popula\u00e7\u00e3o de idosos. Atualmente, o Brasil possui 3,2 milh\u00f5es de pessoas com mais de 80 anos; dentro de 20 anos, eles ser\u00e3o 20 milh\u00f5es. Outro dado preocupante \u00e9 que um ter\u00e7o dos aposentados brasileiros continua trabalhando, o que significa que logo ali adiante v\u00e3o faltar recursos j\u00e1 que, dos 23% do PIB que o Estado brasileiro dedica aos gastos sociais, 11,5% v\u00e3o para aposentadorias e pens\u00f5es.<br \/>\nNo final, o audit\u00f3rio se deu conta de que Pochmann, o mais jovem dos palestrantes, foi o mais pessimista.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nSERVI\u00c7O<br \/>\nAs inscri\u00e7\u00f5es para o FSM 2016 Porto Alegre 15 Anos est\u00e3o dispon\u00edveis no site\u00a0<a href=\"http:\/\/www.fsm.org.br\/\">www.fsm.org.br<\/a><br \/>\nO evento, que acontecer\u00e1 de 19 a 23 de janeiro de 2016, em Porto Alegre, ter\u00e1 atividades concentradas no Parque Farroupilha, Audit\u00f3rio Ara\u00fajo Vianna, Largo Zumbi dos Palmares, Assembleia Legislativa, C\u00e2mara Municipal e diversos outros locais. Outras informa\u00e7\u00f5es em <a href=\"mailto:escritorio.iafsm@gmail.com\">escritorio.iafsm@gmail.com<\/a> ou pelo telefone (51) 3289.3845<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse Esteve em Porto Alegre o deputado federal alem\u00e3o Klaus Mindrup, bi\u00f3logo socialdemocrata que atua em Berlim. Ele foi ciceroneado pelo economista Raul Pont, prefeito da capital ga\u00facha na \u00e9poca do primeiro F\u00f3rum Social Mundial, o megaevento que h\u00e1 15 anos espalhou que seria poss\u00edvel criar um mundo melhor. 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