{"id":280,"date":"2006-11-06T15:53:56","date_gmt":"2006-11-06T18:53:56","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=280"},"modified":"2006-11-06T15:53:56","modified_gmt":"2006-11-06T18:53:56","slug":"o-escritor-tem-compromisso-com-a-mudanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-escritor-tem-compromisso-com-a-mudanca\/","title":{"rendered":"\u201cO escritor tem compromisso com a mudan\u00e7a\u201d"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/feira2006\/med_patrono_feira52a.jpg?0.7930773719074007\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\">Cheuiche: 40 anos de literatura (Fotos: Helen Lopes\/J\u00c1)<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">\nEl\u00e9trico, bigode e cabelo hirsutos, Cheuiche tem uma biografia bastante rica: criado no pampa, conheceu o mundo desdobrando-se nos pap\u00e9is de estudante, professor, veterin\u00e1rio e escritor. Fruto t\u00edpico da miscigena\u00e7\u00e3o ga\u00facha, gosta de falar de seus ancestrais, entre os quais aponta, pelo lado materno, os a\u00e7orianos Tavares e os portugueses Vargas; e, pelo lado paterno, os Cheuiche, vindos do L\u00edbano.<\/p>\n<p align=\"justify\">Filho de um m\u00e9dico-veterin\u00e1rio do Ex\u00e9rcito, Alcy nasceu no inverno de 1941 em Pelotas e a partir dos cinco anos morou em Alegrete, onde o pai fora servir. Sua inf\u00e2ncia foi forrada de viv\u00eancias rurais, fonte do tradicionalismo gauchesco, no qual deu seus primeiros passos como autor de poemas prop\u00edcios \u00e0 declama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma vez, ainda estudante, declamou seu poema Reza Chucra num CTG nos arredores de Porto Alegre. Presente no evento, o escritor Manoelito de Ornellas o aconselhou: \u201cN\u00e3o abandone a poesia crioula\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Formado em Veterin\u00e1ria em 1962, especializou-se na Fran\u00e7a e na Alemanha, trabalhou alguns anos na multinacional Johnson &amp; Johnson e encaminhou-se instintivamente para a literatura, o magist\u00e9rio e o jornalismo t\u00e9cnico \u2013 mant\u00e9m h\u00e1 25 anos em conv\u00eanio com uma institui\u00e7\u00e3o francesa a revista bimestral A Hora Veterin\u00e1ria, editada atualmente em Ca\u00e7apava do Sul, onde Cheuiche mora com a segunda esposa, Maria Berenice, advogada profissional.<\/p>\n<p align=\"justify\">Seu primeiro escrito (um poema premiado) foi publicado na Gazeta de Alegrete em 1951, quando tinha dez anos. Quando estudou na Fran\u00e7a, escreveu regularmente para o suplemento rural do Correio do Povo. Nunca deixou de assinar artigos, cr\u00f4nicas e poemas na imprensa.<\/p>\n<p align=\"justify\">Seu primeiro livro, Versos do Extremo Sul, foi publicado em 1966. No pref\u00e1cio, o pajador Jayme Caetano Braun o comparou a um \u201ctourito de sobreano\u201d que, \u201cainda muito potrilho\u201d, \u201ctraz a poesia nos tentos\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na sua primeira fic\u00e7\u00e3o, O Gato e a Revolu\u00e7\u00e3o, de 1967, Alcy Cheuiche inaugurou um estilo marcante pela fidelidade aos temas brasileiros e aos valores humanit\u00e1rios universais. Seus assuntos preferenciais: a luta pela terra e os direitos humanos. Entre seus personagens mais conhecidos \u2013 Sep\u00e9 Tiaraju (1975), Ana Sem Terra (1984) e Santos Dumont (1998) \u2013 figura por \u00faltimo o av\u00f4 liban\u00eas, tema do livro Jabal Lubn\u00e0n, publicado em 2002 pela Sulina.<\/p>\n<p align=\"justify\">Embora tenha visitado o L\u00edbano em 1972, Cheuiche levou 30 anos para soltar o livro sobre o av\u00f4. \u00c9 um romance hist\u00f3rico. Al\u00e9m do material colhido na sua terra natal, o autor pesquisou em livros e aproveitou est\u00f3rias contadas pelo pai, que tinha o gosto pelas narrativas orais e guardara na mem\u00f3ria os principais eventos da vida paterna. (Geraldo Hasse)<\/p>\n<p align=\"justify\"><em><strong>Entrevistadores Elmar Bones, Kenny Braga, Guilherme Kolling e Naira Hofmeister.<\/strong><\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Elmar<\/strong> \u2013 J\u00e1 \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o, todos os anos fazemos uma edi\u00e7\u00e3o do jornal para a Feira, uma entrevista com o patrono. Vamos come\u00e7ar do come\u00e7o&#8230;<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\"><strong>Cheuiche <\/strong><\/span>\u2013 Comigo \u00e9 dif\u00edcil come\u00e7ar do come\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Kenny<\/strong> \u2013 Onde foi tua inf\u00e2ncia?<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\"><strong>Cheuiche<\/strong> <\/span>\u2013 Em Alegrete, toda ela. Eu nasci, meu pai era militar, veterin\u00e1rio e advogado, e foi transferido para Alegrete. Acho Pelotas uma cidade maravilhosa, mas n\u00e3o tenho inf\u00e2ncia, n\u00e3o tenho hist\u00f3ria l\u00e1. At\u00e9 a casa em que nasci, era um sobrado, lembro muito bem, foi demolido. Sou alegretense de ado\u00e7\u00e3o. Explico em toda entrevista o seguinte: eu aprendi a ler e escrever l\u00e1, s\u00e3o as coisas mais importantes da minha vida, que eu aprendi na escola Osvaldo Aranha, em Alegrete. Aprendi a andar a cavalo, que para mim \u00e9 muito importante, aprendi a nadar, que eu adoro, aprendi a namorar, que eu parei depois que eu casei, mas namoro minha mulher muito bem, at\u00e9 hoje. Aprendi a dan\u00e7ar, tudo que a crian\u00e7a e o adolescente aprendem. A primeira vez pegar a m\u00e3o de uma mo\u00e7a no cinema, com 14 anos, dava um arrepio que vinha l\u00e1 de baixo, era outra \u00e9poca&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Kenny<\/strong> &#8211; Nunca pescou no Ibirapuit\u00e3?<br \/>\n<strong><span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong> \u2013 Pescar! Pescava no Ibirapuit\u00e3 o jundi\u00e1! O jundi\u00e1 \u00e9 aquele bigodudo, ele pega a linha e dispara. Era uma sensa\u00e7\u00e3o maravilhosa. E outra coisa. Pescar para comer o peixe&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Elmar <\/strong>&#8211; Como \u00e9 esse livro que est\u00e1 sendo lan\u00e7ado, Antologia Po\u00e9tica?<br \/>\n<strong><span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong> \u2013 S\u00e3o tr\u00eas livros de poesia, esgotados h\u00e1 muitos anos. Continuei escrevendo poesia principalmente para letras em festivais, coisas assim. Inclusive tem uma que a Marlene Pastro canta sobre a Anita Garibaldi que at\u00e9 acho bonita. E a\u00ed esse ano, antes de eu ser patrono, o Martins Livreiro me prop\u00f4s: \u201cpor que tu n\u00e3o faz uma antologia, tu tem uma s\u00e9rie de poemas&#8230;\u201d Resolvi selecionar, tem desde a poesia ga\u00facha, depois tem a poesia do tempo em que eu morei na Fran\u00e7a, tem poesia em franc\u00eas, espanhol. \u00c9 um bric-a-brac. Mas \u00e9 bom porque eu gosto muito de poesia, continuo gostando. S\u00f3 que o romance n\u00e3o d\u00e1 tempo para mais nada&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Elmar<\/strong> \u2013 E esse poema da Anita foi popularizado em m\u00fasica.<br \/>\n<strong>Guilherme<\/strong> \u2013 Tem at\u00e9 o espet\u00e1culo A Tomada de Laguna em que essa \u00e9 a m\u00fasica tema.<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\"><strong>Cheuiche <\/strong><\/span>\u2013 \u00c9&#8230; Uma coisa engra\u00e7ada agora: tem um tio da minha mulher que gosta dar trote. E liga assim: \u201cAqui \u00e9 o governador de S\u00e3o Paulo&#8230; Aqui \u00e9 n\u00e3o sei quem&#8230;\u201d. E teve uma vez \u2013 isso j\u00e1 tem uns seis, sete anos \u2013, eu chego no meu escrit\u00f3rio e a minha secret\u00e1ria: \u201cO governador Esperidi\u00e3o Amim ligou\u201d. E casualmente tinha que ligar para n\u00f3s. Daqui a pouco, toca o telefone \u201c\u00e9 o governador\u201d. E eu: \u201cFilho dessa!&#8230;\u201d (risos). \u2014 Mas seu Cheuiche, o que aconteceu? E eu digo: \u201cAh, governador&#8230;\u201d Eu disse um monte de palavr\u00e3o&#8230; E era o governador que queria, por causa da letra da Anita, me convidar para ir \u00e0 Laguna, que ia haver um grande acontecimento sobre Anita Garibaldi, e que eu autografasse o meu livro da Guerra dos Farrapos. Ent\u00e3o, foi assim a minha primeira conversa com o Esperidi\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Elmar <\/strong>\u2013 Ent\u00e3o foi s\u00f3 um pedido do Martins&#8230;<br \/>\n<strong><span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong> \u2013 Foi um pedido dele que eu gostei muito de atender. Tanto \u00e9 que eu mesmo fiz a apresenta\u00e7\u00e3o do livro. Foi interessante porque eu tive de reler e eu sempre datava os meus livros. A\u00ed um dia o Mario Quintana: \u201cP\u00e1ra de botar data em poema, Cheuiche. O poema \u00e9 atemporal. N\u00e3o tem que botar data nenhuma!\u201d. \u00c9 claro que eu deixava me influenciar pelo Mario, era o mestre da gente, at\u00e9 hoje \u00e9. Mario e Erico s\u00e3o nossos mestres sempre. A\u00ed parei de botar data. Mas agora, pegando os poemas desses livros, aqueles que t\u00eam data me ajudaram muito mais, porque tem o local e a data. E como eu morei na Fran\u00e7a, na Alemanha, viajei&#8230; Eu at\u00e9 me casar \u2013 depois foi a culpa do casamento \u2013 o que eu ganhava era para viajar. Por isso que eu pude fazer muita pesquisa para os livros. O Sep\u00e9 Tiaraju foi um livro que eu pesquisei na Argentina, na Fran\u00e7a, na Espanha, procurando documenta\u00e7\u00e3o. Este do Santos Dumont&#8230; Sabe onde est\u00e3o as melhores coisas sobre Santos Dumont? Nos jornais de Paris da \u00e9poca. Os caras v\u00e3o procurar nos livros, mas n\u00e3o \u00e9 nos livros que est\u00e1. Pois tudo ele chamava a imprensa. A primeira coisa que o Santos Dumont fez foi dar dirigibilidade aos bal\u00f5es. Pela primeira vez botou um motor, e de motocicleta. Porque ele j\u00e1 praticava motocicleta, fez a primeira corrida de motocicleta em Paris, ele que organizou. E a\u00ed botou o motor, desenlveu aquele bal\u00e3o em forma de charuto e deu a dirigibilidade ao bal\u00e3o. Fez aquele famoso trecho, que ele at\u00e9 ganhou um pr\u00eamio, que em meia hora tinha que andar 12,5 quil\u00f4metros e fazer o trajeto, contornando a Torre Eiffel. Tudo est\u00e1 no livro [Nos C\u00e9us de Paris \u2013 Romance da Vida de Santos Dumont].<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Kenny<\/strong> \u2013 Qual a tua explica\u00e7\u00e3o para o suic\u00eddio de Santos Dumont?<br \/>\n<strong><span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong> \u2013 Tem duas explica\u00e7\u00f5es. O Santos Dumont foi para Paris aos 18 anos, em 1890, e ficou at\u00e9 1909. Em 1909, ele viveu todos esses anos muito estresse, porque n\u00e3o tinha piloto de prova. Era s\u00f3 ele. Ent\u00e3o, teve uma esclerose m\u00faltipla. Isso tamb\u00e9m \u00e9 heredit\u00e1rio, a tend\u00eancia ele tinha por parte de m\u00e3e. E esclerose m\u00faltipla tem v\u00e1rios casos que levam ao suic\u00eddio, tanto \u00e9 que a m\u00e3e se matou. Bom, a\u00ed, como ele teve essa crise voando no Demoiselle \u2013 o Demoiselle j\u00e1 era o ultra-leve, andava a mil metros de altura e a 100 Km\/h. Foi o primeiro avi\u00e3o na verdade, em 1909. E toda ind\u00fastria aeron\u00e1utica partiu da\u00ed. A\u00ed, ele teve essa crise voando, e conseguiu aterrisar na frente de um castelo, num espa\u00e7o com n\u00e3o mais de 50 metros. Ele era fant\u00e1stico! Mas a\u00ed levou um susto muito grande&#8230; N\u00e3o voou mais. E a\u00ed ele entrou em depress\u00e3o, foi at\u00e9 pior. E foi continuando assim, n\u00e3o voou mais, veio para o Brasil.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/feira2006\/med_patrono_feira52b.jpg?0.46426685917490434\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"300\" height=\"395\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\">Cheuiche pesquisou vida e obra de Santos Dumont, em Paris<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Kenny <\/strong>\u2013 Muito deprimido ele estava nesse per\u00edodo&#8230;<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\"><strong>Cheuiche <\/strong><\/span>\u2013 Muito, muito&#8230; At\u00e9 que em 1932, quando come\u00e7ou a revolu\u00e7\u00e3o, ele ia muito ao Guaruj\u00e1, em Santos, naquela praia, gostava muito. Estava hospedado em um hotel, era o anivers\u00e1rio dele, que era em 20 de julho. No dia 23 de julho ele estava na praia quando um avi\u00e3ozinho desceu e bombardeou Santos, j\u00e1 na Revolu\u00e7\u00e3o de 1932, que come\u00e7ou no dia 9 de julho. Isso j\u00e1 era dia 23. E a\u00ed foi terr\u00edvel. Ele voltou, e n\u00e3o se sabe mais&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Kenny<\/strong> \u2013 Ele registrou alguma coisa?<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\"><strong>Cheuiche<\/strong> <\/span>\u2013 N\u00e3o, mas est\u00e1 registrado que houve esse bombardeio e o pessoal do hotel diz que ele viu, e que voltou muito deprimido para o hotel, foi para o banheiro e se enforcou.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Guilherme<\/strong> \u2013 Teve essa pesquisa para o livro do Santos Dumont, o do Sep\u00e9. Como est\u00e1 sua produ\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\"><strong>Cheuiche<\/strong> <\/span>\u2013 Tenho 10 romances, quase todos hist\u00f3ricos, e desses tem dois editados na Alemanha tamb\u00e9m. Sep\u00e9 Tiaraju \u00e9 o romance que tem me dado mais alternativas. Tem umas oito edi\u00e7\u00f5es em portugu\u00eas, uma em alem\u00e3o, uma espanhol, uma em quadrinhos, que foi feita por um desenhista uruguaio, o Jos\u00e9 Melgar. Esse ano, que tamb\u00e9m marca os 250 anos da morte do Sep\u00e9, v\u00ea como coincidiu para mim, o Internacional e mais todas essas coisas&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Kenny<\/strong> \u2013 O ano da conquista do t\u00edtulo&#8230;<br \/>\n<strong><span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong> \u2013 Sabe que encontrei uma carteira minha, quando eu vim morar em Porto Alegre, do Alegrete, eu com 18 anos cheguei e um primo meu me levou ali no edif\u00edcio do rel\u00f3gio, no Largo dos Medeiros, que era a sede do Internacional. A gente podia entrar como s\u00f3cio-estudante, sem pagar nada. Carteirinha direitinha, vermelha, com foto&#8230; Bom, voltando ao Sep\u00e9, tem tamb\u00e9m a edi\u00e7\u00e3o em braile, da biblioteca p\u00fablica. E, ali\u00e1s, esse ano eu tive uma emo\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica. Na Academia de Letras do Rio Grande do Sul, eu coordenei durante sete anos o projeto de cegos. Porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o braile, \u00e9 tamb\u00e9m o livro gravado, n\u00f3s tivemos muitos livros gravados. Agora quem escolhe s\u00e3o eles. Eu me lembro agora quando saiu o filme O Quatrilho, eles se reuniram e tinha uns dias que era um livro s\u00f3. E a\u00ed levantou um cego e disse: \u201cEu quero O Quatrilho\u201d. Muito bem, eu gosto muito do Pozzenatto, s\u00f3 que n\u00f3s temos que colocar uma justificativa. Isso era a Aplub que ia pagar. \u201cQue justificativa, Alcy! Eu n\u00e3o vejo o filme, tenho que ler o livro para ter opini\u00e3o!\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Kenny <\/strong>&#8211; Tava pronta a justificativa.<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\"><strong>Cheuiche<\/strong> <\/span>\u2013 Quando eu vi o poeta Waldir de Lima, no dia que lan\u00e7aram o livro do Sep\u00e9 em braile na biblioteca. Ele levantou e passou a m\u00e3o, come\u00e7ou a ler acariciando o livro. Bah!&#8230; Que emo\u00e7\u00e3o!&#8230; A literatura vale por isso.<br \/>\n<strong>Elmar<\/strong> \u2013 Um tempo atr\u00e1s teve aquele livro sobre teu av\u00f4, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\n<strong><span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche &#8211; <\/span><\/strong>Esse livro, deveria ter sido escrito pelo meu pai, que era um grande narrador, mas tinha pregui\u00e7a de escrever. E era semi-\u00e1rabe, porque eu j\u00e1 sou 25%. A gente guarda o nome, mas vai havendo a mesti\u00e7agem toda. E o meu contava hist\u00f3ria que era uma coisa de louco. Da\u00ed vem a origem da minha paix\u00e3o pela hist\u00f3ria. Tenho uma irm\u00e3 que faleceu no ano passado que era das maiores arque\u00f3logas do Brasil, Lilian Cheuiche Machado. Papai contava, claro, hist\u00f3rias de bicho, brincadeiras e tal. Mas dali a pouco, quando via ele estava contando o Conde de Montecristo. Eu com 10, 11 anos j\u00e1 sabia toda a hist\u00f3ria. Tudo eu aprendi quando era crian\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Mas teu pai nasceu no Brasil?<br \/>\n<\/strong><span style=\"color: #cc3300\"><strong>Cheuiche<\/strong> <\/span>\u2013 Meu pai \u00e9 nascido no Brasil. Ele \u00e9 Vargas. Por parte de m\u00e3e sou Silva Tavares. \u00c9 daqueles que ficaram contra a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha. O coronel Jo\u00e3o da Silva Tavares \u00e9 meu tatarav\u00f4, que deu a batalha para o General Netto. Papai contava est\u00f3rias que o vov\u00f4 contava para ele. Casualmente a nossa cidade do L\u00edbano de origem, eu fui l\u00e1 \u2013 n\u00e3o tem nada em livro meu que eu n\u00e3o tenha ido. Quem faz romance hist\u00f3rico, por exemplo, no Sep\u00e9 Tiaraju tem um cap\u00edtulo que \u00e9 na Ilha de P\u00e1scoa. Eu fui l\u00e1! Botei a minha m\u00e3o naquele monolito, nas orelhas compridas, falei com as pessoas, eu fui l\u00e1.<br \/>\n<strong>Kenny \u2013 E \u00e9 longe.<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 \u00c9 longe e complicado. Mas eu fui. Isso eu aprendi lendo Hemingway, ele ensina isso. Por que O Velho e o Mar \u00e9 uma obra-prima? Porque ele ficou 30 anos na corrente do Golfo, ele convivia \u2013 o Hemingway n\u00e3o gostava de cerim\u00f4nia, ele gostava de gente simples. Ent\u00e3o ele convivia com aqueles pescadores em Cuba na intimidade, ele sabia tudo. Tem um momento em que o velho Santiago, o pescador, p\u00e1ra de p\u00e9. Se ele vai descrever uma tourada, ele passou anos dentro das touradas. Se ele vai para a \u00c1frica num s\u00e1fari, ele foi at\u00e9 guia de saf\u00e1ri. Ent\u00e3o eu aprendi com ele isso, tem que estudar a fundo antes de escrever.<br \/>\n<strong>Guilherme \u2013 Tudo documentado.<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 Ah, tem que ser. Porque todo o romance, n\u00e3o adianta querer \u201cah minha imagina\u00e7\u00e3o\u201d&#8230; Do que \u00e9 feita uma narrativa? De tr\u00eas coisas: personagem, ambiente e a\u00e7\u00e3o. Muito bem, escolheu o personagem? Santos Dumont. Ah, o Santos Dumont. Est\u00e1 ferrado, meu amigo, porque o que ele fez foi em Paris, e tu n\u00e3o pode errar sobre Paris. Tanto que eu n\u00e3o durima nos \u00faltimos dias, antes da revis\u00e3o final desse livro, de medo de ter cometido algum erro sobre Paris daqueles anos. E a\u00ed os meus amigos \u2013 que eu morei l\u00e1 por quase quatro anos, eles se mobilizaram. Foram formid\u00e1veis. Eu n\u00e3o podia estar viajando para Paris a toda hora, ent\u00e3o eu durante esse per\u00edodo eu fui tr\u00eas vezes, em tr\u00eas anos. E a\u00ed eu ligava, telefonava, mandava e-mail, fazia os caras procurarem as coisas. Ent\u00e3o, isso a\u00ed \u00e9 essencial para o romance, qualquer um&#8230;<br \/>\n<strong>Elmar \u2013 Isso n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lido para a televis\u00e3o, porque A Casa das Mulhres foi uma leitura ligeira da Let\u00edcia Wierzchowski&#8230;<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 \u00c9, a\u00ed houve um outro tipo de tratamento. Acho at\u00e9 que a Let\u00edcia n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel pelo que est\u00e1 ali. Posso dizer porque n\u00e3o estou criticando a Let\u00edcia, de jeito nenhum, ela \u00e9 minha colega&#8230; Quando o Garibaldi recebe aquele gado, para que ele v\u00e1 embora \u2013 porque aquilo ali n\u00e3o valia nada&#8230; \u201cMercern\u00e1rio!\u201d, porque ganhou uns bois. Para mim o Garibaldi \u00e9 uma das figuras hist\u00f3ricas e humanas mais fant\u00e1sticas que j\u00e1 exisitiu. Era gado nosso. No filme Concerto Campestre, do Henrique de Freitas Lima, ele foi em Santa Catarina, meteu o gado dentro do caminh\u00e3o, o gado crioulo lageano, levou para Pelotas e fez o neg\u00f3cio correto. E o pessoal da Globo pegou o gado hereford, um gado ingl\u00eas, cabe\u00e7a branca, vermelha, todo mundo sabe, gado de Expointer&#8230;<br \/>\n<strong>Elmar \u2013 E teve o Itaimbezinho tamb\u00e9m&#8230;<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 Ah, isso de ir do Itaimbezinho para o outro lado, tudo bem&#8230; Agora tem uma coisa que eu quero dizer para voc\u00eas. Para o meu livro sobre a Guerra dos Farrapos foi \u00f3timo. Saiu uma nova edi\u00e7\u00e3o, de bolso&#8230; Claro, porque popularizou! Eu recebia telefonema \u2013 eu morei 10 anos em S\u00e3o Paulo \u2013 conhe\u00e7o muita gente l\u00e1, e recebia telefonema. \u201cAlcy, o que vai acontecer, agora? Me manda teu livro\u201d. Tem gente que n\u00e3o ag\u00fcenta esperar, quer saber. \u201cE a\u00ed, o que acontece, ele casa com a Manuela?\u201d E eu: \u201cQue Manuela! O neg\u00f3cio dele \u00e9 a Anita Garibaldi\u201d. Ent\u00e3o, isso a\u00ed sacudiu&#8230;<br \/>\n<strong>Kenny \u2013 Ali\u00e1s o Josu\u00e9 tem um romance muito bonito sobre essa Manuela<\/strong>.<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\"><strong>Cheuiche<\/strong> <\/span>\u2013 Exatamente, ela morreu velinha em Pelotas, e era conhecida como a noiva de Garibaldi. Coisa bonita fazer um livro com esse t\u00edtulo n\u00e9. \u201cA noiva de Garibaldi\u201d&#8230;<br \/>\n<strong>Guilherme \u2013 Voltando ao teu pai&#8230;<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 Voltando ao meu pai, a cidade de Zahl\u00e9 \u2013 n\u00e3o se impressionem que eu n\u00e3o falo nada de \u00e1rabe, eu aprendi foi s\u00f3 portugu\u00eas \u2013, \u00e9 uma cidade crist\u00e3, que fica a 30 km da fronteira com a S\u00edria, no alto da montanha, perto do Vale do Bec\u00e1. \u00c9 riqu\u00edssima a regi\u00e3o. E fui l\u00e1 verificar as hist\u00f3rias que o meu pai contava. E comecei a estudar a hist\u00f3ria do L\u00edbano, para ver as hist\u00f3rias que o meu pai contava, como iriam se encaixar. E a\u00ed esse livro As aventuras de um mascate liban\u00eas. E o meu av\u00f4 ainda tem mais outra. Ele se meteu na Revolu\u00e7\u00e3o de 1893.. No livro eu descrevo 1892, um ano antes, eles est\u00e3o preparando a revolu\u00e7\u00e3o, ele entra. Claro, tive que estudar tudo. Quase que cometi uma gafe horrorosa, porque eu li num livro, que em 1892 a Igreja das Dores estava com as torres prontas. Vamos descrever: \u201cele olha e enxerga as torres da igreja, \u00e0 direita, quando sai do porto\u201d. Mas a\u00ed, eu pego uma fotografia de 1901 e ainda n\u00e3o tinha as torres. Tirei imediatamente, e, em vez de olhar para a direita ele olha para a esquerda e enxerga as torres da igreja da Pra\u00e7a da Matriz. Isso n\u00e3o muda nada. No romance hist\u00f3rico o que interessa \u00e9 recriar os fatos&#8230; Agora, n\u00e3o posso botar que tem torre quando n\u00e3o tem. A\u00ed dou uma informa\u00e7\u00e3o errada e o meu leitor acredita na hist\u00f3ria. Eu fa\u00e7o o romance hist\u00f3rico mesmo.<br \/>\n<strong>Naira \u2013 Como dosar fic\u00e7\u00e3o e realidade na cria\u00e7\u00e3o dos personagens?<br \/>\n<\/strong><span style=\"color: #cc3300\"><strong>Cheuiche<\/strong> <\/span>\u2013 Na cria\u00e7\u00e3o dos personagens tu tem duas op\u00e7\u00f5es. Por exemplo, um dos livros meus que eu mais gosto chama-se O Mesti\u00e7o de S\u00e3o Borja. Porque esse livro tem todos ingredientes do romance. E ele tem come\u00e7o, meio e fim, que \u00e9 uma coisa muito boa para um romance. Come\u00e7a em 1930 e termina em 1980. S\u00e3o 50 anos da vida do Brasil, que eu conto atrav\u00e9s de uma fam\u00edlia de origem alem\u00e3. E nesse espa\u00e7o de tempo, a Revolu\u00e7\u00e3o de 30 foi o divisor de \u00e1guas pol\u00edtico, cultural, social, e tudo que n\u00f3s quisermos. Uma das poucas revolu\u00e7\u00f5es, que mudou alguma coisa no Brasil. At\u00e9 as profiss\u00f5es foram organizadas&#8230;<br \/>\n<strong>Guilherme &#8211; E a tua forma\u00e7\u00e3o como escritor? Teu pai teve essa participa\u00e7\u00e3o importante contando hist\u00f3rias do teu av\u00f4. E o Quintana, como foi a participa\u00e7\u00e3o dele na tua forma\u00e7\u00e3o como escritor?<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 Fui conhecer o Quintana mesmo aqui em Porto Alegre, eu era guri, vim com 18 anos. Ao S\u00e9rgio Faraco e eu, que \u00e9ramos de Alegrete, ele dava muita aten\u00e7\u00e3o. A gente ia l\u00e1 no Majestic&#8230; O Mario Quintana nunca foi de cerim\u00f4nia. Depois, quando eu comecei a escrever no Correio do Povo, a\u00ed sim eu convivi bastante com ele, porque eu ia l\u00e1&#8230; T\u00f4 enxergando o cantinho dele l\u00e1 no Correio, a mesa dele, com a m\u00e1quina e ficava naquele cant\u00e3o dele l\u00e1.<br \/>\n<strong>Kenny \u2013 Quero voltar ao Sep\u00e9 Tiaraju. A frase atribu\u00edda ao Sep\u00e9 \u201cEssa terra tem dono\u201d, realmente existiu ou foi atribu\u00edda a ele?<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 Existem duas teses. Houve esta frase l\u00e1 no Paran\u00e1, em determinado momento, eram \u00edndios guaranis no come\u00e7o. E um \u00edndio guarani teria dito essa terra tem dono. E aqui. Em 1750 houve o tratado. Quando chegou aqui a not\u00edcia do tratado aqui j\u00e1 tinha um meio ano. De maneira que a guerra come\u00e7ou mesmo em fevereiro de 1753. E o Sep\u00e9 vai em dire\u00e7\u00e3o a Bag\u00e9, que era territ\u00f3rio charrua, e ele se acerta com os charruas, para segurar e n\u00e3o deixar eles entrarem, porque ali estava separado o ex\u00e9rcito de demarca\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o estavam juntos os espanh\u00f3is e portugueses. A\u00ed, um capit\u00e3o encontrou os \u00edndios na beira do Rio Camaqu\u00e3, hoje entre Ca\u00e7apava e Bag\u00e9, e isso est\u00e1 documentado. E ele de repente se viu cercado, as tropas dele porque ele viu o Sep\u00e9, que seria o comandante, porque se sabe que ele tinha ido para aquele lado, ele sai da mata e quando os espanh\u00f3is avan\u00e7am, enxergam uma cavalhada que vem correndo, eles n\u00e3o sabem o que \u00e9 aquilo. Nesse momento que o Sep\u00e9 teria dito: \u201cSe voc\u00eas abandonarem sem luta&#8230;\u201d E disse: \u201cEssa terra tem dono, essa terra n\u00f3s recebemos de Deus e S\u00e3o Miguel de Arcanjo\u201d. Isso est\u00e1 narrado por um jesu\u00edta, padre Miguel de Soto. Agora, eu vou contar uma coisa que me deu uma boa dor no cora\u00e7\u00e3o, foi no ano passado, quando ia entrar o projeto do reconhecimento hist\u00f3rico do Sep\u00e9. O Sep\u00e9 n\u00e3o \u00e9 reconhecido como figura hist\u00f3rica riograndense&#8230;<br \/>\n<strong>Guilherme \u2013 O MST quer adotar o Sep\u00e9.<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 \u00c9 o que eu disse outro dia, todo mundo pode adotar, agora tem que adotar certo. O Frei S\u00e9rgio Goergen \u00e9 personagem do meu livro Ana Sem Terra. Porque ele come\u00e7ou mesmo, antes de ser pol\u00edtico, era s\u00f3 padre e estava fazendo um trabalho muito bom. No ano passado ele pediu para falar comigo, disse que ia entrar com um projeto, fui l\u00e1 na Assembl\u00e9ia e sentei com ele. Que me disse \u201ceu vou entrar com um projeto do Sep\u00e9, tu me ajuda?\u201d. Eu disse n\u00e3o. N\u00e3o, porque isso vai virar pol\u00edtica e n\u00f3s n\u00e3o podemos fazer assim. Eu lancei esse livro na Alemanha em quinze cidades, inclusive Berlim. O intelectual europeu conhece as Miss\u00f5es, l\u00ea sobre as Miss\u00f5es. Um filme sobre as Miss\u00f5es ganhou uma Palma de Cannes.<br \/>\n<strong>Kenny \u2013 Tem v\u00e1rios estudiosos&#8230;<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 Eles conhecem, conhecem o barroco. Seria extremamente negativo para o Rio Grande do Sul, quando as ru\u00ednas de S\u00e3o Miguel s\u00e3o um Patrim\u00f4nio da Humanidade, e quem construiu a Igreja n\u00e3o Inimigo do Brasil! Ou que n\u00e3o existia.<br \/>\n<strong>Kenny \u2013 Mas muitos intelectuais ficaram com o Sep\u00e9. Um deles \u00e9 o Manoelito de Ornellas.<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 O Manoelito ficou, daquela \u00e9poca, foram v\u00e1rios que ficaram ao lado do Sep\u00e9&#8230; Mas eu s\u00f3 quero contar um fato para voc\u00eas. No dia que ele entrou com o projeto, me convidaram para ir no [<em>audit\u00f3rio da Assembl\u00e9ia Legislativa<\/em>] Dante Barone fazer essa confer\u00eancia. E quando cheguei l\u00e1 tinha 700 pessoas. Antes de mim falou um \u00edndio guarani. E medida que ele falava, em guarani, as pessoas iam levantando. Umas trinta e poucas pessoas levantaram. A\u00ed ele disse em portugu\u00eas: \u201cEu pedi, para todas as pessoas que entendem o guarani que levantassem\u201d. E a\u00ed ele me pediu: \u201cn\u00e3o pense s\u00f3 nos \u00edndios daquele tempo. Que o Sep\u00e9 seja um s\u00edmbolo de valoriza\u00e7\u00e3o dos \u00edndios de hoje, que est\u00e3o a\u00ed abandonados, na beira da estrada\u201d. Bah, aquilo me deu um soco no peito&#8230;<br \/>\n<strong>Kenny &#8211; Em que momento tu te interessou pela vida do Sep\u00e9?<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 Duas raz\u00f5es me levaram para isso. Primeiro foi o deputado Rui Ramos, alegretense, que era uma figura extraodin\u00e1ria. Grande orador, poeta, foi ele que apresentou o Jayme Caetano Braum. Porque o m\u00e3e do Jayme \u00e9 parente do Dr. Rui Ramos.<br \/>\n<strong>Elmar \u2013 Ele tinha um bolicho?<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 L\u00e1 em S\u00e3o Lu\u00eds Gonzaga, ele estudou at\u00e9 uma parte, tirou gin\u00e1sio. O pai dele era professor, Braum, origem de alem\u00e3es, e a m\u00e3e Caetano, que era gente de Campanha, da\u00ed vem o parentesco com o Dr. Rui. E conseguiu publicar o primeiro livro depois numa ocasi\u00e3o indicou ele para diretor da biblioteca p\u00fablica. E a\u00ed \u00e9 que ele come\u00e7ou.<br \/>\n<strong>Kenny \u2013 Como \u00e9 que o Sep\u00e9 entrou na tua vida?<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 Em 1956, eu era adolescente, morava em Alegrete, o Dr. Rui saiu do lado do Sep\u00e9. E tinha um m\u00e9dico em Alegrete que foi contra. E era muito culto, muito preparado. Ent\u00e3o, eles resolveram fazer no clube fazer o j\u00fari, este m\u00e9dico foi o promotor e o Dr. Rui o advogado de defesa. O clube encheu tanto, tanto, que n\u00e3o cabia ningu\u00e9m mais. Consegui um lugarzinho no canto. O Dr. Rui, que voz, que cultura&#8230; Eu n\u00e3o sabia nada de Miss\u00f5es, que n\u00e3o estava no curr\u00edculo, at\u00e9 hoje \u00e9 mal colocado. E ele dizia assim: \u201cEu te defendo Sep\u00e9 Tiaraju\u201d. E come\u00e7ou a mostrar quem era o Sep\u00e9. Porque o Sep\u00e9 n\u00e3o era cacique coisa nenhuma. J\u00e1 tinha cento e tantos anos de cultura ali. O Sep\u00e9 falava tr\u00eas idiomas, tinha cultura, deixou cartas maravilhosas, deixou 16 cartas&#8230;<br \/>\n<strong>Kenny \u2013 Onde \u00e9 que est\u00e3o essas cartas?<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 Ah, est\u00e3o todas guardadas, em museus, tem um pouco aqui, outras na Espanha, e transcritas em livro. Bom, comecei a ler, tinha esse livro Tiaraju, que \u00e9 um poema em prosa, do Manoelito de Ornellas, e parte muito tamb\u00e9m da lenda. Eu fui procurando ler e saber. Mas depois eu entrei na faculdade, segui a minha vida e tal, e quando teve o meu primeiro livro de prosa, O Gato e a Revolu\u00e7\u00e3o, isso foi 1967, eu escrevi isso na Alemanha em 1966, estava morando l\u00e1. Em 1967 foi publicado na Feira do Livro. H\u00e1 39 anos.<br \/>\n<strong>Kenny \u2013 \u00c9poca boa para estar fora do Brasil&#8230;<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 Foi acaso&#8230; (risos). O S\u00e9rgio [Faraco] estava na R\u00fassia, foi dific\u00edlimo para ele. Eu que intermediava as cartas para a m\u00e3e dele. Mandava a carta, eu trocava o envelope mandava para m\u00e3e dele. Recebia a dela, trocava o envelope russo, botava o franc\u00eas. Depois mandava para o S\u00e9rgio. Quando voltei para o Brasil me prenderam. A maior honra que eu tenho \u00e9 essa pris\u00e3o. Eu tenho tr\u00eas pris\u00f5es, tudo por literatura. Essa \u00e9 a que eu gosto mais.<br \/>\n<strong>Kenny \u2013 Intermediador de cartas&#8230;<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013<strong> <\/strong>Agora, por que a raz\u00e3o? Ficou na minha cabe\u00e7a, eu segui lendo sobre o tema, me interessando, fui nas Miss\u00f5es, que era um abandono total&#8230; N\u00e3o tinha estrada, n\u00e3o tinha nada, n\u00e3o tinha cidade, n\u00e3o tinha coisa nenhuma. E a\u00ed eu fui para Alemanha e escrevi O Gato e a Revolu\u00e7\u00e3o e lancei aqui na Feira e foi bem. Vendeu, depois teve a Feira de Alegrete, l\u00e1 foi o mais vendido, devo ter vendido uns 50 exemplares, uma beleza. At\u00e9 que veio o Ato Institucional de 1968. A Brigada j\u00e1 tinha me processado, depois suspendeu o processo, a\u00ed a Pol\u00edcia Federal foi l\u00e1 na Sulina, pegou o que sobrou e picotaram&#8230; A\u00ed, eu que estava lecionando na universidade, em seguida eles vieram para cima de mim, me fizeram uma press\u00e3o muito forte. Me tiraram os alunos primeiro, eu n\u00e3o podia dar aula, a\u00ed eu resolvi me demitir e fui para S\u00e3o Paulo.<br \/>\n<strong>Elmar \u2013 E o que era o Gato e a Revolu\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 Era uma hist\u00f3ria de estudantes universit\u00e1rios, eu fui presidente do Centro Acad\u00eamico da Agronomia e Veterin\u00e1ria \u00c9 sobre a experi\u00eancia universit\u00e1ria, em que eu fa\u00e7o uma revolu\u00e7\u00e3o por causa de um gato. Quem era revolucion\u00e1rio, estava preso. Ent\u00e3o, a revolu\u00e7\u00e3o que eles chamaram era uma revolu\u00e7\u00e3o de nada, era sim um golpe militar. Ent\u00e3o, revolu\u00e7\u00e3o tem que revolucionar. A\u00ed, eu fui para S\u00e3o Paulo \u2013 e por isso que eu digo que tem coisas maravilhosas na vida da gente. Eu alugo um apartamento e do outro lado \u00e9 a biblioteca p\u00fablica, por acaso. Olha, eu n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m em S\u00e3o Paulo. Para me virar, arranjar trabalho. Mas aqui eu era comunista e s\u00f3 consegui arrumar trabalho numa empresa americana, a Johnson&amp;Johnson. Depois descobri que eles tinham lido meus livros. E me disseram, \u201cah, gostei muito de O Gato e a Revolu\u00e7\u00e3o, tem humor. Hoje tu vai ver \u00e9 um absurdo, tudo. A\u00ed comecei a pesquisar sobre as Miss\u00f5es, na Biblioteca P\u00fablica de S\u00e3o Paulo. E qual foi a minha id\u00e9ia? Eu tenho que escrever um livro que fale em justi\u00e7a social, nos \u00edndios \u2013 o \u00faltimo romance de \u00edndio era do Jos\u00e9 de Alencar. Fizeram uma tese l\u00e1 em Pelotas, e eu fui convidado at\u00e9 para ir na Biblioteca P\u00fablica. E ele me disse: \u201cO seu livro, depois do Jos\u00e9 de Alencar, foi o primeiro romance de \u00edndio no pa\u00eds\u201d. Uma coisa de louco. E sabe como \u00e9, Jos\u00e9 de Alencar \u00e9 a mais pura fic\u00e7\u00e3o. O Guarani dele n\u00e3o \u00e9 o guarani mesmo. A\u00ed, eu pensei para mim. Se eu escrever um livro com um tema social, v\u00e3o me cassar de novo. Ent\u00e3o eu tenho que escrever um livro que conte a hist\u00f3ria, porque n\u00e3o houve nenhum momento no mundo uma experi\u00eancia socialista, crist\u00e3, como a dos guarani. N\u00e3o houve.<br \/>\n<strong>Guilherme \u2013 Por isso que o MST quer adotar, em fun\u00e7\u00e3o dessa experi\u00eancia socialista.<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 Pois \u00e9, mas a realidade&#8230; Eu n\u00e3o tenho nada contra o MST. Eu s\u00f3 n\u00e3o gosto de donos das coisas. O Seu St\u00e9dile \u00e9 o dono do MST. Quando eu comecei a estudar isso, na \u00e9poca da ditadura, n\u00e3o tinha dono, nem a igreja era dona. Ningu\u00e9m era dono. Nem o Frei S\u00e9rgio era dono, levava pau l\u00e1. Agora tem dono. E n\u00e3o est\u00e3o mais fazendo reforma agr\u00e1ria nenhuma. Nem querem mais terra. N\u00e3o sei mais o que eles querem. Ent\u00e3o a realidade \u00e9 essa. Ter dono n\u00e3o! Ent\u00e3o n\u00e3o pode ser dono do Sep\u00e9, n\u00e3o pode ser dono de nada. Agora, n\u00e3o pode impedir que v\u00e1 cultuar, claro que pode. Bom, ent\u00e3o eu escrevi o livro, porque me empolgava desde os 15 anos o tema, Dr. Rui, a pol\u00eamica toda essa, e porque eu fiquei vizinho da Biblioteca P\u00fablica de S\u00e3o Paulo. Depois eu fui por 18 anos vizinho da [Biblioteca P\u00fablica de] Porto Alegre. E l\u00e1 se acha essas coisas, e se v\u00ea onde pode ter mais, foi onde eu li o livro do Padre Seppe. Outra coisa, eu tinha estudado alem\u00e3o, franc\u00eas, isso me ajudou na pesquisa. O livro do Padre Seppe era em alem\u00e3o, eu li com dificuldades.<br \/>\n<strong>Kenny \u2013 Para fechar eu teria duas perguntas: O escritor tem necessariamente compromisso com a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade ou ele pode ficar indiferente ao que v\u00ea diante de seus olhos? E a segunda \u00e9 a seguinte: O Dr. Brizola est\u00e1 fazendo falta?<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 Mas vamos come\u00e7ar pela segunda. Muita falta. O Brizola, no meu entender, agora \u00e9 a hora em que ele seria presidente da Rep\u00fablica. Agora sim. O escritor, no meu entender, tem que ter uma posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. O exerc\u00edcio do partido pol\u00edtico \u00e9 muito complicado, porque daqui a pouco se decide, \u201colha, n\u00f3s vamos apoiar o fulano e o senhor \u00e9 do partido e tem que assinar\u201d. N\u00e3o, se eu n\u00e3o quero assinar eu n\u00e3o assino. Agora, um escritor sem ideologia&#8230; At\u00e9 porque, ele tem que ter uma linha. Se voc\u00eas pegarem meus livros, v\u00e3o ver que tem uma linha b\u00e1sica. O Gato e a Revolu\u00e7\u00e3o eram os universit\u00e1rios da minha gera\u00e7\u00e3o, lutando pela transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. Depois, Sep\u00e9, o maior exemplo de socialismo crist\u00e3o, as Miss\u00f5es. A\u00ed, Guerra dos Farrapos, pode falar o que quiser&#8230; \u201cAh, a Guerra dos Farrapos n\u00e3o ousou do ponto no sentido social\u201d. Sabe que idade tinha o Marx em 1835? 17 anos, nem ele era marxista. E querem que os ga\u00fachos sejam marxistas. Uma das lendas \u00e9 que Bento Gon\u00e7alves n\u00e3o foi um bom general. Gra\u00e7as a Deus. Ele foi uma figura humana extraordin\u00e1ria. O Bento parava quando tinha que parar. Como ele n\u00e3o tomou S\u00e3o Jos\u00e9 do Norte, quando o vento virou, ele poderia ter tocado fogo em S\u00e3o Jos\u00e9 do Norte. E ele, n\u00e3o, n\u00e3o vou fazer isso. At\u00e9 o Garibaldi n\u00e3o gostou. Foi uma atitude extraordin\u00e1ria. Agora, tu acha que o Garibaldi, Bento Gon\u00e7alves, toda essa gente ia lutar s\u00f3 pelo pre\u00e7o do charque. N\u00e3o&#8230; Outra coisa que as pessoas esquecem, o Bento Gon\u00e7alves n\u00e3o era s\u00f3 general, ele era deputado, a nossa Assembl\u00e9ia foi aberta em abril de 1835. Ele era deputado e era a figura mais importante dos liberais. Ent\u00e3o, quando eles fecharam a Assembl\u00e9ia em julho, \u00e9 que ele saiu a juntar gente para fazer a revolu\u00e7\u00e3o. O neg\u00f3cio dos escravos. Agora est\u00e3o querendo atirar o movimento negro contra a Guerra dos Farrapos. Mas meu amigo, pela primeira vez, e quem fez isso foi Jo\u00e3o Manuel de Lima e Silva, que era tio de Caxias e dois anos mais mo\u00e7o, e est\u00e1 enterrado em Ca\u00e7apava. O Jo\u00e3o Manuel de Lima e Silva \u00e9 uma figura fant\u00e1stica, porque ele era irm\u00e3o do pr\u00edncipe regente e era republicano e teve a coragem de vir para c\u00e1 fazer uma revolu\u00e7\u00e3o republicana. Ele que criou o regimento dos lanceiros negros, quando tomaram Pelotas. Ele abriu as senzalas, abriu as charqueadas e disse \u201cvoc\u00eas est\u00e3o livres. Agora se quiserem lutar por essa liberdade, t\u00e1 aqui o fardamento e vamos lutar. Mas n\u00e3o \u00e9 digno?&#8230;<br \/>\n<strong>Kenny \u2013 N\u00e3o tinha que lutar obrigatoriamente&#8230;<\/strong><br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\"><strong>Cheuiche<\/strong> <\/span>\u2013 Isso n\u00e3o. Agora, por que eles n\u00e3o terminaram totalmente com a escravatura? Porque se eles fizessem isso, quem iria trabalhar nas fazendas? Esse \u00e9 um pragmatismo errado, sob o ponto de vista do Rossetti, um ide\u00f3logo maravilhoso, gente que vinha da Europa, com id\u00e9ias. Tentaram fazer. Agora, a Guerra dos Farrapos foi important\u00edssima, a primeira rep\u00fablica do Brasil que durou dez anos, e abriu a catarinense. E da\u00ed come\u00e7ou a se ter uma id\u00e9ia de que o se queria verdadeiramente era um regime federativo, as rep\u00fablicas independentes reunidas no Brasil numa federa\u00e7\u00e3o republicana, que era o desejo deles fundamental. Ent\u00e3o, seguindo meus livros todos. Mesti\u00e7o de S\u00e3o Borja. Mais uma vez, o Osvaldo \u00e9 uma pessoa idealista, que luta pela ecologia, passa pela morte, o suic\u00eddio do Get\u00falio, o nacionalismo do povo brasileiro. Agora, eu posso errar, n\u00e3o sou dono da verdade, mas tem coer\u00eancia. Por que o Santos Dumont? Sabe quando \u00e9 que eu resolvi? Quando eu fiquei sabendo que ele ganhou o maior pr\u00eamio quando ele deu a volta na Torre Eiffel, seria hoje algo como R$ 500 mil. Quando ele recebeu aquele pr\u00eamio, o que ele fez? Pegou todas as pessoas que tinham trabalho com ele, inclusive vi\u00favas, e distribuiu metade do dinheiro entre todos que tinham trabalhado e estavam trabalhando. A outra metade, naquela \u00e9poca, os pequenos artes\u00e3os eram muito importantes para o pa\u00eds, e quando eles ficavam mal de dinheiro empenhavam o objeto. Por exemplo, a passadeira empenhava o ferro, o jardineiro, o material de jardim, o outro o serrote, o martelo. E depois n\u00e3o conseguiam retirar. Ele foi l\u00e1, pagou para tirar todos os utens\u00edlios de trabalho, e o dinheiro que sobrou ele entregou para distribui\u00e7\u00e3o entre os miser\u00e1veis, pobres.<br \/>\n<strong>Kenny \u2013 Qual tua rea\u00e7\u00e3o quando ouve dizer que as pessoas ditas nacionalistas s\u00e3o superadas e atrasadas?<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 <em>Risos<\/em>&#8230;. Olha, s\u00f3 posso dizer o seguinte. Para poder viver num mundo equilibrado, temos que saber defender nossa cultura, temos que saber viver em harmonia com todos, mas temos que ter identidade pr\u00f3pria. E saber nos defender. Imaginem que n\u00f3s no Rio Grande do Sul, que temos essa posi\u00e7\u00e3o forte, de respeito a nossas ra\u00edzes&#8230;. Uma vez chegou um americano aqui, e eu fui mostrar Porto Alegre, e liguei o r\u00e1dio no carro e s\u00f3 tocava m\u00fasica americana, uma pior do que a outra. Claro, daqui a pouco eu achei. E ele me disse assim: \u201cEngra\u00e7ado, essas m\u00fasicas que eu escuto aqui eu nunca escuto nos Estados Unidos\u201d. Quer dizer nos atiram o lixo cultural&#8230;<br \/>\n<strong>Elmar \u2013 Para fechar essa entrevista, tens que falar das oficinas liter\u00e1rias, que \u00e9 um trabalho importante.<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\">Cheuiche<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 H\u00e1 cinco anos, senti que estava na hora de passar algumas coisas que eu aprendi na literatura. Eu estava completando 35 anos de literatura, agora estou completando 40 anos, que foi o meu primeiro livro de poemas. E eu senti que tinha muita coisa para passar. E eu j\u00e1 acompanhava o trabalho do Assis Brasil, querido amigo meu, sou um pouco mais velho que ele, mas a nossa carreira liter\u00e1ria \u00e9 mais ou menos da mesma \u00e9poca, e eu admirava o trabalho dele nas oficinas. Ent\u00e3o, eu procurei ele l\u00e1 na PUC e ele me passou todo material. Eu disse: \u201cAssis, eu quero fazer na Urcamp\u201d. O diretor da Faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o da Faculdade de Bag\u00e9, Orlando Brasil, me convidou para dar a oficina. Que seria em Ca\u00e7apava e Bag\u00e9. Falei com Assis ele me deu tudo, 15 anos de trabalho, foi at\u00e9 demais. Eu resolvi adaptar, claro, a minha maneira. E a\u00ed fiquei apaixonado pela oficina. \u00c9 uma beleza, tanto para quem d\u00e1 quanto para quem recebe, primeiro porque s\u00e3o grupos pequenos, de pessoas que querem estudar, que querem aprender. Eu tive um caso de uma turma com duas alunas, uma com a idade m\u00ednima, 14 anos \u2013 a m\u00e1xima n\u00e3o tem, e outra com 84 anos. Ano passado o Ostermann, at\u00e9 na Feira, ele me pediu: \u201cEu quero essas a\u00ed, uma com 14 e outra com 84\u201d. Foi sensacional, o Ostermann fez a entrevista, precisa ver a harmonia daquelas duas pessoas. Ah, e n\u00e3o deixo senhoria, todo mundo no seu primeiro nome, eu sou o Alcy&#8230; S\u00e3o umas 10 pessoas, 12 pessoas, no m\u00e1ximo 15 pessoas.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #cc3300\"><strong>A obra do patrono<\/strong><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Alcy Cheuiche publicou seu primeiro romance em 1967 \u2013 O Gato e\u00a0 a Revolu\u00e7\u00e3o. Oito anos depois lan\u00e7ou Sep\u00e9 Tiaraju \u2013 Romance dos Sete Povos das Miss\u00f5es, que j\u00e1 teve seis edi\u00e7\u00f5es brasileiras, duas no Uruguai e uma na Alemanha. Ana Sem Terra \u00e9 seu livro mais popular no pa\u00eds, que totalizou 8 reedi\u00e7\u00f5es. Com A Guerra dos Farrapos, Cheuiche conquistou o Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Ilha de Laytano. O livro de cr\u00f4nicas Na Garupa de Chronos foi o vencedor do Pr\u00eamio A\u00e7orianos em 2001.<br \/>\nTamb\u00e9m recebeu os trof\u00e9us RBS e La\u00e7ador para Nos C\u00e9us de Paris \u2013 Romance da vida de Santos Dumont, que ganha sess\u00e3o de aut\u00f3grafos na segunda-feira, 31 de outubro. Nesse dia, o autor estar\u00e1 autografando todos os outros nove romances, a pe\u00e7a de teatro O pecado Original, os dois livros de cr\u00f4nica e os quatro volumes de poesia publicados at\u00e9 hoje. Entre eles o mais recente \u00e9 Antologia Po\u00e9tica, que a Martins Livreiro lan\u00e7a nesta Feira.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Livros publicados<\/span><\/strong><br \/>\n* O Gato e a Revolu\u00e7\u00e3o (2\u00aa Edi\u00e7\u00e3o \u2013 AGE)<br \/>\n* Sep\u00e9 Tiaraju \u2013 Romance dos Sete Povos das Miss\u00f5es (6\u00aa Edi\u00e7\u00e3o no Brasil \u2013 AGE, 2\u00aa Edi\u00e7\u00e3o no Uruguai \u2013 Banda Oriental e 1\u00aa Edi\u00e7\u00e3o na Alemanha \u2013 Editora Evang\u00e9lica Luterana)<br \/>\n* O Mesti\u00e7o de S\u00e3o Borja (5\u00aa Edi\u00e7\u00e3o \u2013 Sulina)<br \/>\n* A Guerra dos Farrapos (4\u00aa Edi\u00e7\u00e3o \u2013 Mercado Aberto, 1\u00aa Edi\u00e7\u00e3o Pocket \u2013 mercado Aberto).<br \/>\n* Ana Sem Terra (8\u00aa Edi\u00e7\u00e3o no Brasil \u2013 Sulina, 1\u00aa Edi\u00e7\u00e3o na Alemanha \u2013 Editora Evang\u00e9lica Luterana)<br \/>\n* Lord Baccarat (3\u00aa Edi\u00e7\u00e3o \u2013 AGE)<br \/>\n* A Mulher no Espelho (3\u00aa Edi\u00e7\u00e3o \u2013 AGE)<br \/>\n* Nos C\u00e9us de Paris \u2013 Romance da Vida de Santos Dumont (3\u00aa Edi\u00e7\u00e3o Pocket \u2013 L&amp;PM)<br \/>\n* Jabal Lubn\u00e0n, as aventuras do mascate liban\u00eas (1\u00aa Edi\u00e7\u00e3o \u2013 Sulina)<br \/>\n* Sep\u00e9 Tiaraju \u2013 Revista em Quadrinhos (3\u00aa Edi\u00e7\u00e3o \u2013 PontoCom)<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Cr\u00f4nica<\/span><\/strong><br \/>\n* O planeta Azul &#8211; esgotado<br \/>\n* Na Garupa de Chronos (Sulina)<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Teatro <\/span><\/strong><br \/>\n* O Pecado Original \u2013 Mercado Aberto<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Poesia<\/span><\/strong><br \/>\n* Medita\u00e7\u00f5es de um Poeta de Gravata &#8211; Esgotado<br \/>\n* Entre o Sena e o Gua\u00edba \u2013 Esgotado<br \/>\n* Versos do Extremo Sul \u2013 Esgotado<br \/>\n* Antologia Po\u00e9tica \u2013 Martins Livreiro Editores<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cheuiche: 40 anos de literatura (Fotos: Helen Lopes\/J\u00c1) El\u00e9trico, bigode e cabelo hirsutos, Cheuiche tem uma biografia bastante rica: criado no pampa, conheceu o mundo desdobrando-se nos pap\u00e9is de estudante, professor, veterin\u00e1rio e escritor. Fruto t\u00edpico da miscigena\u00e7\u00e3o ga\u00facha, gosta de falar de seus ancestrais, entre os quais aponta, pelo lado materno, os a\u00e7orianos Tavares [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-280","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-4w","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/280","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=280"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/280\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=280"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=280"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=280"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}