{"id":28010,"date":"2016-01-06T11:39:54","date_gmt":"2016-01-06T14:39:54","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=28010"},"modified":"2016-01-06T11:39:54","modified_gmt":"2016-01-06T14:39:54","slug":"cronica-de-adeus-a-um-notavel-jornalista-capixaba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/cronica-de-adeus-a-um-notavel-jornalista-capixaba\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica de adeus a um not\u00e1vel jornalista capixaba"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Geraldo Hasse<\/span><br \/>\nTomba mais um guerreiro, diz um dos 100 jornalistas que se juntaram em 1968 em S\u00e3o Paulo para fundar a revista Veja sob a dire\u00e7\u00e3o do navegador genov\u00eas Mino Carta.<br \/>\nQuem tombou desta vez foi Claudio Lachini (Colatina, 1941), que estudou Direito em Vit\u00f3ria antes de embarcar na canoa paulistana ao lado de uma centena de remadores aliciados em v\u00e1rias capitais e at\u00e9 em cidades do interior.<br \/>\n\u00danico capixaba entre uma centena de talentosos brasileiros selecionados para suar em madrugadas tensas na beira do rio Tiet\u00ea, Lachini compensava a solid\u00e3o falando por dois e bebendo por tr\u00eas.<br \/>\nMais do que jornalista-remador, foi poeta e narrador primoroso, como se pode conferir abaixo, lendo trechos de sua memor\u00e1vel escrita.<br \/>\nDo seu livro <em>O Que Se Viveu<\/em>, de 1991, que reune poemas escritos em Vit\u00f3ria, S\u00e3o Paulo, Curitiba e em alguns momentos no exterior, seleciono \u201cAqui, onde o mineral transformado\u201d, escrito em 1968, o ano em que se estabeleceu em S\u00e3o Paulo:<br \/>\n<em>Aqui, onde o mineral transformado \/ nos esmaga sem contempla\u00e7\u00e3o, \/ somos todos os homens \/ que t\u00eam cora\u00e7\u00e3o, ternura e luto. \/ O trabalhador que revolve a terra \/ no cimento, recoberto de argamassa e asfalto \/ me d\u00e1 a m\u00e3o como um irm\u00e3o. \/ Pernambuco, Maranh\u00e3o, Bahia, Rio \/ como corcovados bem acabados \/ espalmam a tarde como quem \/ ainda quer regressar. \/ Mas todo mundo vai ficando \/ na noite de entorpecer, \/ como o entardecer do sangu\u00edneo copo que bebemos\u201d.<\/em><br \/>\nDepois, em 2000, ele publicou AN\u00c1BASE, a hist\u00f3ria do jornal <em>Gazeta Mercantil<\/em>, do qual foi um dos diretores. Era um livro encomendado, para atender aos interesses da Casa, mas o autor colocou nele a alma do jornalista que acompanhou, por dentro, a evolu\u00e7\u00e3o da economia brasileira ao longo de tr\u00eas d\u00e9cadas, dos anos 1970 ao final do s\u00e9culo XX.<br \/>\n\u00c9 um livro que n\u00e3o se folheia impunemente. Basta abri-lo e fixar os olhos nas suas letras gra\u00fadas: imposs\u00edvel n\u00e3o cair na leitura, pois Lachini lhe deu um ritmo de cr\u00f4nica.<br \/>\nOs melhores livros do capixaba Claudio Lachini foram os romances hist\u00f3ricos <em>Sperandio<\/em> (Barcarolla, 2007) e <em>Vasco<\/em> (Barcarolla, 2009), que poderiam inscrever-se tranquilamente no pante\u00e3o da literatura fant\u00e1stica latino-americana.<br \/>\nLeiam o in\u00edcio genial de Sperandio, um capixaba de origem italiana: \u201cMeu nome foi Sperandio Zibaldone. Estou no limbo, onde habitam os seres vividos na Terra e mortos sem destino, como sucede aos animais da esp\u00e9cie dita humana. Os demais bichos, de ch\u00e3o, de mar e de ar, n\u00e3o sei para onde seguem quando falecem, se por acaso algum lugar lhes \u00e9 destinado. Aqui n\u00e3o sinto frio, calor, fome, sede, desejo sexual, ambi\u00e7\u00e3o, medo, \u00f3dio ou rancor. Meu estado f\u00edsico \u00e9 decomposto ao natural. O mundo viaja e seu caminho \u00e9 inexor\u00e1vel. (&#8230;) Quem tem sorte, queima at\u00e9 o toco da vela\u201d. \u00a0S\u00e3o mais de 200 p\u00e1ginas nessa toada fant\u00e1stica.<br \/>\nPor fim, em <em>Vasco<\/em>, Lachini conta (na primeira pessoa, como se fosse uma autobiografia) a hist\u00f3ria de Vasco Coutinho, o primeiro donat\u00e1rio da capitania do Esp\u00edrito Santo, que chegou \u00e0 ba\u00eda de Vit\u00f3ria em 1534.<br \/>\nPara as orelhas dessa obra de 250 p\u00e1ginas escrevi um textinho do qual extra\u00ed uma frase-s\u00edntese: \u201cEste livro, meio ensaio hist\u00f3rico, meio livro de mem\u00f3rias, tem um encantador sotaque luso antigo que traz \u00e0 tona um Portugal esquecido, ainda que cantado por Cam\u00f5es\u201d.<br \/>\nCom essa narrativa fant\u00e1stica, Lachini elevou-se ao n\u00edvel mais alto da literatura brasileira. Se n\u00e3o foi festejado nem badalado, talvez a resposta esteja dentro do famoso cesto de caranguejos capixabas, de onde n\u00e3o se al\u00e7a unzinho que seja, todos sufocados pela inveja.<br \/>\nLEMBRETE DE OCASI\u00c3O<br \/>\n\u201cRodar o pi\u00e3o j\u00e1 passou,<br \/>\na bola ainda \u00e9 uma possibilidade<br \/>\ne fazer a barba, uma necessidade.\u201d<br \/>\nVit\u00f3ria. 1968<br \/>\n(Poema de Claudio Lachini (1941-2016)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse Tomba mais um guerreiro, diz um dos 100 jornalistas que se juntaram em 1968 em S\u00e3o Paulo para fundar a revista Veja sob a dire\u00e7\u00e3o do navegador genov\u00eas Mino Carta. 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