{"id":291,"date":"2006-11-24T16:09:01","date_gmt":"2006-11-24T19:09:01","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=291"},"modified":"2006-11-24T16:09:01","modified_gmt":"2006-11-24T19:09:01","slug":"a-bibliografia-da-escravidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-bibliografia-da-escravidao\/","title":{"rendered":"A bibliografia da escravid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong><\/strong><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/feira2006\/med_negros.jpg?0.3213197753409578\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"233\" height=\"350\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\"><strong>Na obra de\u00a0Val\u00e9ria Zanetti:\u00a0o passado dos negros na Capital, com\u00a0detalhes da vida familiar, cultural, os crimes e os castigos a que foram submetidos, e um\u00a0cap\u00edtulo que\u00a0debate a vis\u00e3o da historiografia acerca do escravo urbano. (Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Naira Hofmeister<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Come\u00e7ava o m\u00eas de dezembro, em 1964, quando Carlos Reverbel condenava a aus\u00eancia de registros na m\u00eddia sobre o livro de Fernando Henrique Cardoso, <em>Capitalismo e Escravid\u00e3o no Brasil Meridional<\/em>. \u201cAinda n\u00e3o tivemos a oportunidade de ler uma not\u00edcia sequer, a respeito da referida obra, quanto mais um ju\u00edzo cr\u00edtico, que viesse atravessar t\u00e3o duradoura e espessa cortina de sil\u00eancio\u201d, dizia o jornalista. A obra, resultado da tese de doutoramento de FHC na Faculdade de Filosofia da USP, havia sido publicada dois anos antes e n\u00e3o teve repercuss\u00e3o alguma nas paginas de jornais.<\/p>\n<p align=\"justify\">Passaram 42 anos desde que Reverbel exp\u00f4s sua indigna\u00e7\u00e3o no artigo do Correio do Povo. De l\u00e1 para c\u00e1 foi institu\u00eddo o Dia da Consci\u00eancia Negra \u2013 feriado em diversas capitais do Brasil \u2013 que lembra a morte de Zumbi, l\u00edder do Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mais recentemente, uma lei nacional tentou emplacar o ensino de Hist\u00f3ria e Cultura Afro-brasileira em todos os n\u00edveis escolares, medida ainda n\u00e3o adotada em nenhuma institui\u00e7\u00e3o. No Rio Grande do Sul, um monumento em Pinheiro Machado vai lembrar o massacre da tropa dos Lanceiros Negros em 1844, quando os l\u00edderes farrapos ensaiavam os primeiros passos para a rendi\u00e7\u00e3o e acordo com os imperialistas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mesmo com os avan\u00e7os do Movimento Negro em busca de pol\u00edticas de inser\u00e7\u00e3o, a reclama\u00e7\u00e3o de Reverbel parece se repetir em 2006: \u201c\u00c9 de causar esp\u00e9cie um livro editado em 1962 n\u00e3o ter sido objeto de aten\u00e7\u00e3o at\u00e9 a presente data no nosso Estado\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Seis anos depois de lan\u00e7ada, a Cole\u00e7\u00e3o Malungo, da Editora UPF,\u00a0 ainda n\u00e3o mereceu espa\u00e7o na imprensa ga\u00facha. Com 10 t\u00edtulos j\u00e1 publicados e\u00a0 dois no prelo, a obra aborda a escravid\u00e3o no Brasil Colonial.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cRealmente a cole\u00e7\u00e3o est\u00e1 merecendo uma abordagem jornal\u00edstica, nem que seja por se encontrar precisamente no Rio Grande do Sul e, salvo engano, ser a \u00fanica cole\u00e7\u00e3o no Brasil dedicada exclusivamente a estudos cient\u00edficos sobre a escravid\u00e3o colonial brasileira\u201d, concorda M\u00e1rio Maestri, coordenador do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade de Passo Fundo e diretor da Editora da UPF, que abra\u00e7ou um projeto originariamente bancado por uma editora de S\u00e3o Paulo, na d\u00e9cada de 80.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cMalungo era a designa\u00e7\u00e3o dada pelos africanos angolanos escravizados, aos companheiros aos quais estavam acorrentados ou com os quais compartiram a terr\u00edvel viagem transatl\u00e2ntica nos tumbeiros\u201d, explica o historiador.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na atual cole\u00e7\u00e3o, todos os livros s\u00e3o &#8211; assim como a obra em quest\u00e3o no artigo de Reverbel &#8211; fruto de trabalhos acad\u00eamicos desenvolvidos principalmente nas universidades ga\u00fachas, mas n\u00e3o exclusivamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cAlguns dos livros publicados na cole\u00e7\u00e3o Malungo eram antigas teses ou disserta\u00e7\u00f5es, de elevada qualidade, in\u00e9ditas h\u00e1 anos, por falta de espa\u00e7o editorial, como o estudo de Th\u00e9o Loubarinhas Pi\u00f1eiro, professor da UFF, sobre a crise da escravid\u00e3o no Rio de Janeiro, ou de Maria do Carmo Brasil, ent\u00e3o professora da UFMS, sobre a escravid\u00e3o no Mato Grosso\u201d, destaca.<\/p>\n<p align=\"justify\">Dos 10 t\u00edtulos j\u00e1 dispon\u00edveis para compra, 5 abordam a escravatura no Rio Grande do Sul, cujo acesso, lembra Maestri, era restrito aos exemplares depositados nos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Entre os trabalhos ga\u00fachos, chamam a aten\u00e7\u00e3o os estudos de Ana Regina Sim\u00e3o \u2013 hoje professora da Unisinos \u2013 e da mineira Val\u00e9ria Zenetti, sobre a escravid\u00e3o urbana em Pelotas e Porto Alegre, respectivamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em <em>Resist\u00eancia e acomoda\u00e7\u00e3o: a escravid\u00e3o urbana em Pelotas &#8211; RS (1812-1850)<\/em>, Ana Regina Sim\u00e3o debate a dicotomia escravocrata refletida nas id\u00e9ias surgidas no final da d\u00e9cada de 70, quando se delineou a linha de racioc\u00ednio que \u201creconhecia a din\u00e2mica escravista a partir da categoria contradi\u00e7\u00e3o-consenso e n\u00e3o contradi\u00e7\u00e3o-resist\u00eancia\u201d, escreve Maestri na apresenta\u00e7\u00e3o do livro. Ou seja, a condi\u00e7\u00e3o servil se dava n\u00e3o apenas por causa da opress\u00e3o dos senhores, mas tamb\u00e9m por falta de resist\u00eancia, entende esse vi\u00e9s de pesquisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">O resultado dessa invers\u00e3o de conceitos, segue explicando, foi uma mudan\u00e7a no paradigma das investiga\u00e7\u00f5es, que deixam de se concentrar no campo e chegam aos centros urbanos, at\u00e9 ent\u00e3o ignorados pelos estudos. \u201cEntre todos os protagonistas das pesquisas arroladas que tive o privil\u00e9gio de orientar, a autora foi sempre a mais atra\u00edda pelo p\u00f3lo acomoda\u00e7\u00e3o\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em seis cap\u00edtulos a autora situa o leitor na sociedade escravista brasileira e nas particularidades sulinas, pontua as diferen\u00e7as entre a pr\u00e1tica escravocrata urbana daquela no campo e tra\u00e7a o panorama da cidade de Pelotas e de sua principal atividade econ\u00f4mica:\u00a0 as charqueadas. \u201cPrincipais produtos de exporta\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul na primeira metade do s\u00e9culo XIX, a produ\u00e7\u00e3o de charque e do couro ensejou a expans\u00e3o das grandes fazendas pastoris, dando origem a uma sociedade apoiada no bra\u00e7o do cativo, que ensejou um centro urbano escravocrata de grande opul\u00eancia, como Pelotas\u201d, descreve Ana.<\/p>\n<p align=\"justify\">A alforria, a fam\u00edlia e a sa\u00fade dos escravos tamb\u00e9m s\u00e3o contemplados no minucioso estudo, que, segundo Maestri, prop\u00f5e um cen\u00e1rio rico e complexo. Se as alforrias eram quase uma exclusividade das mulheres escravizadas, eram as negras que sofriam problemas de sa\u00fade, pois eram os trabalhadores de sexo masculino que recebiam tratamento hospitalar na Santa Casa. A autora lembra ainda que nos registros de filhos de escravas \u201ca paternidade era ignorada\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tamb\u00e9m em\u00a0<em>Calabou\u00e7o Urbano \u2013 Escravos e Libertos em Porto Alegre (1840-1860)<\/em> aparece novamente a oposi\u00e7\u00e3o entre o campo e a cidade. Nos estudos de Val\u00e9ria Zanetti, al\u00e9m da narrativa sobre o passado dos negros na Capital \u2013 que tamb\u00e9m inclui detalhes sobre a vida familiar, cultural, os crimes e os castigos a que foram submetidos \u2013, h\u00e1 um extenso cap\u00edtulo que se dedica a debater a vis\u00e3o da historiografia acerca do escravo urbano. \u201cA reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de Val\u00e9ria Zanetti apresenta-nos uma Porto Alegre estranhamente negra, escravista e pleb\u00e9ia, em forte oposi\u00e7\u00e3o aos cen\u00e1rios tradicionais que dilu\u00edram a onipresen\u00e7a do cativo negro nas cidades sulinas\u201d, opina Maestri.<\/p>\n<p align=\"justify\">Aliam-se a esses estudos trabalhos acad\u00eamicos rec\u00e9m-defendidos, entre os quais Maestri destaca o de Leandro Daronco, sobre a escravid\u00e3o em Cruz Alta, e o pr\u00f3ximo lan\u00e7amento da Cole\u00e7\u00e3o Malungo onde Beatriz Eifert, aborda a escravid\u00e3o nas fazendas de Soledade.<\/p>\n<p align=\"justify\">A cole\u00e7\u00e3o conta ainda com outros t\u00edtulos de gente que Maestri define como \u201cconsagrados historiadores de outras regi\u00f5es do Brasil\u201d, Entre eles, Fl\u00e1vio dos Santos Gomes, professor do PPGH da UFRJ, que publicou colet\u00e2nea de ensaios especializados sobre a escravid\u00e3o, e o economista e professor da universidade Federal do Piau\u00ed, que publicou sua tese sobre a escravid\u00e3o nas fazendas p\u00fablicas piauiense e, agora, reeditou seu trabalho \u201cj\u00e1 cl\u00e1ssico sobre a resist\u00eancia e viol\u00eancia escravista no RS\u201d, <em>Triste pampa: resist\u00eancia e puni\u00e7\u00e3o de escravos em fontes judici\u00e1rias do Rio Grande do Sul (1818-1833)<\/em>.<\/p>\n<p align=\"justify\">A extens\u00e3o territorial n\u00e3o p\u00e1ra a\u00ed: Maestri revela que a cole\u00e7\u00e3o come\u00e7a a dar os primeiros passos internacionais: \u201cJ\u00e1 est\u00e1 em an\u00e1lise a publica\u00e7\u00e3o de dois trabalhos relacionados com a escravid\u00e3o no norte do Uruguai.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">Publico n\u00e3o falta para as publica\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que nas \u00faltimas da Feira do Livro de Porto Alegre, a banca da UPF tem sido ponto de encontro dos historiadores na Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega. \u201cIsso assinala, simpaticamente, sua definitiva inser\u00e7\u00e3o em nosso panorama cultural\u201d, completa um orgulhoso M\u00e1rio Maestri.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os livros podem ser encomendados atrav\u00e9s do endere\u00e7o eletr\u00f4nico da editora &#8211; <a href=\"http:\/\/www.upf.br\/editora\/\">http:\/\/www.upf.br\/editora\/<\/a> &#8211; ou no pr\u00f3prio Campus da Universidade, no Km 171\u00a0da BR 285, em Passo Fundo. O telefone da Editora da UPF \u00e9\u00a0(54) 3316-8100.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na obra de\u00a0Val\u00e9ria Zanetti:\u00a0o passado dos negros na Capital, com\u00a0detalhes da vida familiar, cultural, os crimes e os castigos a que foram submetidos, e um\u00a0cap\u00edtulo que\u00a0debate a vis\u00e3o da historiografia acerca do escravo urbano. 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