{"id":29288,"date":"2016-02-09T13:48:31","date_gmt":"2016-02-09T16:48:31","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=29288"},"modified":"2016-02-09T13:48:31","modified_gmt":"2016-02-09T16:48:31","slug":"tao-golin-aponta-deformacao-historica-que-atrasa-o-rio-grande","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/tao-golin-aponta-deformacao-historica-que-atrasa-o-rio-grande\/","title":{"rendered":"Tao Golin aponta deforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que atrasa o Rio Grande"},"content":{"rendered":"<p>Uma das mat\u00e9rias importantes que passaram batidas no carnaval \u00e9 a entrevista do historiador Tao Golin \u00e0 Zero Hora no domingo.<br \/>\nEle toca num dos nervos expostos da crise do Rio Grande do Sul: a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que produziu o &#8220;centauro dos pampas&#8221;, o &#8220;monarca das coxilhas&#8221;, o &#8220;cavaleiro alegre, disserto e valente&#8221;.<br \/>\nUm mito que atribui ao ga\u00facho a cavalo uma dimens\u00e3o que ele n\u00e3o teve.<br \/>\nO novo livro de Tao Golin mostra que foram as for\u00e7as navais, mais que as patas do cavalo, que garantiram \u00a0a configura\u00e7\u00e3o do Estado nas disputas com a Espanha.<br \/>\nMesmo na guerra dos farrapos, foram as vias naveg\u00e1veis, descuidadas pelos rebeldes, que deram vantagem ao Imp\u00e9rio, a come\u00e7ar pelo desastre da Ilha do Fanfa.<br \/>\nUma das consequ\u00eancias dessa deforma\u00e7ao hist\u00f3rica \u00e9 o abandono da navega\u00e7\u00e3o, num estado que tem a segunda maior rede naveg\u00e1vel do Brasil.<br \/>\nTao Golin joga gasolina na fogueira, mais uma vez. Mas a reflex\u00e3o que ele prop\u00f5e \u00e9 imprescind\u00edvel.<br \/>\nGuardei nos meus arquivos:<br \/>\n<span class=\"intertit\">Tao Golin: &#8220;Na hist\u00f3ria rio-grandense, quem apostou no cavalo perdeu a guerra&#8221;<\/span><br \/>\n<em>Historiador fala sobre a forma\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul e a rela\u00e7\u00e3o dos ga\u00fachos com o restante do Brasil<\/em><br \/>\nPor:\u00a0Luiz Ara\u00fajo<br \/>\n06\/02\/2016 &#8211; 15h02min<br \/>\nForam for\u00e7as navais, e n\u00e3o tropas terrestres baseadas no uso do cavalo, que configuraram o Rio Grande do Sul atual entre a metade e o final do s\u00e9culo 18.<br \/>\nEssa tese, provocativa como \u00e9 do feitio de seu autor, o historiador, professor e jornalista Tau Golin, \u00e9 a pedra-de-toque do livro A Fronteira \u2014 1763-1778, terceiro tomo de uma trilogia dedicada \u00e0s guerras sulinas entre Portugal e Espanha.<br \/>\nO local escolhido por Golin para falar a Zero Hora sobre esse e outros temas n\u00e3o poderia ser mais significativo: o barco \u2014 o terceiro de sua propriedade \u2014 que utiliza h\u00e1 oito anos para singrar a Lagoa dos Patos e o Atl\u00e2ntico.<br \/>\n<strong>O papel da navega\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 muito enfatizado na hist\u00f3ria rio-grandense. Como esse tema chamou sua aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o existiria Rio Grande do Sul sem navega\u00e7\u00e3o. Ela forneceu uma plataforma de ocupa\u00e7\u00e3o, de povoamento e de movimenta\u00e7\u00e3o na guerra. Do ponto de vista geopol\u00edtico, o Rio Grande \u00e9 uma realiza\u00e7\u00e3o da navega\u00e7\u00e3o. Depois da navega\u00e7\u00e3o, houve o uso das armas da navega\u00e7\u00e3o em terra, que s\u00e3o a artilharia e a infantaria. A cavalaria sempre foi, na hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul, uma arma auxiliar. Serviu para provoca\u00e7\u00f5es de movimento e n\u00e3o teve fun\u00e7\u00f5es de conquista. O papel da navega\u00e7\u00e3o era transportar tropas e assegurar pontos estrat\u00e9gicos, porque as dist\u00e2ncias eram muito longas. Quem esteve melhor preparado na navega\u00e7\u00e3o conquistou territ\u00f3rio. Quem baseou a ocupa\u00e7\u00e3o no cavalo perdeu territ\u00f3rio \u2014 foi o caso dos espanh\u00f3is, que deram mais import\u00e2ncia \u00e0 cavalaria do que \u00e0 infantaria e \u00e0 artilharia em terra.<br \/>\n<strong>Em que momento essa op\u00e7\u00e3o se imp\u00f4s?<\/strong><br \/>\nSe tu pegares a hist\u00f3ria rio-grandense, desde as guerras ib\u00e9ricas coloniais at\u00e9 as guerras do Estado-na\u00e7\u00e3o e, principalmente, as guerras civis do Rio Grande do Sul, quem apostou no cavalo perdeu a guerra. Isso come\u00e7a com o uso do cavalo na Guerra da Cisplatina (1825-1828), que se deve muito a n\u00e3o pegar a experi\u00eancia lusitana do per\u00edodo colonial \u2014 que apostava na navega\u00e7\u00e3o, na artilharia, na infantaria e nos granadeiros, que eram tropas de assalto, de elite \u2014 e entrar nesse devaneio olig\u00e1rquico da cavalaria, do bando de agregados, que na hist\u00f3ria colonial sempre foi auxiliar, nunca teve papel estrat\u00e9gico. A primeira perda significativa foi na Guerra da Cisplatina. Os farrapos perderam em fun\u00e7\u00e3o do cavalo. Em 1893, os maragatos nem chegaram a amea\u00e7ar o governo do Partido Republicano Rio-grandense (PRR). Usavam cavalos de campo, imprest\u00e1veis para a guerra, sem resist\u00eancia. O cavalo militar \u00e9 diferente, preparado para a guerra, a come\u00e7ar pela alimenta\u00e7\u00e3o. Esse cavalo a campo n\u00e3o tem resist\u00eancia. Precisa de muita peonada para lev\u00e1-lo para o pasto. N\u00e3o tem precis\u00e3o na guerra. Tanto \u00e9 que a cavalaria maragata geralmente era enfrentada pela Brigada Militar com forma\u00e7\u00f5es antiqu\u00edssimas, como o quadrado romano, que vem da Antiguidade \u2014 a diferen\u00e7a era que usavam armas de fogo em vez de flechas e lan\u00e7as. Na hist\u00f3ria contempor\u00e2nea, o cavalo s\u00f3 se presta para patrulhamento de grandes dist\u00e2ncias e para reprimir manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de estudantes e oper\u00e1rios, numa mentalidade de covardia. Mas com algumas bolitas, pregos e bombinhas, voc\u00ea anula essa for\u00e7a. \u00c9 uma arma completamente in\u00fatil. A cavalaria, contemporaneamente, \u00e9 a arma dos covardes, dos prevalecidos.<br \/>\n<strong>Ningu\u00e9m apontou outro caminho?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, por uma quest\u00e3o de classe social. O poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico da oligarquia rio-grandense estabeleceu uma mentalidade estrat\u00e9gica de defesa da propriedade. Militarmente, era um c\u00e9rebro diminuto, que, em primeiro lugar, tinha essa preocupa\u00e7\u00e3o camponesa de defesa dos pr\u00f3prios bens. N\u00e3o tinha uma cultura totalizante voltada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do Estado, da sociedade e do lugar das armas. O imagin\u00e1rio dessa oligarquia foi historicamente reduzido ao universo do latif\u00fandio escravista e, depois da rep\u00fablica, excludente. Esse acabou sendo o tamanho de sua imagina\u00e7\u00e3o: o de um homem no lombo de um cavalo dentro de uma propriedade latifundi\u00e1ria. Perdeu a cultura estrat\u00e9gica lusitana, que tinha barco, infantaria, artilharia, com granadeiros, e foi se reduzindo ao universo da defesa da propriedade, sem imagina\u00e7\u00e3o militar.<br \/>\n<strong>Ainda assim, o caudilho maragato Gumercindo Saraiva tomou Curitiba na Revolu\u00e7\u00e3o de 1893.<\/strong><br \/>\nO universo de Gumercindo era esse: o da longa tradi\u00e7\u00e3o da divers\u00e3o e do movimento, sem considerar a possibilidade de uma batalha final. N\u00e3o foi uma Revolu\u00e7\u00e3o Federalista, e sim uma guerra civil, porque tinha apenas uma reivindica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o tinha nenhuma proposta que mexesse nas estruturas da sociedade e das classes sociais. A cavalaria era algo adequado a essa gente. E, na verdade, nem cavalo tinham. Eram infantes sem a cultura dos infantes, sem a forma\u00e7\u00e3o de regimentos, de pelot\u00f5es, mais dados \u00e0s escaramu\u00e7as. Mesmo quando andavam a p\u00e9, o seu universo mental era o do cavalo. Essa foi a desgra\u00e7a de todas as tropas que apostaram na cavalaria.<br \/>\n<strong>Recentemente, um grupo de cidad\u00e3os da Metade Sul divulgou um documento em favor da independ\u00eancia da Regi\u00e3o Sul. Esse imagin\u00e1rio continua contribuindo para o atraso econ\u00f4mico e pol\u00edtico do Rio Grande do Sul?<\/strong><br \/>\nSem d\u00favida. \u00c9 o revir. Uso a categoria do revir, que \u00e9 imaginar o presente e o futuro como uma reprodu\u00e7\u00e3o do passado. S\u00e3o movimentos sociais sem devir.Isso vai levar a tudo isso que presenciamos: imaginar que s\u00e3o melhores, especiais, que fizeram parte de um passado glorioso. O \u00edcone que abre essa plataforma socialmente imag\u00e9tica \u00e9 o cavalo. Infelizmente, temos uma cultura no Rio Grande do Sul que tomou todos os setores p\u00fablicos e que nos impede de ter uma for\u00e7a reformadora. Os funcion\u00e1rios p\u00fablicos em geral, as pessoas que deveriam cuidar da moderniza\u00e7\u00e3o da infraestrutura, s\u00e3o prisioneiros desse mito de uma idade do latif\u00fandio, baseada no cavalo. As solu\u00e7\u00f5es desse pessoal s\u00e3o todas tacanhas.<br \/>\n<strong>O que seria uma solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o tacanha?<\/strong><br \/>\nRecuperar a voca\u00e7\u00e3o naval do Estado. Temos grandes rios e lagoas, que nos permitiriam ter, com investimento muito menor do que nas estradas, canais de navega\u00e7\u00e3o naturais, com eclusas, e artificiais. \u00c9 barat\u00edssimo frente \u00e0s rodovias. Os franceses fizeram isso nos s\u00e9culos 15 e 16, estabelecendo conex\u00f5es entre o Mar do Norte e o Mediterr\u00e2neo a p\u00e1 e picareta. O Estado n\u00e3o tem sequer uma secretaria que pense estrategicamente o uso das \u00e1guas. Esses movimentos ficam chafurdando numa esp\u00e9cie de orgulho narc\u00edsico e purgam porque o Brasil e mesmo o governo de Porto Alegre n\u00e3o reconhecem sua grandiosa contribui\u00e7\u00e3o \u00e0s fronteiras, \u00e0 conquista dos territ\u00f3rios.<br \/>\n<strong>\u00c9 uma brasilidade envergonhada?<\/strong><br \/>\nQuem tem assumido essas bandeiras s\u00e3o indiv\u00edduos que vieram tardiamente para o Rio Grande do Sul. Esses movimentos querem ser gauchescos e, ao mesmo tempo, ter uma raiz europeia. T\u00eam uma dupla cidadania simb\u00f3lica. O que n\u00e3o querem ser \u00e9 brasileiros. Esse gauchismo, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 um recurso de lesa-p\u00e1tria, porque impede uma rela\u00e7\u00e3o afetiva e concreta com a hist\u00f3ria brasileira. Ele aponta solu\u00e7\u00f5es fora da historicidade, como se n\u00f3s, brasileiros, f\u00f4ssemos incapazes de construir uma sociedade com um n\u00edvel de civilidade superior. \u00c9 por isso que, geralmente, as pessoas que est\u00e3o com essas plataformas, quando n\u00e3o s\u00e3o militantes, namoram ideias de racismo e de preconceito. Essa cultura imobiliza e, ao mesmo tempo, impede que se crie uma inser\u00e7\u00e3o real com o passado brasileiro do Rio Grande do Sul. Possivelmente, o Rio Grande do Sul seja o Estado mais brasileiro que existe. Do ponto de vista da sua ideia de destino e da sua imagina\u00e7\u00e3o como sociedade, est\u00e1 muito vinculado ao povoamento por meio da guerra. Todas as guerras foram alimentadas por militares e recrutas buscados, \u00e0s vezes com convoca\u00e7\u00f5es n\u00e3o muito democr\u00e1ticas, em todas as regi\u00f5es do Brasil.<br \/>\n<strong>Desde sempre?<\/strong><br \/>\nDesde o in\u00edcio. O primeiro sujeito a trabalhar com arreios na vila de Rio Grande era um baiano trazido por Silva Tavares. O charque foi trazido por um cearense. Eram companhias de pernambucanos, baianos, mineiros e, fundamentalmente, paulistas. O Rio Grande do Sul \u00e9 uma ocupa\u00e7\u00e3o paulista e mameluca. Todas as formas de rela\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito mamelucas. A pr\u00f3pria forma de guerrear \u00e9 mameluca. Depois, v\u00eam regimentos da Europa \u2014 de Moura, de Bragan\u00e7a, de Extremoz, dos A\u00e7ores. Todos esses homens v\u00e3o ficando como povoadores, porque recebem terras. Todos os ex\u00e9rcitos \u2014 inclusive catarinenses, porque Santa Catarina, de certa forma, era paulista no per\u00edodo colonial \u2014 v\u00e3o ficando como povoadores.<br \/>\n<strong>A Coroa incentivava-os a ficar.<\/strong><br \/>\nSim, com leis, com distribui\u00e7\u00e3o de quadras de sesmarias j\u00e1 com data. Tornavam-se m\u00e9dios propriet\u00e1rios. Recebiam terras no que chamamos hoje de zona rural e lotes nas vilas que iriam se formar. Mas o n\u00famero desses indiv\u00edduos do sexo feminino era muito pequeno, quase nulo. A \u00fanica possibilidade desse pessoal se estabelecer como povoador era se casando, se amasiando ou formando fam\u00edlias com \u00edndias \u2014 guaranis, caingangues, choclengues, minuano, charruas. O pr\u00f3prio Pinto Bandeira tinha uma mulher minuano, teve filhos reconhecidos. Menna Barreto tinha, como sua am\u00e1sia principal, uma \u00edndia guarani das Miss\u00f5es \u2014 foi um esc\u00e2ndalo no in\u00edcio do s\u00e9culo 19, diversos dos seus filhos tinham forma\u00e7\u00e3o militar. Temos um Rio Grande do Sul povoado por representantes de todo o mundo lusitano \u2014 e eram incorporados espanh\u00f3is na dan\u00e7a de fronteira, vinham franceses em menor n\u00famero. O Rio Grande foi um esfor\u00e7o lusitano e brasileiro, que se concretizou regionalmente com base no ventre ind\u00edgena. Por isso, depois, vieram milh\u00f5es de migrantes europeus, e mesmo assim os tra\u00e7os ind\u00edgenas continuam a\u00ed at\u00e9 hoje \u2014 basta andar pela Metade Sul. Atualmente, h\u00e1 um fen\u00f4meno muito impressionante: migrantes no Planalto e no Alto Uruguai com um n\u00famero muito significativo de mesti\u00e7agem com caingangues. Temos uma regi\u00e3o que, do ponto de vista antropol\u00f3gico e social, representa o Brasil e o mundo lusitano. Mas n\u00e3o temos consci\u00eancia disso, porque temos uma historiografia que n\u00e3o insiste nisso e meios de comunica\u00e7\u00e3o que s\u00f3 repetem pastiches e n\u00e3o veem o Rio Grande do Sul como um lugar em que a brasilidade se realizou de fato. \u00c9 a regi\u00e3o mais brasileira porque misturou o Brasil no povoamento das guerras de fronteira mantidas por paulistas, mineiros, baianos, pernambucanos. Esse processo durou dois s\u00e9culos no Rio Grande do Sul. Invariavelmente, os que agenciam esse preconceito, essa ideia de um Rio Grande do Sul especial, est\u00e3o assassinando mais uma vez os seus av\u00f3s.<br \/>\n<strong>Qual \u00e9 o peso do africano nesse contexto?<\/strong><br \/>\nO africano \u00e9 uma parte fundamental dos ex\u00e9rcitos desde sempre. O ex\u00e9rcito luso-brasileiro que veio para a Guerra Guaran\u00edtica de 1752-1753 tinha em torno de 15% a 20% de negros, como escravos, e tinha uma vanguarda de mamelucos de 200 pessoas. A representa\u00e7\u00e3o dentro do ex\u00e9rcito lusitano era expressiva. O pr\u00f3prio militar regular invariavelmente era mesti\u00e7o. Muitos eram oficiais ou suboficiais. A marinharia era majoritariamente negra. Se a gente pegar a Guerra de 1776, a retomada dos fortes e da Vila de Rio Grande, que eram o n\u00facleo principal da posse espanhola, foi feita sem nenhum cavalo. O que se usou para infiltrar os granadeiros atr\u00e1s dos fortes foi um pelot\u00e3o de jangadeiros pernambucanos. Criaram um estaleiro de jangadas em Rio Grande e, durante a madrugada, colocaram 200 granadeiros atr\u00e1s das tropas inimigas. N\u00e3o se usou nenhum cavalo.<br \/>\n<strong>H\u00e1 um grande debate sobre o ensino da hist\u00f3ria no Brasil. Como v\u00ea isso?<\/strong><br \/>\nPrecisamos fazer os alunos perceberem o que \u00e9 um Estado-na\u00e7\u00e3o e vincular essa ideia \u00e0 utopia de comunidade de destino, em que todos s\u00e3o respons\u00e1veis por todos. Isso depende da imagina\u00e7\u00e3o dessa comunidade de destino. Voc\u00ea s\u00f3 forma uma sociedade com uma ideia de comunidade de destino, e para isso voc\u00ea precisa imagin\u00e1-la. Para imagin\u00e1-la, voc\u00ea precisa saber quem \u00e9 a na\u00e7\u00e3o: quais as etnias, as culturas, as regi\u00f5es. Isso permite equalizar e estabelecer uma alteridade, em que um reconhe\u00e7a que \u00e9 feito no espelho do outro com respeito \u00e0 diversidade. O problema maior que vejo para entender o Brasil \u00e9 decifrar como se formou e funciona o Estado-na\u00e7\u00e3o. A primeira constata\u00e7\u00e3o \u00e9 que o Estado brasileiro est\u00e1 dissociado da na\u00e7\u00e3o. \u00c9 formado na maldi\u00e7\u00e3o portuguesa: \u00e9 possu\u00eddo por um estamento que se autorreproduz e se autoalimenta na sua pr\u00f3pria l\u00f3gica. O Estado brasileiro n\u00e3o est\u00e1 a servi\u00e7o da na\u00e7\u00e3o, e sim a servi\u00e7o desse estamento que o ocupa e de seus neg\u00f3cios \u2014 estou deduzindo essa ideia dos escritos de Raymundo Faoro. Esse patrimonialismo n\u00e3o \u00e9 republicano. Soldar essa dicotomia entre o Estado e a na\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para se ter um pa\u00eds. Esse \u00e9 o dilema brasileiro. O Estado alimenta essa dicotomia, com a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, dos materiais historiogr\u00e1ficos e das comunica\u00e7\u00f5es, fomentando antagonismos regionais. Se as na\u00e7\u00f5es que existem no pa\u00eds n\u00e3o se equalizarem numa comunidade de destino, n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o. Tenho de saber que a minha felicidade depende da do nordestino, dos povos amaz\u00f4nicos, de Mato Grosso, de todos os lugares. \u00c9 preciso que tenhamos as refer\u00eancias b\u00e1sicas e elementares do brasileiro, que, de certa forma, est\u00e3o inscritas na Constitui\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 obedecida. Temos de ser absolutamente radicais na ideia republicana de despatrimonializar o Estado, romper com condom\u00ednios das articula\u00e7\u00f5es desse estamento que ocupa o Estado. Isso nos levou a ter vinculadas ao Estado institui\u00e7\u00f5es, como a Brigada Militar e a Pol\u00edcia Civil, que, para especular com aumento de sal\u00e1rio, deixam a popula\u00e7\u00e3o ao esc\u00e1rnio da bandidagem.<br \/>\n<strong>O senhor se refere ao epis\u00f3dio do aquartelamento, em agosto do ano passado?<\/strong><br \/>\nSempre. S\u00e3o institui\u00e7\u00f5es que n\u00e3o t\u00eam um pacto de destino com a na\u00e7\u00e3o. \u00c9 um produto do que existe de pior nesse estamento. N\u00e3o se imaginam dentro de um pa\u00eds, de uma na\u00e7\u00e3o, mas sim como uma profiss\u00e3o que ocupa o Estado. N\u00e3o t\u00eam nenhum v\u00ednculo afetivo. Se voc\u00ea pegar culturas tradicionais, como a dos samurais, por exemplo \u2014 dou um exemplo do passado \u2014, jamais, diante da amea\u00e7a a uma popula\u00e7\u00e3o, se pensa em sal\u00e1rio. Voc\u00ea tem de ter uma ideia de hist\u00f3ria superior ao teu interesse corporativo. N\u00e3o temos nenhuma institui\u00e7\u00e3o no Brasil capaz de realizar um sacrif\u00edcio pela na\u00e7\u00e3o. Isso decorre dessa rela\u00e7\u00e3o esp\u00faria com o estamento. Se voc\u00ea achar que grandes massas que formam a na\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam nada a ver contigo, esse pa\u00eds \u00e9 imposs\u00edvel. Ele tem de estabelecer um consenso m\u00ednimo de destino para todos, uma ideia de piso m\u00ednimo, da qual n\u00e3o se pode baixar. Uma boa refer\u00eancia \u00e9 a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, da qual for\u00e7as poderosas est\u00e3o tentando revogar uma s\u00e9rie de artigos e dispositivos.<br \/>\n<strong>A Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato e outras revelaram esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o com a participa\u00e7\u00e3o de grandes empresas e o Estado brasileiro. A cat\u00e1strofe ambiental em Mariana mostrou que essa rela\u00e7\u00e3o coloca em risco os pr\u00f3prios ecossistemas. Isso n\u00e3o est\u00e1 na raiz da inexist\u00eancia do que o senhor chama de comunidade de destino?<\/strong><br \/>\nSem d\u00favida. N\u00e3o abandono o conceito de estamento porque ele vai incluindo essas formas contempor\u00e2neas de rela\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 um neg\u00f3cio que transfere grandes recursos, que retira da esfera p\u00fablica, n\u00e3o chega \u00e0 na\u00e7\u00e3o, fica nas l\u00f3gicas do Estado e de quem domina o Estado, vai para os grandes crimes ambientais. O pa\u00eds \u00e9 esgotado por uma s\u00e9rie de barbaridades que t\u00eam a ver muito com essa ideia de estamento porque o Estado brasileiro tem uma maldi\u00e7\u00e3o. A maldi\u00e7\u00e3o \u00e9 que ele n\u00e3o se profissionaliza de maneira republicana. Temos uma esp\u00e9cie de maldi\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos durante o per\u00edodo da Rep\u00fablica. Todos eram apadrinhados. Se voc\u00ea \u00e9 vereador e coloca 20 caras na m\u00e1quina p\u00fablica, tem 20 cabos eleitorais. Estabelece-se uma rela\u00e7\u00e3o de suserania na qual sabem que o emprego deles depende dos votos que conseguir\u00e3o para voc\u00ea na campanha eleitoral. Quando os partidos chegam ao governo, em primeiro lugar, v\u00e3o tentar colocar na m\u00e1quina p\u00fablica os seus filiados, para ter um pouco de respaldo. Mas isso n\u00e3o vai funcionar, porque, se dependerem desse funcionalismo para fazer suas pol\u00edticas, estar\u00e3o fadados ao fracasso e ao esc\u00e1rnio p\u00fablico. Por isso, aumentam o n\u00famero de cargos em comiss\u00e3o (CCs). Os partidos, hoje, administram por meio dos CCs. O funcion\u00e1rio p\u00fablico, no Brasil, \u00e9 inconfi\u00e1vel, lento, inoperante, caro, arrogante. Acha que a na\u00e7\u00e3o lhe deve obriga\u00e7\u00f5es por ele fazer aquilo que \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o dele. Temos gastos imobilizados que deviam estar na educa\u00e7\u00e3o porque h\u00e1 um funcionalismo que gasta e tem efici\u00eancia muito question\u00e1vel. Se o partido n\u00e3o se basear nos seus CCs, est\u00e1 perdido. Estabelecemos duas l\u00f3gicas perversas, mas alimentadas por um \u00fanico fundo: a poupan\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que o Estado brasileiro \u00e9 caro e se joga tanto dinheiro fora. Esse dinheiro n\u00e3o chega aos servi\u00e7os que deveriam ser prestados \u00e0 na\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o partirmos para pol\u00edticas que tenham ideia de alteridade e de busca afetiva de diferen\u00e7as, n\u00e3o teremos solu\u00e7\u00e3o. S\u00f3 v\u00e3o aumentar a viol\u00eancia, a pobreza, a exclus\u00e3o.<br \/>\n<strong>Essa l\u00f3gica do estamento atingiu o PT?<\/strong><br \/>\nTodos os partidos. O PT afundou numa quest\u00e3o moral e pol\u00edtica: a sua inabilidade de compreender o pa\u00eds. Grandes contingentes do PT n\u00e3o resistiram \u00e0 for\u00e7a corrupta dessa l\u00f3gica estabelecida pelo estamento. Para resistir a isso, o sujeito tem de ser muito forte, tem de ter informa\u00e7\u00f5es. Em primeiro lugar, tem de ter car\u00e1ter, uma ideia de moral, de \u00e9tica. Mas, fundamentalmente, ter uma rela\u00e7\u00e3o fraterna, afetiva, com o povo brasileiro, saber quem s\u00e3o essas pessoas. Para mim, a coisa mais nojenta \u00e9 ver pessoas preocupadas em fazer concursos. N\u00e3o t\u00eam nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com o sentido do cargo p\u00fablico. J\u00e1 est\u00e3o articulados, t\u00eam padrinhos, transversalidades. Os que n\u00e3o t\u00eam acham que \u00e9 mais uma profiss\u00e3o do Estado, onde v\u00e3o estar seguros. Conhe\u00e7o muitas pessoas, principalmente da \u00e1rea do Direito, que n\u00e3o t\u00eam nenhuma rela\u00e7\u00e3o de fundo, politicamente formativa da sociedade brasileira, para o cargo que v\u00e3o exercer. Voc\u00ea v\u00ea isso entre os professores. \u00c9 um tipo de rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem essa coisa sens\u00edvel, moralmente afetiva, com o aluno, com o pai do aluno, uma ideia m\u00ednima de coletividade, de pa\u00eds, de fraternidade da na\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>Esse tipo de atitude n\u00e3o se manifesta em outras esferas da vida nacional?<\/strong><br \/>\nMuito disso \u00e9 alimentado e desenvolvido do ponto de vista de massa no \u00e2mbito do futebol. O futebol faz isso de forma muito efetiva por meio dos discursos que alimentam rancores de torcida. \u00c9 contra aquela ideia do que \u00e9 o esporte desde os gregos. O esporte, antes de buscar vencer, \u00e9 o reconhecimento da capacidade e do talento do outro. No Brasil, a capacidade e o talento nunca s\u00e3o reconhecidos. Devem ser destru\u00eddos.<br \/>\n<strong>N\u00e3o h\u00e1, por tr\u00e1s dessa crise \u00e9tica, a perda de referenciais pol\u00edticos de constru\u00e7\u00e3o do Brasil?<\/strong><br \/>\nSem d\u00favida. Sem uma ideia de Brasil, que leve em conta aquelas prerrogativas que est\u00e3o inseridas na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, imaginar um futuro para o Brasil \u00e9 chegar a uma conclus\u00e3o desastrosa. N\u00e3o temos, de fato, for\u00e7as culturais no momento que estabele\u00e7am a base dessa possibilidade. \u00c9 preciso imaginar uma Rep\u00fablica de um ponto de vista radical, com ideias republicanas, laica, mas fundamentalmente presidida pela no\u00e7\u00e3o de alteridade. Isso tem de ser equalizado num patamar superior. No Rio Grande do Sul, temos setores da m\u00e1quina p\u00fablica e do Estado que s\u00f3 podem ser ocupados por algumas \u00e1reas. Temos uma s\u00e9rie de departamentos e secretarias que s\u00f3 podem ser ocupados por tradicionalistas. As prefeituras alimentam esse tipo de imagin\u00e1rio latifundi\u00e1rio, da est\u00e2ncia, entre coitados e miser\u00e1veis a cultura de gente entronizada no lombo de um cavalo. S\u00e3o coisas t\u00e3o elementares, e isso \u00e9 levado a uma cultura de massa que estabelece uma perspectiva pouco otimista sobre o Brasil. E temos a grande novidade na sociedade brasileira, que apareceu na pen\u00faltima elei\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o \u00f3dio religioso. O \u00f3dio religioso \u00e9 um componente desesperador para imaginar o futuro brasileiro. S\u00e3o coisas do s\u00e9culo 18 ou at\u00e9 do per\u00edodo medieval, e est\u00e3o conduzindo os destinos de grandes popula\u00e7\u00f5es.<br \/>\n<strong>Alguns setores come\u00e7am a ser ouvidos: afrodescendentes, ind\u00edgenas, mulheres, LGBT. Como o senhor avalia a contribui\u00e7\u00e3o desses setores para o pa\u00eds?<\/strong><br \/>\nDesconfio que h\u00e1\u00a0um componente populista muito grande nessas pol\u00edticas, que, por \u00f3bvio, podem ter at\u00e9 algum resultado eleitoral, mas n\u00e3o ter\u00e3o nenhum resultado estruturante. Um exemplo s\u00e3o os sem-terra. Passado o processo do movimento fundamental dos sem-terra, a segunda e a terceira gera\u00e7\u00e3o, grande parte em alguns j\u00e1 transformada em pequenos e m\u00e9dios propriet\u00e1rios, j\u00e1 com autom\u00f3vel, conta no banco, casa pr\u00f3pria, hoje est\u00e3o num campo pol\u00edtico diferente daquele que lhes deu essas conquistas. Temos regi\u00f5es em que filhos de sem-terra, transformados em m\u00e9dios propriet\u00e1rios, j\u00e1 s\u00e3o de direita. As conquistas econ\u00f4micas e sociais precisam ser garantidas por um n\u00edvel cultural e de uma leitura da sociedade. Outra maldi\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 o populismo de direita, de centro e de esquerda. Tivemos avan\u00e7os na \u00e1rea ind\u00edgena, mas esse ainda \u00e9 o setor mais penalizado no Brasil. Os ind\u00edgenas fazem um esfor\u00e7o extraordin\u00e1rio para assumir a possibilidade de serem sujeitos de sua hist\u00f3ria. As for\u00e7as conservadoras n\u00e3o querem reconhecer a hist\u00f3ria ind\u00edgena e sua diferen\u00e7a. Talvez o maior crime pol\u00edtico do PT tenha sido a inefici\u00eancia e a falta de cuidado de suas pol\u00edticas ind\u00edgenas. Ficou no assistencialismo e n\u00e3o enfrentou, ao contr\u00e1rio de alguns ministros do Supremo Tribunal. N\u00e3o s\u00f3 o governo central, mas governos estaduais como o do Rio Grande do Sul. Aqui, o governo se prestou a uma emboscada contra as representa\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Por qu\u00ea? Porque ainda tem uma ideia da pol\u00edtica como luta de classe, onde o militante do partido tem a prerrogativa de estabelecer os destinos da na\u00e7\u00e3o. \u00c9 o refugo menor dessa pol\u00edtica do estamento: ocupa o Estado com especialistas, com a c\u00fapula partid\u00e1ria, e assim determina o destino da popula\u00e7\u00e3o como se fosse reflexo da pol\u00edtica do partido.<br \/>\nDe &lt;http:\/\/zh.clicrbs.com.br\/rs\/noticias\/noticia\/2016\/02\/tau-golin-na-historia-rio-grandense-quem-apostou-no-cavalo-perdeu-a-guerra-4969017.html&gt;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das mat\u00e9rias importantes que passaram batidas no carnaval \u00e9 a entrevista do historiador Tao Golin \u00e0 Zero Hora no domingo. Ele toca num dos nervos expostos da crise do Rio Grande do Sul: a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que produziu o &#8220;centauro dos pampas&#8221;, o &#8220;monarca das coxilhas&#8221;, o &#8220;cavaleiro alegre, disserto e valente&#8221;. 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