{"id":294,"date":"2006-12-16T16:13:57","date_gmt":"2006-12-16T19:13:57","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=294"},"modified":"2006-12-16T16:13:57","modified_gmt":"2006-12-16T19:13:57","slug":"livro-sobre-eucalipto-gera-polemica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/livro-sobre-eucalipto-gera-polemica\/","title":{"rendered":"Livro sobre eucalipto gera pol\u00eamica"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\">\n<p align=\"justify\">Repercutiu de Vit\u00f3ria a Porto Alegre a entrevista do jornalista Geraldo Hasse ao site <a href=\"http:\/\/www.seculodiario.com.br\/\">www.seculodiario.com.br<\/a>, do Esp\u00edrito Santo, sobre seu livro Eucalipto, Hist\u00f3rias de um Imigrante Vegetal, lan\u00e7ado h\u00e1 pouco por J\u00e1 Editores.<\/p>\n<p align=\"justify\">A entrevista foi publicada no \u00faltimo domingo, 10\/12 (leia a \u00edntegra, abaixo). Tanto no Esp\u00edrito Santo quanto no Rio Grande do Sul, ambientalistas e reflorestadores v\u00eam demonstrando dificuldade para compreender a opini\u00e3o do jornalista, para quem \u201cos dois lados t\u00eam raz\u00e3o, cabe aos \u00f3rg\u00e3os ambientais arbitrar o conflito\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">O livro de 128 p\u00e1ginas sintetiza a trajet\u00f3ria brasileira da \u00e1rvore australiana, situada hoje no centro de uma pol\u00eamica ecol\u00f3gica que alcan\u00e7ou dimens\u00f5es judiciais no Esp\u00edrito Santo (desde os anos 1980) e no Rio Grande do Sul &#8211; a partir de mar\u00e7o de 2006, quando um grupo de ativistas depredou instala\u00e7\u00f5es da Aracruz Celulose em Barra do Ribeiro, nos arredores de Gua\u00edba, onde a empresa mant\u00e9m uma f\u00e1brica de celulose e deseja construir outra tr\u00eas vezes maior.<\/p>\n<p align=\"justify\">Autor de outros livros sobre agricultura, Hasse \u00e9 ga\u00facho e viveu no Esp\u00edrito Santo na d\u00e9cada de 1990. Pesquisa o imigrante vegetal australiano h\u00e1 mais de 20 anos. Em seu livro, al\u00e9m de narrar a origem do conflito na terra capixaba, fala de pioneiros da eucaliptocultura no Rio Grande do Sul como Assis Brasil em Bag\u00e9 e Alegrete; Pedro Os\u00f3rio em Pelotas; e Dorval Azevedo da Silveira no litoral norte.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tamb\u00e9m destaca a experi\u00eancia de empres\u00e1rios e t\u00e9cnicos ga\u00fachos que fizeram grandes plantios madeireiros nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas. \u201cOs agricultores ga\u00fachos, desde o final do s\u00e9culo XIX, v\u00eam usando o eucalipto com sabedoria\u201d, afirma o jornalista, citando o exemplo da CEEE, que a emprega como poste. Ele acredita que os propriet\u00e1rios rurais do Rio Grande do Sul est\u00e3o numa encruzilhada: \u201cN\u00e3o \u00e9 porque surgiram tr\u00eas grandes projetos de fabrica\u00e7\u00e3o de celulose que eles v\u00e3o esquecer tudo o que aprenderam, mas de qualquer maneira \u00e9 preciso botar ordem no terreiro, e isso est\u00e1 sendo feito pelo zoneamento para a silvicultura\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">A seguir, a entrevista ao site do S\u00e9culo Di\u00e1rio, cr\u00edtico sistem\u00e1tico da Aracruz e defensor dos \u00edndios, quilombolas e pequenos agricultores.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Os governos s\u00e3o irrespons\u00e1veis e os \u00f3rg\u00e3os ambientais, fracos&#8221;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Por Cristina Moura<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">S\u00e9culo Di\u00e1rio:\u00a0Conte-nos como foi a sua pesquisa em torno do eucalipto. Por que o tema lhe interessou tanto?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Geraldo Hasse:<\/strong> Gosto muito de \u00e1rvores e sempre me interessei por suas origens, sua evolu\u00e7\u00e3o. Mas o assunto caiu na minha m\u00e3o por acaso. Ou por destino. Em 1986 me convidaram para escrever um livro sobre a hist\u00f3ria da laranja no Brasil. Pesquisei por mais de um ano. Viajei 25 mil quil\u00f4metros pelo interior de S\u00e3o Paulo atr\u00e1s de est\u00f3rias e personagens. Um dos achados da pesquisa foi que o boom da citricultura paulista nos anos 1930 havia sido liderado por um agr\u00f4nomo chamado Edmundo Navarro de Andrade, um paulista que havia estudado em Coimbra, Portugal. E sabe o que ele tinha feito no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, logo depois de se formar? Tinha iniciado o plantio maci\u00e7o do eucalipto no Brasil. Fez isso para a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, a maior ferrovia brasileira na \u00e9poca.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">SD:Quer dizer que esse Edmundo lhe rendeu dois livros?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Hasse: <\/strong>Por enquanto! Ele morreu em 1941 mas ficou como uma refer\u00eancia para os engenheiros florestais. Se falo dele \u00e9 para lembrar que, na hist\u00f3ria da evolu\u00e7\u00e3o de cada planta, sempre se encontram bons personagens, ricos em contradi\u00e7\u00f5es. Navarro de Andrade encarou a implanta\u00e7\u00e3o do eucalipto no Brasil como uma miss\u00e3o t\u00e9cnico-cient\u00edfica. Teve sucesso. Outras ferrovias imitaram a Paulista.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas, depois de alguns anos, principalmente nas ferrovias mais eficientes, em S\u00e3o Paulo, o transporte de lenha para auto-abastecimento chegava a monopolizar um ter\u00e7o da capacidade de carga dos vag\u00f5es, pois era preciso armazenar lenha em pontos estrat\u00e9gicos ao longo das linhas. Como solu\u00e7\u00e3o para esse problema, algumas empresas come\u00e7aram a investir na eletrifica\u00e7\u00e3o de suas m\u00e1quinas e linhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">O eucalipto j\u00e1 era usado como poste, dormente e para fazer carv\u00e3o para siderurgia, mas Navarro ficou preocupado com a prov\u00e1vel sobra de eucalipto e passou uma temporada nos Estados Unidos fazendo testes para us\u00e1-lo na fabrica\u00e7\u00e3o de papel. Provou que isso era poss\u00edvel, mas sua descoberta foi ignorada. Tamb\u00e9m ningu\u00e9m ligou para outra de suas experi\u00eancias, aquela em que ele demonstrou a aptid\u00e3o do eucalipto para a ind\u00fastria do mobili\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em Rio Claro, no interior paulista, existe o Museu do Eucalipto, que pouca gente conhece. Todos os m\u00f3veis de l\u00e1, e s\u00e3o muitos e imensos, foram feitos de eucalipto h\u00e1 mais de 80 anos sob orienta\u00e7\u00e3o do Navarro de Andrade. Somente nos \u00faltimos dez anos os brasileiros come\u00e7aram a fazer m\u00f3veis de eucalipto para exporta\u00e7\u00e3o. Para a fabrica\u00e7\u00e3o de celulose, o eucalipto s\u00f3 come\u00e7ou a ser usado por volta de 1960, por iniciativa da Suzano, de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">SD:Quem s\u00e3o os personagens principais da hist\u00f3ria do eucalipto no Esp\u00edrito Santo?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Hasse: <\/strong>N\u00e3o tive tempo para pesquisar mais a fundo, mas tudo indica que o plantio maci\u00e7o de eucalipto no Esp\u00edrito Santo foi iniciado na d\u00e9cada de 40 pela Companhia Ferro e A\u00e7o de Vit\u00f3ria, a Cofavi. Ela plantou para ter um suprimento pr\u00f3prio de carv\u00e3o, mas nunca chegou a explorar direito seus eucaliptais. A Cofavi era uma sider\u00fargica capenga que acabou sob controle do Banco do Brasil.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na d\u00e9cada de 60, quando surgiu a legisla\u00e7\u00e3o dos incentivos fiscais ao reflorestamento, os eucaliptos da Cofavi se tornaram o primeiro ativo da Aracruz Florestal, que havia sido constitu\u00edda para exportar cavaco de madeira para o Jap\u00e3o. Foi s\u00f3 depois de alguns anos que os s\u00f3cios da Aracruz resolveram montar uma f\u00e1brica de celulose. E a\u00ed entram outros personagens. Um deles \u00e9 Eliezer Batista, que liderou a Vale do Rio Doce durante um largo per\u00edodo. A Vale plantou muito eucalipto nos anos 1950 para ter dormentes para a Estrada de Ferro Vit\u00f3ria a Minas.<\/p>\n<p align=\"justify\">E tamb\u00e9m para sustentar a Cenibra e outros projetos florestais. Foi Eliezer que atraiu para o Esp\u00edrito Santo o imigrante noruegu\u00eas Erling Lorentzen, um dos fundadores da Aracruz. Parece que os dois s\u00e3o amigos desde os anos 50. O fato \u00e9 que s\u00e3o vizinhos na Pedra Azul. Mas quem mais contribuiu para difundir o eucalipto no Brasil nas \u00faltimas d\u00e9cadas foi o engenheiro Antonio Dias Leite. Carioca para variar, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 50 ele trabalhou na constru\u00e7\u00e3o da usina hidrel\u00e9trica Suissa, na montanha capixaba. Foi quando ele conheceu as experi\u00eancias de reflorestamento da Cofavi e da Vale do Rio Doce.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em 1966, coube a ele rascunhar a lei dos incentivos fiscais ao reflorestamento, a pedido do ministro da Fazenda, Gouveia de Bulh\u00f5es, que havia sido seu professor. Com a faca e o queijo na m\u00e3o, Dias Leite criou a Aracruz Florestal para atender amigos e clientes dispostos a investir parte do Imposto de Renda no que parecia ser um bom neg\u00f3cio. Naquela \u00e9poca, o eucalipto ocupava 400 mil hectares no Pa\u00eds, principalmente em S\u00e3o Paulo. Hoje ocupa 4 milh\u00f5es de hectares.<\/p>\n<p align=\"justify\">E a produtividade \u00e9 tr\u00eas vezes maior, gra\u00e7as \u00e0s pesquisas de diversos engenheiros agr\u00f4nomos e florestais como Edgard Campinhos Jr., outro grande personagem dessa hist\u00f3ria. Campinhos chefiou a equipe que criou o eucalipto h\u00edbrido urograndis, especialmente desenvolvido para produzir celulose. Quer mais personagens? Anthero Bragatto, da Ceima, produtor de postes na Serra. Renato Moraes de Jesus, gerente florestal da reserva da Vale em Linhares. Na realidade, o eucalipto representa uma fra\u00e7\u00e3o menor da cultura madeireira do Esp\u00edrito Santo. Uma cultura monumental que est\u00e1 se perdendo.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">SD: Seu livro afirma que a mem\u00f3ria madeireira foi escamoteada pelos historiadores brasileiros.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Hasse: <\/strong>E n\u00e3o \u00e9 verdade? Os ciclos madeireiros foram pouco estudados, por isso n\u00e3o constam dos livros de hist\u00f3ria econ\u00f4mica. Uma das raz\u00f5es disso \u00e9 que a explora\u00e7\u00e3o florestal sempre foi meio clandestina, geralmente associada \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o irregular de terras. Boa parte dos madeireiros nunca gostou de contabilidade nem de publicidade. Rainor Greco, o capixaba que ficou famoso por exportar mais da metade do jacarand\u00e1 do Brasil, foi uma rara exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ele era vaidoso e entregou o ouro para o Rog\u00e9rio Medeiros, que percebeu o potencial do Greco como personagem. Isso, no alvorecer do ambientalismo, no in\u00edcio dos anos 1970. A coloniza\u00e7\u00e3o no Brasil e no mundo confunde-se com derrubada e queimada. O machado abriu caminho para a enxada, como a motosserra precede o trator. A etimologia da palavra &#8220;capixaba&#8221; est\u00e1 a\u00ed para confirmar o que estou dizendo.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">SD: A hist\u00f3ria do eucalipto se passa principalmente nos estados do Rio Grande do Sul, S\u00e3o Paulo e Esp\u00edrito Santo?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Hasse: <\/strong>O estado que mais cultiva o eucalipto atualmente \u00e9 Minas, por causa da siderurgia. Mas foi no Rio Grande do Sul, em S\u00e3o Paulo e no Esp\u00edrito Santo que mais convivi com pessoas envolvidas com essa \u00e1rvore. Nasci no interior do Rio Grande do Sul, numa regi\u00e3o de campo, onde se cultiva o arroz irrigado. Nos anos 1950\/60 muitas bombas de irriga\u00e7\u00e3o eram tocadas por m\u00e1quinas a vapor, as locom\u00f3veis, tamb\u00e9m muito empregadas em serrarias e engenhos de secagem de gr\u00e3os.<\/p>\n<p align=\"justify\">Hoje tudo isso \u00e9 acionado por motores el\u00e9tricos, mas naquela \u00e9poca n\u00e3o havia muita disponibilidade de energia. Cada um tinha que se virar mais ou menos sozinho. Ent\u00e3o, para ter lenha para gerar vapor, plantava-se eucalipto porque no pampa a vegeta\u00e7\u00e3o arb\u00f3rea \u00e9 escassa.<\/p>\n<p align=\"justify\">Quando eu era moleque, havia eucalipto em tudo quanto era canto, o pessoal aproveitava espa\u00e7os ociosos, as terras menos f\u00e9rteis, para plantar essa \u00e1rvore. O campo de futebol da minha inf\u00e2ncia era literalmente cercado de eucaliptos. Quando a bola ia pela linha de fundo, a gente tinha de entrar no mato forrado de folhas secas e peda\u00e7os de galhos. Antes de construir o Gigante do Beira-Rio, nos anos 60, o Internacional de Porto Alegre jogava no Est\u00e1dio dos Eucaliptos, esse era o nome. Porque havia uns eucaliptos nos barrancos onde foram constru\u00eddas arquibancadas. No final dos treinos, de tardezinha, o vento trazia aquele cheirinho de eucaliptol.<\/p>\n<p align=\"justify\">Enfim, os cap\u00f5es de eucalipto s\u00e3o muito comuns no pampa. Desde fins do s\u00e9culo XIX os fazendeiros plantavam essa \u00e1rvore como quebra-vento, para abrigar o gado do calor e do frio, e tamb\u00e9m para ter lenha para fog\u00e3o, mour\u00e3o para cerca, madeira para currais, galp\u00f5es e at\u00e9 para as casas de moradia. Tamb\u00e9m se plantava eucalipto para alimentar as fornalhas das locomotivas das estradas de ferro.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ali\u00e1s, foi para abastecer ferrovias que o eucalipto se disseminou em S\u00e3o Paulo, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. No Rio Grande do Sul, 90% dos postes de eletrifica\u00e7\u00e3o s\u00e3o de eucalipto. Ou, seja, essa \u00e1rvore est\u00e1 inserida na hist\u00f3ria econ\u00f4mica do Brasil.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Hasse: <\/strong>O eucalipto entrou no Brasil como curiosidade vegetal na \u00e9poca da implanta\u00e7\u00e3o do Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro, na d\u00e9cada de 1810. Ao longo do s\u00e9culo XIX foi usado apenas para compor a paisagem das fazendas. Ele chamava a aten\u00e7\u00e3o porque crescia muito r\u00e1pido, mas havia abund\u00e2ncia de madeira nativa.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por isso sua expans\u00e3o foi mais lenta e tardia do que em outros pa\u00edses, na Europa principalmente. Mas ele acabou se impondo entre n\u00f3s. Primeiro para ferrovias, depois para carv\u00e3o, mais tarde para celulose, ultimamente para m\u00f3veis e constru\u00e7\u00e3o civil. \u00c9 uma \u00e1rvore vers\u00e1til, de grande utilidade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">SD: Mas o eucalipto s\u00f3 virou not\u00edcia pelo vi\u00e9s ambiental.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Hasse: <\/strong>At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, o jornalismo tradicional encarava o extrativismo como simples caso de pol\u00edcia, nunca como crime ambiental. Da mesma forma, o jornalismo econ\u00f4mico nunca ligou para a silvicultura porque \u00e9 uma atividade de ciclo muito longo, que n\u00e3o agita as bolsas de mercadorias. Mas a partir de um certo momento tivemos alguns esc\u00e2ndalos envolvendo desperd\u00edcio de recursos para o reflorestamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">E havia tamb\u00e9m as den\u00fancias de devasta\u00e7\u00e3o dos recursos naturais na mata atl\u00e2ntica, no cerrado e na Amaz\u00f4nia. A vis\u00e3o do eucalipto como vil\u00e3o do meio ambiente faz parte de uma realidade mais moderna, decorrente dos extensos plantios feitos pelas ind\u00fastrias de a\u00e7o e de papel e celulose. N\u00e3o pretendo posar de pioneiro, mas em 1980 escrevi uma reportagem de capa para a revista &#8220;Exame&#8221; sobre o fantasma da escassez de madeira que j\u00e1 rondava o Brasil e o mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 claro que o racioc\u00ednio empresarial dominante era o de curto prazo, mas na \u00e9poca j\u00e1 existia a id\u00e9ia de que a longo prazo, no ano 2000, a madeira estaria custando muito mais cara, ent\u00e3o era conveniente come\u00e7ar a plantar \u00e1rvores madeireiras imediatamente, para n\u00e3o faltar mat\u00e9ria-prima para certos setores como a ind\u00fastria de m\u00f3veis, de a\u00e7o e de papel.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">SD: O tema o atrai h\u00e1 tempos, ent\u00e3o&#8230;<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Hasse: <\/strong>Pra falar a verdade, o tema vegetal me fascina por diversos motivos. Primeiro porque, apesar de vivermos num pa\u00eds de flora riqu\u00edssima, n\u00f3s brasileiros estamos cercados de plantas ex\u00f3ticas, trazidas pelos portugueses, italianos, alem\u00e3es, japoneses e outros imigrantes. Muitas foram praticamente domesticadas e se tornaram extremamente familiares para n\u00f3s. \u00c9 o caso do eucalipto, da laranjeira, da parreira e outras esp\u00e9cies trazidas de outros continentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00e3o \u00e1rvores cuja trajet\u00f3ria se relaciona com a hist\u00f3ria de pessoas, grupos humanos, comunidades, cidades&#8230; Aracruz, a atual capital do eucalipto, tem planta\u00e7\u00f5es de pau-brasil, a \u00e1rvore-s\u00edmbolo do Brasil. Al\u00e9m disso, a madeira est\u00e1 superinserida na vida humana, do come\u00e7o ao fim, como se fosse uma segunda pele. Ber\u00e7o, mesa, cama, cadeira, guarda-roupa, l\u00e1pis, papel, caix\u00e3o mortu\u00e1rio, tudo em nossa vida \u00e9 feito de madeira. Em muitos pa\u00edses h\u00e1 \u00e1rvores sagradas, como \u00e9 o caso do cedro no L\u00edbano. Mas at\u00e9 mudar para o Esp\u00edrito Santo, em 1991, eu nunca tinha visto uma campanha contra uma esp\u00e9cie vegetal. Me surpreendi com o clamor contra o eucalipto.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">SD: O Brasil est\u00e1 longe do que poder\u00edamos chamar de sustentabilidade florestal?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Hasse: <\/strong>Muito longe. O Brasil vive uma dualidade terr\u00edvel. Por um lado tem uma silvicultura de vanguarda, que trabalha de acordo com par\u00e2metros internacionais considerados civilizados, embora atrelados a leis de mercado determinadas pelo car\u00e1ter selvagem da concorr\u00eancia capitalista.<\/p>\n<p align=\"justify\">De outro, continua mergulhado no mais primitivo extrativismo, que se manifesta de forma aguda no Cerrado e na Amaz\u00f4nia, tamb\u00e9m visando a atender \u00e0 lei da oferta e da procura por madeira, carv\u00e3o e alimentos. O conflito velado entre os minist\u00e9rios da Agricultura e do Meio Ambiente expressa o confronto expl\u00edcito entre os interesses do mercado e as necessidades de preserva\u00e7\u00e3o da natureza. Nesse contexto absolutamente contradit\u00f3rio n\u00e3o faz sentido falar de qualquer tipo de sustentabilidade.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">SD: Estamos prestes a conviver e a nos conformar com o &#8220;deserto verde&#8221;?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Hasse: <\/strong>A express\u00e3o &#8220;deserto verde&#8221; \u00e9 muito poderosa, virou uma arma dos ambientalistas contra as monoculturas de \u00e1rvores. \u00c9 bom esclarecer que foi criada em 1962 pela bi\u00f3loga Rachel Carson, autora do livro &#8220;Primavera Silenciosa&#8221;, que condenava o uso do DDT nos plantios maci\u00e7os de florestas de pinheiros nos Estados Unidos. Tamb\u00e9m acho exagerada a express\u00e3o &#8220;apag\u00e3o florestal&#8221;, empregada pelos reflorestadores para dramatizar a escassez de madeira.<\/p>\n<p align=\"justify\">Foi impressionado pelo &#8220;apag\u00e3o florestal&#8221; que o BNDES abriu cr\u00e9dito de longo prazo para o plantio de lavouras madeireiras, erroneamente denominadas &#8220;florestas plantadas&#8221;. Por mim, essas express\u00f5es deveriam ser abolidas. S\u00e3o marqueteiras, mais atrapalham do que esclarecem. O que devemos ter em mente \u00e9 o seguinte: toda monocultura \u00e9 perigosa porque contraria as leis da natureza; e quase todo latif\u00fandio \u00e9 perverso. Um extenso canavial \u00e9 mais sinistro do que um grande eucaliptal. Neste, pelo menos, h\u00e1 sombra.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">SD: Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre a luta de ambientalistas versus florestadores?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Hasse: <\/strong>Os dois lados t\u00eam raz\u00e3o. Cabe aos \u00f3rg\u00e3os ambientais arbitrar o conflito.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">SD: Os governos nas tr\u00eas esferas (federal, estadual e municipal) t\u00eam exercido um papel relevante diante do crescimento do plantio do eucalipto?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Hasse: <\/strong>Os governos atuam de forma irrespons\u00e1vel. Sujeitam-se a press\u00f5es e respondem a interesses de ocasi\u00e3o. Os \u00f3rg\u00e3os ambientais n\u00e3o t\u00eam pessoal nem estrutura para aplicar leis j\u00e1 existentes. Os organismos agr\u00edcolas fazem vista grossa para as atividades predat\u00f3rias dos empreendedores do setor florestal.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ali\u00e1s, a sociedade brasileira ainda est\u00e1 impregnada pela id\u00e9ia de que a natureza \u00e9 fonte inesgot\u00e1vel de mat\u00e9rias-primas gratuitas. A \u00fanica sa\u00edda \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o ambiental massiva. O meio ambiente devia ser administrado pelas For\u00e7as Armadas. Essa id\u00e9ia o Brasil n\u00e3o copiou de Portugal.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">SD: Quais s\u00e3o os benef\u00edcios e os malef\u00edcios da eucaliptocultura?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Hasse:<\/strong> N\u00e3o h\u00e1 bem que sempre dure nem mal que nunca acabe. Est\u00e1 provado que o plantio de \u00e1rvores contribui para poupar mata nativa. Portanto, \u00e9 bobagem condenar os plantios, mas tamb\u00e9m seria loucura deixar tudo por conta do mercado. Bom \u00e9 o equil\u00edbrio. A fisiologia do eucalipto \u00e9 bastante pesquisada. Trata-se de uma \u00e1rvore com alta capacidade de transformar \u00e1gua em massa verde.<\/p>\n<p align=\"justify\">Com um litro de \u00e1gua gera tr\u00eas gramas de massa. Nesse aspecto \u00e9 muito mais eficiente do que qualquer outro vegetal. Em compensa\u00e7\u00e3o, consome muita \u00e1gua. No Rio Grande do Sul, a Universidade Federal de Santa Maria provou que um eucalipto em fase de crescimento consome uma m\u00e9dia de 11 litros de \u00e1gua por dia. No Esp\u00edrito Santo, uma pesquisa realizada em Aracruz demonstrou que o eucalipto possui mecanismos eficientes para controlar a transpira\u00e7\u00e3o quando detecta escassez de \u00e1gua no solo. Mas a ecologia do eucalipto \u00e9 pouco estudada. O plantio adensado limita a biodiversidade vegetal, afastando parte da fauna. Isso significa que o eucalipto deve ser plantado em mosaicos, deixando espa\u00e7os livres para a prolifera\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa. \u00c9 uma pr\u00e1tica j\u00e1 adotada por grandes plantadores.<\/p>\n<p align=\"justify\">No litoral brasileiro o eucalipto vai bem porque nessa regi\u00e3o chove muito. Ali\u00e1s, \u00e9 bom lembrar que o sucesso do eucalipto no litoral tem tudo a ver com a presen\u00e7a de outras mirt\u00e1ceas, como a pitangueira, a goiabeira e o ara\u00e7azeiro. Mas \u00e9 preciso estudar melhor o impacto do eucalipto sobre os nossos ecossistemas. O senso comum diz que ele resseca o solo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Minha convic\u00e7\u00e3o \u00e9 que os solos secam por causa do desmatamento generalizado. No Rio Grande do Sul o eucalipto foi usado com sucesso no controle de um processo de desertifica\u00e7\u00e3o por a\u00e7\u00e3o do vento na fronteira com o Uruguai. Mas o tempo de observa\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 muito curto. Outro dia ouvi um ecologista ga\u00facho dizer que os solos tropicais n\u00e3o t\u00eam microorganismos com enzimas aptas a processar a mat\u00e9ria org\u00e2nica que o eucalipto deixa no ch\u00e3o. N\u00e3o apareceu nenhum cientista para contest\u00e1-lo. \u00c9 uma d\u00favida a ser resolvida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Repercutiu de Vit\u00f3ria a Porto Alegre a entrevista do jornalista Geraldo Hasse ao site www.seculodiario.com.br, do Esp\u00edrito Santo, sobre seu livro Eucalipto, Hist\u00f3rias de um Imigrante Vegetal, lan\u00e7ado h\u00e1 pouco por J\u00e1 Editores. A entrevista foi publicada no \u00faltimo domingo, 10\/12 (leia a \u00edntegra, abaixo). 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