{"id":29781,"date":"2016-02-28T23:02:25","date_gmt":"2016-02-29T02:02:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=29781"},"modified":"2016-02-28T23:02:25","modified_gmt":"2016-02-29T02:02:25","slug":"esculhambacao-ampla-geral-e-irrestrita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/esculhambacao-ampla-geral-e-irrestrita\/","title":{"rendered":"Os processos de Curitiba e o futuro da democracia no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Enio Squeff<\/span><br \/>\nNo filme &#8220;Julgamento de Nurenberg&#8221;, de Stanley Kramer, h\u00e1 uma cena em que\u00a0um promotor norte-americano encontra seu antigo professor alem\u00e3o, um\u00a0dos r\u00e9us do processo.<br \/>\nO mestre alem\u00e3o se queixa a seu ex-disc\u00edpulo que sua\u00a0participa\u00e7\u00e3o no Terceiro Reich fora m\u00ednima. Fizera apenas\u00a0pequenas concess\u00f5es ao terror nazista. N\u00e3o\u00a0entendia porque o arrolavam entre os criminosos de guerra.<br \/>\nO\u00a0promotor responde: justamente por ter\u00a0cedido no m\u00ednimo, ele preparou o estado alem\u00e3o para o m\u00e1ximo &#8211; os terrores\u00a0que se seguiram.<br \/>\nEste talvez o maior repto \u00e0 chamada Opera\u00e7\u00e3o Lava a Jato.<br \/>\nAs concess\u00f5es feitas\u00a0ao juiz Sergio Moro e sua trupe &#8211; as deten\u00e7\u00f5es flagrantemente ilegais,\u00a0pris\u00f5es sem culpas comprovadas, extin\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria do instituto de habeas\u00a0corpus, tudo sob o princ\u00edpio medievalesco de que cabe aos acusados\u00a0provarem n\u00e3o ter culpa &#8211; desautorizam o Supremo Tribunal Federal a\u00a0por cobro a qualquer horror no futuro.<br \/>\nA hist\u00f3ria, no entanto, n\u00e3o ir\u00e1 absolv\u00ea-lo. E por uma raz\u00e3o que j\u00e1 est\u00e1 a vista: &#8221; nunca na hist\u00f3ria do\u00a0Brasil&#8221; um processo judicial amedrontou tanto os grandes\u00a0empres\u00e1rios brasileiros que de uma forma ou outra celebraram contratos com\u00a0os governos do PT.<br \/>\nA esquerda do Brasil, ou o que quer que digamos da situa\u00e7\u00e3o,\u00a0inclu\u00eddo nisso o governo mambembe da presidente Dilma &#8211; essa esquerda quase\u00a0sempre desavisada, quando n\u00e3o francamente tapada, hesita entre o que ela\u00a0condena na desonestidade de alguns empres\u00e1rios e os princ\u00edpios republicanos\u00a0que bem ou mal fazem parte do atual repert\u00f3rio pol\u00edtico do pa\u00eds.<br \/>\nE que ou\u00a0bem seguimos os ritos da Constitui\u00e7\u00e3o em vigor; ou deixamos que a coisa\u00a0desembeste de vez na selvageria judicial que a\u00ed est\u00e1.<br \/>\nH\u00e1 quem fa\u00e7a compara\u00e7\u00f5es. No regime ditatorial militar teria sido pior:\u00a0torturava-se e matava-se, sem que os governos da \u00e9poca sequer admitisse as pris\u00f5es.<br \/>\n\u00c9 verdade. Mas uma vez reveladas as deten\u00e7\u00f5es, seguiam-se os ritos dos\u00a0processos normais. E as torturas n\u00e3o eram p\u00fablicas como na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato.<br \/>\nNos processos de Curitiba, os acusados s\u00e3o mantidos presos at\u00e9 admitirem\u00a0alguma culpa. E \u00a0continuam presos, quando o juiz confirma\u00a0a senten\u00e7a arrancada \u00e0 custa da deten\u00e7\u00e3o infind\u00e1vel do acusado.<br \/>\nE como todos\u00a0temos culpas &#8211; que o digam os empreiteiros e n\u00e3o apenas o K do Processo de\u00a0Kafka- o sujeito \u00e9 submetido a deten\u00e7\u00f5es vexat\u00f3rias, com as m\u00e3os algemadas,\u00a0como os mais perigosos delinquentes.<br \/>\nA coisa chega a ser t\u00e3o escandalosa que\u00a0quando Jo\u00e3o Santana voltou ao Brasil para ser interrogado, o juiz Moro decretou sua pris\u00e3o na sa\u00edda do\u00a0avi\u00e3o, como se ele n\u00e3o o tivesse atendido \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a.<br \/>\nE tudo para que Jo\u00e3o Santana e sua\u00a0mulher fossem humilhados publicamente.<br \/>\n\u00c9 a isso que os doutos ministros do STF chamam de justi\u00e7a?\u00a0S\u00f3 falta o linchamento. Ou a c\u00e2mara de g\u00e1s.<br \/>\nOra, isso tudo \u00e9 consabido. N\u00e3o \u00e9 de admirar que Edinho Silva &#8211; nunca um\u00a0diminuitivo foi t\u00e3o apropriado a um personagem &#8211; tenha anunciado que o\u00a0governo, enfim, admitia que o juiz Moro estava extrapolando na sua parcialidade.<br \/>\nE o pior \u00e9 que a sua declara\u00e7\u00e3o &#8211; a declara\u00e7\u00e3o do porta voz da presid\u00eancia &#8211; tenha tido,\u00a0tanto na grande imprensa como entre os blogues de esquerda, a resson\u00e2ncia de\u00a0um traque.<br \/>\n\u00c9 tudo t\u00e3o animalesco e pervertido, que o Estad\u00e3o gastou uma p\u00e1gina inteira\u00a0para tripudiar sobre o sorriso sobranceiro da esposa de Jo\u00e3o Santana.<br \/>\nAli\u00e1s,\u00a0deve-se prestar um preito \u00e0 coragem n\u00e3o apenas desta senhora, mas tamb\u00e9m\u00a0de Marcelo Odebrecht.<br \/>\nPor enquanto, ele foi um dos poucos a n\u00e3o ceder \u00e0\u00a0tortura de uma pris\u00e3o descabida que daqui a pouco chegar\u00e1 a um ano. Sem\u00a0qualquer julgamento.<br \/>\nDiga-se: a hist\u00f3ria ter\u00e1 necessariamente que registrar muitos personagens nesta verdadeira trag\u00e9dia que est\u00e1 se abatendo sobre o pa\u00eds.<br \/>\nH\u00e1 o\u00a0juiz S\u00e9rgio Moro e seus procuradores, sem d\u00favida. Mas h\u00e1 o ministro Teori\u00a0Zavascki que sanciona tudo o que emana de Curitiba, h\u00e1 o STF que se cala, h\u00e1 o Senado que abjurou de suas prerrogativas quando concordou com a pris\u00e3o\u00a0atrabili\u00e1ria de Delc\u00eddio Amaral ( no que foi acompanhado de forma no m\u00ednimo\u00a0estranha por um jurista do porte de Tarso Genro), h\u00e1 um governo que j\u00e1 n\u00e3o\u00a0existe a n\u00e3o ser na catatonia da chefe do Executivo. Digamos, para ser\u00a0elegantes, que a esculhamba\u00e7\u00e3o \u00e9 ampla, geral e irrestrita.<br \/>\nEm tempo: num document\u00e1rio sobre o pintor vienense Gustav Klimt (1862-1918), dispon\u00edvel na internet, h\u00e1 o depoimento de uma senhora que escapou\u00a0aos nazistas.\u00a0Em meio a recorda\u00e7\u00f5es do periodo, ela\u00a0faz uma revela\u00e7\u00e3o que cabe perfeitamente ao Brasil.<br \/>\nDiz ela que a classe m\u00e9dia ( tamb\u00e9m que muita gente de esquerda, entre os quais muitos oper\u00e1rios)\u00a0babavam de satisfa\u00e7\u00e3o quando alguns empres\u00e1rios, judeus ou n\u00e3o come\u00e7aram\u00a0a ser detidos pelos nazistas.<br \/>\nEra o torcida dos bo\u00e7ais que se esbaldam com os\u00a0autos de f\u00e9. Vivem de bodes expiat\u00f3rios para se curarem da insatisfa\u00e7\u00e3o de\u00a0suas frustra\u00e7\u00f5es. E que atravessaram a hist\u00f3ria a se deliciarem com os\u00a0justi\u00e7amentos por mais ign\u00f3beis e covardes que sejam.<br \/>\nSartre disse uma vez que, se os judeus n\u00e3o existissem, o\u00a0antissemitismo os inventaria. Estamos vivenciando a inven\u00e7\u00e3o de judeus no\u00a0Brasil, isto \u00e9, todos os que s\u00e3o de esquerda. E que n\u00e3o entendem porque\u00a0Marcelo Odebrecht ou Jo\u00e3o Santanta est\u00e3o presos. E Eduardo Cunha est\u00e1 solto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enio Squeff No filme &#8220;Julgamento de Nurenberg&#8221;, de Stanley Kramer, h\u00e1 uma cena em que\u00a0um promotor norte-americano encontra seu antigo professor alem\u00e3o, um\u00a0dos r\u00e9us do processo. O mestre alem\u00e3o se queixa a seu ex-disc\u00edpulo que sua\u00a0participa\u00e7\u00e3o no Terceiro Reich fora m\u00ednima. Fizera apenas\u00a0pequenas concess\u00f5es ao terror nazista. 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