{"id":29990,"date":"2016-03-03T22:28:22","date_gmt":"2016-03-04T01:28:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=29990"},"modified":"2016-03-03T22:28:22","modified_gmt":"2016-03-04T01:28:22","slug":"o-show-dos-stones-pra-quem-viu-do-portao-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-show-dos-stones-pra-quem-viu-do-portao-3\/","title":{"rendered":"O show dos Stones visto do Port\u00e3o 3 do Beira Rio"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Matheus Chaparini<\/span><br \/>\nDez anos atr\u00e1s eu era um pi\u00e1 sozinho perdido em Buenos Aires.<br \/>\nAmontoado entre dezenas de milhares de castelhanos, ouvia os gritos enlouquecidos: \u00a0\u201cOooooo vamo los stoooones!\u201d como se fosse um Boca e River na porra do Monumental de Nu\u00f1ez lotado.<br \/>\nEra minha primeira viagem sozinho, eu era menor de idade e os cor\u00f4as tiveram at\u00e9 que assinar papelada pra eu poder partir.<br \/>\nE agora os velhos me inventam de aparecer aqui na prov\u00edncia. E mais: no glorioso Gigante da beira do rio. Mas dez anos se passaram, os tempos s\u00e3o outros. Os custos tamb\u00e9m. E como a vida n\u00e3o anda nada f\u00e1cil para quem vive de imprensa &#8211; digo apenas de imprensa, n\u00e3o de imprensa, constru\u00e7\u00e3o civil e shows dos Stones &#8211; n\u00e3o deu para ir.<br \/>\nPelo menos n\u00e3o dentro do est\u00e1dio. Mas o lado de fora \u00e9 sempre democr\u00e1tico.<br \/>\nPartimos, eu mais um colega do J\u00c1, garrafita de pinga, meia d\u00fazia de pilas pra ceva, sem muita eira a caminho do Beira. Trocadilhos infames \u00e0 parte, pra n\u00f3s, foi um grande espet\u00e1culo. E o maior que pod\u00edamos pagar. O palco ficou posicionado na goleira sul, port\u00e3o 7. O port\u00e3o oposto era o 3, e de l\u00e1 se podia ver um pedacinho do palco e quase todo o tel\u00e3o. E dava para ouvir muito roquenrou.<br \/>\nApesar da mo\u00e7a do tempo da tev\u00ea ter passado a semana inteira brigando com a previs\u00e3o, tentando segurar a chuva na hora do show, uma \u00e1gua pesada desabou sobre Porto Alegre durante quase toda a noite. N\u00e3o sei como reagiu o pessoal que pagou um m\u00eas de aluguel pra assistir l\u00e1 de dentro, mas o povo da rua ignorou o aguaceiro.<br \/>\nDepois de meia hora de show, teve um grupo mais exaltado que n\u00e3o aguentou ficar do lado de fora. Alguns bretes foram derrubados, houve correria de seguran\u00e7as. Umas 50 pessoas conseguiram entrar, metade foi puxada de volta para fora. Os demais atingiram a gl\u00f3ria.<br \/>\nComo repres\u00e1lia, os seguran\u00e7as do est\u00e1dio colocaram uma enorme lona preta sobre o port\u00e3o. Ningu\u00e9m via mais nada. N\u00e3o sei ao certo se foi a chuva ou o bom senso que derrubou as cortinas e desnudou novamente nossa janela de ver os Stones.<br \/>\nSobre o desempenho da banda n\u00e3o h\u00e1 muito o que dizer. Os velhos est\u00e3o em perfeita forma. Keith Richards \u00e9 o guitarrista mais foda do rock. O Ronnie Wood \u00e9 outro monstrengo. Nunca fui o maior f\u00e3 do Charlie Watt, mas tenho que reconhecer a precis\u00e3o do cara, uma banda como os Stones precisam de um metr\u00f4nomo s\u00e9rio na bateria. E o Mick Jagger \u00e9 sempre o Mick Jagger, canta, dan\u00e7a, se sacode, sai andando pela chuva, comanda o espet\u00e1culo. Do auge dos setenta e poucos, o faz como se ainda tivesse vinte.<br \/>\nPelos arredores do Gigante, encontrei os caras da banda Cartas na Rua, que foram fazer um aquecimento pro show e tentar entrar de gaiato no navio. Encontrei tamb\u00e9m uma penca de conhecidos sem ingresso e um camarada da antiga, dos tempos de banda, que conseguiu a maior fa\u00e7anha registrada pela nossa equipe: entrou no show por cem pila. E de forma quase completamente l\u00edcita. At\u00e9 o fechamento desta mat\u00e9ria ningu\u00e9m fez melhor &#8211; n\u00e3o sem correr o risco de tomar umas cassetadas.<br \/>\nA Cachorro Grande foi a banda escolhida para o show de abertura. Baita escolha. Muito mais adequada que a escolha dos Tit\u00e3s, em S\u00e3o Paulo, e do Ultraje a Rigor, no Rio &#8211; onde o vocalista Roger conseguiu brigar com a plateia que havia feito a obvia constata\u00e7\u00e3o de que ele \u00e9 um coxinha.<br \/>\nPra n\u00e3o dizer que eu s\u00f3 falei de flores, na hora da sa\u00edda, o camarada que me acompanhava foi alvo da profiss\u00e3o mais antiga do mundo: o descuidista. Na parada de \u00f4nibus, uma distra\u00e7\u00e3o, um esbarr\u00e3o, um bote certeiro no bolso e um celular perdido.<br \/>\nNa manh\u00e3 seguinte acordei naquela ressaca stoniana e os jornais anunciavam que tinha sido o show mais empolgante que os Rolling Stones j\u00e1 fizeram no Brasil. Foi meu segundo. E ningu\u00e9m pode dizer que eu n\u00e3o fui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Matheus Chaparini Dez anos atr\u00e1s eu era um pi\u00e1 sozinho perdido em Buenos Aires. Amontoado entre dezenas de milhares de castelhanos, ouvia os gritos enlouquecidos: \u00a0\u201cOooooo vamo los stoooones!\u201d como se fosse um Boca e River na porra do Monumental de Nu\u00f1ez lotado. 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