{"id":30008,"date":"2016-03-07T11:29:33","date_gmt":"2016-03-07T14:29:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=30008"},"modified":"2016-03-07T11:29:33","modified_gmt":"2016-03-07T14:29:33","slug":"30008-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/30008-2\/","title":{"rendered":"Fila de at\u00e9 100 pessoas \u00e9 o unico inconveniente do Resturante Popular"},"content":{"rendered":"<p>Um prato de comida bem feito e bem servido, mais sobremesa e suco, por um real.<br \/>\nNa semana passada, depois de diversos adiamentos, finalmente foi reinaugurado o restaurante popular de Porto Alegre.<br \/>\nFechado em junho de 2013, o restaurante estava funcionando de forma provis\u00f3ria no albergue da Fasc (Funda\u00e7\u00e3o de Assist\u00eancia Social e Cidadania), desde agosto de 2015.<br \/>\nO novo endere\u00e7o \u00e9 na rua Santo Ant\u00f4nio, 64, pr\u00f3ximo \u00e0 Farrapos.<br \/>\nNa abertura, o prefeito Fortunati e sua equipe posaram sorrindo e provaram a iguaria diante das c\u00e2meras. Teve at\u00e9 rep\u00f3rter de tev\u00ea garantindo \u201cn\u00e3o \u00e9 fake, gente. Eu vou comer de verdade\u201d. Mas essa parte a c\u00e2mera n\u00e3o mostrou.<br \/>\nPor volta das vinte para a uma desta sexta-feira, a faminta equipe do J\u00c1 chegava \u00e0 fila do restaurante popular.<br \/>\nQuer\u00edamos conferir se, sem c\u00e2meras nem autoridades, o almo\u00e7o era o mesmo.<br \/>\nNa chegada, cerca de 100 pessoas aguardavam calmamente na fila sua vez de almo\u00e7ar.<br \/>\nQuase metade eram idosos, para estes, uma fila especial. A fila comum se estende rente \u00e0 parede externa, onde h\u00e1 alguma sombra, faz uma curva e volta.<br \/>\nUm rapaz vestindo a camiseta do Flamengo da Tuca, time de v\u00e1rzea de Porto Alegre, e uma mo\u00e7a de crach\u00e1 da prefeitura orientam a fila.<br \/>\nMas o que funciona mesmo \u00e9 a autogest\u00e3o. Sempre tem um ou outro malandro disposto a se fazer de desentendido e tentar entrar pela curva ou no meio da fila. Mas o truque n\u00e3o cola e os fur\u00f5es s\u00e3o orientados educadamente a pegar o fim da fila.<br \/>\nNo hor\u00e1rio de pico do almo\u00e7o, entre 12h30 e 13h30, \u00e9 comum ter fila, mesmo nos restaurantes comuns. No restaurante popular a fila \u00e9 mais demorada, mas o tempo passa r\u00e1pido.<br \/>\nNingu\u00e9m fica mexendo no celular, as pessoas t\u00eam disposi\u00e7\u00e3o em conversar fiado com os companheiros de espera.<br \/>\nO p\u00fablico \u00e9 formado por pessoas pobres, trabalhadores, aposentados, desempregados, moradores de rua, hippies da Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega, travestis da Farrapos, um homem com uniforme da empresa de constru\u00e7\u00e3o civil, outro, mais jovem, com uniforme de treinamento de uma loja de cal\u00e7ados.<br \/>\nO senhor \u00e0 minha frente garante que a comida \u00e9 muito boa, mas que tem fila em qualquer hor\u00e1rio: \u201ctamb\u00e9m, uma barbadinha dessa todo mundo quer, como n\u00e3o vai ter fila, n\u00e9?\u201d<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 um homem de muitas palavras, deixa para falar quando \u00e9 necess\u00e1rio, ou seja, se tem um fur\u00e3o ou se algu\u00e9m se distrai e a fila n\u00e3o anda. Algu\u00e9m demorou para lavar as m\u00e3os e ele n\u00e3o perdoou: \u201c\u00f4 mano, acostumado a dormir na pedra e toda essa frescura para lavar a m\u00e3o?\u201d<br \/>\nMais adiante na fila, duas travestis puxavam papo com os demais, falavam alto, gargalhavam, ajudavam a tornar \u00e0 espera de barriga vazia mais tranquila.<br \/>\nUm homem passa de um em um, com um punhado de tabaco na m\u00e3o, pedindo uma seda. Rapidamente consegue um peda\u00e7o de papel \u00a0para o pito digestivo: \u201cum cigarro depois do almo\u00e7o \u00e9 necess\u00e1rio\u201d, sentencia um senhor de bon\u00e9 da CUT atr\u00e1s de mim.<br \/>\nUm homem de uns cinquenta e poucos anos, com uma apar\u00eancia, digamos assim, \u00a0mais burguesa, comenta que trabalhou na montagem e desmontagem do palco dos Rolling Stones.<br \/>\nDiz que viu Mick Jagger saindo do show ensopado da chuva e Keith Richards, com um roup\u00e3o branco. \u201cOs caras s\u00e3o umas caveirinhas, bem magros, quem ve no tel\u00e3o com aquele monte de luz n\u00e3o imagina.\u201d<br \/>\n<span class=\"intertit\">\u201cDemora, mas vale a pena\u201d<\/span><br \/>\nDepois de 50 minutos de espera, \u00e9 chegada a hora boa. Paguei a moeda e entrei. De longe, meu antecessor de fila avistou o buf\u00ea e constatou que o hor\u00e1rio da fartura j\u00e1 havia passado: \u201cest\u00e1 tudo regrado. N\u00e3o te falei?\u201d<br \/>\nNa entrada, cliente pega uma bandeja, prato, talheres e sobremesa. Quem serve o prato s\u00e3o as atendentes.<br \/>\nMeio prato de alface, uma boa por\u00e7\u00e3o de arroz, com duas conchas de feij\u00e3o carioca por cima, tr\u00eas batatas cozidas e uma colher de guisado. Prato farto.<br \/>\nO suco \u00e9 desses em p\u00f3, sabor uva, a sobremesa, um creme branco, provavelmente de baunilha, destes que se encontra pelos buf\u00eas da cidade.<br \/>\nA colher de guisado foi a \u00faltima desta sexta-feira. Como a demanda \u00e9 muito grande, depois de um certo hor\u00e1rio o buf\u00ea fica incompleto.<br \/>\n\u00c0s 13h30, acabou o guisado e o almo\u00e7o ficou vegano. \u201cO detalhe \u00e9 tu chegar um pouco antes de meio dia\u201d, orienta um frequentador, que afirma que quando o restaurante funcionava de forma provis\u00f3ria no albergue da Fasc, o servi\u00e7o era mais \u00e1gil, por serem servidas viandas. Al\u00e9m do que, dava pra almo\u00e7ar e levar a janta por dois reais.<br \/>\nContrariando a expectativa, o prato tem o mesmo aspecto daquele mostrado na televis\u00e3o no primeiro dia de funcionamento \u00a0da casa. A comida \u00e9 realmente saborosa e bem preparada.<br \/>\n\u201cUm prato destes em um restaurante deve valer pelos menos uns dez reais\u201d, calcula um senhor idoso que pede licen\u00e7a, senta \u00e0 mesa e completa \u201cdemora, mas vale a pena\u201d.<br \/>\nO sal\u00e3o n\u00e3o chega a ficar lotado e as mesas, de quatro lugares, geralmente s\u00e3o compartilhadas entre duas ou tr\u00eas pessoas. As mesas permanecem limpas, ainda que n\u00e3o tenha sido visto nenhum funcion\u00e1rio limpando.<br \/>\nO restaurante popular funciona de segunda \u00e0 sexta, das 11h30 \u00e0s 14h30 &#8211; ou enuanto durarem os estoques. Diariamente s\u00e3o servidos cerca de 500 almo\u00e7os. Quem prepara o banquete s\u00e3o os funcion\u00e1rios da empresa Mix Refei\u00e7\u00f5es Coletivas. Trata-se de um restaurante sem cozinha, a comida vem pronta e, no loca, os funcion\u00e1rios apenas aquecem e servem.<br \/>\nA fila \u00e9 um pouco demorada, mas para quem tem muita fome, pouco dinheiro e algum tempo, o restaurante popular \u00e9 o melhor custo benef\u00edcio da cidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um prato de comida bem feito e bem servido, mais sobremesa e suco, por um real. Na semana passada, depois de diversos adiamentos, finalmente foi reinaugurado o restaurante popular de Porto Alegre. 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