{"id":30789,"date":"2016-03-24T17:49:52","date_gmt":"2016-03-24T20:49:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=30789"},"modified":"2016-03-24T17:49:52","modified_gmt":"2016-03-24T20:49:52","slug":"ha-30-anos-ultima-entrevista-de-josue-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/ha-30-anos-ultima-entrevista-de-josue-guimaraes\/","title":{"rendered":"H\u00e1 30 anos, a \u00faltima entrevista de Josu\u00e9 Guimar\u00e3es"},"content":{"rendered":"<p><em>Um entardecer de ver\u00e3o em 1986. A entrevista com Josu\u00e9 Guimar\u00e3es transcorre t\u00e3o descontra\u00edda que vira um bate-papo e acaba sem que se abordem todos os assuntos. Marca-se ent\u00e3o uma outra conversa para completar eventuais lacunas.<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o foi poss\u00edvel. Dia 23 de mar\u00e7o, o escritor ga\u00facho morre de c\u00e2ncer, aos 65 anos.<\/em><br \/>\n<em>O J\u00c1 publicou em seu n\u00famero 4 a \u00faltima entrevista do escritor, incompleta. Os entrevistadores eram Carlos Stein, En\u00e9as de Souza, Joaquim felizardo, S\u00e9rgius Gonzaga e Voltaire Schilling, velhos amigos de Josu\u00e9.<\/em><br \/>\n<em>Reproduzimos abaixo os principais trechos desse encontro.<\/em><br \/>\n<strong>Quem \u00e9 Josu\u00e9 Guimar\u00e3es?<\/strong><br \/>\nUm confuso geral. Fa\u00e7o tudo com d\u00favidas, tenho d\u00favidas permanentes. N\u00e3o muito nas coisas que est\u00e3o por a\u00ed. Acho que sempre trabalhei em institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, principalmente jornal e revista. Sempre lutei por aquilo que achava justo, isso prejudicou, me atrasou a vida tremendamente.<br \/>\n<strong>Militou em algum partido pol\u00edtico?<\/strong><br \/>\nCerta \u00e9poca me aproximei do Partido Comunista, mas n\u00e3o consigo ser do PC. Agora n\u00e3o sei, mas antigamente era muito limitado, muito comandado. Ent\u00e3o nunca quis ser do PC. Acho o pessoal sensacional, admiro, mas n\u00e3o consigo participar. Olho para o PDT do Brizola e acho um desastre. A ala do PDS \u00e9 outro desastre. O PMDB tamb\u00e9m \u00e9 um saco de gatos. Tem pessoal de esquerda e at\u00e9 de extrema direita. Quer dizer, o quadro pol\u00edtico hoje no Brasil est\u00e1 muito confuso.<br \/>\n<strong>E a Nova Republica?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o acredito em Rep\u00fablica Nova nem em Nova Rep\u00fablica. Os homens s\u00e3o os mesmos. \u00c9 s\u00f3 dar uma olhada: o presidente da Rep\u00fablica, Jos\u00e9 Sarney, era o presidente do PDS. Depois vem o Marco Maciel, o Aureliano Chaves, o Toniquinho Malvadeza (apelido de Antonio Carlos Magalh\u00e3es, o ACM).<br \/>\nEnt\u00e3o, a gente vai ver&#8230; na verdade eles fizeram uma confus\u00e3o com a frente democr\u00e1tica, frente liberal, de prop\u00f3sito. Quando viram que o carro ia quebrar pularam pra outro galho&#8230; Por isso quando falam em Nova Rep\u00fablica; sou muito c\u00e9tico.<br \/>\n<figure id=\"attachment_30791\" aria-describedby=\"caption-attachment-30791\" style=\"width: 586px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-30791\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/JOsu\u00e9Guimar\u00e3es86.jpg\" alt=\"Retrato do autor ilustrou a conversa nas p\u00e1ginas internas do J\u00c1 | Reprodu\u00e7\u00e3o\" width=\"586\" height=\"800\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-30791\" class=\"wp-caption-text\">Retrato do autor ilustrou a conversa nas p\u00e1ginas internas do J\u00c1 | Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<strong>Curso Superior?<\/strong><br \/>\nNunca consegui terminar um curso superior. Fiz dois anos vestibular para medicina e n\u00e3o consegui. Fiz para jornalismo e passei. Cursei um ano. Naquela \u00e9poca j\u00e1 tinha quatro filhos, tinha que viajar, me virar, ganhar dinheiro. Ent\u00e3o viajava de Rio para S\u00e3o Paulo, Pernambuco. Depois ia para a Argentina, Uruguai. Por isso n\u00e3o tive tempo de sentar, tirar um curso. Trabalho em jornal desde os 18 anos, de maneira que, no momento de englobar tudo, chego \u00e0 conclus\u00e3o de n\u00e3o ter feito quase nada. Nem sobre isso eu tenho certeza.<br \/>\n<strong>Jornalista, escritor, homem de neg\u00f3cios?<\/strong><br \/>\nSempre fui essencialmente jornalista. N\u00e3o o que se compreende hoje como jornalista, que \u00e9 muito diferente. Hoje o jornalista \u00e9 obrigado a fazer uma mat\u00e9ria sobre tal coisa. Faz e vai embora. N\u00f3s antigamente faz\u00edamos tudo em jornal. Exerci todas as fun\u00e7\u00f5es dentro de um jornal. Fui diagramador, colunista, cronista, editorialista, rep\u00f3rter, redator, redator-chefe, diretor. Fui tudo. A gente entrava \u00e0s nove da manh\u00e3 e sa\u00eda as duas ou tr\u00eas da madrugada. Realmente era um neg\u00f3cio fant\u00e1stico esse trabalho.<br \/>\n<strong>E o escritor? O sujeito s\u00f3 escritor, quando escreve?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sou escritor desde 1980, quando lancei \u201cCamilo Mort\u00e1gua\u201d. De l\u00e1 para c\u00e1 n\u00e3o fiz mais nada. Com os infantis, tenho 26 livros publicados. Mas isto \u00e9 coisa do passado. Hoje n\u00e3o tenho um conto na gaveta. N\u00e3o escrevo h\u00e1 mais de um ano.<br \/>\n<strong>Por que?<\/strong><br \/>\nPrimeiro pela sa\u00fade. Sofria de angina, terminei sendo operado. Depois que sa\u00ed desta opera\u00e7\u00e3o tive problemas nos olhos e n\u00e3o posso escrever nem ler. \u00c9 um neg\u00f3cio muito frustrante&#8230;<br \/>\n<strong>Origem, fam\u00edlia?<\/strong><br \/>\nMeu pai era telegrafista, minha m\u00e3e, auxiliar de telegrafista. Naquele tempo os telegrafistas iam passando de munic\u00edpio para munic\u00edpio. Nasci em S\u00e3o Jer\u00f4nimo e com seis meses sa\u00ed. Passei rapidamente por Porto Alegre e fui para Ros\u00e1rio do Sul. L\u00e1 fiquei at\u00e9 1930. Na revolu\u00e7\u00e3o de 1930 meu pai fugiu para Rivera, na fronteira com Livramento. Aconteceram, ent\u00e3o, epis\u00f3dios muito chatos em casa, com agress\u00f5es \u00e0 minha m\u00e3e. Quando meu pai voltou houve uma certa anistia e ele foi transferido para Porto Alegre, como empregado de baixa categoria.<br \/>\n<strong>Inf\u00e2ncia?<\/strong><br \/>\nDizia minha m\u00e3e que eu s\u00f3 fui falar aos tr\u00eas anos. At\u00e9 achavam que eu seria mudo&#8230; Tive uma inf\u00e2ncia muito pobre. A minha m\u00e3e tinha que dividir o leite entre oito filhos. A gente morava em Ros\u00e1rio e a vacas passavam pela porta, mas leite n\u00e3o havia. Tenho uma irm\u00e3 que n\u00e3o gosta que eu diga isso. Ela diz que n\u00e3o faltava nada, mas faltava quase tudo. T\u00ednhamos estritamente o necess\u00e1rio para viver.<br \/>\n<strong>Religi\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEu me criei dentro do esp\u00edrito religioso muito intenso. Meu pai era pastor leigo e tinha um pouco mais de v\u00edcio que um pastor normal. O que ele n\u00e3o sabia tinha que inventar, dar as cores locais. N\u00f3s faz\u00edamos as ora\u00e7\u00f5es antes de qualquer refei\u00e7\u00e3o, ao deitar e, \u00e0s vezes, quando era noite de tempestade ele fazia uma ora\u00e7\u00e3o coletiva na varanda. Fui criado dentro desse esp\u00edrito. Me revoltou um pouco. Senti, em um determinado momento, que queria me desligar de tudo aquilo. Hoje reconhe\u00e7o nos protestantes uma certa democracia, certa compreens\u00e3o.<br \/>\n<strong>Leitura, autores?<\/strong><br \/>\nNo primeiro ano ginasial no Cruzeiro do Sul, em 1934, fundei o Gr\u00eamio Liter\u00e1rio Humberto de Campos, a\u00ed j\u00e1 tem um nome. Lia tamb\u00e9m Jos\u00e9 Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Machado de Assis, inclusive faz\u00edamos pe\u00e7as dos textos do Machado de Assis. Li Jorge Amado, depois descobri os autores franceses. Todo e qualquer autor franc\u00eas eu lia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um entardecer de ver\u00e3o em 1986. A entrevista com Josu\u00e9 Guimar\u00e3es transcorre t\u00e3o descontra\u00edda que vira um bate-papo e acaba sem que se abordem todos os assuntos. Marca-se ent\u00e3o uma outra conversa para completar eventuais lacunas. N\u00e3o foi poss\u00edvel. Dia 23 de mar\u00e7o, o escritor ga\u00facho morre de c\u00e2ncer, aos 65 anos. 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