{"id":308,"date":"2007-06-05T16:35:49","date_gmt":"2007-06-05T19:35:49","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=308"},"modified":"2007-06-05T16:35:49","modified_gmt":"2007-06-05T19:35:49","slug":"a-literatura-foi-a-primeira-a-reagir-ao-fim-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-literatura-foi-a-primeira-a-reagir-ao-fim-da-historia\/","title":{"rendered":"A literatura foi a primeira a reagir \u201cao fim da hist\u00f3ria\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Guilherme Kolling<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA professora de literatura e pesquisadora de teorias da leitura e de hist\u00f3ria liter\u00e1ria, Regina Zilberman, \u00e9 uma refer\u00eancia nacional e internacional em sua especialidade.<br \/>\nEla foi convidada a repercutir a confer\u00eancia de Roger Chartier \u201cHist\u00f3ria: a leitura do tempo\u201d. Na palestra, proferida no Sal\u00e3o de Atos da UFRGS no ciclo Fronteiras do Pensamento, em 22 de maio, o pensador franc\u00eas abordou as rela\u00e7\u00f5es entre hist\u00f3ria e literatura.<br \/>\nNesta entrevista, Regina Zilberman explica em que medida a literatura se compromete com a verdade, as rela\u00e7\u00f5es que ela estabelece com hist\u00f3ria \u2013 como fonte e como inspira\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do uso de suas t\u00e9cnicas narrativas \u2013  e observa que a literatura foi a primeira a reagir \u201cquando \u2018alguns profetas\u2019 anunciavam o fim da hist\u00f3ria, trazendo o g\u00eanero para o primeiro plano em muitas narrativas, como ocorre, por exemplo, com Saramago, premiado com o Nobel\u201d.<br \/>\nEm sua confer\u00eancia no Fronteiras do Pensamento, Roger Chartier disse que a principal diferen\u00e7a entre literatura e hist\u00f3ria \u00e9 a coleta de provas e verifica\u00e7\u00f5es, necess\u00e1rias para estabelecer a confiabilidade do relato hist\u00f3rico para o leitor. Em que medida a literatura se compromete com a verdade\/realidade?<br \/>\nO compromisso da literatura de fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 com a verdade, mas com a verossimilhan\u00e7a, isto \u00e9, com a coer\u00eancia daquilo que \u00e9 apresentado ao leitor. Por isso, ao contr\u00e1rio da hist\u00f3ria, ela pode lidar sem constrangimentos com a fantasia e a imagina\u00e7\u00e3o mais exagerada, como fez, recentemente, o chamado realismo m\u00e1gico ou, nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, o surrealismo.<br \/>\nChartier tamb\u00e9m observou que o historiador contempor\u00e2neo n\u00e3o busca mais a verdade, mas sim a verossimilhan\u00e7a, pois o passado \u00e9 aberto a m\u00faltiplas interpreta\u00e7\u00f5es. Isso pode representar um di\u00e1logo que se intensifica entre os campos da hist\u00f3ria e da literatura? O que h\u00e1 de positivo e de negativo nessa troca?<br \/>\nN\u00e3o sei se os historiadores entendem a verossimilhan\u00e7a da mesma maneira que os te\u00f3ricos da literatura: a verossimilhan\u00e7a na literatura decorre do arranjo interno dos acontecimentos. De todo modo, como a hist\u00f3ria \u00e9 tamb\u00e9m narra\u00e7\u00e3o, ela importa da fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria o processo de organiza\u00e7\u00e3o dos acontecimentos que, para fazerem sentido, precisam ser coerentes.<br \/>\nRoger Chartier explicou que uma das raz\u00f5es da \u201ccrise da hist\u00f3ria\u201d \u00e9 a confus\u00e3o com a narrativa de mem\u00f3ria e a literatura. H\u00e1 historiadores, e jornalistas que escrevem sobre hist\u00f3ria, utilizando t\u00e9cnicas da narrativa liter\u00e1ria para deixar seus relatos mais atraentes. Essa pr\u00e1tica pode causar confus\u00e3o ou imprecis\u00e3o no relato hist\u00f3rico?<br \/>\nCom efeito, g\u00eaneros que estavam mais pr\u00f3ximos da hist\u00f3ria, como a biografia, passaram a utilizar sem constrangimentos artif\u00edcios da narrativa liter\u00e1ria, como a apresenta\u00e7\u00e3o da intimidade dos biografados, seus pensamentos mais secretos, etc., como se fosse poss\u00edvel cogitar como foi a interioridade de uma personalidade j\u00e1 desaparecida, que passa a ser vista de dentro. Por outro lado, n\u00e3o h\u00e1 como conferir a precis\u00e3o do relato hist\u00f3rico, quando esse pretende reproduzir o que efetivamente aconteceu. Talvez esse seja o maior desafio da hist\u00f3ria, quando quer dar conta dos acontecimentos pret\u00e9ritos: trata-se sempre de uma interpreta\u00e7\u00e3o, ainda que mediada por documentos; contudo, deve, tamb\u00e9m, se precaver permanentemente contra os riscos de substituir o documento pela imagina\u00e7\u00e3o, de completar lacunas com especula\u00e7\u00f5es e de transformar uma personalidade do passado em figura fict\u00edcia.<br \/>\nO g\u00eanero biogr\u00e1fico \u00e9 literatura ou hist\u00f3ria? E o romance hist\u00f3rico? Como a senhora v\u00ea essa aproxima\u00e7\u00e3o literatura-hist\u00f3ria?<br \/>\nAtualmente o g\u00eanero biogr\u00e1fico est\u00e1 mais pr\u00f3ximo da literatura que da hist\u00f3ria; mas talvez devesse ser o contr\u00e1rio. O romance hist\u00f3rico pertence ao campo da literatura, pois os eventos hist\u00f3ricos formam o pano de fundo onde atuam personagens inteiramente imagin\u00e1rias. A aproxima\u00e7\u00e3o entre literatura e hist\u00f3ria vem marcando muito a literatura dos \u00faltimos 30 anos, em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. N\u00e3o se trata de julgar se isso \u00e9 v\u00e1lido ou n\u00e3o, mas de constatar a prefer\u00eancia do p\u00fablico por esse tipo de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. \u00c9 curioso igualmente verificar que, no momento em que alguns profetas anunciavam o &#8220;fim da hist\u00f3ria&#8221;, a literatura foi a primeira a reagir, trazendo a hist\u00f3ria para o primeiro plano em muitas narrativas, como ocorre, por exemplo, com Saramago, premiado com o Nobel.<br \/>\nA literatura pode cumprir o papel de fonte para a hist\u00f3ria? Como? Que exemplos destacaria?<br \/>\nA literatura n\u00e3o pode ser fonte para a hist\u00f3ria, \u00e9 evidente. Caso contr\u00e1rio, teria de abrir m\u00e3o de sua principal caracter\u00edstica \u2013 fic\u00e7\u00e3o, decorrente do emprego da imagina\u00e7\u00e3o e da fantasia, marcas principais da humanidade do homem.<br \/>\nO uso da internet para pesquisa hist\u00f3rica est\u00e1 aumentando, mas n\u00e3o deve substituir os arquivos f\u00edsicos de papel em bibliotecas e acervos, segundo Chartier. O que pensa do meio eletr\u00f4nico como fonte documental?<br \/>\nN\u00e3o me parece que o meio eletr\u00f4nico seja fonte, mas suporte. O arquivo cont\u00e9m pap\u00e9is, porque o papel foi o suporte preferido para a documenta\u00e7\u00e3o a partir da Idade M\u00e9dia. Se se optar pelo meio eletr\u00f4nico para substituir o papel, \u00e9 preciso discutir que tipo de t\u00e9cnica de preserva\u00e7\u00e3o dessa documenta\u00e7\u00e3o ser\u00e1 empregada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme Kolling A professora de literatura e pesquisadora de teorias da leitura e de hist\u00f3ria liter\u00e1ria, Regina Zilberman, \u00e9 uma refer\u00eancia nacional e internacional em sua especialidade. Ela foi convidada a repercutir a confer\u00eancia de Roger Chartier \u201cHist\u00f3ria: a leitura do tempo\u201d. 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