{"id":31101,"date":"2016-04-02T19:05:18","date_gmt":"2016-04-02T22:05:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=31101"},"modified":"2016-04-02T19:05:18","modified_gmt":"2016-04-02T22:05:18","slug":"2-de-abril-de-1964-o-presidente-acuado-deixa-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/2-de-abril-de-1964-o-presidente-acuado-deixa-brasilia\/","title":{"rendered":"2 de abril de 1964: Presidente acuado chega a Porto Alegre pensando em resistir"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">ELMAR BONES<\/span><br \/>\nO presidente Jo\u00e3o Goulart chegou a Porto Alegre \u00e0s 3h15 da madrugada naquele dois de abril de 1964.<br \/>\nDesceu do avi\u00e3o fumando e tenso, mas procurou mostrar-se sorridente ao chegar no sagu\u00e3o do aeroporto, onde o esperava uma pequena multid\u00e3o de pol\u00edticos e autoridades.<br \/>\nAli estavam o comandante do III Ex\u00e9rcito, general Lad\u00e1rio Telles, o ex-governador e ent\u00e3o deputado Leonel Brizola, o prefeito de Porto Alegre, Sereno Chaise entre muitos outros.<br \/>\nNo carro, a caminho da casa do general Lad\u00e1rio Telles, o presidente quase n\u00e3o falou. Descansou um pouco e \u00e0s 8h da manh\u00e3 saiu na porta da casa, onde falou rapidamente com os jornalistas. Disse que ia resistir.<br \/>\nEm seguida, reuniu-se com os chefes militares de todas as unidades no Rio Grande do Sul para avaliar as chances de resist\u00eancia.<br \/>\nH\u00e1 dois dias o presidente via seu governo desmoronar. Primeiro, teve que deixar o Rio, onde estava quando estourou a rebeli\u00e3o militar em Juiz de Fora. \u00a0Depois em Brasilia, onde mal teve tempo de limpar as gavetas. E, finalmente, Porto Alegre, no seu Estado Natal, onde iniciara sua carreira pol\u00edtica.<br \/>\nEm Brasilia, inclusive, \u00e0quela hora j\u00e1 tinha outro na sua cadeira, o deputado Rainieri Mazzili, entronizado na madrugada pelos golpistas.<br \/>\nO general Telles foi o primeiro a falar e se mostrou disposto a seguir instru\u00e7\u00f5es do presidente, inclusive partindo para o contra-ataque aos golpistas.<br \/>\nJango quis ouvir os outros generais. O primeiro deles, Floriano Machado, disse que &#8220;qualquer resist\u00eancia seria uma aventura&#8221;. \u00a0Os demais seguiram no mesmo tom. Apenas Leonel Brizola insistia em enfrentar a quartelada.<br \/>\nProp\u00f4s a forma\u00e7\u00e3o de um novo governo e a forma\u00e7\u00e3o de corpos de volunt\u00e1rios que seriam armados e apoiados por unidades militares que se mantinham fi\u00e9is ao presidente em S\u00e3o Leopoldo, Vacaria, S\u00e3o Borja e Bag\u00e9.<br \/>\nJango atalhou, com a frase que v\u00e1rios testemunhos guardaram: &#8220;N\u00e3o quero derramamento de sangue em defesa do meu mandato&#8221;.<br \/>\nE ordenou ao general Lad\u00e1rio: &#8220;Tome provid\u00eancias para me dirigir ao aeroporto&#8221;<br \/>\nJango voou para S\u00e3o Borja, onde se deslocou entre suas fazendas enquanto aguardava aconcess\u00e3o de asilo pelo governo uruguaio.<br \/>\nDois dias depois, no dia 4 de abril, desembarcou na base a\u00e9rea de Pando, pr\u00f3ximo a Montevid\u00e9o, onde recebeu asilo pol\u00edtico. O golpe no Brasil estava vitorioso.<br \/>\nEm Porto Alegre, a cidade que havia resistido ao golpe dois anos antes, o clima est\u00e1 resumido no depoimento de Olympio Tabajara, ex-secret\u00e1rio do governo estadual: &#8220;Eu sa\u00ed da reparti\u00e7\u00e3o, no centro, ao meio dia. Quando fui atravessar a Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega, encontrei um amigo que me disse: tudo acabado o Jango fugiu. Fui para minha casa, no Partenon, almo\u00e7ar &#8220;.<br \/>\n<span class=\"intertit\">\u00a0O GENERAL QUE N\u00c3O SABIA DE NADA<\/span><br \/>\nO chefe da Casa Militar da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica no governo Jango, era o general Argemiro de Assis Brasil, ga\u00facho.<br \/>\nNas primeiras horas da manh\u00e3 de 31 de mar\u00e7o, quando chegou ao Pal\u00e1cio Laranjeiras, no Rio, o general foi informado que havia \u201cum levante na guarni\u00e7\u00e3o de Minas Gerais\u201d.<br \/>\nEle passou a informa\u00e7\u00e3o ao presidente Jo\u00e3o Goulart, que indagou: \u201cVoc\u00ea acha que isso \u00e9 verdade?\u201d. O general respondeu: \u201cAcho, porque o general Mour\u00e3o Filho e o general Guedes est\u00e3o conspirando h\u00e1 muito tempo\u201d.<br \/>\nDias antes, o general havia dito ao presidente que Mour\u00e3o era \u201cum velhinho que n\u00e3o \u00e9 de nada\u201d.<br \/>\nJango ficou fechado em seu gabinete. Saiu pouco depois das nove para visitar o ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro, que estava hospitalizado. O ministro apontou o telefone na mesinha ao lado e tranquilizou o presidente. Estava acompanhando tudo, situa\u00e7\u00e3o sob controle.<br \/>\nJango mencionou Policia Militar na m\u00e3o de Lacerda. j\u00e1 em movimentos ostensivos pelas ruas do Rio. O general, impass\u00edvel: \u201cDeste telefone eu resolvo tudo, presidente\u201d.<br \/>\nManoel Le\u00e3es, o Maneco, que foi piloto de Jango trinta anos assistiu \u00e0 conversa e em seu livro \u201cMeu Amigo Jango\u201d registra: \u201cAt\u00e9 hoje acredito que o ministro Jair Dantas Ribeiro estava mancomunado com outros generais golpistas, ao menos para facilitar a deposi\u00e7\u00e3o do presidente.<br \/>\nA inten\u00e7\u00e3o de Jango, segundo diversos testemunhos era substituir o ministro pelo marechal Henrique Teixeira Lott. Por que Jango n\u00e3o trocou o ministro? \u201cAcho que ele n\u00e3o quis desmoralizar o general, talvez em considera\u00e7\u00e3o a sua doen\u00e7a\u201d, diz Maneco. \u201cO presidente Jo\u00e3o Goulart n\u00e3o quis substituir seu ministro para n\u00e3o desgost\u00e1-lo\u201d, diz H\u00e9lio Silva.<br \/>\nO outro homem do dispositivo militar de Goulart era o general Assis Brasil. Costumava dizer: \u201cN\u00e3o tem perigo. Comigo \u00e9 na ponta da faca. Nosso dispositivo \u00e9 o melhor j\u00e1 armado neste pa\u00eds\u201d. Assis Brasil disse depois do golpe \u201cque nunca houve tal dispositivo militar\u201d.<br \/>\nEram tr\u00eas da tarde, quando Jango chamou o general Lad\u00e1rio Telles, que estava de f\u00e9rias em Friburgo. A mudan\u00e7a do comando no III Ex\u00e9rcito estava decidida h\u00e1 v\u00e1rios dias, mas s\u00f3 agora o presidente iria efetiv\u00e1-la.<br \/>\nSeu plano era colocar o ga\u00facho Lad\u00e1rio Telles no Rio Grande do Sul, substituindo Benjamin Galhardo, que deveria voltar para o Rio e ocupar o lugar de Castello Branco, na chefia do Estado Maior das For\u00e7as Armadas. Castello era um dos l\u00edderes ostensivos do movimento contra o governo.<br \/>\nA caminho do pal\u00e1cio para a reuni\u00e3o com o presidente, o general Telles notou o \u201cmovimento desusado\u201d no pr\u00e9dio do Minist\u00e9rio da Guerra: \u201cDizia-se que, no quinto e sexto andares, 200 oficiais armados preparavam-se para atacar o QG da 1\u00aa Regi\u00e3o Militar do I Ex\u00e9rcito, no terceiro e segundo andares\u201d.<br \/>\nHoje se sabe que eram sessenta oficiais da Escola Militar da Praia Vermelha, que tinham ocupado quatro andares no pr\u00e9dio, para impedir a pris\u00e3o de Castello Branco, o l\u00edder dos conspiradores.<br \/>\nA audi\u00eancia com o presidente durou poucos minutos. Um avi\u00e3o j\u00e1 estava \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para transportar Telles a Porto Alegre. Jango determinou tamb\u00e9m que, antes de embarcar, ele providenciasse a pris\u00e3o de Castello Branco. Pela hierarquia, cabia ao comandante do I Ex\u00e9rcito, general Armando de Moraes \u00c2ncora, executar a ordem. Lad\u00e1rio, ent\u00e3o, transmitiu a ele a ordem do presidente. \u201cSenti hesita\u00e7\u00e3o no general \u00c2ncora. V\u00e1rias vezes fiz-lhe ver que o tempo passava e o general Castello se retiraria do Minist\u00e9rio sem ser preso. Somente \u00e0s 18 horas \u00c2ncora chamou Castello. Me pareceu que a pris\u00e3o seria efetuada&#8230;\u201d<br \/>\n\u00c0quela hora Castello Branco n\u00e3o estava mais no pr\u00e9dio do minist\u00e9rio. Sa\u00edra em companhia de Ernesto Geisel e estava escondido num apartamento na avenida Atl\u00e2ntica.<br \/>\nAcreditando que a pris\u00e3o seria efetuada, Lad\u00e1rio Telles foi para casa arrumar as malas. Eram 22h55min quando partiu. A bordo ouviu a declara\u00e7\u00e3o de Adhemar de Barros, o governador de S\u00e3o Paulo, aderindo ao golpe. Chegou em Porto Alegre a 1h20min, mas s\u00f3 na madrugada conseguiu assumir o comando. J\u00e1 era tarde demais.<br \/>\n<span class=\"intertit\"> Ningu\u00e9m acreditava no golpe <\/span><br \/>\nNo dia 31, uma ter\u00e7a-feira, Porto Alegre amanheceu fria e com chuvisqueiro. O governador despachava no Pal\u00e1cio como se nada estivesse acontecendo. Desde cedo corriam boatos de golpe, mas isso n\u00e3o era novidade. O notici\u00e1rio morno dos jornais do dia n\u00e3o indicava qualquer anormalidade.<br \/>\n<figure id=\"attachment_31118\" aria-describedby=\"caption-attachment-31118\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-31118\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Revistas-Golpe-de-Mar\u00e7o-64-fam\u00edlia-Cel.-Linhares-072-300x183.jpg\" alt=\"Porto Alegre, 1\u00ba de abril: quem saiu para saber o que estava acontecendo, viu a repress\u00e3o\" width=\"300\" height=\"183\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-31118\" class=\"wp-caption-text\">Porto Alegre, 1\u00ba de abril: quem saiu para saber o que estava acontecendo, viu a repress\u00e3o<\/figcaption><\/figure><br \/>\nO Correio do Povo trazia na capa um terremoto no Alasca, com manchetes para Camboja, Hungria, Espanha e R\u00fassia. Um destaque local era a crise de atendimento na ag\u00eancia dos Correios, em Santa Rosa.<br \/>\nOutra not\u00edcia importante foi o casamento de dona Vanisa Melo com o senhor Theodoro Medeiros, l\u00e1 em Santa Maria. O \u00fanico texto sobre o Brasil era do presidente americano Lyndon Johnson acusando Jango de ter muitos comunistas no governo.<br \/>\nOs jornais da \u00e9poca desinformavam tanto assim porque ou estavam alinhados com os conspiradores, ou totalmente contra, como no caso do tabl\u00f3ide \u00daltima Hora \u2013 sendo o \u00fanico da esquerda, cometia o mesmo pecado dos demais de defender apenas um lado.<\/p>\n<div style=\"width: 100%;min-width: 250;max-width: 320px;float: right;margin: 0px 0 0px 10px;background-color: #f8ae3f\">\n<h3 style=\"line-height: 1.3em;text-align: left;padding: 15px\">Jornais sa\u00fadam o golpe<\/h3>\n<p style=\"padding: 0 15px\">As narrativas daqueles dias variam: muita gente viu muita gente nas ruas, mas a maioria viu s\u00f3 algumas escaramu\u00e7as no centro. A tal massa, que j\u00e1 come\u00e7ava a se sentir \u00f3rf\u00e3, ainda tentou agitar, com protestos no eixo Borges de Medeiros, rua da Praia, Largo da Prefeitura e Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega nos dias primeiro e dois de abril. Houve repress\u00e3o e correrias. Algu\u00e9m deu tiros numa das janelas da CEEE, n\u00e3o houve v\u00edtimas.<\/p>\n<p style=\"padding: 0 15px\">O Correio do Povo descreveu os protestos do dia primeiro como \u201catos de desatino de moradores de vilas e estudantes, sentindo-se abandonados \u00e0 pr\u00f3pria sorte\u201d. O jornal saudou o golpe contra \u201co p\u00f3lo infeccioso que tem em seu agente o ex-governador Leonel Brizola\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<p>Anos depois, Breno Caldas, dono do Correio do Povo, admitiria a parcialidade: \u201cA posi\u00e7\u00e3o do Correio foi favor\u00e1vel diante dos acontecimentos de 64. Cooperamos para sua eclos\u00e3o. Aqui havia um foco din\u00e2mico da esquerda manobrado pelo governador Brizola. N\u00f3s est\u00e1vamos contra a situa\u00e7\u00e3o que ele representava. Desta maneira, a revolu\u00e7\u00e3o de 64 foi para n\u00f3s bemvinda, desejada e saudada\u201d.<br \/>\nO resultado \u00f3bvio da parcialidade generalizada \u00e9 que o pov\u00e3o pouco sabia das coisas. Naquele 31, os jornais traziam apenas algumas dicas da tempestade que desabaria sobre a vida pol\u00edtica.<br \/>\nNa primeira p\u00e1gina do Di\u00e1rio de Not\u00edcias a manchete era quase uma mensagem em c\u00f3digo do golpe: \u201cEm Minas Gerais, Ex\u00e9rcito e FAB em rigorosa prontid\u00e3o\u201d, sem nenhum explica\u00e7\u00e3o do contexto.<br \/>\nO mais lido cronista social da \u00e9poca, Ibrahim Sued, deu em sua coluna do Di\u00e1rio apenas uma notinha de pol\u00edtica: \u201cO novo ministro da Marinha \u00e9 um gag\u00e1 que ser\u00e1 joguete nas m\u00e3os de Leonel Brizola e sua troupe de comunistas\u201d. Ele fechou a coluna com uma frase rom\u00e2ntica, \u201cquem nunca amou, nunca viveu\u201d.<br \/>\nO mesmo Di\u00e1rio trazia uma mensagem de P\u00e1scoa do arcebispo Dom Vicente Scherer. Ela sim vinha carregada de pol\u00edtica: \u201cCabe-nos, diletos fi\u00e9is, render gra\u00e7as a Deus haver preservado em nosso pa\u00eds a paz p\u00fablica e a capacidade de resistir \u00e0s adversidades econ\u00f4micas e sociais\u201d.<br \/>\nLendo hoje as declara\u00e7\u00f5es dos luminares da pol\u00edtica ga\u00facha da \u00e9poca, seria poss\u00edvel perceber que alguma coisa grave iria mesmo acontecer. Por exemplo, o ex-prefeito Jos\u00e9 Loureiro da Silva, deu uma entrevista na sede da A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Feminina (ADF), reproduzida naquele dia pelo Correio, criticando \u201ca ocupa\u00e7\u00e3o de cargos da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica por comunistas\u201d.<br \/>\nAinda no fat\u00eddico dia 31, os jornais anunciaram uma poss\u00edvel reuni\u00e3o secreta que deveria acontecer no dia 2, no Pal\u00e1cio Piratini, entre os governadores Meneghetti, Carlos Lacerda (RJ) e Adhemar de Barros (SP), tr\u00eas conspiradores da primeira hora.<br \/>\nO Di\u00e1rio trazia uma nota interessante. Nela at\u00e9 se poderia identificar um dos golpistas \u2013 coisa que naquela hora poucos sabiam. Ao p\u00e9 de uma lista de associados da Caixa de Assist\u00eancia Social dos Oficiais, constava que \u201co general Humberto de Alencar Castello Branco vai deixar a chefia do Estado-Maior do Ex\u00e9rcito\u201d \u2013 ele, Castello, deixou sim, mas para assumir, quase duas semanas depois, a cadeira de Jango.<br \/>\nComo 31 era ter\u00e7a e segunda os jornais n\u00e3o circulavam, eles traziam not\u00edcias do domingo anterior, de P\u00e1scoa. Alguns foram cordiais com o prefeito Sereno Chaise, que passara aquele dia visitando obras, e \u00e0 primeira-dama Terezinha, por entregar 25 mil barras de chocolate Neugebauer para crian\u00e7as carentes nos bairros da periferia.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Legislativo em parafuso<\/span><br \/>\nA Assembleia Legislativa entrou em parafuso no dia primeiro. Os deputados trabalhistas queriam instalar uma sess\u00e3o permanente no teatro S\u00e3o Pedro, porque temiam que com o golpe a casa fosse fechada \u201cpelos esbirros do governador Meneghetti\u201d, como diziam.<br \/>\nNo plen\u00e1rio, o deputado Paulo Brossard de Souza Pinto, mais tarde um formid\u00e1vel opositor da ditadura, fez um discurso a favor do golpe: \u201cFelizmente para n\u00f3s, as For\u00e7as Armadas encontraram em seu \u00edntimo a defesa das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e a ordem constitucional que as exprime\u201d.<br \/>\n<figure id=\"attachment_31128\" aria-describedby=\"caption-attachment-31128\" style=\"width: 326px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-31128\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Tanque-com-onibus-300x238.jpg\" alt=\"Dia 3 de abril: j\u00e1 n\u00e3o havia mais protestos, mas tanques continuavam estacionados nas ruas\" width=\"326\" height=\"261\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-31128\" class=\"wp-caption-text\">Dia 3 de abril: j\u00e1 n\u00e3o havia mais protestos, mas tanques continuavam estacionados nas ruas<\/figcaption><\/figure><br \/>\nA resposta veio de Pedro Simon, num duro protesto contra a deposi\u00e7\u00e3o do presidente. Na C\u00e2mara de Vereadores, o presidente C\u00e9lio Marques Fernandes, mais tarde prefeito nomeado pela ditadura, convocou uma sess\u00e3o extraordin\u00e1ria \u2013 apressava-se para assumir o cargo vago com pris\u00e3o de Sereno Chaise, horas depois.<br \/>\nApesar do feriado banc\u00e1rio e escolar, que esvaziou a cidade, uma massa descrita como \u201cjanguista-esquerdista-brizolista-comunista\u201d saiu \u00e0s ruas, mas n\u00e3o chegou a reunir mais de tr\u00eas mil pessoas. Policiais do Dops e soldados da Brigada e do Ex\u00e9rcito dissolviam com viol\u00eancia as aglomera\u00e7\u00f5es. A Folha da Tarde saiu pouco depois do meio-dia, j\u00e1 trombeteando a vit\u00f3ria e elogiando o rigor das tropas na manuten\u00e7\u00e3o da ordem.<br \/>\n<span class=\"intertit\">\u201cA noite em que chegaram os tanques\u201d <\/span><br \/>\nA casa que foi cen\u00e1rio do \u00faltimo ato de Jango no governo ainda est\u00e1 l\u00e1, intocada, 50 anos depois. Ainda serve \u00e0 mesma fun\u00e7\u00e3o, ser a resid\u00eancia do general que estiver no comandante do III Ex\u00e9rcito.<br \/>\nFoi ali, na esquina da Crist\u00f3v\u00e3o Colombo com a Carlos von Koseritz, que o general Lad\u00e1rio Telles hospedou Jango nas suas \u00faltimas nove horas como presidente do Brasil, em 2 de abril.<br \/>\nA casa j\u00e1 foi mais elegante, na \u00e9poca em que o bairro era mais nobre \u2013 hoje ela est\u00e1 numa esquina barulhenta, vizinha de um hotel e de um restaurante japon\u00eas. Os vizinhos amam sua presen\u00e7a porque um destacamento 24 horas guarda o peda\u00e7o.<\/p>\n<div style=\"width: 100%;min-width: 250;max-width: 280px;float: left;margin: 0px 15px 10px 0px;background-color: #f8ae3f\">\n<h3 style=\"line-height: 1.3em;text-align: left;padding: 15px\">Brizola: \u201cTomem os quart\u00e9is a unha\u201d<\/h3>\n<p style=\"padding: 0 15px\">O ponto alto da resist\u00eancia foi o com\u00edcio da noite do dia primeiro no Largo da Prefeitura. Brizola falou por volta das oito, para duas mil pessoas.<br \/>\nBrizola vinha botando fogo na massa todo dia pelo r\u00e1dio e repetiu no com\u00edcio seu mantra: \u201cQuero iniciar a derrubada destes chefes militares golpistas e traidores. Aten\u00e7\u00e3o, sargentos do III Ex\u00e9rcito. Aten\u00e7\u00e3o, sargentos das unidades chefiadas por esses militares golpistas. Aten\u00e7\u00e3o, oficiais nacionalistas&#8230; O povo pede que os sargentos se levantem, tomem os quart\u00e9is e prendam os gorilas&#8230; tomem a iniciativa, a unha mesmo, com o que tiverem na m\u00e3o, tomem as armas desses gorilas, tomem conta dos quart\u00e9is e prendam os traidores&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"padding: 0 15px\">Dali ele foi para o QG do III Ex\u00e9rcito usar o r\u00e1dio para falar com Jango. O presidente estava voando para Porto Alegre e os dois teriam concordado que nenhuma rea\u00e7\u00e3o seria organizada enquanto ele n\u00e3o chegasse. Mas Jango s\u00f3 chegaria na madrugada do dia 2 de abril, quando j\u00e1 era tarde para a resist\u00eancia.<\/p>\n<\/div>\n<p>A tropa se esmera para cuidar do pequeno jardim da frente, com uma burocr\u00e1tica roseira no centro, uma cerca viva de metro e meio de altura e uma discreta guarita.<br \/>\nNaquele dia 2 de abril, a calma das noites da Crist\u00f3v\u00e3o foi quebrada \u00e0s 4 horas. O professor Francisco Outeiro, vizinho, lembrou anos mais tarde: \u201cAcordei com aquele barulho enorme, estranho e assustador. Meu pai disse \u2018s\u00e3o as lagartas dos tanques nos paralelep\u00edpedos\u2019. Abrimos a janela e eram mesmo tanques\u201d.<br \/>\nA barulheira tamb\u00e9m incomodou seu Albino Neitcke, dono da padaria Vit\u00f3ria, na esquina oposta da Koseritz. Mais tarde, \u00e0s 7 da manh\u00e3, quando abriu a loja, soldados apareceram ordenando que ele afastasse mulheres e crian\u00e7as.<br \/>\n\u201cEles ocuparam todas as esquinas com seus tanques\u201d, lembrou seu Albino. \u201cUm deles ficou estacionado no meu jardim\u201d. Outra lembran\u00e7a: \u201cMinha mulher n\u00e3o deu bola para a ordem e ficou trabalhando, aquele foi um dia de muito movimento\u201d.<br \/>\nA marquise da padaria ficou tomada por fot\u00f3grafos. \u201cDeputados e outros pol\u00edticos entravam toda hora na loja para tomar caf\u00e9, comer sandu\u00edches, foi mesmo uma loucura\u201d.<br \/>\nSeu Albino contou que os mordomos da casa do general vieram buscar quantidades extras de p\u00e3o, manteiga, queijo e salame. \u201cDe repente, vi o Brizola sair da casa pela porta da frente, entrar num Fusca clarinho que estava estacionado no port\u00e3o e descer a rua, ele mesmo dirigindo\u201d.<br \/>\nOs jornalistas e os tanques sumiram para sempre. A padaria Vit\u00f3ria cresceu, continua firme na esquina. Mordomos do general ainda fazem compras ali. No jardim, um p\u00e9 de cinamomo cresceu onde antes o tanque ficara estacionado.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Legalidade n\u00e3o se repetiu<\/span><br \/>\nNo in\u00edcio da noite de 31 de mar\u00e7o, o governador Ildo Meneghetti tentava saber a exata extens\u00e3o da rebeli\u00e3o militar, quando foram cortadas as linhas telef\u00f4nicas do Pal\u00e1cio Piratini. O governador convocou seus auxiliares para uma reuni\u00e3o. Havia chegado uma not\u00edcia alarmante: os sargentos haviam tomado um quartel em Bag\u00e9, obrigando o comandante a se refugiar em outra unidade.<br \/>\nO governador ficou tamb\u00e9m sabendo que ia chegar naquela noite um novo comandante para o III Ex\u00e9rcito, o mais poderoso dos quatro ex\u00e9rcitos brasileiros, com jurisdi\u00e7\u00e3o sobre Rio Grande do Sul, Paran\u00e1 e Santa Catarina.<br \/>\n<figure id=\"attachment_31110\" aria-describedby=\"caption-attachment-31110\" style=\"width: 220px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-31110\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/2014-03-24-14.59.49-168x300.jpg\" alt=\"Avenida S\u00e3o Jo\u00e3o, S\u00e3o Paulo, dia 3: a vida volta ao normal\" width=\"220\" height=\"381\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-31110\" class=\"wp-caption-text\">Avenida S\u00e3o Jo\u00e3o, S\u00e3o Paulo, dia 3: a vida volta ao normal<\/figcaption><\/figure><br \/>\nA lembran\u00e7a da Legalidade, menos de tr\u00eas anos antes, fazia do Rio Grande do Sul um ponto estrat\u00e9gico, onde certamente os defensores de Jango tentariam resistir. Mas agora a situa\u00e7\u00e3o era outra. A come\u00e7ar pela vit\u00f3ria da oposi\u00e7\u00e3o a Jango e Brizola, que conseguira ganhar a elei\u00e7\u00e3o de 1962 e colocar o conservador Meneghetti, da UDN, no governo do Estado.\u00a0Brizola estava em Porto Alegre no dia 31 de mar\u00e7o. S\u00f3 que agora ele era um deputado federal, n\u00e3o podia dar ordens \u00e0 Brigada Militar nem requisitar emissoras de r\u00e1dio para mobilizar a popula\u00e7\u00e3o em defesa do governo.<br \/>\nAl\u00e9m disso, ao contr\u00e1rio dos seus advers\u00e1rios, que h\u00e1 muito se preparavam para impedir que se organizasse uma resist\u00eancia ao golpe no Rio Grande do Sul, os aliados de Brizola estavam completamente despreparados.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Mala de dinheiro para pagar a pol\u00edcia<\/span><br \/>\nNo dia 2, depois do meio dia, Jango decidiu partir para o ex\u00edlio. N\u00e3o havia mais como resistir.<br \/>\nFoi a\u00ed que come\u00e7aram as trevas. Os golpistas soltaram as r\u00e9deas do Dops para prender seus advers\u00e1rios.<br \/>\nHouve um pequeno atraso no cronograma das pris\u00f5es porque a turma estava com os sal\u00e1rios atrasados. Os zelosos policiais se recusavam a prender antes de receber.<br \/>\n\u201cDe repente, uma mala de dinheiro apareceu no Pal\u00e1cio da Pol\u00edcia e todos foram pagos\u201d, lembrou anos mais tarde o ent\u00e3o delegado Cl\u00e1udio Barbedo. Com tal est\u00edmulo, um dos primeiros presos foi o prefeito Sereno Chaise \u2013 entrou no xadrez vestindo um impec\u00e1vel sobretudo cor de camelo.<\/p>\n<div style=\"width: 100%;min-width: 250px;float: none;margin: 0px 0 10px 0px;background-color: #f8ae3f\">\n<h3 style=\"line-height: 1.3em;text-align: left;padding: 15px\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-31589 alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/KIT-ANTIDITADURA-Semana-combate-ao-ditavirus_255x300px_PROMO-255x300.jpg\" alt=\"KIT ANTIDITADURA-Semana combate ao ditavirus_255x300px_PROMO\" width=\"186\" height=\"247\" \/>Adquira o kit antiditadura<\/h3>\n<p style=\"padding: 0 15px\">O texto que voc\u00ea acabou de ler foi retirado da primeira edi\u00e7\u00e3o, de um total de tr\u00eas, do kit antiditadura.<\/p>\n<p style=\"padding: 0 15px 15px 15px\">Acesse nossa <a href=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/kit\">pagina promocional<\/a> e adquira atrav\u00e9s de cart\u00e3o ou boleto banc\u00e1rio. Voc\u00ea recebe em casa com frete gr\u00e1tis.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELMAR BONES O presidente Jo\u00e3o Goulart chegou a Porto Alegre \u00e0s 3h15 da madrugada naquele dois de abril de 1964. Desceu do avi\u00e3o fumando e tenso, mas procurou mostrar-se sorridente ao chegar no sagu\u00e3o do aeroporto, onde o esperava uma pequena multid\u00e3o de pol\u00edticos e autoridades. 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