{"id":31520,"date":"2016-04-13T16:27:11","date_gmt":"2016-04-13T19:27:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=31520"},"modified":"2016-04-13T16:27:11","modified_gmt":"2016-04-13T19:27:11","slug":"um-ano-sem-galeano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/um-ano-sem-galeano\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria: Hist\u00f3rias de Eduardo Galeano em Porto Alegre"},"content":{"rendered":"<p><em>No dia 13 de abril de 2015, o mundo perdeu Eduardo Galeano. O escritor uruguaio morreu aos 75 anos, v\u00edtima de um c\u00e2ncer que j\u00e1 estava espalhado pelo corpo. <\/em><br \/>\n<em>Trinta anos antes, Galeano esteve em Porto Alegre e Gramado &#8211; <a href=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/eduardo-galeano-nosso-homem-de-maos-magicas\/\">participou, inclusive da festa de lan\u00e7amento do Jornal J\u00c1, com o qual colaborou com cr\u00f4nicas durante v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es<\/a>.<\/em><br \/>\n<em>O relato a seguir foi extra\u00eddo da edi\u00e7\u00e3o n\u00famero 1 do jornal, publicada em outubro de 1985, e mostra como o uruguaio passeou por Porto Alegre e Gramado com bom humor, apesar de uma gripe &#8211; e da chatea\u00e7\u00e3o provocada pela extrema frieza do p\u00fablico em sua noite de aut\u00f3grafos.<\/em><br \/>\n<span class=\"intertit\">Galeano: Um alerta contra o separatismo<\/span><br \/>\nEduardo Galeano esteve em Porto Alegre para ensinar e aprender sobre a Am\u00e9rica Latina. Ensinou na Assembleia e aprendeu na noite de Porto Alegre e na tarde de Gramado. Levou ideias definidas sobre as duas realidades ga\u00fachas com que pode conviver em tr\u00eas dias.<br \/>\nNuma terra onde os mitos duram menos que o rel\u00e2mpago, Eduardo Galeano \u00e9 uma honrosa exce\u00e7\u00e3o. Respeitado, lido e admirado por toda a Am\u00e9rica Latina, n\u00e3o \u00e9 de estranhar que sua vinda at\u00e9 Porto Alegre, tenha provocado frisson nos meios intelectuais.<br \/>\nA gripe que o acometeu no Rio de Janeiro, no entanto, liquidou com as inten\u00e7\u00f5es de muita gente em repartir longas noitadas de papo elocubrados com o autor das \u201cVeias Abertas da Am\u00e9rica Latina\u201d.<br \/>\nA gripe e o pr\u00f3prio Galeano, mais afeito a papos de botequim, muito longe da empoada figura do intelectual europeu (logo decadente) que nossos representantes locais da classe tentam imitar.<br \/>\nGrande papo, Galeano. Seus dois \u00faltimos livros, \u201cNascimentos\u201d e \u201c As Caras e as M\u00e1scaras\u201d, verdadeiras colchas de retalho de mil hist\u00f3rias, s\u00e3o pouco para mostrar as outras mil que ele \u00e9 capaz de contar de viva voz.<br \/>\nA gripe, que o fez literalmente derreter durante a entrevista coletiva na Livraria Quarup, n\u00e3o limitou seu bom humor, regado a Coca-Cola (bebida estranha para um cr\u00edtico ferrenho das multinacionais). Tanto assim que, depois de atender ao final da coletiva, a um rep\u00f3rter solit\u00e1rio e atrasado, comentou: \u201cPuxa, eu bolava grandes frases e ele ficava impass\u00edvel, escutando. Depois, quando dizia coisas desimportantes, anotava tudo\u201d.<br \/>\nUma de suas hist\u00f3rias: Em 1935 Trujillo resolve modernizar a Rep\u00fablica Dominicana. Come\u00e7a abrindo uma f\u00e1brica de cal\u00e7ados , dele mesmo. E decreta: ningu\u00e9m pode circular descal\u00e7o nas grandes cidades dominicanas. Quem tenta \u00e9 preso, as cadeias logo ficam cheias. Aos miser\u00e1veis camponeses, resta comprar um par de sapatos por aldeia. Quem precisa ir \u00e0 capital, os cal\u00e7a e vai. Melhor ainda, os camponeses descobrem que podem ir em duplas, bastando para isto que cada um calce um p\u00e9 do par de sapatos, e enfaixe o outro p\u00e9, como se estivesse quebrado. No pal\u00e1cio lamenta a falta de compreens\u00e3o do povo a seu projeto de moderniza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nHoras depois da coletiva, a sess\u00e3o de aut\u00f3grafos, tamb\u00e9m na Livraria Quarup. Muito menos gente que o esperado. Mas o que irrita Galeano \u00e9 a frieza das pessoas, que entregam o livro, dizem seu nome e esperam o aut\u00f3grafo em sil\u00eancio.<br \/>\nEle queria conversar, saber das coisas da gente brasileira. Chateado, vai embora assim que a fila termina. \u00c1 noite, novamente se esvaindo em suor, consequ\u00eancia da gripe, fala na Assembleia para um plen\u00e1rio superlotado por um p\u00fablico \u2013 a\u00ed sim, entusiasta. Saiu de l\u00e1 ruim. Muita gente pensou que precisasse ir a um hospital. Mas n\u00e3o foi.<br \/>\nFoi, isto sim, para a Churrascaria do Negr\u00e3o, saber se o churrasco do Rio Grande se compara ao do Uruguai. Era tanta gente, cerca de 20 pessoas, que ningu\u00e9m lembrou de perguntar se havia gostado da carne. Da cerveja, gostou. Gostou tanto que nela afogou a gripe.<br \/>\nMagicamente curado, contou hist\u00f3rias para o grupo mais pr\u00f3ximo. Os outros, como bons intelectuais ga\u00fachos esqueceram do convidado e come\u00e7aram a brigar entre si. Aos poucos a mesa foi esvaziando, todos reconciliados, a noite avan\u00e7ando. Restou o grupo que cercava Galeano, vendo-o derrubar sucessivas Brahmas enquanto contava suas hist\u00f3rias.<br \/>\nOutra delas: este ano, depois de uma longa procura, a av\u00f3 encontra a neta, que havia sido sequestrada com sua m\u00e3e pela ditadura Argentina, quando tinha apenas um ano de idade. A garota est\u00e1 agora com nove.<br \/>\nFora levada de Buenos Aires para o Peru. No reencontro, choro e emo\u00e7\u00e3o. A velha senhora leva a neta para casa e, num gesto de amor e de exorcismo resolve banh\u00e1-la. Em pleno banho, um cheiro forte e indecifr\u00e1vel come\u00e7a a tomar conta da menina. A v\u00f3 a ensaboa outra vez mas o cheiro n\u00e3o cede. S\u00f3 ent\u00e3o a velha senhora o reconhece: a menina est\u00e1 cheirando a nen\u00ea. O m\u00e1gico momento do reencontro cria nela a regress\u00e3o, expressa atrav\u00e9s do cheiro, na busca do carinho materno que lhe foi negado.<br \/>\nA noite avan\u00e7a e o grupo \u00e9 expulso da Churrascaria do Negr\u00e3o. Seguem todos para o Bar do Beto, onde Galeano continua derrubando cervejas e contando hist\u00f3rias.<br \/>\nEsta, ele n\u00e3o confirma, mas conta de qualquer maneira: 16 de julho de 1950. O Brasil perdeu a Copa do Mundo para o Uruguai e pleno Maracan\u00e3. O pa\u00eds est\u00e1 em choque, mas a sele\u00e7\u00e3o uruguaia festeja na boate e na piscina do hotel. Apenas o capit\u00e3o do time e autor do gol, Obdulio Varela, fica de fora da festa. Diz que o resultado foi injusto. Alia-se \u00e0 dor dos brasileiros, e passa a noite percorrendo os botecos do Rio, se embebedando junto \u00e0 torcida local e xingando \u201caquele filha da puta do Varela\u201d. Sorte sua que n\u00e3o havia ainda televis\u00e3o, e n\u00e3o foi reconhecido.<br \/>\nFicou, de Galeano, a figura de um intelectual que n\u00e3o confunde engajamento com rabugice. Foi dormir \u00e0s quatro e meia da manh\u00e3 e antes do meio dia j\u00e1 estava em Gramado, passeio um tanto estranho mas que, recomendado sabe-se l\u00e1 por quem, ele fez quest\u00e3o de fazer.<br \/>\nFoi, viu, e admirou-se. Depois de uma noite passada em volta da mesa de uma bar, ao melhor estilo brasileiro, depois de suas not\u00e1veis hist\u00f3rias sobre a realidade latino-americana, depois de anos e anos vividos a estudar e denunciar as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o no continente, Galeano passou pelas ruas de Gramado, viu seus pr\u00e9dios, suas lojas e seus hot\u00e9is.<br \/>\nNa manh\u00e3 seguinte, pouco antes de embarcar para Montevid\u00e9u, comentava ao grupo que o levou ao aeroporto: \u201cVoc\u00eas, ga\u00fachos, com esta mania de separatismo que vem desde a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, precisam lembrar que, separados do Brasil, ter\u00e3o que usar s\u00f3 aqueles m\u00f3veis de Gramado. O que me parece motivo suficiente para mudar de ideia\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 13 de abril de 2015, o mundo perdeu Eduardo Galeano. O escritor uruguaio morreu aos 75 anos, v\u00edtima de um c\u00e2ncer que j\u00e1 estava espalhado pelo corpo. Trinta anos antes, Galeano esteve em Porto Alegre e Gramado &#8211; participou, inclusive da festa de lan\u00e7amento do Jornal J\u00c1, com o qual colaborou com cr\u00f4nicas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":21417,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-31520","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":1280,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-menino-que-se-tornou-brizola\/","url_meta":{"origin":31520,"position":0},"title":"O Menino que se Tornou Brizola","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"28 de julho de 2008","format":false,"excerpt":"Autor: Cleber Dioni A vida de Leonel Brizola, com \u00eanfase para os primeiros anos em Porto Alegre, at\u00e9 o ex\u00edlio no Uruguai e a volta, quinze anos depois. \u00a0\"...\u00c9ramos todos jovens e nos identific\u00e1vamos com aquela massa an\u00f4nima a percorrer as ruas de Porto Alegre, gritando 'Get\u00falio', 'Get\u00falio' e empunhando\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Livros&quot;","block_context":{"text":"Livros","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/category\/livros\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/brizola.gif?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-8co","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31520","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31520"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31520\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31520"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31520"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31520"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}