{"id":31743,"date":"2016-04-17T20:13:57","date_gmt":"2016-04-17T23:13:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=31743"},"modified":"2016-04-17T20:13:57","modified_gmt":"2016-04-17T23:13:57","slug":"um-assalto-opiniao-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/um-assalto-opiniao-publica\/","title":{"rendered":"1964: Antes do golpe, um assalto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica"},"content":{"rendered":"<h4><i>1964: Imprensa encobriu a conspira\u00e7\u00e3o e deu apoio total ao golpe<\/i><\/h4>\n<p><span class=\"assina\">Luiz Cl\u00e1udio Cunha*<\/span><br \/>\nNas origens da conspira\u00e7\u00e3o que levou ao golpe de 1964, est\u00e1 a digital da m\u00eddia que ajudou, por atos, fatos e vers\u00f5es, na cria\u00e7\u00e3o do clima pol\u00edtico que lan\u00e7ou o pa\u00eds num abismo autorit\u00e1rio de 21 anos.<br \/>\nE ajudou, depois, na consolida\u00e7\u00e3o do regime, com seu apoio expl\u00edcito.<br \/>\nNingu\u00e9m dissecou isso melhor do que o professor uruguaio Ren\u00e9 Armand Dreifuss (1945-2003).<br \/>\nEm 1981, aos 36 anos, ele publicou no Brasil sua tese de doutorado produzida nos cinco anos anteriores na Esc\u00f3cia.<br \/>\nNas 814 p\u00e1ginas de seu livro* (1964: A conquista do Estado. A\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, poder e golpe de classe. Ed. Vozes) Dreifuss confirma: 1964 n\u00e3o foi uma simples quartelada, ou ato improvisado de um general impulsivo que de repente botou os tanques nas ruas.<br \/>\nEm novembro de 1961, tr\u00eas meses ap\u00f3s a posse de Goulart, nasceu no Rio o IPES, Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais. Reunia a nata do empresariado, nacional e multinacional, com todos os nomes, sobrenomes e siglas que ainda hoje enfeitam as listas das maiores empresas do pa\u00eds.<br \/>\nParecia um inocente clube de homens de neg\u00f3cios. Mas, na sua face oculta, sob siglas e codinomes, o IPES concentrava a execu\u00e7\u00e3o met\u00f3dica de um pensado plano para combater, de forma clandestina, tr\u00eas principais inimigos: o Governo Jango, a alian\u00e7a nacionalista do PTB e o comunismo, que aparentemente resumia tudo aquilo.<br \/>\nO bra\u00e7o pol\u00edtico ostensivo do IPES era o IBAD, Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica, que apesar do nome tinha liga\u00e7\u00f5es com o MAC, Movimento Anticomunista, e com a organiza\u00e7\u00e3o da direita cat\u00f3lica Opus Dei.<br \/>\nO fundador do IBAD em 1959 foi o integralista Ivan Hasslocher, dono da Promotion, ag\u00eancia de publicidade que promovia o lobby do instituto e seu bra\u00e7o parlamentar, a ADP \u2013 A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Popular, um n\u00facleo conservador de 160 parlamentares da centro-direita no Congresso.<br \/>\n<figure id=\"attachment_31748\" aria-describedby=\"caption-attachment-31748\" style=\"width: 407px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-31748\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/2014-03-24-15.00.57-300x168.jpg\" alt=\"Com o clima de vit\u00f3ria criado pelos jornais, at\u00e9 Lacerda saiu para rua\" width=\"407\" height=\"233\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-31748\" class=\"wp-caption-text\">Com o clima de vit\u00f3ria criado pelos jornais, at\u00e9 Lacerda saiu para rua<\/figcaption><\/figure><br \/>\nSegundo Dreifuss, a ADP tinha sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica patrocinada pela sec\u00e7\u00e3o carioca da CIA, a ag\u00eancia de intelig\u00eancia americana.<br \/>\nA partir de 1962, juntaram-se as duas entidades: nascia o complexo IPES\/IBAD, matriz ideol\u00f3gica e operacional da conspira\u00e7\u00e3o que daria o golpe e, depois, forneceria os quadros e dirigentes do aparato estatal que sustentou o regime militar.<br \/>\nEm 1963, os 80 membros originais do IPES pularam para 500. Eram s\u00f3cios 26 dos 36 l\u00edderes da FIESP, a maior federa\u00e7\u00e3o industrial do pa\u00eds.<br \/>\nEm Porto Alegre, a vers\u00e3o local tinha o nome de IPESUL e sobrenomes ilustres como o lojista F\u00e1bio Ara\u00fajo Santos, da rede JH Santos, Jos\u00e9 Zamprogna e Ary Burger, diretor do Grupo Gerdau, Antonio Saint Pastous, presidente da Farsul, entre muitos outros.<br \/>\nA articula\u00e7\u00e3o dos empres\u00e1rios com os militares era feita pelo Grupo de Levantamento da Conjuntura (GLC) do IPES, comandado pelo general Golbery do Couto e Silva.<br \/>\nA equipe de Golbery distribu\u00eda nos quart\u00e9is uma circular bimestral mimeografada, sem cita\u00e7\u00e3o da fonte, avaliando a atividade \u201ccomunista\u201d no pa\u00eds, apontando o dedo para \u201csubversivos infiltrados no governo\u201d e mapeando suas a\u00e7\u00f5es. S\u00f3 no Rio de Janeiro o GLC de Golbery tinha tr\u00eas mil telefones grampeados .<br \/>\nO grupo do general ocupava quatro das 13 salas que o IPES havia alugado no 27\u00b0 andar do Ed. Avenida Central, na av. Rio Branco. A conta do telefone era faturada em nome do general da reserva Henrique Geisel, irm\u00e3o de Ernesto. Em Porto Alegre, o IPESUL operava no quarto andar do Ed. Pal\u00e1cio do Com\u00e9rcio, no centro.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Tr\u00eas frentes<\/span><br \/>\nO GLC escrutinava a produ\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da imprensa do pa\u00eds e produzia mensalmente cerca de 500 artigos, disseminados pelos jornais ou divulgados em forma de palestras. O Grupo de Atua\u00e7\u00e3o Parlamentar (GAP) do IPES proibia qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0 sigla, que era camuflada como \u201cEscrit\u00f3rio de Bras\u00edlia\u201d. O plano era simples e mortal: o IPES, atrav\u00e9s do IBAD e da ADP, emparedava o governo no Congresso, criando um beco sem sa\u00edda parlamentar e um ponto morto do Executivo.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-31750 alignleft\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/CP-1-4-64-207x300.jpg\" alt=\"SONY DSC\" width=\"324\" height=\"463\" \/><br \/>\nEra fundamental manipular a express\u00e3o da sociedade. O objetivo central do Grupo de Opini\u00e3o P\u00fablica (GOP) do IPES era disseminar seus objetivos na imprensa falada e escrita.<br \/>\nDissimulado, o grupo evitava o nome \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d, preferindo as express\u00f5es \u201cdivulga\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cpromo\u00e7\u00e3o\u201d. O GOP era \u201ca base de toda a engrenagem\u201d. \u201cConquistar a opini\u00e3o p\u00fablica\u201d era a ess\u00eancia da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do grupo.<br \/>\nO principal articulador do GOP o ex-comiss\u00e1rio de Pol\u00edcia, Jos\u00e9 Rubem Fonseca, que se tornou, depois, um dos escritores mais festejados do pais. Outros destaques do GOP no Rio eram os jornalistas Glauco Carneiro e Wilson Figueiredo, este do corpo editorial do Jornal do Brasil. Em S\u00e3o Paulo, o GOP atuava com Geraldo Alonso, dono da Norton Propaganda, e nomes ilustres de O Estado de S.Paulo, como \u00canio Pesce e Fl\u00e1vio Galv\u00e3o. Contava ainda com Jorge Sampaio e Alves de Castro, os dois nomes centrais do \u201cRep\u00f3rter Esso\u201d da TV Tupi, o equivalente ao Jornal Nacional de hoje.<br \/>\nO GOP se valia da tecnologia da \u00e9poca: enviava milhares de cartas e telegramas e fazia chamadas telef\u00f4nicas, antecipando em d\u00e9cadas o advento telemarketing. Em novembro de 1962 chegava a tr\u00eas mil nomes a lista de organiza\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio e TV mobilizadas pelo GOP. Aliado a ele funcionava o GPE, Grupo de Publica\u00e7\u00f5es\/Editorial, que disseminava material impresso pelo pa\u00eds.<br \/>\nEsta campanha de guerra psicol\u00f3gica era tarefa do ex-comiss\u00e1rio e contista Rubem Fonseca, que mobilizava intelectuais respeitados como Augusto Frederico Schmidt, Odylo Costa Filho e Rachel de Queiroz. Atuavam em tr\u00eas frentes: artigos para jornais e revistas, panfletos para circular entre estudantes, militares e oper\u00e1rios, e livros que comparavam a democracia com a empresa privada.<br \/>\nNomes fortes do mercado editorial, como Saraiva, Cia. Editora Nacional e GRD Editora, colaboravam na publica\u00e7\u00e3o da chamada \u201cliteratura democr\u00e1tica\u201d.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Sinal verde<\/span><br \/>\nEm janeiro de 1963 a demanda por recursos era t\u00e3o grande que o comando do IPES decidiu aprovar uma contribui\u00e7\u00e3o anual padr\u00e3o de meio por cento do capital de cada s\u00f3cio. O caixa 2 ou \u201ccontabilidade paralela\u201d da entidade j\u00e1 somava US$ 4 milh\u00f5es. O or\u00e7amento oficial do ano anterior estabelecia despesas mensais de 10 milh\u00f5es de cruzeiros (US$ 300 mil na \u00e9poca) s\u00f3 no IPES carioca. A proje\u00e7\u00e3o do novo ano previa o dobro das despesas, sem contar o gasto com atividades encobertas e sigilosas.<br \/>\nA CPI que investigou a liga\u00e7\u00e3o do IPES com o IBAD apurou que, nas elei\u00e7\u00f5es gerais de outubro de 1962, foram injetados entre 5 bilh\u00f5es e 20 bilh\u00f5es de cruzeiros (em termos atuais, entre 260 milh\u00f5es a 1 bilh\u00e3o de reais) para financiar 250 candidatos. Foram eleitos 110.<br \/>\nO embaixador americano no Brasil Lincoln Gordon, bem mais modesto, disse que o valor investido n\u00e3o superou 5 milh\u00f5es de d\u00f3lares<br \/>\nNo Rio Grande do Sul, a alian\u00e7a de centro-direita da ADP era integrada por PSD, UDN, PL, PDC e PRP. O vitorioso Ildo Meneghetti, um dos oito governadores apoiados pelo esquema, enfatizou que a ind\u00fastria e o com\u00e9rcio locais \u2013 \u201csob a \u00e9gide do IPESUL\u201d \u2013 garantiram o resultado das urnas.<br \/>\nDois dos deputados eleitos pelo IPESUL eram Peracchi Barcellos (PSD) e Euclides Triches (PDC), mais tarde nomeados governadores do Rio Grande, pela ditadura.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-31763 alignleft\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/marcha-da-familia-1964-300x197.jpg\" alt=\"marcha da familia 1964\" width=\"368\" height=\"245\" \/>Quem se habilitava a integrar a lista de \u201cdemocratas convictos e anticomunistas de primeira ordem\u201d passava pelo crivo dos analistas do IPES\/IBAD. Tinha que assinar um \u201cato de compromisso ideol\u00f3gico\u201d, pelo qual prometia lealdade ao IBAD, lutar contra o comunismo e defender o investimento estrangeiro.<br \/>\nO chefe do GAP (Grupo de A\u00e7\u00e3o Parlamentar) do IPES, o banqueiro Jorge Oscar de Mello Flores, avaliava os candidatos pelo coeficiente eleitoral. De in\u00edcio, ele calculava que cada deputado \u201ccustaria\u201d cerca de 6 milh\u00f5es de cruzeiros (cota\u00e7\u00e3o atual: R$ 317 mil) nos Estados menores. \u201cOs candidatos de Rio e S\u00e3o Paulo eram muito mais caros\u201d, explicou Mello Flores, ao avaliar a conta per capita dos deputados no balc\u00e3o do IPES: 15 milh\u00f5es de cruzeiros (cota\u00e7\u00e3o atual: R$ 792 mil).<br \/>\nO or\u00e7amento de um candidato \u201capagado\u201d, isto \u00e9, pouco conhecido e de limitada agressividade eleitoral, inclu\u00eda despesas com equipamento de som, 40 mil cartazes, 600 faixas, fotografias, espa\u00e7o em jornais, mensagens no r\u00e1dio e TV, discos de jingle, gasolina, correspond\u00eancia e pessoal de apoio\u2026<br \/>\nOutras empresas ligadas ao IPES colaboravam com seus servi\u00e7os, como no caso das passagens a\u00e9reas gratuitas liberadas pela Panair, Cruzeiro do Sul e Varig. Uma \u00fanica empresa estrangeira, a Deltec, do americano David Beaty III, s\u00f3cio do IPES, abriu uma \u201ccaixinha\u201d de US$ 7 milh\u00f5es.<br \/>\nO IPES recebeu apoio financeiro de 297 corpora\u00e7\u00f5es americanas. Passavam o chap\u00e9u entre empresas brit\u00e2nicas, suecas, alem\u00e3s.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Rezas e c\u00e2nticos<\/span><br \/>\nNa v\u00e9spera da elei\u00e7\u00e3o de 1962, a Promotion, empresa de Ivan Hasslocher, l\u00edder do IBAD, arrendou o jornal carioca A Noite por 90 dias, ao custo mensal de 2 milh\u00f5es de cruzeiros (cerca de R$ 100 mil no c\u00e2mbio atual) para propaganda direta.<br \/>\nA revista Rep\u00f3rter Sindical tamb\u00e9m era operada pela entidade. O \u00f3rg\u00e3o oficial do IBAD, A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica, circulava mensalmente com 250 mil exemplares e textos de gente como o economista Eug\u00eanio Gudin e o l\u00edder udenista Aliomar Baleeiro.<br \/>\nNo in\u00edcio de 1963, um manifesto de 500 profissionais de prest\u00edgio, organizados pelo Centro Democr\u00e1tico de Engenheiros, ligado ao IPES, foi publicado no Jornal do Brasil e em O Estado de S.Paulo.<br \/>\nManifestos variados, todos \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d, proliferavam na imprensa e eram retransmitidos pela dupla IPES\/IBAD. Eles tinham uma ag\u00eancia de not\u00edcias, a Planalto, que redistribu\u00eda o material a 800 emissoras de r\u00e1dio e jornais do pa\u00eds.<br \/>\nUm milh\u00e3o de c\u00f3pias da \u201cCartilha para o Progresso\u201d, feita pelo IPES, exaltando os benef\u00edcios da Alian\u00e7a para o Progresso do governo americano, foi encartada como suplemento da Fatos&amp;amp;Fotos, revista de grande circula\u00e7\u00e3o da Editora Bloch.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-31754 size-medium alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/DiarioNoticias-1-4-64-216x300.jpg\" alt=\"SONY DSC\" width=\"216\" height=\"300\" \/><br \/>\nO IPES gastou 10 milh\u00f5es de cruzeiros para produzir 15 programas de TV para tr\u00eas canais diferentes. Eram entrevistas de question\u00e1rios preparados pela entidade, com jornalistas de confian\u00e7a e gente selecionada para responder sobre reforma agr\u00e1ria, custo de vida, democracia.<br \/>\nEstavam escaladas neste time algumas personalidades ga\u00fachas como o senador Mem de S\u00e1, os deputados Daniel Faraco, Egydio Michaelsen, Paulo Brossard e Raul Pilla, o prefeito Loureiro da Silva e o arcebispo dom Vicente Scherer.<br \/>\nEm 1962, o IBAD operava diariamente mais de 300 programas de r\u00e1dio no hor\u00e1rio nobre das principais cidades do pa\u00eds. A rede de mais de 100 esta\u00e7\u00f5es ligadas a ele formava a \u201cCadeia da Democracia\u201d, sob o comando do senador Jo\u00e3o Calmon, dos Di\u00e1rios Associados.<br \/>\nO maior produtor de filmes comerciais do pa\u00eds, Jean Manzon, foi contratado pelo IPES para produzir filmes como \u201cQue \u00e9 a democracia\u201d, \u201cDeixem o estudante estudar\u201d, \u201cUma economia estrangulada\u201d, \u201cCriando homens livres\u201d.<br \/>\nEram filmetes de 10 minutos, projetados antes do vibrante faroeste nas matin\u00eas do interior do pa\u00eds, em tr\u00eas mil salas de cinema. As c\u00f3pias ficavam sob guarda de Luiz Severiano Ribeiro, o maior distribuidor e propriet\u00e1rio de salas do Brasil.<br \/>\nQuando a plat\u00e9ia n\u00e3o aparecia, o cinema ia at\u00e9 o p\u00fablico. O IPES montou o projeto do \u201ccinema ambulante\u201d em caminh\u00f5es abertos e \u00f4nibus com chassis especiais, que percorriam favelas, bairros populares e cidades distantes.<br \/>\nEra um mutir\u00e3o democr\u00e1tico: a Mesbla fornecia os projetores, a Mercedes Benz emprestava os caminh\u00f5es e a CAIO montava a carroceria dos \u00f4nibus.<br \/>\nO IPES jogava seu charme tamb\u00e9m sobre as mulheres. Custeava, organizava e orientava politicamente as duas organiza\u00e7\u00f5es femininas mais importantes do pa\u00eds: a CAMDE ( Campanha da Mulher pela Democracia), no Rio de Janeiro, e a UCF (Uni\u00e3o C\u00edvica Feminina, de S\u00e3o Paulo).<br \/>\nO MAF, Movimento de Arregimenta\u00e7\u00e3o Feminina, na capital paulista, tinha 6 mil filiadas em S\u00e3o Paulo e era presidido por Antonieta Pellegrini, irm\u00e3 de J\u00falio de Mesquita Filho, dono de O Estado de S.Paulo e um dos principais patronos do IPES.<br \/>\nCom um ros\u00e1rio nas m\u00e3os e um afiado discurso anticomunista, as donas de casa foram \u00e0 luta para mobilizar as esposas de militares, sindicalistas e funcion\u00e1rios p\u00fablicos. Mais de 50 mil cartas atulharam o correio dos parlamentares no Congresso, em Bras\u00edlia.<br \/>\nA primeira reuni\u00e3o da Camde no Rio realizou-se no audit\u00f3rio de O Globo, que garantia espa\u00e7o no jornal e na r\u00e1dio para a agita\u00e7\u00e3o das mulheres.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-31760 alignleft\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Jornal-do-Dia-1-4-64-2o-clich\u00ea-300x227.jpg\" alt=\"SONY DSC\" width=\"256\" height=\"190\" \/><br \/>\nEm janeiro de 1964, ao saber de um iminente congresso da CUT da Am\u00e9rica Latina em Belo Horizonte, a LIMDE ( Liga da Mulher Democrata) amea\u00e7ou invadir o aeroporto da Pampulha e deitar as militantes na pista para impedir a reuni\u00e3o subversiva. O encontro foi transferido para Bras\u00edlia.<br \/>\nEm fevereiro, quando Leonel Brizola passou por l\u00e1 para defender as reformas, o audit\u00f3rio da Secretaria da Sa\u00fade na capital mineira foi invadido por um pelot\u00e3o de mulheres, com o ter\u00e7o nas m\u00e3os, gritando slogans contra o belzebu vermelho. Brizola teve que se calar, diante do tumulto e dos objetos voando pelo sal\u00e3o, num epis\u00f3dio conhecido como a \u201cNoite das Cadeiradas\u201d.<br \/>\nNo com\u00edcio da Central do Brasil no Rio de Janeiro, em 13 de mar\u00e7o, duas semanas antes do golpe, Jango mirou nas mulheres: \u201cN\u00e3o podem ser levantados os ros\u00e1rios da f\u00e9 contra o povo, que tem f\u00e9 numa justi\u00e7a social mais humana e na dignidade das suas esperan\u00e7as\u201d.<br \/>\nO IPES interpretou o ato como uma bofetada nas mulheres e em Nossa Senhora. Uma semana depois, 19 de mar\u00e7o, a UCF paulista reagiu no dia de S\u00e3o Jos\u00e9, santo protetor da fam\u00edlia, com uma marcha na Pra\u00e7a da S\u00e9 com cerca de 500 mil pessoas, uma multid\u00e3o cinco vezes maior do que o com\u00edcio da Central.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-31762\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Jornal-do-Dia-2-4-64-219x300.jpg\" alt=\"SONY DSC\" width=\"265\" height=\"344\" \/><br \/>\nEram puxadas pela reza fervorosa do padre americano Patrick Peyton, financiado pelo IPES, e bradavam sua graciosa palavra de ordem: \u201cVermelho bom, s\u00f3 batom\u201d.<br \/>\nO sucesso da \u201cMarcha da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade\u201d, que originalmente deveria se chamar \u201cDesagravo ao Santo Ros\u00e1rio\u201d, inflamou o movimento.<br \/>\nMarcaram outra, maior ainda, para o Rio de Janeiro em 2 de abril. Mas o general Olympio Mour\u00e3o Filho sacou primeiro em Juiz de Fora, 48 horas antes da marcha do Rio. E o ato de protesto virou a \u201cMarcha da Vit\u00f3ria\u201d: quase um milh\u00e3o de pessoas, lideradas pelo Camde e pelo IPES.<br \/>\nNa medida em que avan\u00e7ava a conspira\u00e7\u00e3o, crescia a presen\u00e7a militar sobre a base parlamentar. Era hora de sair do discurso para a pr\u00e1tica.<br \/>\nO IBAD cede seu lugar de destaque para outra sigla \u2013 a ESG, da Escola Superior de Guerra, de onde provinha o n\u00facleo fardado do golpe.<br \/>\nO novo complexo IPES\/ESG alinhava 330 oficiais, de majores a generais de Ex\u00e9rcito, fazendo a liga\u00e7\u00e3o do mundo empresarial com os quart\u00e9is.<br \/>\n<figure id=\"attachment_31749\" aria-describedby=\"caption-attachment-31749\" style=\"width: 459px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-31749\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/2014-03-24-15.01.18-300x162.jpg\" alt=\"2014-03-24 15.01.18\" width=\"459\" height=\"256\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-31749\" class=\"wp-caption-text\">A classe m\u00e9dia doutrinada sai \u00e0s ruas para comemorar o fim da baderna<\/figcaption><\/figure><br \/>\nNo Rio Grande do Sul, foco principal da resist\u00eancia de Brizola na \u201cCampanha da Legalidade\u201d, dois ter\u00e7os da oficialidade j\u00e1 estavam engajados na conspira\u00e7\u00e3o. O deputado Peracchi Barcelos (PSD), coronel da Brigada Militar, eleito pela lista do IPESUL, tratava de sublevar a for\u00e7a p\u00fablica do Estado.<br \/>\nO general da reserva Armando Cattani organizava grandes fazendeiros no interior em unidades paramilitares que seriam acionadas na hora precisa.<br \/>\nNa dura express\u00e3o de Ren\u00e9 Dreifuss, \u201co IPES conseguiu estabelecer um sincronizado assalto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica\u201d pela rela\u00e7\u00e3o especial com os principais ve\u00edculos da m\u00eddia nacional.<br \/>\nCom exce\u00e7\u00e3o da \u00daltima Hora de Samuel Wainer, fiel at\u00e9 o fim a Jango e ao PTB que financiou seu jornal, todos os grandes ve\u00edculos foram ostensivamente partid\u00e1rios do golpe, antes e depois. Pelo menos at\u00e9 a ruptura violenta do AI-5, que transformou velhos companheiros da conspira\u00e7\u00e3o em v\u00edtimas da trucul\u00eancia da ditadura.<br \/>\nNo Rio Grande do Sul, o alinhamento dos jornais com a conspira\u00e7\u00e3o e com o regime militar era natural. O Di\u00e1rio de Not\u00edcias, de Chateaubriand, tinha orienta\u00e7\u00e3o do dono para bater no governo e apoiar a oposi\u00e7\u00e3o empresarial e militar. Zero Hora j\u00e1 nasceu depurada e lavada ideologicamente em 4 de maio de 1964, um m\u00eas e quatro dias depois do levantamento militar do general Olympio Mour\u00e3o.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Nota discreta<\/span><br \/>\nNos idos de 1962, o l\u00edder do IPES carioca Jos\u00e9 Luiz Moreira de Souza, dono da Denison Propaganda, viajou a Porto Alegre para botar a Caldas J\u00fanior (Correio do Povo, Folha da Tarde e R\u00e1dio Guaiba) no balaio da conspira\u00e7\u00e3o.<br \/>\nGanhou as gra\u00e7as de Arlindo Pasqualini, irm\u00e3o de Alberto, ide\u00f3logo do trabalhismo que o IPES combatia. Arlindo, diretor da Folha da Tarde e o sucessor natural do dono da empresa, Breno Caldas, recebeu a miss\u00e3o de produzir uma s\u00e9rie de artigos contra Leonel Brizola.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-31752 alignleft\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/CP-2-4-64-manchete-300x197.jpg\" alt=\"SONY DSC\" width=\"300\" height=\"197\" \/><br \/>\nNo editorial da primeira edi\u00e7\u00e3o do jornal, no long\u00ednquo ano de 1895, Caldas Jr. tinha definido um lema e uma linha para o jornal que se tornaria centen\u00e1rio: \u201cIndependente, nobre e forte \u2013 procurar\u00e1 sempre s\u00ea-lo o Correio do Povo, que n\u00e3o \u00e9 \u00f3rg\u00e3o de nenhuma fac\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, que n\u00e3o se escraviza a cogita\u00e7\u00f5es de ordem subalterna.\u201d<br \/>\nNos primeiros editoriais ap\u00f3s o golpe de 1964, o jornal abandonou sua hist\u00f3rica divisa, aderiu \u00e0 fac\u00e7\u00e3o vitoriosa e adotou uma postura subalterna \u00e0 nova ordem militar.<br \/>\nE escancarou seu apoio em editoriais did\u00e1ticos para explicar por que os revolucion\u00e1rios de 31 de mar\u00e7o estavam certos: \u201cAquele era o \u00fanico caminho para salvar o Brasil\u201d, dizia o jornal, fazendo coro com a grande imprensa golpista do centro do pa\u00eds.<br \/>\n<i>* Resumo do ensaio \u201cM\u00e1ximas e M\u00ednimas: os ventos errantes da m\u00eddia na tormenta de 1964\u201d. <\/i><\/p>\n<div style=\"width: 100%;min-width: 250px;float: none;margin: 0px 0 10px 0px;background-color: #f8ae3f\">\n<h3 style=\"line-height: 1.3em;text-align: left;padding: 15px\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-31589 alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/KIT-ANTIDITADURA-Semana-combate-ao-ditavirus_255x300px_PROMO-255x300.jpg\" alt=\"KIT ANTIDITADURA-Semana combate ao ditavirus_255x300px_PROMO\" width=\"186\" height=\"247\" \/>Adquira o kit antiditadura<\/h3>\n<p style=\"padding: 0 15px\">O texto que voc\u00ea acabou de ler foi retirado da primeira edi\u00e7\u00e3o, de um total de tr\u00eas, do kit antiditadura.<\/p>\n<p style=\"padding: 0 15px 15px 15px\">Acesse nossa <a href=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/kit\">pagina promocional<\/a> e adquira atrav\u00e9s de cart\u00e3o ou boleto banc\u00e1rio. Voc\u00ea recebe em casa com frete gr\u00e1tis.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1964: Imprensa encobriu a conspira\u00e7\u00e3o e deu apoio total ao golpe Luiz Cl\u00e1udio Cunha* Nas origens da conspira\u00e7\u00e3o que levou ao golpe de 1964, est\u00e1 a digital da m\u00eddia que ajudou, por atos, fatos e vers\u00f5es, na cria\u00e7\u00e3o do clima pol\u00edtico que lan\u00e7ou o pa\u00eds num abismo autorit\u00e1rio de 21 anos. 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