{"id":32199,"date":"2016-04-25T17:00:59","date_gmt":"2016-04-25T20:00:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=32199"},"modified":"2016-04-25T17:00:59","modified_gmt":"2016-04-25T20:00:59","slug":"32199-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/32199-2\/","title":{"rendered":"Salim Miguel: uma obra feita nas horas vagas"},"content":{"rendered":"<p>Aos 92 anos, morreu na sexta, 22, Salim Miguel, escritor catarinense com mais de 30 livros publicados.<br \/>\nAfetado por uma doen\u00e7a ocular, em seus \u00faltimos anos de vida lia com dificuldades, mas desfrutava de leituras feitas por sua companheira, Egl\u00ea Malheiros, m\u00e3e de seus cinco filhos.<br \/>\nO texto abaixo foi escrito em 2011 por Geraldo Hasse, que atendeu assim ao pedido do editor de um livro organizado em Florian\u00f3polis sobre o autor de Nur, bel\u00edssimo livro de mem\u00f3rias.<br \/>\n<span class=\"assina\">\u201cMEU TIO LIBANOCATARINA\u201d<\/span><br \/>\n<em>&#8220;Me interessei por Salim Miguel em 2000, quando fui morar em Florian\u00f3polis e comecei a me aprofundar na hist\u00f3ria da ilha e seu entorno. No meio s\u00e9culo anterior eu tinha lido en passant sobre o escritor, mas n\u00e3o havia registrado as informa\u00e7\u00f5es na mem\u00f3ria.<\/em><br \/>\n<em>Lendo aqui e ali, descobri que Salim tinha uma biografia interessant\u00edssima, a come\u00e7ar pela migra\u00e7\u00e3o, em crian\u00e7a, do L\u00edbano; a morada na pequena Bigua\u00e7u, um vilarejo de beira-rio, perto do mar; a ida para a capital do estado; a pris\u00e3o em 1964; a migra\u00e7\u00e3o para o Rio; e a volta para a quer\u00eancia, que \u00e9 como os sulistas brasileiros, particularmente os ga\u00fachos, chamam a terra natal.<\/em><br \/>\n<em>Em 1999, havia sido lan\u00e7ado Nur na Escurid\u00e3o, seu livro premiado pela Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Cr\u00edticos de Arte como o melhor romance do ano. <\/em><br \/>\n<em>Comprei um exemplar e ca\u00ed na leitura. Era um saboroso livro de mem\u00f3rias devorado em poucos dias.<\/em><br \/>\n<em>O passo seguinte foi conhecer pessoalmente o escritor, entrevist\u00e1-lo. Descobri um ser humano de primeira qualidade. Humilde, ir\u00f4nico, sem afeta\u00e7\u00e3o. Af\u00e1vel, bom de papo. <\/em><br \/>\n<em>Como na escrita, sua fala guardava ainda um \u00faltimo resqu\u00edcio de sotaque liban\u00eas: aquela ligeira trava que sinaliza a hesita\u00e7\u00e3o diante da palavra estrangeira.<\/em><br \/>\n<em>A visita durou duas horas. Sa\u00ed do apartamento dele e de Egl\u00ea, sua mulher, com dois ou tr\u00eas livros doados pelo pr\u00f3prio. Num sebo, dias depois, encontrei outros livros dele. <\/em><br \/>\n<em>Escrevi ent\u00e3o um perfil de Salim Miguel para o caderno de fim-de-semana do di\u00e1rio Gazeta Mercantil. Foi publicado no caderno de 20, 21 e 22 de abril de 2001. Mat\u00e9ria longa, ocupou 2\/3 de p\u00e1gina standard de jornal. <\/em><br \/>\n<em>T\u00edtulo: &#8220;Mascate da Mem\u00f3ria Familiar&#8221;. Ele gostou. Desde ent\u00e3o nos falamos algumas vezes. Aos poucos fui descobrindo o quanto Salim Miguel \u00e9 conhecido, querido e admirado. <\/em><br \/>\n&lt;em&gt;Ele cultiva amigos em todo o Brasil, desde Porto Alegre at\u00e9 Jo\u00e3o Pessoa, na Para\u00edba, onde se mant\u00e9m h\u00e1 mais de 50 anos como colaborador do suplemento liter\u00e1rio do maior jornal local \u2013 colaborador n\u00e3o remunerado!<br \/>\n<em>Morando no Rio Grande do Sul desde 2005, n\u00e3o perdi o contato com \u201cmeu tio libanocatarina\u201d. <\/em><br \/>\n<em>Em 2008, escrevendo um livro sobre a hist\u00f3ria da navega\u00e7\u00e3o no Rio Grande do Sul, dei-me conta de que cabia incluir um cap\u00edtulo sobre as balsas de toras que outrora desciam o rio Uruguai, nas enchentes. <\/em><br \/>\n<em>Lembrei-me ent\u00e3o do conto Ponto de Balsa, no qual Salim Miguel narra a aventura de dois ou tr\u00eas balseiros que se metem na correnteza, pilotando uma jangada-monstro, desde Chapec\u00f3 at\u00e9 Uruguaiana, centenas de quil\u00f4metros de uma aventura \u00fanica. <\/em><br \/>\n<em>Esse conto \u00e9 a vers\u00e3o liter\u00e1ria de uma reportagem feita por Salim Miguel quando se iniciava no jornalismo. Sinal de que toda viv\u00eancia, por mais antiga que seja, pode ser transformada em fic\u00e7\u00e3o. \u00a0<\/em><br \/>\n<em><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-32200 alignleft\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/salim-miguel.jpg\" alt=\"salim miguel\" width=\"129\" height=\"191\" \/>Em agosto de 2011, Tio Salim me enviou seu \u00faltimo livro, Reinven\u00e7\u00e3o da Inf\u00e2ncia, mais um volume de mem\u00f3rias cal\u00e7ado nas lembran\u00e7as mais remotas de um guri vindo do Oriente. <\/em><br \/>\n<em>Desigual, mas com trechos deliciosos, como as 10 p\u00e1ginas do cap\u00edtulo 23 \u2013 Li\u00e7\u00e3o Dois, em que o rapazote relata uma noite maldormida numa pens\u00e3o fuleira da capital, onde perdera o \u00faltimo \u00f4nibus para sua pequena Bigua\u00e7u.<\/em><br \/>\n<em>Tenho comigo uma dezena de livros de Salim Miguel e acredito que conhe\u00e7o o essencial da sua obra, mas n\u00e3o o suficiente para fazer uma an\u00e1lise comparativa. <\/em><br \/>\n<em>Como muitos e muitos escritores, ele come\u00e7ou como jornalista, dividiu-se entre empregos privados e p\u00fablicos, foi livreiro, meteu-se no cinema e encerrou sua carreira profissional como chefe na editora da universidade federal de seu estado.<\/em><br \/>\n<em>Sua carreira liter\u00e1ria, mais de 30 livros, foi constru\u00edda nas horas vagas, com a ajuda e solidariedade de sua companheira Egl\u00ea Malheiros, m\u00e3e de seus cinco filhos. \u201cNunca ganhei nada com meus livros\u201d, disse-me o autor, na entrevista de 2001. <\/em><br \/>\n<em>Dez anos depois, pode-se dizer que ele ganhou, sim, fama, sem falar do cheque recebido h\u00e1 alguns anos em Passo Fundo, onde foi aplaudido como um dos mais antigos e fieis militantes das letras do Brasil&#8221;. \u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 92 anos, morreu na sexta, 22, Salim Miguel, escritor catarinense com mais de 30 livros publicados. 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