{"id":329,"date":"2007-11-20T12:58:35","date_gmt":"2007-11-20T15:58:35","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=329"},"modified":"2007-11-20T12:58:35","modified_gmt":"2007-11-20T15:58:35","slug":"uma-mulher-no-front","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/uma-mulher-no-front\/","title":{"rendered":"Uma mulher no front"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Naira Hofmeister <\/span><br \/>\nFoi uma coletiva de imprensa muito concorrida. Jornalistas de diversos ve\u00edculos entrevistaram a colega \u00c5sne Seierstad, autora de best-sellers como <em>O Livreiro de Cabul<\/em> e 101 dias em Bagd\u00e1. A conversa aconteceu no anexo do Sal\u00e3o de Atos da UFRGS, antes de sua confer\u00eancia no Fronteiras do Pensamento, e durou pouco mais de uma hora. A seguir, os principais momentos da entrevista:<br \/>\n<span class=\"entreperg\">No caso de <em>O Livreiro de Cabul<\/em>, a conviv\u00eancia com a fam\u00edlia n\u00e3o atrapalha a an\u00e1lise do objeto da sua reportagem? <\/span><br \/>\nA conviv\u00eancia \u00e9 o pr\u00f3prio livro, ele consiste nisso. N\u00e3o importa se \u00e9 um jornalista ou um escritor, um texto sempre ser\u00e1 resultado de uma determinada experi\u00eancia. Claro que o ideal, no sentido de objetividade, \u00e9 que fic\u00e1ssemos invis\u00edveis, ou que fossemos c\u00e2meras na parede, mas isso \u00e9 imposs\u00edvel.<br \/>\nPor outro lado, a oportunidade de gastar tempo com um assunto espec\u00edfico me parece essencial. Porque uma pessoa pode fazer de conta por uma hora, duas. Pode fazer de conta at\u00e9 por uma semana. Mas com o tempo, o verdadeiro car\u00e1ter acaba aparecendo.<br \/>\nMas durante a minha perman\u00eancia no Afeganist\u00e3o, houve momentos em que eu me tornava invis\u00edvel, pois estava de burca. Essa vestimenta me permitiu viv\u00eancias que eu jamais teria como ocidental e principalmente como jornalista. Um exemplo disso foi uma vez que acompanhei uma jovem numa entrevista de emprego. Ela queria ser professora, e a acompanhei na escola, vestida como um afeg\u00e3. Se eu fosse &#8220;como eu mesma&#8221;, certamente teriam me oferecido caf\u00e9, teriam sido muito gentis. N\u00e3o foi o que aconteceu.<br \/>\nTamb\u00e9m experimentei a sensa\u00e7\u00e3o das mulheres que s\u00e3o obrigadas a viajar no bagageiro dos t\u00e1xis, se houver um homem no banco. Se eu estivesse vestida como ocidental, certamente o t\u00e1xi n\u00e3o teria parado ou o homem desembarcaria para me dar lugar.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Que mensagem voc\u00ea destinaria \u00e0s pessoas dessa fam\u00edlia afeg\u00e3? <\/span><br \/>\nMinha estadia na casa deles foi resultado de coincid\u00eancias. O personagem central, o<br \/>\nlivreiro, falava muito bem ingl\u00eas e tinha um certo traquejo social. Convidou-me para jantar em sua casa e descobri que ali havia um livro. Uma mensagem para a fam\u00edlia inteira \u00e9 algo dif\u00edcil de pensar, pois era completamente desfuncional. N\u00e3o havia uma unidade familiar, cada um possu\u00eda um projeto de vida diferente.<br \/>\nEu ainda mantenho contato com algumas dessas pessoas, principalmente com Leila, que na \u00e9poca era uma mo\u00e7a e hoje leva uma vida de uma senhora afeg\u00e3 casada, absolutamente normal. N\u00e3o \u00e9 muito pr\u00f3spera, mas eu tento ajud\u00e1-la como posso.<br \/>\nJ\u00e1 com o livreiro&#8230; bem voc\u00eas devem saber. Nosso conflito dura quatro anos. Eu<br \/>\nacredito que sua raiva pelo livro \u00e9 proveniente da diferen\u00e7a de expectativas quanto ao que deveria ser publicado ou o que \u00e9 um livro. Eu sinceramente acreditava que ele iria ler o texto cuidadosamente e, ap\u00f3s uma reflex\u00e3o, entenderia minhas concep\u00e7\u00f5es. Mas ele tentou tirar o livro de circula\u00e7\u00e3o e inclusive prop\u00f4s um encontro para que reescrev\u00eassemos o livro.<br \/>\nMas de fato ele nunca foi concreto ao dizer no que exatamente o livro est\u00e1 errado. Ainda assim, ele esteve na Noruega, jantamos juntos e conversamos sobre amenidades em um a ocasi\u00e3o. Mas imagino que ele n\u00e3o quer que esse conflito termine, pois muitas solu\u00e7\u00f5es foram propostas.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Por que ele n\u00e3o quer o fim da briga? <\/span><br \/>\nFalei sobre as nossas diferen\u00e7as de expectativas: ele imaginava que seria representado no livro como um anjo afeg\u00e3o. Que o livro fosse um conto de fadas. Mesmo porque, essa era a literatura a que estava habituado: hist\u00f3rias her\u00f3icas de reis afeg\u00e3os. Apesar de ser um homem da elite, propriet\u00e1rio de uma livraria, seu contato \u00fanico era com a produ\u00e7\u00e3o local. Ele n\u00e3o conhecia sequer os cl\u00e1ssicos do s\u00e9culo XVII e XIX.<br \/>\nPor exemplo, ele aprovou que suas mulheres contassem as pr\u00f3prias hist\u00f3rias. Mas n\u00e3o imaginava que elas fossem t\u00e3o francas. Na verdade, o grande problema \u00e9 que ele desejava ser um her\u00f3i para o oeste, falando de democracia no Afeganist\u00e3o e, ao mesmo tempo, um her\u00f3i local, que adere aos valores tradicionais de controle e repress\u00e3o social. E isso \u00e9 imposs\u00edvel.<br \/>\nMuitas mulheres afeg\u00e3s que vivem na Europa e leram o livro me agradeceram por t\u00ea-lo escrito. Mas falaram que tive uma abordagem muito superficial, que havia muitas outras coisas a falar. Que as coisas que relato, s\u00e3o de fato algo comum no pa\u00eds. De toda a forma, o personagem Livreiro de Cabul tem seus m\u00e9ritos. Era um homem interessado na difus\u00e3o cultural. E tamb\u00e9m n\u00e3o era uma pessoa violenta.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Voc\u00ea leu livro que ele escreveu? O que achou? <\/span><br \/>\n\u00c9 um livro muito pequeno, por isso li rapidamente. Tem letras grandes e bordas<br \/>\nlargas e realmente pouco texto. Ele havia me adiantado o conte\u00fado durante um jantar em minha casa, na Noruega. Mas me chamou muito a aten\u00e7\u00e3o a maneira com que ele aborda a hist\u00f3ria. Ele narra que est\u00e1 sentado no hall de um hotel em Karachi e pela janela entram dois trolls, que s\u00e3o figuras mitol\u00f3gicas das montanhas da Noruega.<br \/>\nEsses personagens n\u00e3o t\u00eam um car\u00e1ter definido, s\u00e3o bons e maus ao mesmo tempo. No livro eles s\u00e3o enviados pelo rei dos trolls para descobrir a verdade dos fatos. E dizem a ele que querem fazer-lhe perguntas, evidentemente aquelas que ele gostaria de responder. Sua promessa \u00e9 provar que n\u00e3o sou culpada, mas que quando fui \u00e0 sua casa, levei alguns trolls na minha mochila, que fizeram que eu escrevesse aquilo.<br \/>\nMas ele me retrata como culpada. E ainda nega alguns detalhes, como o fato de seus<br \/>\nfilhos n\u00e3o irem \u00e0 escola. No seu livro, ele argumenta que as escolas estavam fechadas naquele ano, mas isso n\u00e3o \u00e9 verdade, pois havia um sobrinho dele que<br \/>\nfreq\u00fcentava aulas regularmente. Ainda assim, acho uma maneira democr\u00e1tica de<br \/>\nresolver os problemas. Eu escrevi meu livro e ele o dele. Se todos os conflitos do<br \/>\nmundo se solucionassem dessa maneira, seria excelente, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Qual a cobertura jornal\u00edstica mais dif\u00edcil que voc\u00ea fez? <\/span><br \/>\nDif\u00edcil responder. H\u00e1 muitas dificuldades quando se est\u00e1 numa guerra. Mas certamente uma das tarefas mais complicadas foi descobrir a verdade por tr\u00e1s das frases feitas com que os iraquianos respondiam as minhas perguntas sobre o regime de Saddam Hussein. Como o jornal para o qual eu trabalhava me exigia uma reportagem di\u00e1ria, era muito complexo.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Como \u00e9 seu dia-a dia fora das guerras, seu trabalho? <\/span><br \/>\nN\u00e3o trabalho quando n\u00e3o h\u00e1 conflitos&#8230;. (risos). De toda a maneira, sempre fui uma jornalista independente, free lancer a maior parte do tempo. Nunca tive a pretens\u00e3o de me tornar uma rep\u00f3rter, meu interesse era ser pesquisadora. Por isso minhas reportagens s\u00e3o repletas de personagens e sentimentos. Durante um ano, trabalhei numa rede de televis\u00e3o e fui uma jornalista med\u00edocre.<br \/>\nMas um dia, me enviaram para a guerra de Kosovo e ent\u00e3o descobri que era o que eu gostaria de fazer: buscar hist\u00f3rias interessantes. N\u00e3o por ser uma guerra, mas porque era um momento decisivo para a humanidade, algo que iria mudar o mundo. Me interesso pelos destinos das pessoas.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Como voc\u00ea v\u00ea a situa\u00e7\u00e3o das mulheres atualmente, no mundo e no Brasil? <\/span><br \/>\nNa Noruega vivemos numa democracia ocidental e h\u00e1 uma fam\u00edlia real que cumpre fun\u00e7\u00f5es protocolares, como receber chefes de Estado. H\u00e1 algum tempo, a princesa norueguesa concedeu uma entrevista para uma rep\u00f3rter sueca. E disse que na Noruega os homens e as mulheres s\u00e3o iguais, e inclusive recebiam o mesmo sal\u00e1rio. Isso gerou muitos protestos, porque mesmo no meu pa\u00eds, as mulheres ainda recebem 80% do vencimento dos homens.<br \/>\nN\u00e3o posso falar sobre a realidade brasileira, porque desconhe\u00e7o. Por exemplo, se uma fam\u00edlia pode colocar apenas um dos filhos numa universidade, vai escolher o homem. De toda a maneira, a imagem que temos de voc\u00eas \u00e9 um pouco clich\u00ea, ma s\u00e9 positiva: mulheres que sambam e s\u00e3o lindas.<br \/>\nOs direitos humanos est\u00e3o acima da cultura. Uma pancada n\u00e3o d\u00f3i menos numa afeg\u00e3, porque l\u00e1 isso \u00e9 mais comum do que no Brasil ou na Europa. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 porque sua origem \u00e9 oriental que n\u00e3o tem o direito de estudar. H\u00e1 muitas africanas exiladas na Noruega e suas fam\u00edlias as mandam &#8211; quando atingem oito ou nove anos de idade &#8211; de &#8220;f\u00e9rias&#8221; para suas cidades natal, onde s\u00e3o submetidas \u00e0 clitoridectomia, que \u00e9 a mutila\u00e7\u00e3o do clit\u00f3ris. Agora h\u00e1 uma lei que permite prender ou processar essas fam\u00edlias, por exemplo.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">A m\u00eddia n\u00e3o estaria auxiliando no fortalecimento dessa vis\u00e3o manique\u00edsta das culturas: o oriente \u00e9 mau e atrasado e o ocidente \u00e9 democr\u00e1tico e desenvolvido? <\/span><br \/>\nN\u00e3o podemos impor uma solu\u00e7\u00e3o nesses pa\u00edses, eles mesmos t\u00eam que querer mudar. Por isso, uma parte da renda de <em>O Livreiro de Cabul<\/em> est\u00e1 destinada a educar as meninas afeg\u00e3s. Montei uma escola para meninas em Cabul, onde elas aprendem a ler e escrever. Est\u00e1 no terceiro ano de opera\u00e7\u00e3o e l\u00e1 estudam 600 meninas. Meu sonho \u00e9 que um dia possam narrar suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias.<br \/>\nO estigma \u00e9 um problema, com certeza, em ambos os lados e certamente a m\u00eddia o refor\u00e7a. Surpreendi-me quando fui ao Egito e fui muito bem recebida, muito bem tratada. Isso que sou razoavelmente bem informada. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 revistas l\u00e1 no Oriente que demonizam o Ocidente, por causa das drogas e da desintegra\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. \u00c9 por isso que precisamos de livros, para aprofundarmos os assuntos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naira Hofmeister Foi uma coletiva de imprensa muito concorrida. Jornalistas de diversos ve\u00edculos entrevistaram a colega \u00c5sne Seierstad, autora de best-sellers como O Livreiro de Cabul e 101 dias em Bagd\u00e1. 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