{"id":33221,"date":"2016-05-21T07:10:41","date_gmt":"2016-05-21T10:10:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=33221"},"modified":"2016-05-21T07:10:41","modified_gmt":"2016-05-21T10:10:41","slug":"relato-do-front-venceu-o-bom-senso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/relato-do-front-venceu-o-bom-senso\/","title":{"rendered":"Relato do front: venceu o bom senso"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"intertit assina\">Andres Vince<\/span><br \/>\nO final da manifesta\u00e7\u00e3o da noite de quinta-feira (19\/5) foi tenso. Por\u00e9m, n\u00e3o me resta outra alternativa a n\u00e3o ser elogiar a atitude do tenente-coronel M\u00e1rio Ikeda, comandante do Comando de Policiamento da Capital. A decis\u00e3o de n\u00e3o atacar os manifestantes, como ocorreu na semana passada, e evitar uma confronto de consequ\u00eancias imprevis\u00edveis, demonstrou equil\u00edbrio e bom senso.<br \/>\nClaro que n\u00e3o houve troca afetuosa de gentilezas e abra\u00e7os carinhosos. A \u201cnegocia\u00e7\u00e3o\u201d come\u00e7ou no bom e velho estilo militar: \u201cvoc\u00eas tem 20 minutos, depois agiremos\u201d foi o resumo da mensagem enviada pelo oficial Ikeda, atrav\u00e9s daqueles que se apresentaram a ele como lideran\u00e7as do movimento.<br \/>\nA atitude do tenente surtiu efeito. A lideran\u00e7a que \u201cnegociou\u201d foi questionada e os manifestantes se dividiram. Alguns obedeceram a \u201corienta\u00e7\u00e3o\u201d e se deslocaram para o Largo do Zumbi, enquanto outros permaneceram na avenida Perimetral. Uma terceira parcela\u00a0decidiu n\u00e3o arriscar e foi embora. Ponto para o comandante, afinal de contas, a estrat\u00e9gia militar se desenvolveu por mil\u00eanios, n\u00e3o haveria de falhar logo agora. A intimida\u00e7\u00e3o verbal, para alguns, ainda funciona.<br \/>\n\u00c0s 21 horas, esgotou-se o prazo dado pelo tenente-coronel e os jornalistas posicionaram-se para conseguir o \u00e2ngulo mais seguro da batalha que se desenhava na avenida.<br \/>\nO tempo foi passando e o clima de tens\u00e3o aumentando. Quem ficou na avenida dava demonstra\u00e7\u00f5es que haveria resist\u00eancia e gritava bord\u00f5es de protesto. Algu\u00e9m explodiu um roj\u00e3o. Pequeno corre-corre. Mais tens\u00e3o, mais adrenalina.<br \/>\nPassados 15 minutos, uma nova tentativa de negocia\u00e7\u00e3o foi feita, desta vez pelas advogadas das meninas presas na semana anterior. Sem sucesso, o recado era o mesmo: \u201csaiam ou vamos agir\u201d.<br \/>\n<figure id=\"attachment_33152\" aria-describedby=\"caption-attachment-33152\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-33152\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/20160519_Fora-Temer_por_Ramiro-Furquim_OAF8611_0017-300x199.jpg\" alt=\" | Ramiro Furquim\/Jornal J\u00e1\" width=\"300\" height=\"199\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-33152\" class=\"wp-caption-text\">| Ramiro Furquim\/Jornal J\u00c1<\/figcaption><\/figure><br \/>\nOs manifestantes que se mantinham na avenida cobriram os rostos, preparando-se para o g\u00e1s lacrimog\u00eanio que parecia a caminho de\u00a0confirmar presen\u00e7a no evento. Cada um se protegeu e se preparou para resistir do jeito que conseguiu. Algumas pedras surgiram para municiar a resist\u00eancia.\u00a0Provoca\u00e7\u00f5es aos oficiais e alguns \u00e2nimos mais exaltados deixaram o clima mais\u00a0pesado. Uma linha de vanguarda foi formada por alguns manifestantes e avan\u00e7ou para mais pr\u00f3ximo da posi\u00e7\u00e3o dos oficiais. Tudo levava a crer que a noite n\u00e3o iria acabar bem.<br \/>\nPor\u00e9m, os minutos foram passando, uma falsa calma tomou conta do\u00a0ar e temperatura baixa\u00a0da noite parecia ter congelado os \u00e2nimos de ambos os lados. O comando da opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o se movia, o que a principio, parecia ser um bom sinal. Assim, por volta das 22 horas, o protesto estava naturalmente disperso, ningu\u00e9m foi preso, nem agredido, direitos n\u00e3o foram violados, bombas de g\u00e1s n\u00e3o explodiram, balas de borracha n\u00e3o foram disparadas, processos por abuso de poder n\u00e3o ser\u00e3o abertos, futuros precat\u00f3rios n\u00e3o ser\u00e3o gerados contra\u00a0o Estado, e, na melhor das hip\u00f3teses, a imagem da BM n\u00e3o sofre um novo arranh\u00e3o ao ser usada como instrumento de manobra pol\u00edtica, como j\u00e1 ocorreu com governos de todas as matizes.<br \/>\nNo entanto, o fato do comandante Ikeda ter exercitado a paci\u00eancia, virtude que parece ter sido concedida\u00a0pela sua descend\u00eancia oriental, e dessa forma ter evitado que as cenas que ele mesmo promoveu na semana anterior se repetissem, n\u00e3o muda o fato de que uma via trancada \u00e9 um problema de tr\u00e2nsito e n\u00e3o um caso de pol\u00edcia.<br \/>\nA Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 clara quanto ao papel das policiais militares: \u201c\u00c0s pol\u00edcias militares cabem a pol\u00edcia ostensiva e a preserva\u00e7\u00e3o da ordem p\u00fablica\u201d (art. 144, IV, p. 5\u00ba).<br \/>\nN\u00e3o havia desordem em nenhuma das manifesta\u00e7\u00f5es, portanto n\u00e3o havia motivos para a a\u00e7\u00e3o da BM, nem da cavalaria e, muito menos, de agentes infiltrados\u00a0de um setor da BM de\u00a0duvidosa\u00a0legalidade, como demonstra o citado par\u00e1grafo da Constitui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA desculpa usada para \u201cseguir o protocolo\u201d e liberar o uso da for\u00e7a se encaixa muito bem em uma via rural, mais conhecida como estrada, onde o motorista simplesmente n\u00e3o tem alternativa de desvio. Outra coisa, bem diferente, \u00e9 uma via urbana, onde um simples desvio no tr\u00e2nsito resolve o incomodo. A insatisfa\u00e7\u00e3o de uma\u00a0minoria de motoristas n\u00e3o pode se sobrepor ao direito de manifesta\u00e7\u00e3o de uma maioria. Seria a invers\u00e3o da l\u00f3gica democr\u00e1tica, onde a vontade da maioria deve prevalecer sempre. N\u00e3o existe na Constitui\u00e7\u00e3o o &#8220;sagrado&#8221; direito de ir e vir dos ve\u00edculos, esse direito \u00e9 inerente ao cidad\u00e3o.<br \/>\nSe seguirmos a l\u00f3gica \u201ctrancou a via, chama a BM\u201d, o que vai ser feito quando um cano estourar e impedir a passagem dos carros? Passar com a cavalaria por cima do buraco e jogar umas bombas de g\u00e1s pra ver se o tr\u00e2nsito volta a fluir? Parece deboche, mas, viram como n\u00e3o h\u00e1 l\u00f3gica? A l\u00f3gica \u00e9: chama a EPTC e desvia o tr\u00e2nsito, at\u00e9 removerem o buraco, se poss\u00edvel, sem viol\u00eancia. Mas, e o fato do buraco n\u00e3o ser um movimento espont\u00e2neo? Bom, a\u00ed o problema \u00e9 do buraco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andres Vince O final da manifesta\u00e7\u00e3o da noite de quinta-feira (19\/5) foi tenso. Por\u00e9m, n\u00e3o me resta outra alternativa a n\u00e3o ser elogiar a atitude do tenente-coronel M\u00e1rio Ikeda, comandante do Comando de Policiamento da Capital. 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