{"id":33968,"date":"2016-06-02T21:03:26","date_gmt":"2016-06-03T00:03:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=33968"},"modified":"2016-06-02T21:03:26","modified_gmt":"2016-06-03T00:03:26","slug":"amigos-lembram-dodora-guerrilheira-que-se-suicidou-em-berlim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/amigos-lembram-dodora-guerrilheira-que-se-suicidou-em-berlim\/","title":{"rendered":"Amigos lembram Dodora, que a tortura levou ao suic\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p>Nesta quarta-feira, 1\u00b0 de junho, ocorreu um modesto ritual em Berlim em mem\u00f3ria de Maria Auxiliadora Lara Barcelos (1945-1976), que tomou a pr\u00f3pria vida naquela cidade a 1\u00b0 de junho de 1976.<br \/>\nIntegrante da VAR-Palmares, conhecida como Dora ou Dodora, ela foi \u00a0presa em novembro de 1969. Foi brutalmente torturada, at\u00e9 ser libertada entre os 70 presos pol\u00edticos trocados pelo Embaixador da Su\u00ed\u00e7a no Brasil, Giovanni Bucher, em 1971.<br \/>\nDepois de exilar-se no\u00a0Chile, seguiu por alguns pa\u00edses ap\u00f3s a queda de Allende, fixando resid\u00eancia em Berlim Ocidental em 1974.<br \/>\nSem passaporte, com dificuldades de conseguir o asilo no pa\u00eds, marcada pela tortura, Dora Lara Barcelos jogou-se diante de um trem na esta\u00e7\u00e3o de Charlottenburg naquele 1\u00b0 de junho de 1976.<br \/>\nA cerim\u00f4nia ser\u00e1 na esta\u00e7\u00e3o de Charlottenburg, \u00e0s 19h30, com flores e leitura de poemas de Hilda Hilst, Ingeborg Bachmann e Wislawa Szymborska.<br \/>\nDepois, do breve ato foi apresentado o document\u00e1rio \u201cBrazil: A Report on Torture\u201d, filmado no Chile em 1971 e ao qual Dora deu depoimentos.\u00a0(Ricardo Domeneck)<br \/>\nSobre o document\u00e1rio, em que Dora d\u00e1 seu testemunho sobre os horrores que viveu , o jornalista Paulo Nogueira escreveu, \u00a0em mar\u00e7o de 2014, o seguinte coment\u00e1rio:<br \/>\n<em>&#8220;Vejo um <a href=\"http:\/\/youtu.be\/xEA9ES3hUD4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">document\u00e1rio <\/a>sobre tortura na ditadura militar, e me chama a aten\u00e7\u00e3o uma mulher.<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 um trabalho r\u00fastico, uma c\u00e2mara e depoimentos. E \u00e9 sublime como retrato de uma \u00e9poca sinistra.<\/em><br \/>\n<em>O document\u00e1rio foi gravado em 1971, no Chile. Os autores foram dois cineastas americanos \u2013 Haskell Wexler e Saul Landau \u2014 que estavam no Chile para entrevistar Allende.<\/em><br \/>\n<em>Eles souberam que havia um grupo de exilados brasileiros com hist\u00f3rias de tortura e decidiram registr\u00e1-las com sua c\u00e2mara. O grupo tinha sido trocado pelo embaixador da Su\u00ed\u00e7a no Brasil.<\/em><br \/>\n<em>Surgiria, como que por acaso, \u201cBrasil, um relato da tortura\u201d, um pequeno grande \u00e9pico do cinema que n\u00e3o se curva aos poderosos. Eram talentosos os americanos. Haskell posteriormente receberia dois Oscars por trabalhos na \u00e1rea de fotografia de grandes produ\u00e7\u00f5es de Hollywood.<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 uma mulher que me fisga no filme, uma jovem m\u00e9dica que narra as barbaridades que ela e os companheiros sofreram nas m\u00e3os dos agentes da ditadura.<\/em><br \/>\n<em>Ela \u00e9 bonita, articulada, e pesquisando vejo que fascinou tamb\u00e9m os documentaristas americanos.<\/em><br \/>\n<em>Ela tinha 25 anos na ocasi\u00e3o, e riu ao lembrar as torturas, que narrou meticulosamente. Parecia invenc\u00edvel diante das viol\u00eancias.<\/em><br \/>\n<em>\u201cFui colocada nua numa sala com cerca de 15 homens\u201d, disse ela. \u201cFui espancada e esbofeteada.\u201d<\/em><br \/>\n<em>Seu rosto bonito ficou, contou ela, completamente deformado, conforme queriam os algozes.<\/em><br \/>\n<em>Durante a sess\u00e3o puseram num volume ensurdecedor \u201cm\u00fasica de macumba\u201d, e ela lembrou que os torturadores pareciam \u201cexcitados, felizes\u201d como se estivessem numa festa.<\/em><br \/>\n<em>A certa altura, a agarraram pelos seios e puseram uma tesoura em seu mamilo. Pressionavam e soltavam, e amea\u00e7avam extirp\u00e1-lo. Tamb\u00e9m diziam que iriam mat\u00e1-la.<\/em><br \/>\n<em>Uma das for\u00e7as do v\u00eddeo \u00e9 que os entrevistados mostram como eram as torturas, como o pau de arara.\u00a0S\u00e3o reprodu\u00e7\u00f5es realistas e assustadoras.<\/em><br \/>\n<em>Comecei a ver, por sugest\u00e3o de minha filha Camila, e n\u00e3o consegui parar em quase 1 hora de conte\u00fado extraordin\u00e1rio. Fiquei perturbado como h\u00e1 muito tempo n\u00e3o ficava.<\/em><br \/>\n<em>E depois quis saber mais das pessoas. Particularmente dela: passados mais de quarenta anos, que estaria fazendo?<\/em><br \/>\n<em>E ent\u00e3o vem a parte triste. Como escreveu Machado de Assis em Dom Casmurro quando as coisas degringolam, pare aqui quem n\u00e3o quer ver hist\u00f3ria triste.<\/em><br \/>\n<em>Maria Auxiliadora Lara Barcelos, este o nome daquela guerreira que comoveu aos cineastas e a mim. Dora ou Dodora, como a chamavam.<\/em><br \/>\n<em>Ela n\u00e3o viveu para ver o fim do horror militar.<\/em><br \/>\n<em>Pouco tempo depois, como Ana Karenina, se jogou sob as rodas de um trem. Ela estava com problemas psiqui\u00e1tricos derivados da selvageria a que foi submetida, e tinha acabado de se consultar com seu m\u00e9dico.<\/em><br \/>\n<em>Morava, ent\u00e3o, em Berlim.<\/em><br \/>\n<em>Dois anos depois de feito o document\u00e1rio, Pinochet tomou o poder no Chile, e Dora teve que partir de novo.<\/em><br \/>\n<em>Primeiro foi para a B\u00e9lgica, e depois para a Alemanha Ocidental. Era brilhante: passou em primeiro lugar entre 600 estrangeiros e conseguiu aprova\u00e7\u00e3o para complementar seus estudos de medicina na Universidade de Berlim.<\/em><br \/>\n<em>Fiquei triste, quase enlutado, ao saber do que ocorreu com ela. J\u00e1 imaginava entrevist\u00e1-la, e especulava sobre como ela estaria hoje. Conservaria vest\u00edgios da beleza sobranceira e altiva do passado?<\/em><br \/>\n<em>Num voo mental, penso que se ela tivesse nascido na Escandin\u00e1via, hoje seria uma av\u00f3, cheia de hist\u00f3rias para contar aos netinhos. Fantasio-a de bicicleta em Copenhague, feliz entre pessoas que s\u00e3o felizes porque aquela \u00e9 uma sociedade como prescreveu Rousseau: sem extremos de opul\u00eancia e de mis\u00e9ria.<\/em><br \/>\n<em>Mas ela nasceu e cresceu na terra da iniquidade, que combateu com coragem assombrosa e idealismo inexpugn\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 em sua fala vest\u00edgio de remorso por ter caminhado o caminho que escolheu.<\/em><br \/>\n<em>E ent\u00e3o estou de novo nos dias de hoje.<\/em><br \/>\n<em>Ver aqueles relatos me faz desejar que seja preso imediatamente o general insolente que tem abertamente pregado um novo golpe. Mais Dodoras? Jamais. Que minha Camila seja poupada do pesadelo em que viveu Dodora sob as botas covardes e assassinas de uma ditadura que protegeu apenas os ricos.<\/em><br \/>\n<em>Em Laura, o detetive se apaixona pela foto de uma mulher assassinada. Como que me apaixonei por Dora ao v\u00ea-la no document\u00e1rio.<\/em><br \/>\n<em>Fico tolamente satisfeito quando Camila me conta que, pesquisando, descobriu que Dilma prestara tributo \u00e0quela brasileira indom\u00e1vel.<\/em><br \/>\n<em>Em fevereiro de 2010, quando o PT confirmou a candidatura de Dilma para a presid\u00eancia da rep\u00fablica, Dilma disse em seu discurso: \u201cN\u00e3o posso deixar de ter uma lembran\u00e7a especial para aqueles que n\u00e3o mais est\u00e3o conosco. Para aqueles que ca\u00edram pelos nossos ideais. Eles fazem parte de minha hist\u00f3ria. Mais que isso, eles fazem parte da hist\u00f3ria do Brasil.\u201d<\/em><br \/>\n<em>Dilma citou tr\u00eas pessoas. Uma delas era Dodora: \u201cDodora, voc\u00ea est\u00e1 aqui no meu cora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><br \/>\n<em>E no meu tamb\u00e9m, desde hoje&#8221;.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta quarta-feira, 1\u00b0 de junho, ocorreu um modesto ritual em Berlim em mem\u00f3ria de Maria Auxiliadora Lara Barcelos (1945-1976), que tomou a pr\u00f3pria vida naquela cidade a 1\u00b0 de junho de 1976. Integrante da VAR-Palmares, conhecida como Dora ou Dodora, ela foi \u00a0presa em novembro de 1969. 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