{"id":34955,"date":"2016-06-16T13:31:49","date_gmt":"2016-06-16T16:31:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=34955"},"modified":"2016-06-16T13:31:49","modified_gmt":"2016-06-16T16:31:49","slug":"da-ocupacao-ao-presidio-central-o-relato-do-reporter","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/da-ocupacao-ao-presidio-central-o-relato-do-reporter\/","title":{"rendered":"Da ocupa\u00e7\u00e3o ao Pres\u00eddio Central: o relato do rep\u00f3rter"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">MATHEUS CHAPARINI<\/span><br \/>\n\u00c9 uma esp\u00e9cie de caixote de lata, todo pintado de preto pelo lado de dentro. Num dos lados, um banco, do outro, uma barra para prender algemas. Cabem ali duas pessoas, talvez tr\u00eas. Mas quando fui enca\u00e7apado na parte traseira do cambur\u00e3o da Pol\u00edcia Civil, j\u00e1 eramos quarto.<br \/>\nAssim que a porta fecha, o ar fica escasso e quando a viatura anda, cai a total escurid\u00e3o sobre os detidos. Ao todo, \u00e9ramos dez, em tr\u00eas espa\u00e7os do mesmo ve\u00edculo.<br \/>\nDa Secretaria da Fazenda, no centro de Porto Alegre, fomos para a Delegacia da Crian\u00e7a e do Adolescente (DECA), onde ficaram os menores de idade. Dali, seguimos para a 3\u00aa Delegacia de Pol\u00edcia de Pronto Atendimento, onde me identifiquei como jornalista e informei meu ve\u00edculo. Em seguida fomos novamente embarcados.<br \/>\nAp\u00f3s uma parada de meia hora no pres\u00eddio feminino Madre Pelletier para deixar as tr\u00eas jovens presas, seguimos para o Pres\u00eddio Central, o lar gelado que nos aguardava no final de uma longa quarta-feira.<br \/>\nNa chegada, o clima \u00e9 de press\u00e3o psicol\u00f3gica, como imagin\u00e1vamos n\u00f3s, os presos, quase todos em sua primeira visita a uma cadeia. Bra\u00e7os cruzados na altura do peito e cara na parede \u00e9 o procedimento padr\u00e3o.<br \/>\nEnquanto isso, soam ao fundo algumas piadas homof\u00f3bicas, coment\u00e1rios sobre uma briga violenta que estaria ocorrendo no pres\u00eddio, o que n\u00e3o se confirmou, e o torturante ru\u00eddo de um faca sendo raspada na parede por um brigadiano, como se a afiasse para alguma tarefa vindoura.<br \/>\nFomos os sete identificados, revistados nus e encaminhados a uma cela do Jumbo, como os presos chamam o setor de triagem do Central, a \u201crecep\u00e7\u00e3o do casar\u00e3o\u201d.<br \/>\nNossa presen\u00e7a gerou um alvoro\u00e7o entre os vizinhos da cela ao lado, mas o policial que nos conduzia esclareceu: \u201cN\u00e3o \u00e9 duque!\u201d<br \/>\nDuque treze \u00e9 como s\u00e3o chamados os estupradores dentro do sistema carcer\u00e1rio. Estes presos costumam ficar separados dos demais. Havia dois &#8220;duques&#8221; na cela que nos aguardava, um espa\u00e7o muito frio, de 3m X 4m, incluindo banheiro e um cheiro constante de merda e mijo.<br \/>\nFomos presos pela Brigada Militar durante a ocupa\u00e7\u00e3o da Secretaria da Fazenda por estudantes. O movimento queria uma reuni\u00e3o com o governador Jos\u00e9 Ivo Sartori, que, na v\u00e9spera, havia fechado acordo de desocupa\u00e7\u00e3o das escolas com um dos movimentos, integrado pela UBES (Uni\u00e3o Brasileira dos Estudantes Secundaristas) e pelo &#8220;Juntos&#8221;.<br \/>\nO Comit\u00ea das Escolas Independentes (CEI) n\u00e3o reconhece o acordo. \u201cFoi mais uma rasteira da UBES\u201d, afirmou um rapaz, \u201cn\u00e3o nos representa\u201d, definiu uma mo\u00e7a.<br \/>\nA inten\u00e7\u00e3o do grupo era conseguir uma reuni\u00e3o para negociar com o chefe do executivo. A inten\u00e7\u00e3o deste rep\u00f3rter que vos escreve era apenas noticiar este acontecimento.<br \/>\nO saldo foi a pris\u00e3o de mais de 40 pessoas, a maioria menores de idade, quase todos estudantes, al\u00e9m deste rep\u00f3rter e do cineasta Kevin Darc, que prepara um filme sobre as ocupa\u00e7\u00f5es escolares Brasil afora.<br \/>\nA ocupa\u00e7\u00e3o foi decidida em reuni\u00e3o no in\u00edcio da manh\u00e3 no Col\u00e9gio Estadual J\u00falio de Castilhos.Os estudantes ocuparam o pr\u00e9dio em torno das 8h.<br \/>\n\u00c0s 9h chegou ao pr\u00e9dio o secret\u00e1rio adjunto da Fazenda, Luiz Antonio Bins. Vinte minutos depois, o secret\u00e1rio entrou no pr\u00e9dio acompanhado pelo comandante do policiamento da capital, M\u00e1rio Ikeda, para uma reuni\u00e3o.<br \/>\nA reuni\u00e3o aconteceu na parte do pr\u00e9dio voltada para a rua Siqueira Campos. Apesar de os estudantes ocuparem somente a parte da Mau\u00e1, as duas entradas estavam fechadas. Conversei pela janela com uma funcion\u00e1ria terceirizada, que trabalha na faxina.<br \/>\nEla contou que trabalha das 6h40 at\u00e9 as 16h50, tem 4 filhos estudando em escola estadual em Viam\u00e3o. Ela considera que o ensino estadual est\u00e1 \u201cp\u00e9ssimo\u201d, mas n\u00e3o tem posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nRapidamente chega o Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais da Brigada Militar. Inicialmente eram oito viaturas e cerca vinte homens, v\u00e1rios mascarados e sem identifica\u00e7\u00e3o na farda. Os agentes isolaram uma larga \u00e1rea ao lado do edif\u00edcio, onde \u00a0comandante do 9\u00ba BPM, tenente-coronel Marcus Vinicius Oliveira. falou com a imprensa.<br \/>\nAo fim das perguntas dos jornalistas, um estudante ponderou: \u201cN\u00e3o podemos esquecer que s\u00e3o menores de idade, n\u00e9?\u201d, ao que o comandante respondeu: \u201cS\u00f3 sei que s\u00e3o invasores\u201d, e um mascarado exaltado encerrou o assunto: \u201cEu sei que s\u00e3o menores, ningu\u00e9m aqui \u00e9 retardado!\u201d<br \/>\n\u00c0s 10h20, os estudantes pintavam uma faixa com o texto \u201cSem viol\u00eancia, lutamos pela educa\u00e7\u00e3o\u201d, quando escutaram apitos e tambores se aproximando da entrada da avenida Mau\u00e1. Eram estudantes, professores e militantes que vieram prestar apoio \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o. \u201cO meu! Os nossos professores s\u00e3o muito foda, eles est\u00e3o trancando a Mau\u00e1 por n\u00f3s\u201d, exclamou uma menina&#8221;.<br \/>\nAt\u00e9 a\u00ed, tudo transcorria relativamente bem, apesar da presen\u00e7a cada vez maior do choque. Neste momento, j\u00e1 havia mais policiais do que estudantes.<br \/>\n\u00c0s 10h25, os estudantes se reuniram com o tenente-coronel M\u00e1rio Ikeda. O di\u00e1logo foi rapido e os estudantes ganharam um prazo de dez minutos para desocuparem o local. E foi a\u00ed que come\u00e7ou o problema.<br \/>\nOs estudantes decidiram ficar no pr\u00e9dio. Eles questionavam a falta de uma reintegra\u00e7\u00e3o de posse e exigiam a presen\u00e7a de advogados e do Conselho Tutelar no local, o que s\u00f3 foi permitido depois de iniciada a a\u00e7\u00e3o da Brigada Militar. Os jovens sentaram no ch\u00e3o e se deram as m\u00e3os, como forma de defesa.<br \/>\nOs brigadianos arrancaram um por um os estudantes, carregados pelas pernas, bra\u00e7os ou pela roupa. O spray de pimenta tomou o ar no sagu\u00e3o da Secretaria da Fazenda. A cada investida da tropa, os gritos de desespero das meninas e meninos se faziam ouvir. O capit\u00e3o Trajano, que orientava a remo\u00e7\u00e3o dos ocupantes, chegou a esgotar um tubo inteiro, direcionado para o rosto dos estudantes, e solicitou mais um.<br \/>\nOs policiais estavam bastante exaltados e o capit\u00e3o precisou conter seus homens pelo menos duas vezes.<br \/>\nOs relatos de agress\u00f5es s\u00e3o diversos. Al\u00e9m de lan\u00e7ar o spray diretamente no rosto dos adolescentes, uma menina teve o p\u00e9 pisado por um policial, um rapaz relata que levou dois socos na cabe\u00e7a e outro disse que foi arrastado na escadaria de sa\u00edda do pr\u00e9dio. H\u00e1 um caso mais grave, de uma mo\u00e7a que relata que um grande hematoma no seu peito foi ignorado no exame de corpo de delito. Outro problema era a aus\u00eancia de uma mulher para a realiza\u00e7\u00e3o dos exames.<br \/>\nPermaneci na secretaria at\u00e9 a retirada do \u00faltimo estudante, quando decidimos, eu e o cineasta Kevin Darc, sair do pr\u00e9dio e acompanhar o movimento do lado de fora. Neste momento, tamb\u00e9m fomos presos. Nos identificamos como profissionais de imprensa e a resposta do capit\u00e3o foi: \u201cPra mim tu t\u00e1 junto.\u201d<br \/>\nNa sa\u00edda, um homem vestido \u00e0 paisana e com o rosto escondido por uma toca ninja semelhante \u00e0 dos policiais arrancou o celular da minha m\u00e3o. Ali estavam todas as fotos e v\u00eddeos que eu havia feito durante a cobertura, al\u00e9m de informa\u00e7\u00f5es pessoais e profissionais.<br \/>\nInsisti em reaver meu telefone, enquanto brigadianos tentavam me empurrar para fora do pr\u00e9dio. Consegui pegar o aparelho, mas n\u00e3o evitar a pris\u00e3o.<br \/>\nAo meio dia teve in\u00edcio uma peregrina\u00e7\u00e3o que foi at\u00e9 a sede do Deca (Departamento Estadual da Crian\u00e7a e do Adolescente), 3\u00aa DPPA, no bairro Navegantes, \u00a0depois Pal\u00e1cio da Pol\u00edcia, 3\u00aa DPPA novamente, Madre Pelletier e, por fim, Pres\u00eddio Central.<br \/>\nOs maiores de idade foram conduzidos algemados at\u00e9 a cadeia, de onde s\u00f3 puderam sair em torno das 2h da madrugada. Mas o caso n\u00e3o acaba a\u00ed.<br \/>\nOs presos, incluindo este rep\u00f3rter, receberam liberdade provis\u00f3ria e v\u00e3o responder a processo por dano qualificado em patrim\u00f4nio p\u00fablico, associa\u00e7\u00e3o criminosa e esbulho possess\u00f3rio. Os maiores de idade responder\u00e3o ainda por corrup\u00e7\u00e3o de menores. \u00c9 o caso deste rep\u00f3rter, preso durante o exerc\u00edcio profissional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MATHEUS CHAPARINI \u00c9 uma esp\u00e9cie de caixote de lata, todo pintado de preto pelo lado de dentro. Num dos lados, um banco, do outro, uma barra para prender algemas. Cabem ali duas pessoas, talvez tr\u00eas. Mas quando fui enca\u00e7apado na parte traseira do cambur\u00e3o da Pol\u00edcia Civil, j\u00e1 eramos quarto. 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