{"id":35454,"date":"2016-06-25T02:13:51","date_gmt":"2016-06-25T05:13:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=35454"},"modified":"2016-06-25T02:13:51","modified_gmt":"2016-06-25T05:13:51","slug":"marketing-o-deus-da-cara-de-pau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/marketing-o-deus-da-cara-de-pau\/","title":{"rendered":"Marketing, o Deus da cara de pau"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Cl\u00e1udia Rodrigues<\/span><br \/>\nEssa semana tr\u00eas not\u00edcias dadas pela m\u00eddia convencional celebraram a total falta de no\u00e7\u00e3o \u00e9tica e social do setor de marketing de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas.<br \/>\nPrimeiro foi o governo do Rio Grande do Sul que organizou exposi\u00e7\u00e3o de roupas usadas em local privado, shoppings, para campanha do agasalho, expondo vestu\u00e1rio de inverno doado por personalidades ga\u00fachas. \u00c9 isso mesmo, 12 pe\u00e7as pregadas em estandes com o hist\u00f3rico sentimental da roupa. Deve ser o que consideram PPP, participa\u00e7\u00e3o p\u00fablico privada. O slogan seria: \u201cRicos, comovam-se com a hist\u00f3ria sentimental de uma roupa\u201d<br \/>\nCoca-cola, Pepsi e AMBEV exibiram nos jornais o press release de bom mocismo barato sobre o relacionamento alimentar abusivo que mant\u00eam com crian\u00e7as e adolescentes desde a d\u00e9cada de 1960. Para quem n\u00e3o sabe a comida industrializada \u00e9 a principal\u00a0 respons\u00e1vel por problemas end\u00f3crinos, respirat\u00f3rios, al\u00e9rgicos e cardiol\u00f3gicos de crian\u00e7as e adolescentes do pa\u00eds. O fen\u00f4meno atinge todas as classes sociais.<br \/>\nAs empresas aproveitam o ensejo para anunciar que seu relacionamento abusivo com crian\u00e7as e adolescentes continuar\u00e1 firme, mas agora, garantem, est\u00e3o preocupadas com a sa\u00fade.<br \/>\nOs pequenos at\u00e9 12 anos poder\u00e3o tomar achocolatados repletos de a\u00e7\u00facar, carboidratos, gorduras e \u00ednfima por\u00e7\u00e3o de cacau. Ou aqueles sucos 100% fruta fermentada e fervida at\u00e9 morrer, tamb\u00e9m com muito a\u00e7\u00facar. Tudo com corante, acidulante, espessantes.<br \/>\nQuem acha essa comida pr\u00e1tica e f\u00e1cil de comprar, consumir e descartar as embalagens, beleza. \u00c9 s\u00f3 achar bacana o descarte de refrigerantes para os estudantes de at\u00e9 12 anos.<br \/>\nA partir dos 12 pode tudo e at\u00e9 os 12, tudo menos refrigerantes.<br \/>\nO que mudou?<br \/>\nNada, a n\u00e3o ser a ideia de que a Coca Cola, Pepsi e\u00a0 Ambev est\u00e3o preocupadas com a sa\u00fade infanto-juvenil e trabalhando nisso com afinco.<br \/>\nO Conselho Federal de Medicina exibiu-se no notici\u00e1rio acatando a lei contra a qual vinha brigando: cirurgia cesariana a pedido da gestante somente ap\u00f3s 39 semanas, a fim de baixar os n\u00edveis alarmantes de prematuridade de beb\u00eas no Brasil.<br \/>\nSe a cesariana eletiva fosse o \u00fanico problema \u00e9tico e pr\u00e1tico da obstetr\u00edcia, seria uma boa not\u00edcia. Assim como o Brasil serviu de plataforma para a industrializa\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o, promovida por nossas rela\u00e7\u00f5es internacionais, especialmente com os norte-americanos, serviu \u00e0 ind\u00fastria da cesariana. N\u00e3o haveria problema algum se a\u00e7\u00f5es e argumentos usados fossem de natureza cient\u00edfica, fisiol\u00f3gica, biol\u00f3gica, psicol\u00f3gica, social, pol\u00edtica, hist\u00f3rica e econ\u00f4mica, nessa ordem.<br \/>\nInfelizmente o que temos s\u00e3o argumentos baseados exclusivamente em mercado, consumo e marketing. N\u00e3o em primeiro lugar, mas onipotente. Onipresente sobre toda e qualquer considera\u00e7\u00e3o de problemas e estudos humanos, sob bases exclusivamente econ\u00f4micas de explora\u00e7\u00e3o, mais-valia e com argumentos baseados em cren\u00e7as para justificar implanta\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos abusivos, desnecess\u00e1rios e iatrog\u00eanicos.<br \/>\nCurioso que essas not\u00edcias sejam dadas assim pelo lado curinga da for\u00e7a. Quem trabalha com pesquisas sobre os preju\u00edzos da alimenta\u00e7\u00e3o industrial, por exemplo, n\u00e3o foi ouvido. Quem trabalha com alimenta\u00e7\u00e3o limpa, sem veneno e org\u00e2nica, ficou fora da pauta, alheio ao mercado.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-35457 \" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Labncheira_saud\u00e1vel.jpg\" alt=\"Labncheira_saud\u00e1vel\" width=\"363\" height=\"231\" \/>Alimentar bem crian\u00e7as em escolas p\u00fablicas e privadas deveria ser algo levado de maneira s\u00e9ria, em prol da sa\u00fade e do desenvolvimento, ou seja, educa\u00e7\u00e3o alimentar. Governos e escolas que se preocupassem com educa\u00e7\u00e3o sobre sa\u00fade procurariam manter rela\u00e7\u00f5es melhores e mais estreitas com produtores locais de comida limpa, org\u00e2nica, sem venenos, com fruticultores, apicultores, gente brasileira que vive da terra, investindo em mercado interno e fortalecimento da economia por meio de rela\u00e7\u00e3o direta entre gestores de educa\u00e7\u00e3o e produtores de comida saud\u00e1vel e fresca.<br \/>\nA Zero Hora conseguiu entrevistar uma nutricionista que trabalha para duas escolas privadas. A profissional est\u00e1 revoltada com a proibi\u00e7\u00e3o da venda de refrigerantes para estudantes de menos de 12 anos. \u201cPara a especialista em nutri\u00e7\u00e3o infantil Magali Martins, que trabalha com cantinas de duas escolas particulares de Porto Alegre, parar de vender esse tipo de bebida nas escolas n\u00e3o deve mitigar o desejo de consumo. Sou contra a proibi\u00e7\u00e3o, porque acho que tudo o que \u00e9 proibido se trona desej\u00e1vel. As crian\u00e7as n\u00e3o v\u00e3o comprar na escola, mas v\u00e3o levar de casa, ou pior, sair da escola para comprar. O pai que d\u00e1 refrigerante para o filho n\u00e3o vai deixar de dar \u2013 avaliou.\u201d<br \/>\nCada escola tem apenas uma cantina, assim que os refrigerantes estar\u00e3o l\u00e1, expostos. O que muda de fato?<br \/>\nNada, a n\u00e3o ser a falsa pol\u00eamica criada pela Zero Hora ao colocar a fala de uma entrevistada que vai contra toda e qualquer pesquisa sobre alimenta\u00e7\u00e3o infantil saud\u00e1vel. Especialista de mercado, para o mercado e pelo mercado, tipo opini\u00e3o de b\u00eabado em final de festa, temos.<br \/>\nO Conselho Federal de Medicina, em vez de assumir que emba\u00e7a h\u00e1 anos para respeitar o tempo de gesta\u00e7\u00e3o natural, que pode passar das 40 semanas, segura a bola nas 39 semanas, mas somente para situa\u00e7\u00f5es em que a gestante pede a cirurgia. Obstetras continuam livres para mentir sobre ser cord\u00e3o enrolado indica\u00e7\u00e3o para cesariana, assim como press\u00e3o alta, diabetes ou a famosa \u201caus\u00eancia de dilata\u00e7\u00e3o\u201d, que na maioria dos casos \u00e9 apenas dilata\u00e7\u00e3o lenta e progressiva, absolutamente fisiol\u00f3gica. Continuar\u00e3o os obstetras fazendo episiotomias, kristeller e outras manobras condenadas pela OMS.<br \/>\nO que muda de fato?<br \/>\nNada, a n\u00e3o ser o falso cartaz de que o Conselho Federal de Medicina est\u00e1 atuante por menores \u00edndices de nascimentos prematuros, quando o fato \u00e9 que vinha lutando contra e conseguiu no tapet\u00e3o uma brecha para algo aviltante que mantinha como rotina.<br \/>\nO governo\u00a0 do Rio Grande do Sul em vez de investir em rela\u00e7\u00e3o direta com associa\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e de bairros, fornecendo carros para buscar roupas ou organizando brech\u00f3s solid\u00e1rios em pra\u00e7as e parques, por exemplo, se d\u00e1 ao luxo de promover uma exposi\u00e7\u00e3o chique com roupas usadas em shopping!<br \/>\nEra isso, tr\u00eas exemplos de opera\u00e7\u00f5es de marketing, de verniz sobre coisas muito mais amplas que j\u00e1 contam com comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e l\u00f3gica. Fica assim um sabor no ar de viva a Coca-Cola e nossa cerveja de milho transg\u00eanico, viva as gestantes que poderiam passar de 40 semanas, mas agora s\u00e3o levadas a entender que seus beb\u00eas de 39 precisam nascer porque depois de 39 pode, \u00e9 seguro. Viva as celebridades e suas lindas rela\u00e7\u00f5es sentimentais com o vestu\u00e1rio.<br \/>\nO que mudou de fato?<br \/>\nA cara de pau do marketing, cada vez mais encerada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cl\u00e1udia Rodrigues Essa semana tr\u00eas not\u00edcias dadas pela m\u00eddia convencional celebraram a total falta de no\u00e7\u00e3o \u00e9tica e social do setor de marketing de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas. 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H\u00e1 duas d\u00e9cadas, pelo menos, est\u00e1 abandonado, porque seu propriet\u00e1rio, o governo do Estado do Rio Grande do Sul, n\u00e3o consegue achar um destino para ele. Planos n\u00e3o faltaram. 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